O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Nas proximidades da solenidade da Santíssima Trindade, o mistério por excelência, somos, uma vez mais, confrontados com os limites da linguagem.

 

Para falar de Deus, a linguagem parece um estorvo. E, de facto, não é uma estrada muito plana. É, acima de tudo, uma via muito íngreme, acidentada.

 

Fala-se, habitualmente, da Trindade como um sistema de relações (geração, espiração, pericorese, circumincessão, agenesia, etc.).

 

Raimon Pannikar disse a um bispo africano, aflito por não conseguir transpor este discurso para os seus diocesanos, que ele era um homem cheio de sorte. É que, em relação a Deus, é muito mais o que não sabemos do que o que sabemos.

 

Já Tomás de Aquino aludia à miséria das palavras (inopia vocabulorum). Como lembrava alguém, só é possível compreender Deus se não O quisermos explicar. A Teologia será sempre gaga. Só por tímidos balbucios deixará escapar algo do muito que (não) sabe.

 

Para falar de Deus, resta-nos o amor. Agostinho de Tagaste dizia que o Pai é o amante, o Filho o amado e o Espírito Santo o amor. É uma concepção colada à matriz neotestamentária: «Deus é amor» (1Jo 4, 8.16).

 

Entretanto, Mestre Eckhart, com a irreverência mística do seu génio, chega à mesma conclusão usando a linguagem do...riso: «O Pai ri para o Filho e o Filho ri para o Pai, e o riso gera prazer, e o prazer gera alegria, e a alegria gera amor».

 

Sublime! E, sem dúvida, muito comovente! 

 

publicado por Theosfera às 19:43

Há quem defenda, como acontece num diário desta quarta-feira, que o ministério da educação deve acabar, dando lugar ao ministério do ensino.

 

O argumento parece pertinente, mas não deixa de ser perigoso.

 

Alega-se que a educação deve ser dada em casa. O ensino deverá ficar para a escola.

 

Desde logo, sobressai o perigo de segmentar.

 

A educação deve, sem dúvida, começar em casa. Mas isso não quer dizer que tenha de ficar à porta da escola. Seria catastrófico.

 

Também se ensina na família e também se educa na escola. Também se ensina quando se educa e também se educa quando se ensina. Ensina-se educando e educa-se ensinando.

 

Acontece que, hoje em dia, passa-se cada vez menos tempo em casa e cada vez mais tempo na escola.

 

A educação não pode estar ausente da casa, mas tem de estar cada vez mais presente na escola.

 

O ensino só pode ocorrer no âmbito de um processo global de educação.

 

Se o ensino vem pela transmissão de conhecimentos, a educação chega pela incorporação de valores.

 

Em casa ou na escola, as crianças estão atentas às atitudes.

 

A educação não se limita ao que se diz ou ao que se faz. Decorre, antes de mais, do que se é.

 

Por isso, eu penso que a educação tem ser a base do ensino.

 

O problema do ministério não será passar da educação para o ensino, mas talvez em deixar de ser ministério.

 

Compreende-se que, em cada país, haja um mínimo de regulação dos conteúdos e dos padrões de avaliação. Mas o resto deveria ser remetido para a sociedade.

 

As famílias é que deviam assumir a liderança do processo educativo, propondo o tipo de escola que pretendem para os mais novos.

 

É possível que, com menos ministério, tenhamos melhor ensino e mais educação.

publicado por Theosfera às 09:54

1. É tarefa cometida ao novo Governo aplicar medidas, as medidas decididas pela troika. Mais importante, porém, que aplicar medidas será eleger uma prioridade. E esta só pode ser a educação.

 

Quando se fala de educação, a tendência é para pensar, imediatamente, no ensino e na escola.

 

Acontece que a educação é mais que o ensino e ultrapassa em muito a escola.

 

A educação envolve toda a formação e abrange todas as instituições.

 

Não se pode, pois, limitar a educação ao conhecimento e às competências que ele oferece. Ela é um compósito que não pode deixar de lado a sabedoria, os valores e os princípios, o comportamento e as atitudes.

 

A qualidade da educação não se afere unicamente na escola. A qualidade da educação afere-se na vida. E enquanto na escola, as avaliações são periódicas, na vida a avaliação é permanente. De facto, na vida, estamos sempre em teste. A vida é, ela mesma, um grande e constante teste.

