O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

1. É difícil encontrar um fio condutor para explicar os acontecimentos.

 

O desenvolvimento não garante a segurança nem, por si só, oferece a felicidade.

 

As sociedades mais avançadas têm os seus dramas e não estão isentas de alojar pessoas e organizações com propósitos cruéis.

 

Os próprios estudiosos têm dificuldade em descrever o nosso tempo.

 

Vergílio Ferreira anotava que a história é feita de intervalos. Para Marc Augé, que criou o termo sobremodernidade, «não sabemos em que história estamos».

 

Alvin Toffler limitava-se a verificar que «somos a última geração de uma civilização velha e a primeira geração de uma civilização nova».

 

 

2. Sucede que a moldura deste novo mundo é muito híbrida, por vezes parece indefinida.

 

O local onde tudo se definia (o campo) está praticamente deserto. Onde mais nos encontramos são os lugares de passagem. É o caso dos hipermercados ou dos aeroportos.

 

Marc Augé caracteriza estes espaços como não-lugares. Neles, há multidões, mas não se chegam a estabelecer relações. Neles, somos capazes de reter caras, mas não de colher grandes impressões.

 

Os não-lugares não favorecem a permanência. Promovem a circulação e estimulam o consumo.

 

As pessoas procuram ter uma casa, mas passam pouco tempo nela. No tempo laboral, deslocam-se para o trabalho. Na época de férias, retiram-se para longe.

 

 

3. O próprio modo de vestir torna-se cada vez mais incaracterístico. Só em desfiles etnográficos se afere a proveniência, a identidade.

 

 A tendência é para estar em todos os lugares como se estivéssemos em lugar nenhum. Limitamo-nos a ser «turistas consumidores», como diagnostica Zygmunt Baumann.

 

Um exemplo: ao chegar a uma igreja, não se esboça um gesto de religiosidade; a primeira coisa que se faz é olhar para os vitrais, para o tecto e fazer umas fotos.

 

Para muitos, até os templos deixaram de ser locais de peregrinação. Tornaram-se meros locais turísticos.

 

As pessoas vivem nas cidades, mas os comportamentos são cada vez menos cívicos, cada vez menos urbanos.

 

Hoje, permanecemos cada vez menos e circulamos cada vez mais.

 

É tudo muito intenso em cada momento. A dimensão de futuro está a esbater-se. A utopia parece esgotar-se. Daí que os economistas e os gestores quase abafem os escritores.

 

Como falar do futuro se o presente nos traz tão constrangidos?

 

 

4. A democracia vai-se generalizando, mas, no fundo e como adverte Marc Augé, a sua configuração assemelha-se «a uma oligarquia planetária».

 

São poucos os que decidem o destino de (quase) todos.

 

Já nem os relacionamentos entre as pessoas são sólidos. São até cada vez mais líquidos. Este é, segundo Zygmunt Bauman, o tempo da «modernidade líquida».

 

Ao contrário dos corpos sólidos, «os líquidos não podem conservar a sua forma, quando pressionados por uma força exterior, por mínima que seja. Os laços entre as suas partículas são demasiado fracos para resistir. Ora, este é precisamente o traço mais marcante do tipo de coabitação humana característico da 'modernidade líquida'».

 

 

5. O diagnóstico é de uma clareza diáfana. Será que há coragem para adoptar a necessária terapia?

 

Não há decretos que valham. Só uma revolução no interior pode tornar tudo diferente, tudo melhor, tudo mais humano, mais fraterno, mais respirável.

publicado por Theosfera às 21:34

Atesta José Rodrigues dos Santos que Maria não foi virgem e que teve mais filhos.

 

A tese não é nova e a resposta também é antiga.

 

Quando anuncia a vinda do Messias, Isaías (7, 14) usa a palavra hebraica «almah». Etimologicamente significa «jovem». É claro que «jovem» não é necessariamente o mesmo que «virgem».

 

Acontece que a tradição judaica mais erudita sempre entendeu «almah» no sentido de «virgem».

 

Por isso, os tradutores da Bíblia para o grego, no século III a.C., usaram o termo «parthénos» (virgem) para traduzir «almah».

