O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

Uma ditadura só muda quando termina. Qualquer alteração que possa fazer não lhe apaga o seu carácter de ditadura.

 

O regime chinês pode agregar os mais ricos, mas não está a conseguir manter-se na alma do povo.

 

A repressão ainda é grande, mas o despertar da consciência cívica é cada vez mais sonoro e visível.

 

Há um número crescente de movimentos populares de defesa de direitos.

 

O povo já não glorifica espontaneamente os líderes. O silêncio já não é a nota dominante.

 

A proverbial paciência asiática prevalece. Mas coexiste com uma paulatina mobilização cívica.

 

O Prémio Nobel da Paz de 2010, atribuído a Liu Xiaobo, foi um reconhecimento e um estímulo.

 

A reacção destemperada do poder só prova uma coisa: a onda está em marcha.

 

A ditadura continuará a alardear reformas, para que tudo continue assim por muito tempo. Mas as ditaduras não são eternas.

 

Vale a pena ler o livro de Liu Xiaobo, cuja versão portuguesa saiu neste mês de Setembro.

 

É um hino coragem. E um convite à esperança.

 

Nem as grades de uma prisão sufocam o clamor pela justiça e pela liberdade.

publicado por Theosfera às 21:11

«Há três coisas de que todos os homens sábios sentem medo: do mar da tempestade, de uma noite sem lua e da fúria de um homem gentil».
Assim escreveu (sábia e magnificamente) Patrick Rothfuss.

publicado por Theosfera às 19:30

1. Também na Igreja o verbo que cada vez mais se conjuga é o fazer.

 

No início de cada ano pastoral, a pergunta que, invariavelmente, se formula é: «Que vamos fazer?».

 

No decurso das várias etapas e nos balanços retrospectivos de fim de ano, a pergunta a que, inevitavelmente, se pretende responder é: «Como avaliar o que acabámos de fazer?».

 

A missão vai-se, assim, circunscrevendo a uma interminável sequência de realizações que, apesar de estimáveis, nos desgastam muito e preenchem pouco. E todos nos vemos, à força de participar em tantas actividades, a resvalar perigosamente para o activismo.

 

Uma insatisfação percorre os espíritos. Sentimos que a dimensão operativa de Marta é necessária, mas notamos que nos falta a dimensão contemplativa de Maria, sua irmã. Jesus não diz que Marta estava errada. Mas não deixou de afirmar que Maria escolheu a melhor parte (cf. Lc 10, 42).

 

O fazer é, pois, importante. O doutor da lei que interpela Jesus sobre o acesso à vida eterna sabe que ele passa pelo fazer: «Que hei-de fazer para possuir a vida eterna?»(Lc 10, 25). E, depois de contar a parábola do Bom Samaritano, Jesus também responde dentro do fazer: ««Faz tu também do mesmo modo»(Lc 10, 37). 

 

Como se compreende, não se trata de um fazer pelo fazer. Trata-se, sim, de um fazer completamente habitado pelo ser, neste caso, por um ser habitado pela bondade e pela compaixão.

 

Fazer pelo fazer não passa de obreirismo. Só um fazer inundado pelo ser é portador de uma mensagem, de uma proposta, de um projecto de vida. Daí a advertência de João Paulo II quando, na Novo Millennio Ineunte, ressalvava que o ser prevalece sobre o fazer. O fazer é chamado a ser uma epifania do ser.

 

Damos conta, hoje em dia, de que o nosso ser está desabitado, ferido e continuamente atordoado por uma espiral de coisas sem fim que temos de fazer.

 

A Igreja não é imune a esta propensão. Fazemos acções para as pessoas, mas estamos pouco com as pessoas.

 

Vamos ao encontro com assiduidade, mas não nos deixamos encontrar com frequência. Faz muita falta, na missão, o estar. Desde logo, porque, como alertava Xavier Zubiri, «estar é ser em sentido forte».

 

 

2. É certo que a desambientação das pessoas (fixam-se cada vez menos num único lugar) acarreta, quase automaticamente, a despersonalização dos ambientes (crescentemente mais frios). Mas isso só reforça a urgência de imitar Jesus, que, não descurando o contacto com as multidões, singularizava cada pessoa. Veja-se o caso de Nicodemos ou da Samaritana.

 

Actualmente, se é necessário ter disponibilidade para fazer, é preciso cada vez mais tempo para estar: para estar com as pessoas, para estar com cada pessoa.

 

Eis, pois, o desafio do presente e, simultaneamente, a lição das origens: partir da pessoa, centrar na pessoa, orientar para a pessoa. Isto não contende com a expressão comunitária da fé, já que a comunidade é a (comum) unidade entre os seus membros. Quanto mais na pessoa, mais na comunidade.

