O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sábado, 13 de Agosto de 2011

Já tínhamos saudades (e, mais do que saudades, necessidade) do desassombro profético de D. Manuel Martins.

 

É um homem que não cuida do melindre das palavras, mas que está inteiramente focado num desígnio: transformar (e não apenas interpretar) a realidade.

 

Na entrevista que dá hoje ao Expresso, abre o coração e toca em muitas feridas.

 

Relativamente à crise dos anos 80, entende que o panoram actual é mais preocupante.

 

A diferença está na (ausência de) esperança. Naquele tempo, «vivia-se uma situação de sofrimento, mas cheia de esperança». Agora, está convencido de que «estamos numa situação má, amanhã vamos estar numa situação pior e, depois de amanhã, vamos estar numa situação muito pior».

 

Acresce que só começamos a dar conta da crise no tempo das suas consequências, quando devíamos ter dado conta dela na altura das suas causas. Foi quando começámos a implantar «a filosofia económica» em que estamos a viver.

 

Tudo isto provoca alterações não só nas instituições, mas também no interior das pessoas. Para D. Manuel Martins, os nossos costumes já não são tão brandos. «Temos boa gente, mas, quando for preciso, também deixamos de ser boa gente».

 

O Programa de Energência Social é insuficiente porque «não vai às causas». E, neste particular, a distribuição de remédios à beira do prazo de validade merece um juízo severo: «Isso é feio. Pode não fazer mal, mas é feio: "Iam ser deitados fora, mas, como ainda se podem aproveitar, vamos dá-los ao pobrezinhos". É como se o Estado fosse o director de um asilo. Mas admito que, em certas circusntâncias, o Estado, para providenciar a situações de gravidade extrema, tenha de funcionar com esse espírito. Só que é preciso ter modos. Se com o dar se pode estar a fazer uma acção necessária, com o modo de dar pode estar a ofender-se a pessoa».

 

Quanto à Igreja, D. Manuel reconhece o mérito da sua intervenção, mas nota a necessidade de mais testemuho. Não basta apoiar os pobres. É necessário que se identifique mais com os pobres. A Igreja deve ser, ela mesma, pobre, abandonando gestos que possam ser conectados com a ostentação.

 

E dá um exemplo.

 

«Devíamos ser capazes de vender esse ouro todo que anda ao pescoço dos santos nas procissões. Os cordões e os anéis que o povo quer ver pendurados nos santos, para que prestam? Porque não vendemos isso tudo, deixando só as coisas de valor histórico e artístico?. A Igreja é um grande sinal do amor de Deus no mundo e deve reflectir o rosto materno de Deus, mas eu estou em crer que a maior parte não vê isso na Igreja por falta desses sinais. Digo-o com muita pena».

 

Este é um atavismo endémico que temos dificuldade em purificar. A melhor homenagem a Deus não está em peças de ouro, mas no amor ao próximo.

 

Confesso que esta época deixa um pouco da amargura na alma. Este frenesim com as festas tem muito de diversão e alegria, mas tem muito pouco de cristão.

 

O dinheiro que se gasta nas festas poderia alimentar tanta fome. E nós deitamos foguetes. Razão tinha, pois, D. Manuel Vieira Pinto quando asseverava que o cristianismo português tinha/tem «muitas procissões e pouca profecia».

 

A proximidade da hierarquia com o poder recebe de D. Manuel Martins uma curiosa explicação: «Fomos criados como amigos do presidente da Junta, amigos do presidente da Câmara, andamos assim neste casamento e não queremos ofendê-los. Mas a Igreja tem de viver sempre em tensão com o poder. Caso contrário, não cumpre o seu dever, porque tem um ideal de vida que não se pode conformar com nenhum programa de governo».

 

 

publicado por Theosfera às 22:16

«É-se rebelde quando se é vencido. Os vitoriosos nunca são rebeldes».

Assim escreveu (pertinente e magnificamente) Anatole France.

publicado por Theosfera às 11:46

Costuma dizer-se que existem as identidades abertas e as identidades fechadas.

 

Hoje, temos também (e cada vez mais) as identidades explosivas.

 

Quem é revolta-se contra quem não é como ele.

 

Há identidades que só se mobilizam para a destruição.

 

Cuidado e muita atenção.

 

A prevenção é o melhor caminho e o único remédio.

publicado por Theosfera às 11:43

Não deixemos de estar atentos aos sinais que vêm de Londres.

 

Porventura, não iremos ter o mesmo porque, entre nós, o desânimo parece ter degolado o próprio impulso de revolta.

 

Mas, mesmo assim, muita atenção.

 

Despachar, como se está a ver, a culpa é tranquilizador, mas não evita réplicas.

