O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

«A alma não tem segredo que o comportamento não revele».

Assim escreveu (pulcra e magnificamente) Lao-Tsé.

publicado por Theosfera às 13:37

A China é um gigante que está a acordar. Timidamente, é certo, porque a mordaça ainda é forte. Mas creio que tal crescimento se está a processiar de forma sustentada e irreversível.

 

Economicamente, há um grande avanço. Só que tal avanço ainda não se está a repercutir na vida das pessoas.

 

O descontentamento alastra. Apesar da repressão.

 

E é assim que o contraste com a Europa se mostra.

 

Os chineses lutam por ter o que os europeus estão na iminência de perder: o Estado social.

publicado por Theosfera às 11:57

«Viajar é nascer e morrer a todo o instante».

Assim escreveu (notável e magnificamente) Vítor Hugo.

publicado por Theosfera às 11:26

A romaria nasceu como um acto de fé, que expande em gestos de alegria e acolhimento.

 

O que vemos, entretanto?

 

Desfiles de imagens e de figuras ostentando notas e carregando ouro.

 

Tudo isto é símbolo não do que as imagens significam, mas do orgulho pessoal e do poder das localidades.

 

No fundo, é pela ostentação que, mesmo em tempos de crise, as populações se afirmam.

 

E a fé passa ao lado. E fica dentro. Quiçá imperceptível.

 

Porquê tanto medo de mudar as nossas festas?

publicado por Theosfera às 11:15

Ouvir certas pessoas falar de espiritualidade é como escutar um terrorista a falar de paz.

 

Não cola.

publicado por Theosfera às 11:12

Nos alvores da democracia, a participação das pessoas era fundamental e muito frequente.

 

A instituição determinante era a assembleia dos cidadãos.

 

Tal assembleia tinha o nome de ecclesia, donde veio a palavra igreja.

 

No tempo de Péricles, tal assembleia podia chegar a ter vinte mil membros e reunir-se, no mínimo, quarenta vezes por ano.

 

A ecclesia é que designava um conselho com poderes executivos. Tal conselho, por sua vez, delegava funções em comissões especializadas: justiça, finanças, educação, religião, etc.

 

Por aqui se vê como ecclesia é uma realidade que veicula a ideia de descentralização, embora, como é óbvio, o prestígio das pessoas ilustres viesse ao de cima. O caso do próprio Péricles é o mais relevante.

publicado por Theosfera às 10:38

A Igreja, na sua missão, tem dois instrumentos essenciais: a acção e a palavra.

 

Não deve renunciar a nenhum deles por muito que aposte no outro.

 

A situação de emergência social, que atravessamos, convoca, uma vez mais, a participação das instituições eclesiais.

 

E, sobretudo através da generosidade de muitos leigos, tal participação tem sido assegurada.

 

Só que a Igreja de Jesus não pode limitar-se à acção junto das vítimas de um sistema desumano.

 

Ela tem de questionar, em nome de Jesus, esse mesmo sistema.

 

Tem de usar, portanto, a palavra para que o poder seja inquietado e, se possível, transformado.

 

É, por isso, surpreendente que uma ou outra voz se levante não a interpelar o poder, mas a criticar quem interpela o poder.

 

Até Bento XVI, logo na primeira encíclica, deixou bem claro que a insistência na caridade não impede que se lute pela justiça.

 

É preciso dar o pão e é urgente perguntar por que razão continua a faltar o pão na casa de muita gente.

 

Pensar-se-á que, numa hora de crise, tal questionamento não deve ser feito. Responderei que, nesta hora de crise, é que tal questionamento tem de ser formulado e intensificado.

 

Caso contrário e como explicam dois sociólogos de renome, até parece que a emergência social é uma oportunidade caída do céu para alguns manifestarem o seu pendor caritativo. O mais perturbador é que se transforme em ajuda aquilo que deve ser tido como direito.

 

E tenho de assumir que causa alguma espécie ver tantos apoios serem distribuídos à frente das câmaras de televisão. Eu sei que, hoje em dia, tudo é mediatizado. Mas será correcto usar a pobreza das pessoas para pronover a nossa imagem caritativa? Não será uma instrumentalização abusiva? Não deveria ser tudo feito no mais absoluto recato?

 

Por outro lado, se o Governo se mostra sensível e cria um programa de assistência, porque é que não actua a montante, evitando que se agrave a vida de muitas pessoas?

 

O mais impressionante é que, além da pobreza, há três milhões de pessoas em Portugal que parecem atirados para o conformismo. Já não há protestos em público. E também não há muitas vozes que se façam eco dos protestos calados que jazem na alma de tantos.

 

Eis uma missão que não pode ser esquecida. Os membros da Igreja, nomeadamente os seus pastores, não hão-de esquecer que são representantes de alguém que, além de mestre, era um profeta.

 

E um profeta existe não para explicar os acontecimentos, mas para ajudar a transformar a realidade.

 

Dói um pouco, confesso, ver este entusiasmo todo com as romarias e, ao mesmo tempo, um conformismo tão grande com a persistente fome de tanta gente.

 

O mais que fazemos é dar do que nos sobeja. Já não é pouco. Mas é preciso (muito) mais. Só que perguntar por que as coisas estão assim parece não ser connosco.

 

Incomodar o poder é, de facto, muito incómodo.

publicado por Theosfera às 10:12

«É muito fácil viver com pouco desde que a pessoa não gaste muito para ocultar que tem pouco».

Assim escreveu (perspicaz e magnificamente) Millôr Fernandes.

publicado por Theosfera às 10:10

Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

O espectáculo é o acontecimento que extasia a visão.

 

É importante ver.

 

Mas é decisivo escutar.

 

As multidões que soltam palavras da boca para fora guardam aspirações e alimentam sonhos da boca para dentro.

publicado por Theosfera às 23:07

Há quem tenha riqueza para lá do dinheiro.

 

Warren Buffet é um dos homens mais ricos do mundo.

 

E o mundo ficou surpreendido com um texto que assinou no The New York Times, em que pede para que os super-ricos como ele paguem mais impostos.

 

Critica o Governo norte-americano pela redução de impostos às classes mais abastadas.

 

O seu lema é: «Parem de mimar os super-ricos»!