 

A educação desponta, por isso, como um processo triadocêntrico cujos pólos são a família, a escola e a sociedade.

 

A educação é um itinerário que começa na família, passa pela escola e desagua na sociedade. Se a aliança entre estes elementos falha, é todo o percurso que se ressente.

 

 

2. Acontece que uma enorme ebulição atravessa todo este universo. Como era de prever, as transformações sociais afectaram a família e a escola.

 

Muitas das mudanças culturais foram incorporadas pela família e pela escola. O problema está na falta de critério e na ausência de discernimento.

 

O caminho tem sido mudar e, só mais tarde, reflectir. Ora, isto reduz o estatuto de liderança da educação. Em vez de ser a educação a transformar a realidade, é apenas a realidade que transforma a educação.

 

Tem havido sucessivas reformas na educação. Porventura, é chegado o momento de reformar a própria reforma, de a repensar e de a desdogmatizar.

 

 Neste sentido, é de esperar que não se estigmatize quem ousa questionar o pensamento dominante.

 

 No balanceamento de avanços e recuos, é importante que se olhe não somente para o que se ganhou, mas também para o que se perdeu.

 

 

3. Basicamente, perdeu-se a tradição e perdeu-se a autoridade. Esta percepção, que hoje salta à vista, era já verbalizada em 1957 por Hannah Arendt.

 

Isto nem sequer configura uma opção conservadora, coisa que a filósofa judia afastava liminarmente.

 

Pelo contrário, ela achava que, «para preservar o que é novo e revolucionário em cada criança», era necessário ajudar a fazer a mediação entre o antigo e o novo. Ora, isso passa por «um extraordinário respeito pelo passado».

 

De facto, só pelo conhecimento do antigo, chegaremos a conhecer o novo. Facilmente se compreende que o novo só é novo em relação ao antigo.

 

Por sua vez, a autoridade encontra-se seriamente debilitada em função de uma equivocada concepção do princípio da igualdade.

 

Tal concepção procura «igualar ou apagar tanto quanto possível a diferença entre dotados e não dotados, entre alunos e professores».

 

O objectivo passa a ser mais favorecer a integração do que estimular o talento e premiar o mérito.

 

Acresce que o crescente nivelamento entre todos os intervenientes do processo educativo é feito «à custa da autoridade do professor e em detrimento dos estudantes mais dotados».

 

 

4. A esta luz, são veiculadas algumas ideias que Hannah Arendt considerava perniciosas.  

 

A primeira é a de que o mundo dos alunos é autónomo e que estes se podem governar a si próprios. O adulto será um mero facilitador da organização e, neste caso, da aprendizagem.

 

O aluno tende a ser visto mais como membro de um grupo do que como uma pessoa. A autoridade com que ele se confronta é, em primeira instância, a da maioria do grupo. A reacção «a esta pressão tende a ser ou o conformismo ou a delinquência juvenil e, na maior parte dos casos, uma mistura das duas coisas».

 

Outra ideia denunciada tem que ver com o ensino. A ciência do ensino propende a desligar-se da matéria a ensinar. A formação privilegia mais o ensino do que o domínio de um assunto particular. O professor não precisa de conhecer a sua disciplina. Basta que «saiba um pouco mais do que os seus alunos».

 

Finalmente, Hannah Arendt critica a ideia de que «não se pode saber e compreender senão aquilo que se faz por si próprio».

 

A consequência imediata é a substituição do aprender pelo fazer. «O resultado é uma espécie de transformação das instituições de ensino geral em institutos profissionais».

 

Tais institutos são importantes para aprender coisas práticas, mas revelam-se «incapazes de levar as crianças a adquirir os conhecimentos requeridos por um normal programa de estudos».

 

Outra decorrência desta ideia é a crescente cedência da aprendizagem convencional pelo jogo. «Considera-se o jogo como o mais vivo modo de expressão». Sucede que este método acaba por manter a criança num nível infantil. Aquilo que «deveria preparar a criança para o mundo dos adultos, o hábito adquirido de trabalhar em vez de jogar, é suprimido em favor da autonomia do mundo da infância».

