O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 02 de Agosto de 2011

É pelo diálogo que nos encontramos. E é pelo diálogo que nos desencontramos.

 

As nossas mágoas são mais desferidas pelas palavras do que pelos silêncios.

 

É por isso que a alma está saturada.

 

Ansiamos por um livro mas sem letras. Desejamos escutar mas não palavras. Queremos ver apenas o longe.

 

Perto já não somos. Só o distante nos atrai. Porque distante. Porque ainda não percorrido. Porque ainda não vivido.

 

O futuro seduz porque ainda não foi dito, porque ainda não foi escrito.

 

Ele tem a marca dos nossos passos.

 

Não são as palavras que decidem a nossa vida. A nossa vida é que decide as nossas palavras. Que até podem ser a forma de um prolongado silêncio.

 

Também se está presente pela ausência.

publicado por Theosfera às 14:10

A sabedoria vem por muitos meios.

 

A refeição não é só a ingestão do alimento biológico. Pela mesa também passa o alimento espiritual.

 

O pão é alimento e pretexto para a manducação da sabedoria.

 

Os antigos valorizavam muito a deipnosofia, o amor pela conversa à mesa de jantar.

 

Era bom que se recuperasse esta dimensão da refeição que os antigos acentuavam.

 

Comer é muito mais que comer. É um verdadeiro acto cultural.

 

Comer não é só para encher o corpo. Pode ser sobretudo para preencher o espírito.

publicado por Theosfera às 12:09

1. O grande problema do nosso tempo é que as identidades tendem a ser cada vez menos inclusivas e cada vez mais excludentes.

 

Depreendemos, com belicosa facilidade, que pertencer a algo implica, automaticamente, rejeitar o restante.

 

Isto contraria, flagrantemente, o dinamismo da globalização.

 

O nosso tempo é confontado com questões globais mas é também condicionado por particularismos locais.

 

Nunca, como hoje, tivemos a percepção de que fazemos parte de um único mundo, mas também nunca, como hoje, houve nacionalismos tão acirrados.

 

 

2. É claro que tem de haver sempre uma articulação entre o todo e a parte. O drama é quando, em vez de decidirmos a parte à luz do todo, acabamos por decidir o todo à luz da parte.

 

Aprendemos, desde Aristóteles, que a verdade está no todo. Mas vamos apreendendo que a decisão se encontra cada vez mais nas partes.

 

Ora, isto gera um ambiente de sectarismo e uma atitude de pressão que prejudicam o discernimento e obscurecem o sentido do agir.

 

Os últimos acontecimentos são, a este respeito, reveladores. Preocupantemente reveladores, diga-se.

 

Há visões parcelares, até bastante minoritárias, mas muito activas, acabando por liderar o curso dos factos.

 

O acordo que, no limite, livrou os Estados Unidos de entrar em incumprimento gerou alívio, mas não evitou insatisfação. Todas as negociações, dizem, foram impostas por grupos radicais.

 

O que aconteceu na Noruega representa também uma visão ultraminoritária, mas acabou por se mostrar estrondosamente eficaz.

 

 

3. Estamos confrontados com uma situação explosiva: a globalização para muitos não passa do alargamento do seu particularismo; quando este não é aceite, parte-se para a violência.

 

Assusta anotar a extensão dos particularismos que, hoje em dia, estão em presença. Temos não só particularismos nacionais, mas também particularismos regionais, particularismos empresariais, particularismos ideológicos, particularismos religiosos e até, como se viu no caso da Noruega, particularismos pessoais.

 

A dificuldade não está na sua existência. Cada entidade é legítima, cada instituição é singular e cada pessoa é única.

 

A dificuldade está na ausência de uma plataforma de coexistência sadia e de uma cooperação fecunda.

 

A dificuldade está na propensão para sobrepor, a qualquer preço, o particular ao global e na rejeição, quase sempre violenta, de outras particularidades.

 

 

4. A experiência mais elementar contém um precioso ensinamento, que urge apreender.

 

Ter um amigo não impede que se tenha mais amigos. 

 

Infelizmente, somos tributários de uma concepção que faz das identidades factores de exclusão, quando elas deveriam ser instrumentos de inclusão.

 

Pertencer a um clube não implica que não se simpatize com outros clubes. Pertencer a um partido não obriga a que não se reconheça pertinência a outros partidos.

 

É chegada a hora de perceber, de uma vez para sempre, que pertencer a uma religião é pertencer a toda a religião, que pertencer a um país é pertencer a todo o mundo, que pertencer a uma família é pertencer a toda a humanidade.  

publicado por Theosfera às 10:32

1. O atentado na Noruega marca uma nova etapa na onda de terror global.

 

Não são apenas os países mais expostos que estão atingidos. Nem os povos mais civilizados se vêem imunizados.