 

Não é habitual. Mas é de homem!

publicado por Theosfera às 22:44

Antes do rito, antes do dogma, antes da pastoral, a religião é sobretudo a mística.

 

Dizer mística é dizer mistério e dizer mistério é dizer Deus e o Homem.

 

Esta é, pois, a essência da religião, aquilo que a configura como religação.

 

Mas corre o risco de ser também o essencial esquecido. Daí tantos equívocos. Mas daí também o imperativo de regressarmos à mística sob pena de desfigurarmos aquilo que, supostamente, pretendemos relevar.

 

André Malraux terá dito que «o século XXI será religioso ou não será». Karl Rahner, por sua vez, avisou que «o cristianismo será místico ou não será nada».

 

Caso para (duplamente) perguntar: que tipo de religiosidade é a do nosso século?; estará o cristianismo a integrar devidamente a mística? O crescente interesse pelas religiões orientais não certificará uma insuficiente aposta na mística por parte das igrejas cristãs?

 

O conhecido teólogo Juan Martín Velasco alertava que que «o cristão de hoje ou é místico ou, muito provavelmente, não poderá ser cristão».

 

Isto significa, segundo ele, que o cristianismo carece de uma reconfiguração: «Há um cristianismo que se vai derrubando à nossa vista»: o cristianismo de massas vai dando lugar a um cristianismo da pessoa.

 

Nesta nova forma de ser crente, a mística impõe-se não como um exclusivo de uns poucos eleitos, mas como a raiz da religião para todos. Neste sentido, a mística «não consiste necessariamente em levitações, visões ou estigmas, mas na experiência pessoal da fé». Isto não quer dizer que não possa haver «místicos mais elevados».

 

Em qualquer caso, a mística sobressai como uma necessidade, um imperativo, uma urgência: «À crise de Deus só se pode responder com a paixão por Deus». Na actualidade, o teólogo dá conta da existência «de uma notável sede de transcendência e de Deus até porque o Homem não se contenta com o que é».

 

Ressalve-se, entretanto, que a mística não se pratica apenas de olhos fechados. Também se faz, como lembra Johannes Baptist Metz, de olhos abertos.

 

A mística, enquanto via unitiva, liga espiritualidade e solidariedade, pois vincula o amor a Deus ao amor pelo próximo.

 

Onde não há solidariedade existe um défice de mística.

 

Os mais recentes acontecimentos certificam uma absoluta necessidade de regressar ao fundamental.

 

Falta mística no mundo. E escasseia mística nas igrejas.

 

Há muito ruído e demasiado frenesim que facilmente se confundem com acção.

 

Do mesmo modo, algum autoritarismo e alguma estreiteza de horizontes denunciam uma debilidade do acolhimento do mistério.

 

A mística não é ruidosa. Mas, na sua discrição, é sumamente interpelante. E significativa.

publicado por Theosfera às 22:09

«Nada é permanente, excepto a mudança».

Assim escreveu (sábia e magnificamente) Heráclito.

publicado por Theosfera às 21:10

A sociedade tem de definir o que pretende dos seus membros.

 

Ninguém assume a culpa pelos desmandos que ocorrem. Ninguém quer abraçar a responsabilidade pela transformação que se deseja.

 

A família não parece funcionar. A escola não consegue intervir.

 

Há uma geração que está a crescer, mas que não sabe comportar-se.

 

Não sabe falar. Não sabe escrever. Não sabe vestir. Não sabe dar a vez. Etc. Etc.

 

Quem lhe fornece um padrão? Quem lhe indica um caminho?

 

O que vemos deixa-nos um pouco perplexos.

 

A educação é a missão mais nobre.

 

E educar é muito mais que ensinar.

publicado por Theosfera às 21:04

A Igreja não é uma democracia; mas tem de ser mais que uma democracia. Será uma filocracia (poder do amor). As relações entre os cristãos não podem ser ditadas pelo poder, mas só — e sempre — pelo amor.

 

Há, aqui, um poderoso filão a explorar e um longo caminho a percorrer: Marc Lambret assinala que a democracia transporta uma tentação: ignorar a religião. Enfrenta, porém, cada vez mais um desafio: integrar a religião. Por sua vez, a religião vai dando conta de que a democracia tem viabilidade não apenas na sociedade civil, mas também dentro dela própria.

 

Já na antiguidade cristã, ao lado do princípio nihil sine episcopo (nada sem o bispo), encontramos estes dois preceitos: nihil sine consilio vestro (nada sem o vosso conselho) e nihil sine consensu plebis (nada sem o assentimento do povo). Como anota Joseph Ratzinger, a democracia emerge «não de uma transposição insensata de um modelo estranho à Igreja, mas da própria estrutura interna da ordenação eclesial, enquadrando-se, por isso, nas exigências específicas da sua natureza».

 

Por conseguinte, a Igreja está dentro da democracia e a democracia não está fora da Igreja. A Igreja tem lugar na democracia e a democracia tem lugar na Igreja.

 

A Igreja é um fenómeno (também) democrático e a democracia é um fenómeno (também) eclesial. Tudo isto mostra que, como belamente afirmava Vítor Hugo, «a liberdade é uma cidade imensa da qual todos nós somos concidadãos».

publicado por Theosfera às 20:59

É um nome que, provavelmente, dirá pouco a muita gente.

 

Trata-se de um teólogo que pertence a uma estirpe bastante rara. Era não apenas analista, não apenas docente, mas também militante e muito profeta.

 

Instruía com os lábios e ensinava com a vida.

 

Estava conotado com a teologia crítica. Mas as suas propostas eram feitas sem acrimónia.

 

Porfiava por uam renovação da Igreja, por uma recondução da Igreja a Jesus.

 

Julio Lois morreu ontem. Fica o seu exemplo. Paz à sua alma. Honra à sua memória.

publicado por Theosfera às 16:32

Recordo, com saudades, os tempos em que os líderes, quando surgiam, pareciam não poder ombrear com os líderes anteriores.

 

Era a sua acção que, depois, os distinguia e nos convencia.

 

Um exemplo.

 

Quando Helmut Kohl chegou ao poder, senti-me um pouco desapontado. Achei que aquilo era um golpe palaciano. Os liberais, que estavam coligados com Helmut Schmit, voltaram-se para Kohl. O pêndulo oscilava, o poder mudava.