 

S. Mateus (1, 23) utilizou a profecia de Isaías na sua forma grega: «parthénos».

 

Quanto aos «irmãos» de Jesus, é preciso ter presente que quer o hebraico «ah», quer o grego «adélphos» incluem não apenas os filhos do mesmo pai e da mesma mãe, mas também os primos, os tios, etc.

 

É possível ser mãe e ser virgem? Segundo a fé, é possível. De que modo? Não sabemos.

 

Acontece que uma das formas de saber que a razão nos oferece é, desde logo, o não saber.

 

Ninguém chega a saber alguma coisa se não começar por saber que não sabe.

 

As perguntas pertencem à razão. Mas há respostas que pertencerão sempre ao mistério.

 

É por isso que a fé não é racional, mas razoável. A razão não a explica, mas admite-a.

 

Isto não deslustra a razão nem apouca a fé. Como notava Pascal, «é um acto de razão reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam»!
 

Mas também se não fosse assim, teria o profeta Isaías (7, 14) necessidade de falar de «sinal»?

 

Uma jovem dar à luz é a coisa mais normal. Já dar à luz e ser virgem sai totalmente fora da normalidade.

 

Mas, como tudo, a fé é uma proposta livre para uma resposta livre.

 

É um acontecimento da liberdade. Só na liberdade há condições para acreditar. Só crê quem quer.

 

publicado por Theosfera às 14:00

«Peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

 

É este o lema do encontro entre religiões que, neste momento, decorre em Assis.

 

Trata-se, sem dúvida, da (dupla) questão decisiva.

 

Habitualmente, dizemos que só na verdade encontramos a paz.

 

Importa não esquecer que é apenas na paz que estamos em condições de encontrar a verdade!

publicado por Theosfera às 13:49

José Rodrigues dos Santos enfatiza o facto de Jesus não ter sido cristão.

 

Mas isso toda a gente sabe.

 

«Cristão» é a denominação que se dá não a Cristo, mas ao seguidor de Cristo.

 

A Igreja, no fundo, constitui a passagem do «Jesus pregador» ao «Cristo pregado».

 

Não há contradição entre os conteúdos das respectivas missões.

 

Jesus fala do Reino de Deus. A Igreja, ao falar de Jesus, fala do mesmo, ou seja, da realização desse Reino na Sua pessoa, na Sua acção, na Sua vida, na Sua morte e na Sua ressurreição.

publicado por Theosfera às 11:00

Sem menoscabo pelo seu trabalho, confesso que o livro de José Rodrigues dos Santos não me suscita grande curiosidade como teólogo nem me provoca qualquer preocupação como crente.

 

Até considero positivo este debate que se acendeu, quase de repente, na sociedade portuguesa. Trata-se do sinal de que, no fundo, a figura de Jesus não tem sido muito estudada.

 

José Rodrigues dos Santos dá mais credibilidade à críticas das fontes do que às fontes.

 

Nós, apesar da atenção devida a esta crítica, continuamos a ser fiéis ao conteúdo das fontes.

 

A profecia de Simeão continua válida. Jesus é sempre um sinal de contradição (cf. Lc 2, 34).

publicado por Theosfera às 10:38

1. A verdade, ao contrário do que dizem, não é filha do tempo. Cada tempo só nos oferece parcelas, vislumbres, aproximações.

 

A verdade é filha da eternidade. Apenas nela podemos contemplá-la na sua totalidade e na sua profundeza.

 

Por enquanto, o nosso convívio com a verdade é feito de clareiras e de obscuridades, de dialécticas e tensões.

 

A verdade transcende sempre qualquer discurso acerca dela. Por cada verdade, não falta quem proponha uma verdade diferente.

 

Cada palavra é parcial e nem todas as palavras chegam para dizer a totalidade do real. Como observou Herman Hesse, «tudo o que pode ser dito com palavras é parcial».

 

Filha do tempo (e particularmente deste tempo) parece ser a suspeita. Assiste, por isso, razão a José Rodrigues dos Santos quando confessa nada haver de novo no seu mais recente livro: O último segredo.

 

A urdidura que percorre estas páginas já preencheu outras páginas. Existe fluidez no discurso e o leitor (identificado na inspectora policial Valentina Ferro) tenderá a ficar suspenso do talento argumentativo do narrador (figurado no investigador Tomás Noronha).