 

Não se trata apenas, nem principalmente, de um estar físico, quase passivo, meramente reactivo, como quem se limita a esperar que as coisas aconteçam e que as pessoas venham. Trata-se, sim, de um estar presencial, vivencial e testemunhal, próprio de quem não se desencontra do momento que vive nem desatende as situações que nele ocorrem.

 

O fazer, só por si, enche: a agenda, os dias, a vida. Mas apenas o estar preenche. Basta olhar, de resto, para Maria, aquela que está. Ela está quando Jesus realiza o primeiro dos Seus sinais, em Caná (cf. Jo 2, 1). E está junto à Cruz (cf. Jo 19, 25).

 

Curiosamente, o quarto Evangelho, nas duas únicas vezes que se refere a Maria, enquadra tais referências com o verbo estar, o que lhe confere uma reconhecida ênfase: «Houve um casamento em Caná da Galileia e a Mãe de Jesus estava presente»(Jo 2, 1); «Junto da cruz de Jesus estavam Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe...»(Jo 19, 25).

 

Nas duas situações, a mensagem deste estar é igualmente relevante: a profunda união com Jesus, desde o início da missão até aos confins da entrega. É este estar que revela o que se é. Quando se está unido a alguém, é porque o ser está totalmente vinculado a esse alguém. É porque a vida não faz sentido sem esse alguém.

 

Não é certamente anódina a menção do evangelista, no relato das Bodas de Caná, a Maria como «a Mãe de Jesus»(Jo 2, 1). A vinculação fica, desde logo, acentuada. Este estar de Maria com Jesus é também um estar com os noivos no apuro por que passaram ao faltar o vinho (cf. Jo 2, 3).

 

 

3. Uma Igreja de perfil mariano sabe que, ao estar em Jesus, está, imediatamente, com aqueles que se encontram em dificuldade, em provação.

 

Uma Igreja de perfil mariano não se queda pela analítica. Intervém em prol dos que precisam. Maria intercede pelos noivos. E fá-lo de uma maneira confiante. Faz-Se eco das necessidades dos homens junto de Jesus e torna-Se portadora da atitude de Jesus junto dos homens.

 

Como destaca Max Thurian, «no Seu acto de fé e na Sua oração, Maria apresenta-Se como a representante da humanidade em situação difícil. Ela é a figura da humanidade que espera a libertação».

 

Maria nem sequer precisa de uma resposta directa. Até a aparente admoestação de Jesus — «Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou»(Jo 2, 4) — funciona como estímulo para depreender que o pedido tinha sido atendido.

 

Uma Igreja de perfil mariano sabe que a única resposta perenemente válida é a mesma de sempre: «Fazei o que Ele [Jesus] vos disser»(Jo 2, 5).

 

A Igreja não aponta caminhos próprios nem transporta soluções inventadas. Ela é o eco da presença libertadora de Jesus. Ela sabe que Jesus conduz a história e que, na hora certa, faz emitir os Seus sinais.

 

Uma Igreja de perfil mariano não deixa de estar nas horas difíceis. Aliás, é sobretudo nas horas difíceis que ela está.

 

E se, nas Bodas de Caná, essa presença já se encontra assegurada, junto à Cruz torna-se irreversível.

 

Uma Igreja de perfil mariano existe especialmente para os momentos de aperto. Faz sua a cruz de todos os que sofrem, de quantos são injustiçados e oprimidos.

 

A sua voz é a ressonância do grito de todos os condenados. É na Cruz que Maria é dada como Mãe ao discípulo e, nele, a toda a Igreja e a toda a humanidade (cf. Jo 19, 27).

 

De acordo com Aristide Serra, «a Mãe de Jesus é a Mãe universal dos filhos dispersos de Deus, unificados na pessoa de Jesus, que Ela revestiu da nossa carne no Seu seio materno».

 

Uma Igreja de perfil mariano não foge nas horas de dor. Pelo contrário, é uma Igreja que está, de uma forma ainda mais envolvente, nesses instantes de suplício.

 

A palavra de uma Igreja de perfil mariano não é uma dissertação em nome próprio. Ela faz-se porta-voz de tantas ânsias reprimidas e tantos sonhos esmagados.

 

 

4. A Igreja não é representante de si mesma. Ela dá a sua voz. O silêncio de uma Igreja de perfil mariano é uma escuta solidária, de quem está.

 

Sob este padrão, importa conceber a pastoral não tanto em função do território, mas em função do ser humano. A pessoa é o campo, o terreno, a prioridade.