 

Mas o que veio depois corrigiu a impressão. Com tantos outros passou-se o mesmo.

 

Agora, há quem convença com a retórica, uma retórica palavrosa e quase sem substância, é certo. Mas, mesmo assim, geradora de expectativas.

 

Basta, porém, muito pouco tempo para tudo ruir. Nem se salva o discurso, emparedado em mil contradições. Nem se salvaguarda a acção, sempre a seguir aos factos.

 

Hoje, as lideranças exercem quase uma função notarial. Limitam-se a seguir os acontecimentos. Interpretam-nos mal e não os transformam.

 

Um dos sintomas da crise mora aqui. Um dos sinais de esperança tem de passar por aqui: pelo aparecimento de novas lideranças. 

publicado por Theosfera às 16:07

É tempo de assumirmos que vivemos em trevas e, desse modo, procurarmos uma luz.

 

Senpre é melhor do que presumir que vemos a luz e passarmos o tempo a empurrarmo-nos uns aos outros.

 

Precisamos de encontro. Já basta de encontrões.

publicado por Theosfera às 16:05

Poucas são as vezes em que vou à minha terra natal.

 

Mas sempre que lá volto é como se de lá não tivesse saído.

 

Está lá o berço em que nasci. Está lá o chão em que cresci. Estão lá muitas pessoas que conheci. E, nesta altura, voltam lá outras pessoas que também foram saindo.

 

A minha terra, como tantas outras, espraia-se para lá das suas fronteiras.

 

Ela não vai de Forjães a Porto de Rei, nem de Poçarro às Víduas. Vai de Portugal até à Suiça, passando pela França, pelo Brasil, não faltando uma grande população nas imediações de Lisboa e do Porto.

 

Há uma vibração que se nota, uma luz que se acende, uma emoção que se solta, qualquer coisa que não se explica, mas que se entende.

 

Séneca dizia que «ninguém ama a sua terra porque é grande, mas porque é sua».

 

Não é pelo chão, não é pela paisagem. É por causa daquele chão, daquela paisagem e sobretudo por causa daquela franqueza acolhedora e sempre sorridente que eu amo a minha terra.

 

É também por causa da Senhora da Guia. Não é o centro geodésico da freguesia, mas é o coração sentimental da população. Está lá a capela. Está lá o cemitério. Está já lá, pois, uma grande parte de cada um de nós.

 

Vou lá poucas vezes. Mas, a bem dizer, nunca de lá saí.

publicado por Theosfera às 12:35

«Que a mão escreva na língua o que a língua há-de cantar».

Assim poetou (sublime e magnificamente) Daniel Faria.

publicado por Theosfera às 12:15

O multiculturalismo falhou, decretam os poderosos.

 

Mas o antimulticulturalismo já tinha falhado antes.

 

Quem se esquece de integrar arrisca-se a sofrer com a revolta dos que não se sentem integrados.

 

A intolerância é capaz de desesperar até o coração mais tolerante.

 

Mas a tolerância nunca pode ceder. Sob pena de deixar de ser o que é.

publicado por Theosfera às 12:12

«O homem vendido por outro pode não ser escravo. O que se vendeu a si mesmo, esse é o escravo absoluto».

Assim escreveu (pertinente e magnificamente) John Ruskin.

publicado por Theosfera às 12:10

A crise que atravessamos é mais filha da debilidade espiritual do que da fragilidade económica.

 

Tudo nasce da egopatia, a doença de um eu desmedido.

 

É urgente, por isso, desegoficar a nossa forma de estar no mundo.

 

Neste particular, Marx estava certo quando denunciou o desequilíbrio estruturante da sociedade capitalista. Nela emerge um homem rico de ter, mas vazio de ser.

 

É quase impossível conciliar uma riqueza de ser com uma riqueza de ter. Para haver um preenchimento de ser, tem de haver algum esvaziamento do ter.

 

Bob Marley deixou o apelo essencial: «Tens de dar o que tens a mais para receber o que tens a menos».

 

Mas, para isso, o nosso ocidente tem de se libertar do contágio egopático que o empesta.

 

O nosso paradigma ainda é primeiro eu e depois tu. Alguma vez conseguiremos instaurar um paradigma com base no primeiro tu e depois eu?

publicado por Theosfera às 11:26

Numa altura como a que estamos a viver, todos reconhecemos a necessidade de cortar na despesa, mas parece que ninguém está disposto a abdicar de nada. Só mesmo os pobres que, à partida, já foram compelidos a abdicar.

 

Não é fácil gerir a vida de uma família, mas quem ouve os protestos e, ao mesmo tempo, acompanha a realidade fica um pouco perplexo.

 

Há despesas que podiam evitadas. Não para sempre. Mas numa fase de aperto como esta.

 

Só que, para tal, seria preciso que a «geração à rasca» se convertesse na «geração coragem» de que agora se fala.

 

Sabemos que a festa é importante para o equilíbrio da pessoa. E, ainda mais, quando a crise espreita. Ela pode funcionar como uma preciosa vitamina para o depauperado espírito.

 

Uma coisa, porém, é a festa como encontro, como celebração, como alegria. Outra coisa, bem diferente, são as festas dispendiosas que se fazem por toda a parte.

 

É claro que existe sempre retorno para o comércio local. Mas isso existiria sempre, ainda que numa dimensão talvez mais modesta.

 

O que impressiona é que estas romarias configuram um clima de ostentação e um volume de despesas que nada têm que ver com a crise que atravessamos.

 

E já que é obrigatório cortar, mais valia cortar no lazer do que no comer.

 

Tenho a sensação de que ainda não nos capacitamos devidamente para a austeridade que vem aí.

 

O que se gasta na folia vai fazer falta no dia-a-dia.

 

O que se investe agora pode fazer falta depois. Não muito depois, diga-se. 

publicado por Theosfera às 11:02

Muitos dirão que é despeito. Outros não hesitarão em falar de ressabiamento e de frustração.

 

Creio, porém, que não nos cumpre julgar motivações íntimas. Cabe-nos apenas apontar factos.

 

E o facto deste dia é a notícia de um autarca que abandona o seu partido porque não aceita que, sistematicamente, se diga uma coisa e se faça outra.

 

Honrar a palavra deve continuar a ser o critério supremo de decisão.