 

 

5. Tudo isto compromete o desígnio principal da missão educativa: preparar para a vida.

 

É vital ter em conta que «o mundo é mais velho, sempre mais velho do que nós, pelo que aprender implica, inevitavelmente, voltar-se para o passado».

 

Urge, portanto, vencer a nuvem de preconceitos que povoa o universo da educação. É preciso reinstaurar o elo perdido entre a família e a escola. É fundamental voltar a apostar no professor como mestre do saber e exemplo do agir. E é decisivo que, pelo menos, o Estado não ponha em causa a sua autoridade. Sem autoridade até a confiança se quebra.

publicado por Theosfera às 06:35

Quanto mais o saber nos visita, tanto mais o não saber nos assalta.

 

Só chega ao saber quem não desiste de aprender.

 

Partilha o que aprendes. E procura sempre o que (ainda) não sabes.

 

Até ao fim dos teus dias, vais ter motivos para procurar.

publicado por Theosfera às 00:02

«Envelhecer é afastar-se gradualmente do mundo das aparências».

Assim escreveu (sapiente e magnificamente) Goethe.

publicado por Theosfera às 00:00

Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Se fosse vivo, meu querido Pai faria hoje 108 anos!

 

Meu Pai está vivo. No Céu. Em Deus. Em mim.

 

Como sinto a sua falta!

 

Parabéns, Pai!

publicado por Theosfera às 23:20

Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

As palavras são urdidas nas margens do silêncio.

 

É o silêncio que enche as palavras.

 

Sem o caudal do silêncio, não há palavras. Há meros sons, ruídos sem alma.

 

Só quem mergulha nas profundezas do silêncio consegue chegar, refrescado, às praias do diálogo.

publicado por Theosfera às 20:45

Era médico, cirurgião, humanista.

 

Nasceu na minha terra natal, mas habituara-me a vê-lo de modo espaçado, pois a sua vida estava radicada no Porto.

 

Mas, quando vinha, atendia toda a gente e dava o encaminhamento devido aos casos mais preocupantes.

 

Era particularmente devoto de S. Francisco de Assis.

 

Soube que o Dr. Vítor Cardoso faleceu ontem.

 

Mais um homem de bem que a eternidade recebe.

publicado por Theosfera às 14:18

«Somos um país pacífico de pessoas revoltadas».

Assim escreveu (lúgubre e magnificamente) Miguel Torga.

publicado por Theosfera às 11:50

O melhor que se pode dizer de alguém é que deu toda a sua vida pelos outros.

 

Foi o que realizou Albino Brito de Matos pelo concelho onde nasci.

 

De uma pequena avenida (assim era Resende na década de 70) começou a fazer a grande vila que é hoje.

 

Rasgou estradas em todos os lugares, estabelecendo comunicações com todas as aldeias.  

 

Vi-o, pela última vez, há dois anos. Pessoa amiga diz-me que acaba de falecer.

 

Fica uma imensa obra atrás de si. Fica um belo rasto depois de si.

 

Era, acima de tudo, um homem de bem.

 

Paz à sua alma. O povo de Resende ser-lhe-á eternamente grato. 

publicado por Theosfera às 11:19

Hoje é dia de Sto. António. Homem de palavra intrépida e de uma conduta impoluta, posiciona-se como astro maior do firmamento da pregação com substância e sentido.

 

«Cessem as palavras e falem as obras. De palavras estamos cheios, de obras vazios».

 

Olhemos para a conduta deste Homem.

 

Deixemo-nos interpelar pela palavra da sua vida. Que foi tão eloquente como a palavra dos seus lábios.

publicado por Theosfera às 10:43

A prioridade parece ser o lugar. Não o lugar físico, mas o lugar funcional, o lugar do prestígio, o lugar do poder.

 

Na área do poder, há vozes a reclamar lugares alegando merecimentos. No âmbito da oposição, já foi desencadeada a corrida ao lugar de líder.

 

Enquanto o lugar está no centro, o que é central fica remetido para a periferia.

 

Não deixem procrastinar a esperança!

publicado por Theosfera às 10:39

1. Por mais irrefutáveis que sejam os factos, jamais existirá objectividade total e unanimidade plena diante deles.

 

Os factos podem ser objectivos, mas a pessoa que os apreende e analisa (por muito esforço que faça) será sempre subjectivo.

