O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 26 de Julho de 2011

Aprendemos que antes do princípio era o nada.

 

Só que o nada é algo que não está ao nosso alcance. O nada, para nós, é, pelo menos, uma palavra, um som, um conceito.

 

Enfim, o nada é algo que existe para referir o que não existe. A inadequação não pode ser maior.

 

O mais sensato é dizer que, antes do princípio, não sabemos o que está, nem se está alguma coisa. Não podemos garantir que, antes do princípio, esteja o nada. Antes do princípio, só o silêncio.

 

No princípio, já era a palavra, isto é, a comunicação, o que nos chega, o eco do que foi acontecendo.

 

Antes desse princípio, é o silêncio. É o silêncio sobre o que aconteceu ou não terá acontecido. É o que remete para aquilo que não chegou até nós.

 

O big bang é o corte com esse silêncio anteprimordial. É aquilo sobre o qual já podemos conjecturar.

 

Sobre o que aconteceu ou não aconteceu antes, nenhuma ressonância. Só um prolongado silêncio. É a única respiração possível.

 

Antes do que existe não está, obrigatoriamente, o que inexiste. Está, sim, um repousado silêncio que faz a ponte entre a eternidade e o tempo.

 

É por isso que Thomas Carlyle está carregado de razão quando escreveu que «a palavra é sempre superficial como o tempo; só o silêncio é profundo como a eternidade».

publicado por Theosfera às 22:55

Coisa estranha, talvez. Mas, não raramente, são necessárias palavras para redescobrirmos a importância do silêncio. Não só pelo que as palavras dizem sobre o silêncio, mas sobretudo pelo que as palavras dizem sobre si mesmas.

 

As palavras, querendo dizer tudo, por vezes não dizem nada. Já o silêncio, não dizendo nada, permite que se oiça quase tudo.

 

É a falar que nos entendemos. Mas é também a falar que nos desentendemos.

 

É a falar que nos aproximamos. Mas é igualmente a falar que nos distanciamos.

 

As palavras tendem, cada vez mais, a adornar a realidade e a negar a própria realidade.

 

De certo modo, quando falamos, não falamos sobre a realidade. Limitamo-nos a falar sobre as palavras que a dizem. E, quase sempre, desdizem.

 

O silêncio não pretende dizer. Mas também não ambiciona negar. Deixa um vislumbre. Abre pistas. Insinua com subtileza. E permite que se faça o caminho.

 

Os nossos ouvidos estão saturados de palavras. E o nosso coração encontra-se pejado de mágoas pelas palavras que nos entram pelos ouvidos.

 

É possível que o silêncio não nos defenda. Mas também não serão as palavras que nos protegem.

 

Massacram-nos com a máxima de que quem cala consente. Que se saiba, quem cala só consente em não despejar palavras a esmo.

 

Muitas vezes, quem cala acredita mais no valor da palavra guardada do que no efeito da palavra proferida, quiçá gritada.

 

Recorrer a palavras para repor a verdade é, muitas vezes, um exercício inglório no dédalo intempestivo em que se transformou a nossa existência.

 

As palavras servem, hoje, mais para julgar do que para descrever ou contemplar. Deixaram de ter sabor. Têm, pelo contrário, demasiado veneno.

 

Creio, cada vez menos, no ruído das palavras que circulam por reuniões, conferências e simpósios.

 

Não falta quem proponha, quase diariamente, iniciativas para serem ouvidos.

 

Era bom que aqueles que falam e decidem se pusesem à escuta e se colocassem à espera.

 

Há quem tenha sempre uma palavra na ponta da língua. Como era importante que tivessem também um coração disponível para ouvir.

 

A pergunta é a oração do pensamento. Admiro, e temo, quem debita respostas atrás de respostas sem cuidar de atender às interrogações que palpitam.

 

O Livro do Silêncio, de Sara Maitland, é tecido de palavras que escorrem em muitas páginas. Mas remete, de uma forma refrescante, para o aconchego do silêncio.

 

Eis uma boa proposta para este Verão. A obra acaba de sair.

 

Mergulhemos neste livro. E habituemo-nos a escutar a palavra que nos vem não apenas dos lábios, mas também de um riacho, de uma brisa, de um monte.