 

Todos falhamos, sem dúvida. E há que ser tolerante com as falhas.

 

Mas é impossível que, em tão pouco tempo, se altere o discurso sabendo com se encontra a realidade.

 

Parece que há um discurso para ganhar as eleições e um outro discurso para agir após as eleições.

 

Somos donos do que calamos e escravos do que dizemos.

 

O escrúpulo pelo cumprimento da palavra dada e da promessa feita deve ser levado até ao limite do impossível. Quando este surgir, é bom que se explique.

 

Mas uma distância tão grande (e, ainda por cima, num período tão pequeno) entre o que se diz antes e o que se faz depois deixa-nos perplexos.

 

Compreendo, por isso, o autarca. Quando não há identidade, o melhor é sair.

 

Evitam-se equívocos. E salvaguarda-se a transparência.

publicado por Theosfera às 10:51

Medir o êxito de uma iniciativa pelo número é um critério. Mas será o único ou o mais importante?

 

É bom estar contente. Mas é fundamental não cair no deslumbramento paralisante. E é decisivo acolher a opinião dissonante. A crítica não é demissão. E pode ser um precioso contributo.

 

É sempre possível melhorar mesmo aquilo que está bem. Pascalmente falando, as transições são determinantes.

 

Transpor uma realização para a realidade é que faz a diferença. Porque a vivência, que pode ser estimulada por acontecimentos marcantes, será sempre testada no dia-a-dia.

 

O testemunho da verdade e a prática do bem constituem a melhor montra.

 

E, depois, é necessário aprender a vencer sem humilhar. É edificante saber triunfar sem derrotar.

 

 

publicado por Theosfera às 10:42

Não se sabe onde está Khadafi.

 

Não se sabe o que será a Líbia depois de Khadafi.

 

O passado parece estar, finalmente, encerrado.

 

Mas que futuro irá emergir?

publicado por Theosfera às 10:39

Portugal foi vice-campeão do mundo em futebol e a selecção teve uma merecida e apoteótica recepção.

 

Portugal tem a equipa que lidera os transplantes hepáticos em todo o mundo e nunca terá havido o menor reconhecimento.

 

Esta observação de Eduardo Barroso (que chefia o grupo) fez-me pensar.

publicado por Theosfera às 01:00

O tempo corre. Nós corremos no tempo.

 

O passado corre connosco.

 

A partir de certa altura, apercebemo-nos de que aquilo que somos é, cada vez mais, aquilo que fomos.

 

Quando reencontramos as pessoas que nos acompanharam na nossa infância e juventude, algo se acende em nós.

 

Não é apenas a saudade. É também a identidade.

 

Foram essas pessoas que testemunharam o nosso crescimento, a nossa abertura ao diferente.

 

Mesmo não nos vendo, vamos disseminando um pouco do nosso ser pelas partes do mundo onde elas estão.

 

A vida de cada um é um mistério que também se aloja nas pessoas que estiveram ao nosso lado nos primeiros passos da nossa existência.

 

Recordar é viver. E viver também é recordar.

 

Afinal, o que passou nunca passa totalmente.

publicado por Theosfera às 00:39

É fundamental olhar para o futuro. Mas o olhar do futuro não nos pode desviar do presente.

 

O futuro é uma construção de cada presente.

 

Por vezes, o sonho do ideal faz-nos descurar a aposta no possível.

 

Só o futuro pode gerar uma frustração. Não diria como Don DeLillo, mas faz bem pensar no que ele escreveu: «O futuro é sempre feito de comunhão e de igualdade. É por isso que o futuro falha. Falha sempre. Nunca consegue ser o lugar feliz que queríamos que fosse».

 

Nunca?

 

Será mesmo impossível tornar presente o futuro que sonhamos?

publicado por Theosfera às 00:37

1. A Jornada Mundial da Juventude, nos tempos videocêntricos em que vivemos, funcionou não só como acontecimento, mas também como sintoma.

 

Não há dúvida de que há algo que permanece intacto: a força agregadora da fé. Mas, em simultâneo, existe uma tendência que vai emergindo: é cada vez mais difícil lidar com quem tem uma visão diferente e um comportamento discrepante.

 

Foi mais fácil transpor uma distância grande para chegar a Madrid do que vencer uma distância pequena para, em Madrid, fazer encontro entre os manifestantes da Praça Cibeles e os contramanifestantes da Puerta del Sol.

 

É claro que não me revejo no espírito, nas palavras e nas atitudes dos chamados «indignados». Mas, como toda a gente, não posso ser insensível às interpelações que eles nos fazem chegar.

 

Estará Deus em eclipse nestes protestos? Ou não estará presente ainda que sob a forma de uma aparente ausência?

 

Não disse Lutero, na sua famosa dialéctica do Deus revelatus e do Deus absconditus, que Deus, quanto mais Se esconde, mais Se revela?

 

 

2. Martin Buber ofereceu o enquadramento essencial para esta discussão: «Um eclipse do sol é algo que tem lugar entre o sol e os nossos olhos, não no sol em si mesmo».

 

 É natural que a Igreja tenda a ver um eclipse de Deus no resto do mundo. Mas também não falta quem, no mundo, entenda haver um eclipse de Deus na própria Igreja.

 

 O Papa recorda que não é possível separar Cristo e a Igreja: «Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir «por conta sua» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele». O eclipse estará, pois, na sociedade.

 

 No entanto, há muitos que alegam a necessidade de se afastarem da Igreja para melhor se aproximarem de Jesus. Nesta óptica, o eclipse encontrar-se-á na própria Igreja.

 

 

3. O mais curioso é que, na década de 1970, até Joseph Ratzinger reconhecia a possibilidade deste eclipse de Deus na Igreja: «Se, antigamente, a Igreja era a medida e o lugar do anúncio, agora apresenta-se quase como o seu impedimento».

 

 Tudo isto só mostra que o caminho da Igreja tem de ser a mudança profunda e a reforma constante.

 

Na génese da Igreja, encontra-se a universalidade da presença de Deus. Há que não descurar a Sua presença explícita. Mas há que estar cada vez mais atento à Sua pluriforme presença implícita.

 

Os jovens contestatários da Puerta del Sol não constituem, como à primeira vista se pode pensar, um obstáculo. Eles configuram, cada vez mais, uma oportunidade para o diálogo.