 

Alçada Baptista apercebeu-se: «Se fosse objecto, seria objectivo; como sou sujeito, serei sempre subjectivo».

 

Daí que a unanimidade perante um acontecimento seja, pura e simplesmente, impossível. Nélson Rodrigues, escritor brasileiro, foi ao ponto de proclamar que «a unanimidade é burra».

 

Mesmo em tempos de pensamento único, como tendem a ser os nossos, haverá sempre olhares divergentes e vozes dissonantes.

 

 

2. Sucede que, até diante daquilo que nos parece o bem supremo ou o mal absoluto, há sempre quem fuja ao consenso.

 

O caso de Hitler é eloquente. Perante as atrocidades que cometeu, as mortes que provocou, os ódios que acendeu e as feridas que abriu, será possível que alguém o admire?

 

Uma resposta afirmativa faz-nos arrepiar por todos os lados. As ocorrências não dão margem para dúvidas por muito branqueamento que alguma mentalidade negacionista pretenda implantar.

 

O certo é que, ultimamente, duas figuras mediáticas vieram sobressaltar a nossa consciência.

 

No início do ano, o estilista John Galliano foi surpreendido por um vídeo em que confessava o seu amor por Hitler.

 

Imediatamente foi demitido pela Christian Dior «em razão do seu comportamento de carácter particularmente detestável».

 

Mais recentemente, o realizador dinamarquês Lars von Trier escandalizou o mundo ao assumir que simpatizava com Hitler: «Acho que ele fez coisas erradas, sem dúvida. Quero apenas dizer que compreendo o homem. Não é o que poderemos chamar um tipo bom, mas compreendo-o bastante bem. E até simpatizo um pouco com ele».

 

É claro que, pouco depois, tentou emendar o que tinha dito, assumindo-se como um provocador, alegando ter sido mal interpretado e reconhecendo que «o Holocausto foi um dos crimes mais bárbaros cometidos contra a humanidade».

 

Mas já era tarde. E a organização do Festival de Cinema de Cannes expulsou-o.

 

A avaliação do nazismo será das poucas coisas que não admite pluralismo numa sociedade minimamente decente.

 

 

3. E, no entanto, há correntes ideológicas que, embora marginalmente, persistem em justificar, branquear ou até negar o Holocausto. Houve até uma tentativa (não muito bem sucedida, diga-se) de enquadrar teologicamente o nacional-socialismo!

 

O intento foi do bispo católico Alois Hudal que, em 1936, publicou um livro com o título Os fundamentos do nacional-socialismo, cujo argumentário faria arrepiar o mais insensível.

 

No estudo que faz do nazismo, Alois Hudal aponta algumas afinidades com o catolicismo, nomeadamente a comum convicção em torno da «obediência cega à autoridade».

 

Também o anti-semitismo hitleriano encontrava eco nos resquícios que perduravam da desconfiança cristã em relação aos judeus.

 

Como assinala Timothy Ryback, Alois Hudal «acreditava que os alemães poderiam criar uma forma de fascismo catequizado que representaria a mais poderosa força política e social do continente».

 

Acresce que aquele bispo, ao ler o Mein Kampf, ficara extasiado ao saber que Hitler tinha sido menino de coro no mosteiro de Lambach, cujo abade lhe surgia como a personificação do «mais alto e mais desejável ideal».

 

O livro é enviado a Hitler com uma dedicatória muito encomiástica: «Ao Fuhrer da ressurreição alemã»! 

 

 

4. O problema é que a reacção não foi a esperada.

 

Do lado nazi receava-se que a obra diluísse a essência do regime, ancorado num pretenso racismo científico.

 

Por sua vez, o Vaticano chegou a ponderar colocar o texto no Índex dos livros proibidos. O Papa Pio XI recusou-se a receber o autor e os bispos alemães chamaram-lhe «bispo nazi».

 

Já antes da publicação, o Pontífice garantira a Alois Hudal nada haver de espiritual no nacional-socialismo, assegurando não acreditar na possibilidade de um entendimento.