 

 Não propugno uma Igreja parada, na mera expectativa. Ao invés, porfio por uma Igreja atenta, activa e interveniente, que se faça eco de tantos silêncios impostos e que se torne voz de tantos anseios torturados.

 

Como diz Hans Urs von Balthasar, «a Igreja não pode apontar nunca para si mesma, nem administrar, nem dispor do princípio sobre o qual está fundamentada. Ela é o que é transcendendo-se a si mesma».

 

 Ela não pode ver-se como estrutura de poder, mas como povo de orantes e como comunidade de serviço.

 

Cabe-nos, por conseguinte, redescobrir uma espiritualidade que desemboque permanentemente na caridade. Tal é o preceito recordado por S. João: «Quem ama a Deus ame também a seu irmão (1Jo 4, 21).

 

Quanto mais voltada estiver a Igreja para fora de si mesma, mais identificada estará consigo mesma.

 

Foi este o procedimento do Fundador e perene Fundamento. Sendo a nova corporeidade de Cristo (daí que Johannes Möller lhe chame a «encarnação permanente»), a Igreja é chamada a reproduzir incessantemente o perfil de actuação de Jesus. Ele deu o exemplo: «Como Eu fiz, fazei vós também» (Jo 13, 15).

 

 

5. Na nossa época, praticamos muito o andar, o correr. É fundamental reaprender a estar, a acolher, a escutar. Nos tempos que correm, somos eco do que colhemos no andar. Importa ser,  sobretudo, ressonância do que recolhemos no estar.

publicado por Theosfera às 16:01

Confesso que ainda não tinha pensado nisso, mas o cronista trouxe à lembrança uma situação importante.

 

Na recente onda de vandalismo que varreu a Inglaterra, nada parece ter escapado à fúria das pilhagens.

 

Roubaram comida, bebida, computadotes, telemóveis, etc. De tudo um pouco. De tudo não é bem assim. Nenhuma livraria foi assaltada.

 

Por um lado, sossegaram os seus proprietários, poupados assim ao vulcão devastador.

 

Mas, por outro lado, é preocupante notar que as novas gerações não se interessam pela cultura. Talvez se se interessassem, não houvesse tanta violência.

 

A falta de cultura redunda, quase sempre, na falta de harmonia, na intolerância. Tudo desagua na violência.

 

Até quando?

publicado por Theosfera às 15:53

Ninguém cresce com inibições. Ninguém se afirma com bloqueios constantes e obstáculos sem fim.

 

Será a economia um mundo à parte ou uma parte do mundo?

 

Há quem pense que a solução para os problemas está (apenas!) em sacrifícios, em austeridade, em restrições.

 

O certo é que, à medida que se intensifica a «terapia», mais vão aumentando os sintomas da «doença». Não haverá alternativa?

 

A Islândia, há poucos anos, esteve no fundo. Em 2008, passou pela maior crise de toda a Europa.

 

Hoje, está a recuperar a olhos vistos. O caminho não passou pelas teses liberais do FMI. Pelo contrário, passou pela rejeição deliberada do FMI. No Brasil e na Argentina, aconteceu o mesmo.

 

E a Bélgica está a ter o maior crescimento económico europeu porque não tem Governo que possa aplicar as medidas de austeridade. Sorte a dos belgas. A produção aumenta. Há mais condições para a dívida ser abatida.

 

Não há, pois, uma receita única. A vulgata neoliberal já provou que não vale muito. O que é estranho é que nem nos deixem escolher a melhor via.

 

Porque será?

publicado por Theosfera às 15:50

Um médico e um enfermeiro existem para quê?

 

Pergunta ociosa para nós, mas, pelos vistos, pertinente para muitos.

 

No Bahrein, por exemplo, um médico e um enfermeiro existem para fazer a vontade ao Governo.

 

Assistir seres humanos não é a prioridade. Pode até constituir um delito.

 

É assim que vinte médicos e enfermeiros foram, ontem, condenados a penas de prisão entre cinco e quinze anos. Porquê?

 

Porque prestaram assistência a manifestantes feridos na repressão das autoridades contra milhares de pessoas que, na rua, pediam o fim do regime.

 

Não dá para acreditar? Às vezes (muitas vezes?), a realidade ultrapassa a ficção...

publicado por Theosfera às 10:09

Uma subtileza de Jean-Jacques Rousseau que revela muita coisa: «A espécie de felicidade que me falta não é tanto fazer o que quero, mas não fazer o que não quero»!

publicado por Theosfera às 09:57

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