 

 

4. Creio cada vez mais na presença discreta de Deus neste mundo. E não será onde Ele parece estar mais ausente que teremos de O tornar mais presente?

 

 Em Madrid, tivemos uma vibrante expressão de uma Igreja alegre, que consegue ser exuberante e que se mostra cheia de iniciativa.

 

É necessário que, em toda a parte, apareça também uma Igreja confidente, acolhedora e genuinamente solidária.

publicado por Theosfera às 00:36

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Terminaram as Jornadas Mundiais da Juventude.

 

Houve de tudo: vivência, alegria, contestação.

 

Não faltou sequer uma tempestade de emoções e um temporal de chuva.

 

Bastos motivos para não deixar de reflectir.

publicado por Theosfera às 22:14

Portugal não venceu a final. Mas, ainda assim, foi campeão.

 

Porquê?

 

Porque adiou a exibição das suas fragilidades para o último jogo.

 

Porque acreditou.

 

Porque nunca desistiu de tentar.

 

O sonho esteve quase a realizar-se.

 

Mas, mesmo que os sonhos não se realizem, fica o conforto da tentativa, da insistência.

 

Não é tudo. Mas não será a base de tudo?

publicado por Theosfera às 22:10

A esta hora, Adriano Moreira comenta, na televisão, a actualidade deste nosso tempo.

 

Um sábio que vale a pena ouvir.

publicado por Theosfera às 21:15

Os cistercienses, seguidores de S. Bernardo, estabeleceram-se em desertos, onde realizam um duro trabalho manual que é suficiente para o seu sustento e permite também vir ao encontro dos necessitados.

 

Conhecem um despojamento que os aproximade Jesus Cristo e dos apóstolos.

 

Rejeitam o sistema social da época, renunciam aos dízimos e feudos que vêm daqueles que têm autoridade feudal e, do mesmo modo, não aceitam os benefícios que poderiam ser propostos pelos homens da Igreja.

 

Com a ideia da igualdade, no mosteiro, não se faz caso da origem social dos monges; todos vivem do mesmo modo.

 

No que diz respeito ao abade, inclusive ao abade de Cister, encontram-se todos no Capítulo Geral ao mesmo nível.

 

A simplicidade de vida aparece nos hábitos, nas construções realizadas com linhas geométricas limpas, estilo despojado, sem decorações.

 

A espiritualidade não está dirigida a uma elite, mas a seres humanos de carne, permeados profundamente do desejo de se converter.

 

Este quadro estaria incompleto se não se fizesse menção do culto à Virgem das Dores e da Ternura, pronta para socorrer as mais diversas angústias, como para suscitar o respeito da mulher, numa sociedade bastante violenta.

publicado por Theosfera às 20:57

No passado sábado, foi dia de S. Bernardo, grande teólogo, grande santo, grande místico, grande orador, grande devoto de Nossa Senhora.

 

Conhecido como doutor melífluo, por causa da bondade que o exornava, não hesitava em recorrer à firmeza quando convicções fortes estavam em causa.

 

E nem sequer os seus superiores hierárquicos (bispos e papas), que ele venerava, ficaram à margem das suas admoestações.

 

Verberava, acima de tudo, a ambição, o fausto e o luxo. Porque vivia de e para Cristo, tudo fazia para o que o seu legado se perpetuasse. E o grande legado de Cristo é a simplicidade. Haverá algo que nobilite mais um cristão?

publicado por Theosfera às 20:56

Percebe-se a alegria, mas há que ter cuidado com a euforia.

 

A imprensa confessional do país vizinho está compreensivelmente feliz com o êxito da multitudinária Jornada Mundial da Juventude.

 

Num tempo em que a multidão funciona como barómetro para quase tudo, é importante que se saiba que também é possível juntar uma multidão enorme para rezar, para celebrar, para conviver.

 

Mas é bom não exponenciar em excesso o contentamento.

 

Hoje em dia, é possível congregar multidões em pouco tempo.

 

Depois, é bom que não se aproveite o sucesso para verberar em quem questiona, em quem tem uma visão diferente.

 

Não falta quem verbere os que, em consciência, formulam perguntas e levantam questões. São acoimados de falta de amor à Igreja.

 

O exclusivo do amor não está na posição consensuante. Pode estar igualmente na atitude discrepante.

 

Esquecemo-nos, amiúde, de que, no equilíbrio dos percursos, há um intercâmbio enriquecedor entre as respostas e as perguntas, entre as certezas e as inquietações.

 

Jesus foi um questionador do Judaísmo. E todos nós O louvamos por isso. Não é a pergunta a oração do pensamento?

 

Acresce que extrair daqui ilações sobre o próximo conclave parece um colossal exagero.

 

A humildade é sempre o melhor crédito dos discípulos de Jesus.

 

E o melhor fruto de uma Jornada Mundial é a vivência na jornada quotidiana de cada um.

 

Serenidade e muito ânimo.

publicado por Theosfera às 19:34

De vez em quando, o ouvido é sensível a outros géneros ou a outros executantes dentro do mesmo género.

 

Mas, invariavelmente, a insatisfação acende-se e a saturação sobrevém.

 

E, nessa altura, a alma reclama sempre pelo mesmo: por Bach.

 

Só a sua música é capaz de nos tocar verdadeiramente.

 

Em tempos de mediocridade, Bach transporta o selo da qualidade que o humano consegue gerar.

publicado por Theosfera às 15:55

1. Foi mais uma demonstração de capacidade. E terá sido um inesperado sinal de uma emergente dificuldade.

 

A Jornada Mundial da Juventude, nos tempos videocêntricos em que vivemos, funciona não só como realidade, mas também como sintoma.

 

Não há dúvida de que há algo que permanece intacto: a força mobilizadora da fé. Mas, em simultâneo, existe uma tendência que vai emergindo: é cada vez mais problemático lidar com quem tem uma visão diferente, com quem diverge, com quem contesta.

 

Foi mais fácil transpor uma distância grande para chegar a Madrid do que vencer uma distância pequena para, em Madrid, promover um encontro entre os manifestantes da Praça Cibeles e os contramanifestantes da Puerta del Sol.

 

Eis, pois, um retrato da nossa época e da nossa fragilidade nela.

