O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

A democracia está invertida quanto à concepção e subvertida quanto ao ojectivo.

 

Dizem que o povo é soberano, mas não é ele que decide. Pelo contrário, é vítima de decisões que lhe escapam.

 

No que toca ao objectivo, estamos cada vez mais longe do seu desígnio essencial: promover a justiça e fomentar o desenvolvimento.

 

A justiça é cada vez menor e o desenvolvimento torna-se praticamente inexistente. Acresce, como agravante, que os «servidores» parecem estar melhor do que aqueles que era suposto servirem.

 

É preciso não só uma nova mudança, mas um outro paradigma. Precisamos, no fundo, de ir à Grécia. Não à Grécia moderna, mergulhada na crise. Mas à Grécia antiga, aquela onde germinou a sabedoria e a democracia. Aquela onde o povo tudo escrutinava. Onde o povo era soberano!

publicado por Theosfera às 23:01

1. Com Maria a Igreja aprende não apenas a conhecer a realidade, mas, acima de tudo, a envolver-se na sua transformação. Essa transformação é preparada e realizada em chave libertadora.
 
A Igreja, à luz do seu modelo jesuânico e do seu paradigma mariano, nunca pode caucionar a opressão. Ela tem de ser uma força libertadora e um apoio à libertação.
 
Como sublinha Alejandro Martínez, o Magnificat é «um cântico de libertação». A Encarnação é um acontecimento libertador. Maria inclui, no âmbito da acção libertadora de Deus, não apenas os aspectos espirituais, mas também os sócio-políticos. A libertação é autenticamente integral.
 
Percebe-se, então, que o vocabulário ligado à liberdade (eleuthería) esteja profundamente entranhado na história bíblica. Se, por absurdo, amputássemos a Escritura da temática atinente à liberdade, arriscaria dizer que ficávamos privados de mais de metade do texto sagrado.
 
Já no Antigo Testamento, Deus é apresentado como libertador-redentor (goel), não hesitando mesmo em tomar partido pelos oprimidos e explorados. O povo de Israel tem consciência de que a libertação do Egipto foi mais dom de Deus que conquista sua (Ex 15).
 
Em pleno Novo Testamento, S. Paulo contrapõe enfaticamente a escravatura à liberdade não hesitando em proclamar (com recurso a uma linguagem intencionalmente redundante) que «foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gál 5, 1).
 
 Daí que se compreenda mal que tenha havido — e quiçá continue a haver — cristãos envolvidos na repressão, na violência e na supressão dos mais elementares direitos humanos. No fundo, mais um sinal do pecado que nos afecta e da conversão de que carecemos…
 
De facto, a ninguém como aos cristãos assiste o direito e (sobretudo) o dever de militar na causa da liberdade. Se assim não tem sido, não nos resta senão fazer um sincero mea culpa e uma decidida inflexão de rumo. Aliás, a existência demonstra à saciedade a falta que faz uma perspectiva cristã da liberdade.  
 
 
2. Haja em vista que a liberdade, entendida à luz da Bíblia, não se esgota na fruição. O seu conteúdo passa, acima de tudo, pela decisão de nos darmos inteiramente aos outros: «Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos» (Jo 15, 13). Por estranho que pareça, a soberana expressão da liberdade de Cristo é a Cruz, onde Ele Se oferece completamente pela humanidade.
 
A plenitude da liberdade é, pois, dádiva, entrega, doação. É a liberdade que se dá para (melhor) se reencontrar. É dar guarida ao «princípio da empatia»(Edith Stein). É sentir o outro como fazendo parte de nós. Caso para perguntar: que temos feito da liberdade? Como pedia Miguel Torga, «não deixemos sem argumentos a nossa esperança».
 
 Jesus descarregou-nos (cf. Mt 11, 28-30). Às vezes, na Igreja que se pretende de Jesus, sobrecarrega-se a vida das pessoas. Ele veio aliviar-nos de todas as cargas. Tudo condensou num mandamento: o amor. Impressiona, por isso, que, ao longo dos tempos, haja a tendência para multiplicar tantas cargas que, no limite, podem obscurecer a lei suprema: o amor.
 