 

O silêncio não é quando a comunicação acaba. O silêncio pode ser quando o encontro começa.

publicado por Theosfera às 11:52

O respeito pelos outros afere-se também pelo modo como falamos com eles. O amor pela pátria comprova-se pela forma como tratamos a língua.

 

A este nível, o panorama não é muito animador. Há um vendaval de decadência que ameaça agravar-se ainda mais.

 

Não estou a referir-me aos pruridos da excelência nem aos cumes da erudição. Reporto-me, tão-somente, aos mínimos das regras gramaticais.

 

O que se lê e o que se ouve não nos deixa descansados. Há cerca de 60 anos, quando o quadro não era tão desolador, havia quem se sentisse ofendido.

 

João de Araújo Correia, médico dos corpos que sabia ler as almas, confessava ser a língua portuguesa o seu «sangue materno. Quando ma ofendem, perco a serenidade».

 

Quem ofendia a língua ofendia-o a ele, exímio cultor da mesma. «A Língua é a minha dama. Se não fosse a Língua, que seria eu?. Se não fosse a Língua, não seria nada».

 

Era a esta língua pátria que recorria para dizer a vida e para tentar dizer a morte. A vida, por vezes, fazia o tremer. Já a morte sossegava-o. «Ponho-me a tremer por coisas de nada, mas se a morte se aproxima de mim, sossega-me como droga estupefaciente».

 

Morrer não é fácil, mas viver é muito espinhoso. O escritor, que não tinha medo da eternidade, sentia pena de não ter morrido novo. «Quase sem dar fé, quase de repente, vi-me ensarilhado numa competição de egoísmos».

 

É que, «ao abrigo do lar paterno, tinha eu pensado ou sentido que viver era sinónimo de sorrir. Enganei-me! O papel de viver, no palco social, é espinhoso. Cada actor, ainda que vista veludo, é mais javali do que príncipe».

publicado por Theosfera às 11:26

Há pessoas caladas que precisam de alguém para conversar.
 
Há pessoas tristes que precisam de alguém que as conforte.
 
Há pessoas tímidas que precisam de alguém que as ajude a vencer a timidez.
 
Há pessoas sozinhas que precisam de alguém para se divertir.
 
Há pessoas com medo que precisam de alguém para lhes dar a mão.
 
Há pessoas fortes que precisam de alguém que as faça pensar na melhor maneira de usarem a sua força.
 
Há pessoas habilidosas que precisam de alguém para ajudar a descobrir a melhor maneira de usarem a sua habilidade.
 
Há pessoas que julgam que não sabem fazer nada e precisam de alguém que as ajude a descobrir o quanto sabem fazer.
 
Há pessoas apressadas que precisam de alguém para lhes mostrar tudo o que não têm tempo para ver.
 
Há pessoas impulsivas que precisam de alguém que as ajude a não magoar os outros.
 
Há pessoas que se sentem fora e precisam de alguém que lhes mostre o caminho de entrada.
 
Há pessoas que dizem que não servem para nada e precisam de alguém que as ajude a descobrir como são importantes.
 
Precisam de alguém, talvez, como tu...
 
Autor Anónimo, in O Banquete da Palavra
publicado por Theosfera às 10:59

Rir faz bem, sentimos nós e confirmam os terapeutas. Mas que motivos temos nós, hoje, para rir?

 

Nisto, como em muitas outras coisas, aquiesço ao que diz António Vieira: «Quem conhece verdadeiramente o mundo, há-de chorar. E quem ri, ou não chora, não o conhece».

 

Há certos risos que têm algum sabor a alienação. Filia-se a felicidade no riso, esquecendo que Jesus proclamou felizes também os que choram.

 

O problema é que, em tudo isto, labora um não pequeno fingimento.

 

Não nos peçam para rir, quando há sobejos motivos para chorar.

 

Mesmo assim, não desistamos de semear o bem. O mal pode oprimir e esganar.

 

Como referia António Vieira, o mal vê-se de perto e o bem de longe.

 

Longe é um destino distante, mas não um lugar impossível.

 

Não hesitemos, se for caso disso, em chorar hoje. As lágrimas da noite hão-de ajudar a fecundar o sorriso de uma qualquer manhã.

publicado por Theosfera às 06:11

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