 

As fronteiras já quase não existem entre territórios, mas parece que estão a reerguer-se entre as pessoas.

 

Há distâncias que podem ser pequenas no plano territorial e que, não obstante, podem revelar-se instransponíveis no âmbito do relacionamento.

 

É estranho que não tenha havido qualquer ponte entre as duas ocorrências. Pelo contrário, um muro de ruído terá sido cavado entre elas.

 

É claro que não me revejo no espírito, nas palavras e nas atitudes dos chamados «indignados». Mas, como toda a gente, não posso ser insensível às interpelações que eles nos fazem chegar.

 

À superfície, podemos sentir hostilidade. Mas, indo mais fundo, encontramos um clamor que não pode deixar de ser atendido.

 

Estará Deus em eclipse nestes protestos? Ou não estará presente ainda que sob a forma de uma aparente ausência?

 

Não disse Lutero, na sua famosa dialéctica do Deus revelatus e do Deus absconditus, que Deus, quanto mais Se esconde, mais Se revela?

 

 

2. João Paulo II olhava para o homem como uma oportunidade. Já Bento XVI parece encarar o nosso tempo como uma adversidade.

 

As palavras que usou para descrever o ambiente em que se vive a fé configuram um diagnóstico pouco menos que devastador: eclipse, amnésia, rejeição e negação.

 

De facto, logo à chegada, assinalou que, hoje, «se verifica uma espécie de “eclipse de Deus”, uma certa amnésia, senão mesmo uma verdadeira rejeição do cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de se perder a própria identidade profunda».

 

Se pensarmos nas igrejas, os dados são incontroversos: o afastamento é crescente e a relação é difusa.

 

E o Sumo Pontífice será o primeiro a reconhecer que, por muito extensa que tenha sido a multidão que a Jornada congregou nestes dias, ela está longe de corresponder ao que se passa em cada dia.

 

Será, porém, que estaremos perante um eclipse de Deus? Ou não estaremos diante de uma abertura a Deus fora do âmbito das mediações eclesiais?

 

Trata-se, sem dúvida, de um fenómeno muito discutível. Mas não se tratará também de um dado cada vez mais sensível?

 

 

3. Martin Buber enquadrava assim o sentido deste tão propalado eclipse de Deus: «Um eclipse do sol é algo que tem lugar entre o sol e os nossos olhos, não no sol em si mesmo».

 

É natural que a Igreja tenda a ver um eclipse de Deus no resto do mundo. Mas também não falta quem, no mundo, entenda haver um eclipse de Deus na própria Igreja.

 

O Papa recorda que não é possível separar Cristo e a Igreja: «Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir «por conta sua» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele».

 

O eclipse estará, portanto, na sociedade.

 

No entanto, há tantos que alegam a necessidade de se afastarem da Igreja para melhor se aproximarem de Jesus.

 

O eclipse não estará longe da própria Igreja.

 

Na década de 1970, o teólogo Joseph Ratzinger reconhecia esta situação ao escrever: «Se, antigamente, a Igreja era a medida e o lugar do anúncio, agora apresenta-se quase como o seu impedimento».

 

Tudo isto só mostra que o caminho da Igreja tem de ser a reforma constante e a mudança profunda. Para que as suas estruturas não ofusquem a sua fundamental identidade.

  

 

4. Não penso que Deus esteja ausente dos jovens que bradavam, com alguma intolerância e basta impetuosidade, na Puerta del Sol.

 

Também a eles (sobretudo a eles) é importante estender a mão. Eles não constituem, como à primeira vista se pode pensar, um obstáculo. Eles configuram, crescentemente, o terreno da missão.

 

Como avisa Kahil Gibran, «a vida de todos os dias é o teu templo e a tua religião».

 

E é, acima de tudo, pelo que fazemos (ou não) com os mais pobres e oprimidos que qualificamos (ou desqualificamos) o nosso testemunho.

 

É por isso que creio cada vez mais na presença discreta de Deus neste mundo.

 

E não será onde Ele parece estar mais ausente que teremos de O tornar mais presente?

 

E isso consegue-se sobretudo pela acção personalizada, pela escuta atenta, pela esperança mobilizadora.


 
publicado por Theosfera às 13:30

É mais conhecido pelas suas intervenções televisivas do que pela sua actividade clínica.

 

E, no entanto, Eduardo Barroso é um pioneiro no que aos transplantes hepáticos diz respeito.

 

É, além disso, um humanista que vai muito além da mera intervenção clínica.

 

Sem rebuço de recorrer ao que dimana do coração, assegura que «um beijo pode fazer mais que um antibiótico».

 

Vale a pena ler (e guardar) a entrevista que concedeu à Tabu.

publicado por Theosfera às 12:22

Do foi visto, acerca das Jornadas Mundiais da Juventude, sobra muita matéria para analisar, para reflectir e para continuar a caminhar.

 

É sempre belo o encontro e o efeito cénico destes eventos tem, sem dúvida, o seu impacto duradouro.

 

Mas o essencial da fé, que pode expressar-se em contexto de multidão, radica, sem dúvida, noutra latitude: no coração de cada um.

 

Por isso, permitir-me-ia relevar uma afirmação de D. José Policarpo, que passou quase despercebida, mas que pertence inquestionavelmente ao que de melhor soou a partir de Madrid.

 

Disse o Cardeal-Patriarca: «O que aguenta este mundo desviado ainda na sua dignidade e com esperança são aqueles que, no silêncio do seu coração, aprenderam a amar».

 

A montante de tudo resto está a pessoa: «A acção mais maravilhosa de Deus no mundo passa-se no coração das pessoas; em si, é extradordinário o que Ele faz acontecer de novo, de surpresa».

 

É preciso acolher este novo que ressoa, para lá das palavras e dos cânticos, no silêncio da escuta.

 

O mais belo é o que está a nascer nos corações. Nenhum ruído, de contestação ou de euforia, vale mais que a nascente de surpresa que emerge da profundidade. 

 

Após as jornadas de Madrid, há que investir na jornada de cada dia.

publicado por Theosfera às 11:39

E assim vai andando Agosto, entre a anestesia das festas e a anemia do desencanto.

 

Dir-se-ia que as festas servem de evasão para a descrença que já se instalou no espírito de muitos.