Jesus quer as pessoas felizes na eternidade e no tempo. Basta, aliás, olhar para as Bem-Aventuranças.  Jesus disse que a Sua carga era leve. E, por vezes, impomos cargas tão pesadas. A própria lei (importante, sem dúvida) não era um absoluto. Diante do bem da pessoa, caía a lei para sobressair a pessoa. Curiosamente, Jesus, que Se sacrificou por nós, assumiu não querer os nossos sacrifícios. Ele quer, sim, a nossa misericórdia, a nossa compaixão, a nossa bondade (cf. Mt 9, 13).
 
Há, em tudo isto, um dado muito positivo. Temos tanto a aprender com o Mestre. Habitualmente, apelamos para a doutrina que achamos vir d'Ele. Mas o mais importante é a Sua conduta, as Suas atitudes, a Sua simplicidade, a Sua humildade, a Sua opção pelos pobres.
 
O que sempre marcou Jesus com os outros foi a largueza de horizontes. O que sempre demarcou Jesus em relação a outros foi a misericórdia, a tolerância, a compaixão. Ele não condenou quem pecava, franqueou as portas do paraíso a um ladrão e deu a comunhão a quem O entregou.
 
Severo foi apenas (mas de modo muito contundente) para com a hipocrisia, a duplicidade. Jesus foi assertivo na Sua mensagem. Mas nunca estigmatizou ninguém. O Seu coração rasgava-Se para todos. É fundamental que o coração da Igreja de Jesus seja magnânimo como foi o coração de Jesus. Deus não castiga. Deus não condena. Deus abraça. Deus festeja.
 
Deus não é um polícia a escrutinar os nossos erros. Deus é o Pai que Se alegra com o nosso bem. Deus é misericórdia. A maior festa não é quando se dá o encontro. É quando ocorre o reencontro após o desencontro.
 
Porque é que, ainda hoje, continua a prevalecer a linguagem do castigo sobre a cultura da bondade, da compaixão e do amor? A misericórdia está no coração de Deus e, por isso, no centro da mensagem de Seu Filho Jesus. Pertencer à Igreja só faz sentido a partir de um deliberado compromisso com a compaixão, o amor e o perdão.
 
3. A santidade de Deus não O torna distante. A Sua transcendência não contende com a Sua imanência. Como reconhecia Xavier Zubiri, Deus não é transcendente ao mundo, é transcendente no mundo. Por isso, Ele não Se desinteressa da vida do Seu povo. Pelo contrário, está no meio dele e oferece-lhe um suplemento de esperança e de ânimo. Crer em Deus santo - nota Alejandro Martínez - significa «crer em Deus transcendente e imanente, longínquo e próximo, que estimula a confiança das pessoas».
 
A Igreja acolhe de Maria a capacidade para perceber que Deus intervém na história para salvar, para libertar. Não estamos, pois, diante de um Deus a-pático, mas de um Deus supremamente sim-pático. É um Deus que sente o sofrimento do povo. É um Deus compassivo e, nessa medida, misericordioso. Ou seja e como decorre da etimologia, tem o Seu coração voltado para a miséria da humanidade.
 
É uma misericórdia inexaurível, que se estende de geração em geração (cf. Lc 1, 50). De resto, já no Antigo Testamento se sabia que «a graça do Senhor permanece para sempre» (Sal 103, 17). A chamada parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32) ilustra belamente a natureza divina. Deus acolhe não porque nós mereçamos, mas porque é Deus, isto é, bondoso, magnânimo.
 
 
4. A salvação não é reclamação humana. Ela tem origem no coração de Deus. O Seu amor jamais se afasta do povo, por muito que este recalcitre e se revolte (cf. Is 54, 10). Esta fidelidade ecoa no final do Magnificat: «Acolheu Israel, Seu servo, lembrado da Sua misericórdia» (Lc 1, 54).
 
Maria fala-nos de um Deus que nunca deixa de ser o que é: misericordioso, sensível ao sofrimento e à injustiça. A Igreja nunca pode transigir neste preceito. Se, nela, falta a misericórdia, mesmo que resplandeça em tudo o resto, falha no essencial.
 
Só através da misericórdia, ela será capaz de corresponder à sua natureza e à sua missão: constituir a transparência de Deus no mundo!

 

 

publicado por Theosfera às 22:36

Eu sei que esta vai ser uma noite difícil para tantos portugueses que trabalham ou já trabalharam.

 

Afinal, ainda não vai ser no próximo ano que os sacrifícios vão ser suavizados. Pelo contrário, vão ser fortemente agravados.

 

E, por este andar, não custa muito imaginar que, daqui a um ano, não faltarão justificações para prosseguir a austeridade em 2013.