 

Acresce que o perigo não vem somente de fora. Ele pode emergir a partir de dentro.

 

O terrorismo não tem um único filão explicativo e não facilita grandes acções de prevenção.

 

Em sentido contrário ao seu conceito, a prevenção tende a ser, cada vez mais, posterior, conseguindo, no máximo, evitar que o problema se replique em excesso.

 

Este é, pois, um fenómeno em que nada pode ser dado por assegurado, à excepção de um crescente sentimento de insegurança.

 

A «era da ansiedade», de que nos fala Gideon Rachman, encontra aqui a sua expressão mais visível.

 

Nunca sabemos quando nem onde vai acontecer a próxima ocorrência. Mas temos quase a certeza de que algo vai acontecer.

 

Este clima é doentio, não estando muito distante da paranóia. O protagonista na Noruega tem características que o enquadram na sociopatia.

 

 

2. Tudo indica que o crime foi obra de um só autor. Mesmo assim, foram muitas as vítimas e múltiplos os factores.

 

Entre estes não faltaram referências, embora difusas, de índole religiosa. Anders Breivik tem sido apresentado como um «fundamentalista cristão».

 

O seu alvo não foi apenas uma entidade diferente em concreto, mas a própria aceitação de outras culturas, de outras civilizações. Trata-se, assim, de um combate contra o multiculturalismo.

 

É sumamente preocupante que o religioso seja, repetidamente, incluído nos actos mais violentos que a história regista.

 

Ainda não percebemos que pertencer a uma religião não significa despertencer a outra.

 

Não há dúvida de que, como advertia Zubiri, «viver é optar». Mas não é líquido que, na linha de Bergson, optar seja obrigatoriamente excluir.

 

Uma opção traduz sempre uma priorização. Mas não tem de configurar, necessariamente, uma rejeição.

 

Andrés Torres Queiruga insiste, a este propósito, num neologismo, tallvez cacofónico, mas bastante insinuante: inreligionação.

 

Descodificando, trata-se de entender que, pela sua natureza, uma religião acaba sempre por estar inserida noutra religião.

 

É suposto que todas as religiões sejam teocêntricas. A diversidade das suas propostas deve fazer resplandecer a centralidade de Deus.

 

 

3. No que toca ao Cristianismo, a reflexão tem avançado muito e a prática tem progredido bastante. Nas outras religiões, não deixa de estar presente um «Cristo desconhecido» (Raimon Panikkar), um «Cristo anónimo» (Karl Rahner), um «Cristo implícito» (Edward Schilebeeckx), um «Cristo intrínseco» ou um «Cristo germinativo» (Xavier Zubiri), etc.

 

Há, por isso, muito de verdade em todas as religiões uma vez que - refere Torres Queiruga - «cada uma delas é uma captação da presença reveladora e salvadora de Deus».

 

O pluralismo ilustra, na óptica fecunda de Zubiri, «a essencial possibilidade que tem o pensar religioso e o espírito humano de chegar a Deus por diferentes caminhos».

 

No fundo, quem faz parte de uma religião acaba por fazer parte de toda a religião. E nem quem não pertence a nenhuma delas fica à margem de todas elas.

 

Um agnóstico, um ateu ou um indiferente não assumem, como é óbvio, uma postura formalmente religiosa, mas não deixam de mostrar uma atitude religacional. Basta registar o interesse que revelam pelo fenómeno.

 

Isto explica, por exemplo, que o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa seja um agnóstico como Mário Soares.

 

 

4. A religião é a institucionalização da fundamental religação que lhe está na base e que não deixa ninguém de lado.

 

Daí que qualquer afastamento ou rejeição atentem contra a natureza genuína da religião.

 

A verdade da religião nunca passa pela apropriação do divino nem pela dominação do humano.

 

A verdade acontece sempre na tolerância e no respeito pela presença sinfónica de Deus no mundo.

 

Uma religião que condena e agride nega-se a si mesma. Na recusa do outro há, por uma espécie de refluxo, uma recusa dela própria.

 

Deixa de haver religião onde deixa de haver religação.

 

Quem se desliga dos outros não se religa a Deus. Porque Deus, assim acreditam os crentes, está em toda a parte.

 

A irreligião não consiste, em primeira instância, em não pertencer a qualquer religião. A irreligião consiste na recusa da ligação de cada um aos membros da sua religião, aos que militam noutras religiões e aos que não professam qualquer religião.

 

É assim que talvez o menos religioso dos homens seja aquele que só se preocupa com a sua religião. Com a sua posição face à religião...

 

publicado por Theosfera às 06:35

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