 

Os números do desemprego são alarmantes. Mas o que mais impressiona é outra cifra.

 

Mais de duzentas mil pessoas desistiram de procurar empregar.

 

Isto é que magoa.

publicado por Theosfera às 11:34

«Busca a verdade enquanto és jovem, porque, se o não fizeres, depois escapar-te-á das mãos».

Assim escreveu (brilhante e magnificamente) Platão.

publicado por Theosfera às 11:30

Há uma certa imaturidade no discurso e na acção de muitos dos actores da nossa vida pública.

 

Dir-se-ia que uma cultura adolescêntrica povoa o espaço mediático e o ambiente cívico.

 

Se quisermos ouvir alguma opinião com substância e horizonte, teremos de esperar por alguém que já dobrou os 80 anos: Eduardo Lourenço ou D. Manuel Martins.

 

Agora, é outro octogenário ilustre que nos avisa.

 

De Jacques Delors soa este grito: «É preciso abrir os olhos; o euro e a Europa estão à beira do precipício».

 

Quereremos dar um passo em frente?

publicado por Theosfera às 11:29

«Quem tem poder não tem telemóvel».

Assim escreveu (enigmática e magnificamente) Umberto Eco.

publicado por Theosfera às 11:28

A 19 de Agosto de 1991, fez na sexta-feira vinte anos, houve a tentativa de fazer recuar o processo de democratização na Rússia.

 

Gorbachev, Ieltsin e o povo foram determinantes.

 

Um regime implodiu. Mas, curiosamente, o fim do comunismo soviético constituiu o maior certificado da falência do capitalismo ocidental.

 

O adversário deixou de estar fora. Passou a estar dentro.

 

Como disse Nouriel Roubini, o Malagrida dos desastres financeiros, «o capitalismo pode autodestruir-se».

 

A humanidade, a leste e a oeste, sente-se à deriva.

 

Como nota Lipovetsky, este é o tempo da decepção.

publicado por Theosfera às 11:20

Há uma demissão cada vez maior na transmissão de valores e de comportamentos.

 

Acontece que esta demissão a montante depressa se transforma num sofrimento a jusante.

 

Isto é, mutatis mutandis, como quem chega a um trabalho novo. É preciso haver quem explique as normas, os horários, os objectivos. Se isto não for dito, não há ordem, não há produtividade. Todos perdem.

 

Ora, a sociedade está a demitir-se de mostrar, a quem a ela chega, quais os valores e princípios por que se rege.

 

Isto não contende com a liberdade. Isto é o que dá expressão e conteúdo à liberdade.

 

Alguém acha que a liberdade existe, por exemplo, sem respeito?

 

A liberdade não pode ser confundida com a ausência de lei. Ela é, pelo contrário, o melhor espaço para o acolhimento das leis.

 

Bem dizia Simone de Beauvoir: «O homem é livre, mas ele encontra a lei na sua própria liberdade».

 

Sucede que desleixamos este trabalho e confiamos demasiado numa assimilação inata.

 

Só que a inércia não funciona.

 

Se não oferecemos os valores em que acreditamos, arriscamo-nos a sofrer os efeitos da sua violação.

 

Se a sociedade não diz o que quer, pode receber (em troca) o que não quer.

 

publicado por Theosfera às 11:17

publicado por Theosfera às 10:45

Depois de Gandhi, Hazare.

 

Este activista dos direitos humanos iniciou um jejum até que o Governo da Índia aprove medidas para combater a corrupção.

 

Anna Hazere já tem 74 anos, mas não desiste da sua causa.

 

E, não querendo sacrificar ninguém, dispõe-se a imolar-se a si mesmo.

 

A Índia é pródiga em gestos de enorme grandeza e dignidade.

publicado por Theosfera às 08:39

Um dia, o Papa Eugénio III recebeu uma carta que o advertia para a pior das tentações: a ambição pela riqueza.

 

Dizia a missiva: «Vives junto do sepulcro de Pedro. Ele jamais se apresentou vestido de sedas, carregado de jóias, coberto de ouro, escoltado por soldados e acompanhado por aparatoso séquito. Mas, sem tudo isto, teve suficiente fé para acreditar que podia cumprir o mandato salvador: se Me amas, apascenta as Minhas ovelhas».

 

E concretizava: «Queres dizer-me que os Estados Pontifícios não patenteiam mais ambição que devoção? Que é que ressoa nos teus palácios senão a gritaria da ambição? Não transpiram afã de lucro as leis canónicas e a disciplina? Não pretende a voracidade italiana arrebatar os seus despojos com insaciável avidez?»

 

Quem terá sido o autor desta carta?

 

Posso adiantar que era alguém que amava muito a Igreja e o Papa. Por isso, usava a franqueza da advertência. Animava-o a esperança na mudança.

 

Foi um santo. Quem terá sido?

publicado por Theosfera às 04:09

De repente, os olhos e os ouvidos pararam, incréus.

 

Como é possível? Jesus egocêntrico?

 

Afinal, vendo mais e ouvindo melhor, a perplexidade era suavizada.

 

Egocêntrico seria Jesus, mas o Jorge. Não o Jesus Cristo.

 

Mesmo em relação ao primeiro, trata-se da opinião de um rival. Não sei se é verdade ou não.

 

Mas há nomes tão universais que é preciso atenção para ver, caso a caso, a quem se referem.

publicado por Theosfera às 03:38

A proposta veio na imprensa e, pelo menos, vale a pena meditar sobre ela.

 

Os acontecimentos de Londres, que são um ícone do estado geral do ocidente, escapam ao padrão a que nos habituáramos.

 

Ali, não há tanto luta pela justiça. Não foi gente pobre que esteve na génese dos protestos. Gente pobre esteve, sim, entre as vítimas dos protestos.

 

Há uma geração que vai crescendo sem horizontes, sem sentido, sem valores.

 

O fim do serviço militar obrigatório, saudado por todos, deixou um vazio não preenchido. Trata-se de uma ausência de disciplina que muita falta faz.

 

Entre os 16 e os 30 anos, não faria mal que as pessoas fizessem (durante um ano, por exemplo) um serviço cívico obrigatório.

 

Era bom que se seleccionassem prioridades e que os mais novos, em troco dos apoios que recebem e da formação de que precisam, doassem o seu tempo e as suas capacidades em trabalhos positivos em favor do próximo.