 

Começa a gerar-se um consenso em torno da (ir)responsabilidade dos revoltosos. Tudo lhes é permitido, dizem, e é por isso que se tornaram intratáveis.

 

Há quem advogue, portanto, mais repressão e nada mais.

 

Este é um ângulo preguiçoso para lidar com a magnitude do problema.

 

É certo que a responsabilidade pessoal nunca poderá ser negligenciada, embora se dispense o espectáculo mediático que está a ser feito com a procura dos envolvidos. O recato é sempre salutar.

 

Só que, além do factor pessoal, nunca podemos perder de vista o factor social.

 

Há pessoas que estão a ser denunciadas pelos próprios pais. Eis um sinal de que já nem os relacionamentos familiares funcionam. Os pais já não sabem o que fazem os filhos. Os filhos já não atendem ao que dizem os país.

 

Acresce que as políticas estão a tornar-se cada vez mais restritivas. Os apoios estão a ser cortados. As oprtunidades de trabalho estão a ser restringidas.

 

As pessoas habituaram-se a ter direitos. Não foram formadas para pensarem também nos deveres.

 

O problema não é só a pobreza. É também a impossibilidade de se ter o mesmo estilo de vida.

 

Tudo somado, temos um problema sério. Há pouco trabalho no interior das pessoas. Há poucos horizontes no exterior das pessoas.

 

Estamos num tempo em que tudo é permitido e em que, ao mesmo tempo, tudo parece ser negado.

 

Há um défice pior que o défice: um défice de sentido que, por sua vez, degenera num défice de esperança.

 

publicado por Theosfera às 11:30

A assistência aos mais desfavorecidos é, sem dúvida, meritória e cada vez mais urgente.

 

Mas de um Governo não se espera uma mera assistência. De um Governo espera-se (e exige-se) que evite que as pessoas caiam em situações que as levem a recorrer à assistência.

 

O Programa de Emergência Social, recentemente anunciado, constitui, antes de mais, o reconhecimento de que a actual política está a atirar muita gente para a pobreza.

 

Não seria mais curial promover um modelo social justo que abrisse oportunidades?

 

O problema é que, além dos pobres que sempre o foram, há cada vez mais pessoas que têm pudor em assumir que estão na pobreza.

 

Esses nem pedir conseguem.

 

Além dos que estendem a mão, temos de pensar nos que já nem a voz conseguem fazer ouvir.

 

A estes talvez nem os medicamentos em vias de ser destruídos irão chegar.

 

Muitos estranham o conformismo que, apesar de tudo, se faz sentir.

 

Portugal não estará à beira de se tornar um vulcão. Mas pode estar na iminência de entrar numa prolongada anemia.

 

A indignação parece subsumir-se no desânimo.

publicado por Theosfera às 11:19

Há 50 anos começou a ser construído o nefando Muro de Berlim.

 

Já foi derrubado.

 

Mas há um outro muro a ser edificado. Não de cimento, mas de chumbo.

 

Este muro não separa lugares. Vai separando pessoas.

 

A riqueza excessiva e a pobreza brutal estão cada vez mais distantes.

 

Eis o verdadeiro muro da vergonha. Que só uma onda de solidariedade conseguirá defenestrar.

publicado por Theosfera às 11:11

«Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca».

Assim escreveu (surpreendente e magnificamente) Jorge Luís Borges.

publicado por Theosfera às 11:09

Quando se começa um trabalho, as pessoas desejam que se entre com o pé direito. É sinal de bom augúrio.

 

Destro, que quer dizer direito, é tido como hábil. Já sinistro, que quer dizer esquerdo, é visto como desastroso e, pior, cruel.

 

Tudo isto é puramente convencional, mas tem feito o seu caminho não apenas na semântica, mas também nos relacionamentos humanos.

 

Ser canhoto nunca foi fácil. O mesmo se passa, aliás, com a gaguez.

 

Achava-se que a ajuda, nestes casos, era introduzir no padrão: levar a fazer as coisas com a direita e repetir até falar expeditamente.

 

Não tenho conhecimento da existência de um Dia Mundial da Gaguez. Mas acabo de saber que existe um Dia Internacional dos Canhotos.

 

É hoje, 13 de Agosto.

publicado por Theosfera às 10:57

Neste dia, faz onze anos que morreu um grande bispo: D. António de Castro Xavier Monteiro.

 

Neste dia, outro grande bispo dá uma grande entrevista cujo título constitui um alerta imperdível. O pior é mesmo perder a bondade.

 

Muito dominados pelo ter, estamos a desleixar o ser e a esquecer o dar.

 

Confira chamada aqui.

publicado por Theosfera às 00:14

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