 

A questão que se levanta é: para quê?

 

Dir-se-á que é para não chegarmos à situação da Grécia. Portugal até pode ter melhor liquidez, mas é bom não esquecer que o salário mínimo na Grécia é quase o dobro do português.

 

É certo que o memorando da «troika» não deixa margem para alternativa. Mas não seria possível negociar uma moratória nos prazos?

 

Acontece que, com estas medidas, haverá cada vez menos pessoas em condições de contribuir. Se as empresas falirem e o desemprego aumentar, como se conseguirá descontar?

 

Entretanto, não se anuncia nenhuma medida para estimular o crescimento da economia.

 

Não sabemos para onde vamos. Sabemos que não é por aqui que chegaremos ao desenvolvimento e à justiça.

 

A «doença» era grave. Mas esta «terapia» arrisca-se a torná-la pouco menos que insuportável.

 

Não deixemos, entretanto, adormecer a esperança. Isto vai ser quase impossível. Mas há-de haver uma luz.

 

Os cidadãos precisam de mudar. Os dirigentes também. Falta, no país e na Europa, sensibilidade social.

 

A narrativa é demasiado colada à realidade. É fundamental um golpe de asa que ajude a transformá-la.

 

Não é com estas políticas que conseguiremos vencer a crise. Será com estes políticos?

 

Urge uma nova criatividade, uma outra sabedoria. Que venha do coração. E olhe para as pessoas não como activos, mas como seres humanos.

 

Um novo humanismo tem de pairar na nossa vida cívica.

publicado por Theosfera às 21:25

1. Confesso que despertou a minha atenção a perplexidade do poeta José Miguel Silva diante de uma certa iconografia: «Vês (nas igrejas) os santos vestidos como príncipes, quando toda a mensagem cristã defende o oposto».

 

Tem razão. Jesus foi pobre. Convida a um estilo de vida pautado pela pobreza e sobriedade. Muitas vezes, andamos empenhados em apontar a Sua doutrina. Esta é importante. Mas o decisivo é a Sua conduta. É viver como Ele viveu.

 

Para tal, não basta ser o eco das Suas palavras. É fundamental procurar ser a reprodução das Suas atitudes, dos Seus gestos. Daí que falar em nome de Jesus Cristo num ambiente de pompa crie uma profunda sensação de desconforto. A credibilidade fica, imediatamente, ferida.

 

 A este propósito, vem-me à lembrança a alusão que, entre o desapontamento e a ironia, faz Sören Kierkegaard ao bispo de Copenhaga.

 

Revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, avança o prelado pela catedral, com todo o seu séquito em esplendor. Senta-se, então, num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri! Se calhar, o melhor seria chorar. É que, sem a ressonância da vida, a palavra não passa de ornamento retórico.

 

 

2. Jesus foi pobre. Maria foi pobre. O Concílio Vaticano II afirma que Ela sobressai entre os pobres de Yahvé.

 

Formada na leitura orante dos livros do Antigo Testamento, Maria conhecia especialmente os Salmos, que surgiram no contexto dos pobres (anawin) de Yahvé.

 

Enquanto facto social e fenómeno presente no quotidiano de Israel, a pobreza era seguramente um tema de reflexão e meditação. Para uns, a pobreza é vista como castigo de Deus. Para outros, ela decorre da avareza dos ricos e da exploração dos poderosos. Os profetas denunciaram sempre esta pobreza como sendo não querida por Deus. Do mesmo modo, a riqueza que nasce da opressão dos outros não é por Deus desejada.

 

É neste contexto que Bento XVI explica que existe uma distinção entre uma pobreza evangélica e uma pobreza que Deus não deseja.

 

Em relação à primeira forma de pobreza, o Santo Padre atesta que Jesus, ao fazer-Se Homem, quis ser também pobre. «Eis a resposta: o amor por nós levou Jesus não somente a fazer-Se Homem, mas a fazer-Se Homem pobre». Contudo, «há uma pobreza, uma indigência, que Deus não quer e que é "combatida": uma pobreza que impede as pessoas e as famílias de viverem segundo a sua dignidade; uma pobreza que ofende a justiça e a igualdade e que, como tal, ameaça a convivência pacífica».