 

Só direitos, sem deveres, é um (des)caminho que não augura grande resultado.

publicado por Theosfera às 00:45

Sensações estranhas, contrastantes, as que temos por estes dias.

 

Por um lado, pessoas há que passam privações. Que já não conseguem pagar a luz, nem comprar mantimentos.

 

Mas, por outro lado, continuamos a ver gente a passear-se com ar de veraneio, fazendo gastos de pasmar.

 

Há qualquer coisa que não bate certo nas contas que os nossos olhos avistam!

publicado por Theosfera às 00:06

A prosperidade está a chegar à China, mas a liberdade tarda em acompanhá-la.

 

As pessoas vivem melhor, mas não se sentem bem.

 

Os preços também sobem. E o poder continua a colocar uma muralha à frente dos direitos.

 

Da China pouco transpira para já. Mas um vulcão, por muito tempo que demore, acaba por entrar em erupção.

 

O povo chinês dispensa violência. Mas já merece um surto de liberdade.

 

Um sexto da humanidade está reprimido. Até quando?

publicado por Theosfera às 00:02

Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

Durante os próximos dias, o blog não será renovado com textos.

 

Estarei em recolhimento.

 

Muita esperança e paz para todos!

publicado por Theosfera às 21:49

Deixa-te levar pelo vento da esperança e nunca abandones o halo da bondade.

publicado por Theosfera às 21:49

«O que há de novo no mundo contemporâneo não é o facto nem mesmo o grau de inumanidade que a persistência da fome, da doença, da total exclusão de milhões de homens de um mínimo de dignidade ou até da hipótese de sobrevivência, mas a constatação de que esse fenómeno coexiste com o espectáculo de uma civilização aparentemente dotada de todos os meios, de todos os poderes para a abolir».

Assim escreveu (esplendorosa e magnificamente) Eduardo Lourenço.

publicado por Theosfera às 21:48

Mais um dia quente, mas não muito caloroso. Terá sido, antes, um dia explosivo.

 

No Iraque, de que já pouco se fala, 50 mortos e muitos feridos em mais um atentado.

 

No Reino Unido, um individuo polaco de 30 anos apunhalou até à morte o pai, a mulher, os dois filhos e mais outras três pessoas.

 

Em Valladolid, uma monitora é suspeita de ter assassinado, por asfixia, três crianças.

 

Um recepcionista é abatido em Portimão.

 

Um segurança é morto na Régua.

 

E é num mundo assim, pejado de sangue, que temos de semear alguma esperança...

publicado por Theosfera às 21:27

O avolumar da crise e o estreitar de horizontes trazem para a discussão uma possibilidade que, ainda há meses, seria tida como despropositada: a saída de Portugal do euro.

 

Poderá ser uma tragédia, como garantiu Durão Barroso. Mas a continuidade também não deixará de ser um drama.

 

João Ferreira do Amaral foi dos primeiros a aventar essa hipótese. George Soros terá sido dos últimos a defender essa via.

 

Entre uma permanência e uma saída não haverá alternativa? Parece haver uma que Gustavo Cudell enuncia: uma saída suave, gradual e negociada.

 

O empresário não auspicia qualquer êxito para a estratégia que tem vindo a ser seguida. Considera-a mesmo como desastrosa: «Aumenta as dívidas, os juros e o desemprego e, consequentemente, faz minguar a economia dos países resgatados».

 

O problema está no euro: «O euro não funcionou nem vai funcionar, porque os países são completamente diferentes em cultura, dimensão do PIB per capita e competências ou "saber fazer" das populações. Neste momento, o euro é uma doença crónica para todos os países e os resgates são aspirinas para atenuar sintomas e anestesiar as populações».

 

Está visto que a entrada no euro ocorreu muito cedo, quando o país mais não tinha que uma convergência nominal com a média europeia. Só que faltava a convergência real. Não havia condições de produtividade, nem de competividade.

 

Mas se, na altura, era cedo para entrar, hoje parece ser tarde para sair.

 

No entanto, Gustavo Cudell vislumbra um caminho: uma saída gradual. «O processo terá de passar pela renegociação da dívida, incluindo um perdão parcial, por renegociar prazos e taxas de juro e por sair do euro».

 

Antevê, de resto, que os países mais ricos (como a Alemanha, a Holanda e a Áustria) também tenham de abandonar já que também estão a ser afectados.

 

Voltando o escudo, «as importações baixam, as exportações sobem, o desemprego cai, o turismo sobe, os imóveis transaccionam-se, o desemprego e o défice baixam. Desaparece o colete de forças do euro. Podemos respirar de novo e recuperar a soberania de Portugal (pelo menos em parte), que nos foi roubada de forma gradual».

 

O problema é que, no meio de tudo isto, houve economia a mais e política a menos. Tudo foi estribado em função dos mercados e do lucro.

 

Cada cimeira, que aponta uma solução, é logo desmentida pelo evoluir dos acontecimentos.

 

Sem uma verdadeira união política, não será possível qualquer união monetária.

 

Só é pena que alguns não tenham visto o que, na altura da adesão ao euro, era visível aos olhos de muitos.

publicado por Theosfera às 19:48

Bill Clinton ganhou umas eleições praticamente com uma frase. «É a economia...» (não coloco o vocativo que se seguia).

 

Nos inícios de 90, o mundo estava focado na importância da economia.

 

Hoje, verificamos que uma economia desregulada e sujeita à roda livre dos mercados provoca a entorse da sociedade. E, no limite, afoga a própria economia.

 

É por isso que se voltam a ouvir vozes, inclusive entre os economistas, alertando para a centralidade da política.

 

Tem de ser a política a definir o curso da economia. Uma política centrada no Homem e focada da solidariedade e na justiça.

publicado por Theosfera às 19:08

A carta foi uma forma de comunicar que se manteve actual ao longo de séculos.

 

Hoje, um mail já parece uma peça de museu.

 

Depois do mail, já experimentámos o sms, o twitter, o facebook.

 

E o primeiro mail em Portugal foi enviado há apenas 26 anos, a 15 de Agosto de 1986.

 

É tudo tão célere! É tudo tão efémero!

publicado por Theosfera às 19:03

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