 

As semelhanças com O Código da Vinci, de Dan Brown, são notórias. O filão aparenta transportar uma via rápida (e uma garantia segura) para o êxito. Afinal, Jesus continua, dois mil anos depois, a despertar paixões e a suscitar curiosidade.

 

 

2. Apresentando-se a obra como um romance, seria de esperar, à partida, que estivéssemos diante de uma construção literária. 

 

Acontece que esta é uma construção que, no fundo, visa uma desconstrução: a desconstrução do Jesus que nos é apresentado pelos Evangelhos e transmitido pela catequese e pela teologia.

 

Numa nota final, o Autor dá conta, aliás, da sua opção, pondo em causa a afinidade entre Jesus e o Cristianismo.

 

As suas referências movem-se no âmbito da procura do Jesus da história, que se pretende separado do Cristo da fé. A atenção maior terá sido dispensada às teses difundidas por Bart Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte (EUA).

 

O ponto de partida (e o permanente pano de fundo) é que a Igreja, sabendo a verdadeira identidade de Jesus, não está interessada em que ela seja conhecida: «Se Jesus voltasse à Terra, a Igreja declará-Lo-ia herege!».

 

O mais surpreendente, porém, não é esta fractura. Já Dostoiévsky, entre outros, aludiram a ela. O mais surpreendente, para muitos, será o horizonte dessa clivagem.

 

Para José Rodrigues dos Santos, Jesus não seria um reformador do Judaísmo, mas um judeu ultra-ortodoxo, ainda mais rigorista que os fariseus! Estes consideravam que «os gentios eram imundos. Por isso, Jesus nem Se misturava com eles! Na verdade, discriminava-os»!

 

De acordo com o Autor, as frases que revelam abertura a todos os povos e atestam compaixão e misericórdia não passarão de acrescentos posteriores.

 

Jesus estaria convencido da chegada iminente do Reino de Deus, tema muito caro da apocalíptica judaica. Ante a Sua morte, os discípulos reescreveram o Seu ensinamento, dando-lhe uma moldura mais universal.

 

 

 

3. A abordagem dos textos bíblicos não prima pela coerência. Por um lado, são descredibilizados, como sendo tardios, para demonstrar que não nos permitem ter um acesso fiável a Jesus. Por outro lado, são seleccionadas cirurgicamente algumas passagens para provar determinadas posições.

 

Acresce que, se o critério é a data, não se entende que dê maior crédito a textos que são ainda mais tardios que os do Novo Testamento. No entanto, o livro invoca vários apócrifos para falar, por exemplo, de Maria Madalena.

 

Se «os Evangelhos são reconstituições teologicamente orientadas», quem nos afiança que outras fontes não sejam ideologicamente tuteladas?

 

A ausência de originais de textos bíblicos não põe necessariamente em causa o essencial acerca da figura de Jesus.

 

Detectar oscilações entre os textos é um exercício legítimo de crítica literária. Já qualificar globalmente os Evangelhos como sendo «falsificações» é um julgamento sumário que, além do mais, está longe de ser consensual entre os investigadores.

 

 

4. O mais sintomático é que aquele que é visto como o ápice da Revelação esteja a ser submetido ao escrutínio do oculto. Quem nos garante que o sentido (pretensamente) escondido seja mais consistente que o sentido revelado?

 

Sucede que a hermenêutica da suspeita tende a esventrar a nossa predisposição para a confiança. Que os autores do Novo Testamento sejam pessoas de fé é uma coisa. Que, por tal motivo, sejam uns falsificadores deliberados da realidade histórica é outra coisa, completamente diferente.

 

Eis, pois, um livro que, estando longe de ser original, aposta, na linha de outros, na via provocationis (via da provocação). Questiona a verdade em que muitos crêem, sem nos dar certezas definitivas sobre uma alternativa.  

 

É uma ficção que, sibilinamente, pretende reconfigurar uma realidade. Convida à discussão. Mas nada prova. Cada um fica no que lhe parece.

 

Pode, entretanto, ter um efeito positivo: aproximar-nos ainda mais da (incomparável) figura de Jesus.

 

Hoje, como ontem e como sempre, Ele mantém-Se como um sinal de contradição (cf. Lc 2, 34)! 

 

    

 

publicado por Theosfera às 07:20

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