 

Uma coisa é, portanto, a pobreza como facto, outra coisa, bem diferente, é a pobreza como escolha. Trata-se, por assim dizer, da distinção entre a pobreza como condenação e a pobreza como opção. Os profetas procuraram espiritualizar a pobreza enquanto entrega confiante a Yahvé (cf. Sof 3, 12). Provavelmente, os judeus fiéis constituem aquele resto cuja vibração espiritual está contida em diversos Salmos.

 

Neste grupo, há um descentramento de si próprio e uma abertura total a Deus, sem qualquer resistência à Sua palavra. É um vazio com sabor a plenitude. Certifica-se, assim, a firmeza da sua fé. Como refere Alejandro Martínez, para esta gente, «vale mais a palavra de Yahvé que as luzes da própria razão ou o desmentido flagrante dos factos. Tudo é noite em seu redor, mas confiam no Deus que firmou aliança com seus pais. A fé que têm não é especulação, mas abandono, entrega e confiança sem limites».

 

Maria incorpora, no seu máximo grau, a fé como vazio de si mesma e entrega confiante a Deus. É, pois, uma pobreza iluminadora. Enquanto modelo da Igreja, «é a perfeita realização desta e, como primeira discípula de Cristo, caminha à frente de quantos fizeram do seu seguimento um lema de vida».

 

Em Maria, a Igreja verifica que «a fé só germina em corações pobres», em corações de criança. A fé faz que nunca deixemos de ser crianças. «Não há fé sem mistério e não há mistério sem obscuridade». Ela implica «um desprendimento da própria razão», o que, misteriosamente, contribui para obter uma racionalidade amadurecida. De facto, «silenciar o grito da razão e pôr-se de joelhos perante o mistério é uma atitude audaz e corajosa».

 

Esta pobreza não impede o reconhecimento do que Deus faz em cada um de nós. A humildade não é a anulação da pessoa, é o reconhecimento da verdade. «O verdadeiro crente há-de começar por reconhecer os dons que Deus lhe deu».

 

3. Para nós, cristãos, os pobres não são apenas destinatários da pastoral. Eles estão, desde logo e antes de mais, no centro da Igreja. Não fazemos parte somente de uma Igreja para os pobres, mas de uma Igreja de pobres e com os pobres.

 

Importa não esquecer que, como recorda Louis Châtellier, o Cristianismo é, verdadeiramente, uma «religião dos pobres». Pobre foi o seu fundador. Com efeito, Jesus, que nasceu num estábulo, não tinha, muitas vezes, «onde reclinar a cabeça» (Mt 8, 20). O Seu Evangelho — recorda o cardeal Schönborn — «foi feito sobretudo para os pequenos e para os pobres». E, no Seu código de felicidade, começou por declarar felizes os pobres que o são no seu íntimo (cf. Mt 5, 3).

 

Os pobres estiveram sempre entre os predilectos de Jesus. A Igreja, enquanto novo corpo de Cristo, era constituída, nos seus inícios, por pobres de facto (cf. Tgo 2, 5) ou por pessoas que se faziam voluntariamente pobres (cf. Act 4, 32-5, 11).

 

Joseph Ratzinger percebeu muito bem esta identificação de Deus com a pobreza quando escreveu: «A pobreza é a autêntica aparição divina da verdade». Jesus, na pauta que nos dá para o juízo final, assevera: «Tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos Meus irmãos, é a Mim que o fazeis» (Mt 25, 40).

 

Não admira, portanto, que S. Francisco tratasse a pobreza por senhora e Bossuet chamasse aos pobres senhores. A Igreja tem uma obra assistencial muito difundida. Não basta, porém, tal obra assistencial, por muito meritória que seja. É fundamental que, no espírito de Jesus, porfie, em todos os seus gestos, por uma opção preferencial pelos pobres. Essa opção levá-la-á a pugnar pela erradicação da injustiça que, arbitrariamente, atribui tudo a alguns e condena outros a pouco ou quase nada.

 

 

Erguer a voz é determinante. Tomar partido é decisivo, embora traga custos. É que o poder, que gosta de distribuir sobras, não admite ser interpelado. É missão da Igreja ser a voz dos sem voz, urgindo uma mais equânime repartição dos recursos. De facto, não há volta a dar: para que os pobres fiquem menos pobres é preciso que os ricos fiquem menos ricos.

 

Os preferidos de Jesus têm de ser os preferidos da Igreja de Jesus. Cristo era para todos, mas privilegiava a companhia dos pobres, dos simples e dos pequenos. Foi, aliás, em conformidade com este espírito que S. Gregório Magno revelou, no século VI, uma preocupação social que atingia o escrúpulo. Fazia questão de ter uma lista dos pobres de Roma, enviando-lhes alimento e outras provisões. Mas o mais tocante é, sem dúvida, saber que, todos os dias, doze pobres da cidade comiam à sua mesa, à mesa do Papa!

 

Um século mais tarde, um bispo de Alexandria espantou toda a gente com uma pergunta que fez à chegada: «Quantos são aqui os meus senhores?» Como ninguém percebera o alcance, ele descodificou: «Quero saber quantos pobres temos. Eles são os meus senhores, pois representam na terra Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 25, 34-46). Dependerá deles que eu venha a entrar no Seu reino». Fizeram o apuramento. Havia 7500 pobres, que ficaram a receber, todos os dias, uma boa esmola!

 

 

4. Toda a razão tem, assim, S. Gregório: «Quanto mais se desce ao encontro das fragilidades dos pobres, mais se sobe ao cume das virtudes». Não esqueçamos jamais o pobre. É imperioso estar com ele para estar em Cristo. Se Ele nos enriqueceu com a Sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9), amemos o Senhor no Sacramento do Pobre (sacramentum Pauperis). Deus está vivo nos pobres, nos esquecidos, nos explorados, nas vítimas da injustiça.

 

É preciso descer as escadas. É urgente viver a vida das pessoas. É imperioso estar onde está Deus. E alguém pode negar que Deus (também) está na rua? Deus emerge dos escombros desta sociedade que clama por justiça. É aí que, como observou Fernando Urbina, podemos acolher «a grande voz silenciosa de Deus, esse rumor imenso de que fala S. João da Cruz». Muitas vezes, é preciso sujar as mãos para manter limpo o coração.

 

A Igreja tem de procurar ser espelho e jamais pode ser muro. Deus não está no mundo pela pompa. Deus vem pela simplicidade e pela pobreza. Uma Igreja pobre será (sempre) a maior riqueza que teremos para oferecer.

 

publicado por Theosfera às 16:14

Steve Jobs não terá sido a pessoa que acumulou mais conhecimentos. Mas foi, sem dúvida, um dos que mais partido tirou dos conhecimentos que adquiriu.

 

Esta é a diferença entre o mero saber e a criatividade.

 

Fazendo um uso magistral da intuição, achava que a liderança estava sobretudo na inovação: «Inovar é aquilo que distingue um líder de um seguidor».

 

Aliás, é essa a grande lição da morte. A morte «afasta o velho para dar lugar ao novo».

 

Na política como na vida, precisamos de caminhos novos, de propostas diferentes.

 

Insistir no mesmo (ainda por cima, no mesmo que já provou não resultar) não nos conduzirá a bom porto.

publicado por Theosfera às 10:19

«A timidez, inesgotável origem de tantas infelicidades na vida prática, é a causa directa, mesmo única, de toda a riqueza interior».

 

Será que Émile Cioran tem razão?

publicado por Theosfera às 10:17

Já Cioran dizia que, «de um modo geral, se podem distinguir na Europa três formas de tristeza: a russa, a portuguesa e a húngara».

publicado por Theosfera às 10:16

1. Ainda hoje muitos se interrogam como é que um profeta incómodo foi sendo transformado num chefe poderoso. E, concomitantemente, como é que uma mensagem centrada no serviço deu lugar a uma instituição fortemente organizada e a um sistema de poder.

 

O paradigma Jesus, por nós perdido e tantas vezes desperdiçado, está sinalizado na coroa de espinhos e sobretudo na cruz.

 

É o paradigma de uma Igreja que respeita os poderes, mas que está distante do poder e que não se concebe a si mesma como poder.

 

A Igreja recebe de Maria um perfil que a distancia do poder. O Magnificat, neste ponto, chega a ser, como refere Alejandro Martínez, «um cântico de rebeldia».

 

Com efeito, nele a serena Maria bendiz a Deus que «derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes»(Lc 1, 52). Segundo Ela, Deus não é imparcial. Ele toma partido e não é pelo lado de cima.

 

Maria percebe inteiramente onde está Deus. Ela encontra-O nos subterrâneos da opressão a que o Seu povo estava sujeito. Ela também foi testemunha da violência que Roma exercia sobre a região.

 

Não envereda, porém, pela via da revolta armada e vingativa. À semelhança de Seu Filho Jesus, «denuncia o atropelo, protesta contra ele, mas sem ódio nem sentimentos de vingança. Pede a Deus que faça justiça salvando os que são oprimidos».

 

Em Maria, a Igreja aprende certamente a respeitar o poder, mas jamais se cola a qualquer tipo de poder. Até porque, infelizmente, nenhum poder humano se aproxima do género do poder de Deus, que é o poder do amor. Deus manifesta o Seu poder «para salvar o homem das tiranias que o escravizam». 

 

 

2. É neste sentido que pode causar alguma estranheza a situação da instituição eclesiástica. Esta, segundo Paul Hoffmann, parece ter-se distanciado demasiado da mensagem de Jesus, «em que a utopia real do Reino de Deus como reino de bondade incondicional e também de liberdade foi vivida» e proposta.

 

Às vezes, subsiste a impressão de que, em vez de estar ao lado dos oprimidos, alguns optam por estar ao lado dos opressores. Ou, pelo menos, o seu silêncio leva a que não se demarquem suficientemente.

 

A proximidade com o poder acarreta um esmorecimento da mística e da profecia. As questões do poder afrouxam a espiritualidade e a intervenção social. 

 

Como é sabido, o momento determinante é o século IV, com o fim das perseguições e a progressiva integração da Igreja no Império. Assistimos, a um tempo, à cristianização de Roma e à romanização do Cristianismo.

 

A Igreja passa não apenas a legitimar as decisões do poder político (mesmo as mais controversas, como a guerra e a pena de morte), mas organiza-se também internamente num sistema similar.

 

Só que este não é o caminho de Jesus. Para D. Manuel Martins, «a Igreja tem de viver sempre em tensão com o poder. Caso contrário, não cumpre o seu dever, porque tem um ideal de vida que não se pode conformar com nenhum programa de governo».

 

 

3. A memória viva (e vivificante) de Jesus há-de ser sempre a pedra angular e a instância crítica a que tudo há-de estar submetido.

 

É possível que nem o marxismo tivesse surgido se a memória de Jesus e de Maria encontrasse maior acolhimento dentro da Igreja. A este respeito, o testemunho de Martin Luther King é eloquente: «A grande tragédia é que o Cristianismo não percebeu que tinha em si a semente revolucionária. Não é preciso vir Karl Marx ensinar-nos a ser revolucionários. Eu não recebi a inspiração de Karl Marx; recebi-a de um homem chamado Jesus, um santo da Galileia».

 

É pela Igreja que vemos Jesus. É por Jesus que urge, cada vez mais, rever a Igreja. Para que se seja outra. Para que seja ela, Igreja de Jesus. Para toda a humanidade.

 

Uma Igreja despojada será, apenas ela, uma Igreja necessária. E apelativa. Uma Igreja fiel a Jesus não estabelece relações de poder, mas de serviço. A sua preocupação não é mandar, mas servir. Uma Igreja fiel a Jesus pugnará sempre pela justiça entre os homens. Uma Igreja fiel a Jesus não permite que alguém se considere superior ou que alguém seja considerado inferior.

 

 

4. Para um seguidor de Cristo, os outros não estão atrás nem em baixo. Os outros vivem ao lado e sobrevivem dentro de cada um.

 

Afinal, ainda não incorporamos totalmente o Deus de Jesus na nossa vida eclesial. Alguns passos têm sido dados. Mas subsiste um longo caminho a percorrer.

 

É dessa Igreja que nos fala D. Pedro Casaldáliga, uma voz do amanhã à espera que tenha eco numa manhã.  Eis o perfil de Igreja desenhado (sonhado?) por este grande bispo: «Não ter nada. Não levar nada. Não poder nada. Não pedir nada. E, de passagem, não matar nada; não calar nada. Somente o Evangelho, como uma faca afiada. E o pranto e o riso no olhar. E a mão estendida e apertada».
 
Isto pode parecer um sonho. E, como proclamou Martin Luther King, «a nossa vida é uma história contínua de sonhos destruídos». Mas, mesmo assim, vale a pena não desistir de sonhar. Até porque, diz o poeta, «é o sonho que comanda a vida». 
 
O sonho, ainda que regado com pranto, subsistirá. Enquanto houver sonho, não desaparecerá a esperança.
 
A Igreja de Jesus e de Maria, distante dos poderes e próxima dos humildes, há-de ter uma realização cada vez mais transparente na sua peregrinação pelo tempo.


 

publicado por Theosfera às 00:25

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