 

A vida do prelado foi completamente afectada. Depois da guerra, abandonou as suas funções e recolheu-se num mosteiro recôndito.

 

Por maior que seja o engenho, não será possível compabilizar o que, por natureza, é incompatível.

 

A objectividade nunca será total. Mas o subjectivismo também tem limites. E há factos que nem os argumentos mais retorcidos conseguem alterar.

publicado por Theosfera às 10:27

Domingo, 12 de Junho de 2011

«O professor medíocre ensina. O bom professor explica. O professor muito bom demonstra. O professor excelente inspira».

Assim escreveu (sublime e magnificamente) William Arthur Ward.

publicado por Theosfera às 22:47

O Espírito remete para o essencial. E o essencial é, sem dúvida, o amor.

 

Hoje, Frei Bento Domingues recupera um texto que Hans Kung cita acerca da centralidade do amor.

 

Convém que não percamos de vista que o amor faz (mesmo) a diferença.

 

Obrigação sem amor só desgosta;
Obrigação por amor dá constância.

Responsabilidade sem amor faz agir sem brandura;
Responsabilidade por amor produz solicitude.

Justiça sem amor é dureza de coração;
Justiça por amor incute confiança.

Educação sem amor suscita contradição;
Educação por amor dá paciência.

Inteligência sem amor torna manhoso;
Inteligência por amor torna compreensivo.

Amabilidade sem amor é apenas hipocrisia;
Amabilidade por amor é bondade.

Ordem sem amor torna mesquinho;
Ordem por amor torna magnânimo.

Competência sem amor torna capcioso;
Competência por amor torna digno de confiança.

Poder sem amor torna violento;
Poder por amor dispõe a ajudar.

Honra sem amor torna altivo;
Honra com amor torna modesto.

Posse sem amor torna avarento;
Posse por amor torna generoso.

Fé sem amor torna fanático;
Fé por amor torna pacífico.
publicado por Theosfera às 20:22

Estes dias são, para muitos, de descanso. Mas nem nos dias de descanso a alma consegue repousar.

 

O noticiário deste domingo está puído pela violência.

 

Em Quarteira e na Trafaria, a noite foi de agressões.

 

A alma das pessoas está desgastada.

 

Precisa de um espírito de mudança.

publicado por Theosfera às 16:10

A hora era de almoço e a televisão repunha uma série de ficção centrada num cão. Mas os meus olhos retiveram um cenário entre dois humanos.

 

A jovem médica foi ao encontro do já idoso clínico, que chefiava o departamento no hospital em que ambos trabalhavam.

 

Ele ficou sensibilizado pelo interesse que ela mostrava pela matéria. Tanto que iria propor o seu nome para vice-directora do serviço.

 

Foi aqui que ela interveio, não ocultando algum incómodo. Pensava que ele já sabia. A intenção do hospital não era que ela fosse colaborar com o velho médico. A intenção era que fosse substituí-lo.

 

Como se compreende, o senhor ficou lívido. Terminado o encontro, decidiu ir ao hospital para denunciar a situação e demitir-se de imediato. Assim fez, mostrando a sua indignação por terem tomado a decisão de o substituirem sem nada lhe dizerem.

 

Passados uns dias, batem-lhe à porta. Era a jovem colega. Vinha perturbada. Apesar de não ter culpa, achava que não era curial ficar com o lugar de alguém que a tinha ajudado. Por isso, queria pedir-lhe que ficasse ele com o lugar. Ela podia conhecer as modernas tecnologias, mas faltava-lhe o saber da experiência.

 

O idoso clínico ficou sem palavras e deveras comovido. Ele já tinha decidido. O mais difícil estava feito. Ela devia assumir o lugar.

 

Nesse caso, a jovem médica pediu-lhe, muito encarecidamente, que ele ficasse a assessorá-la.

 

Casos destes são cada vez mais raros. Parece mesmo que já só subsistem na ficção. A corrida aos lugares é cruel. Cada dia está cheio de casos. Um despojamento destes não é fácil. Quero crer que ainda haverá excepções.

publicado por Theosfera às 15:52

Uma Igreja que se descentra de si (para se recentrar em Deus e no Homem) não é uma fortaleza que se ergue; é, antes, uma porta que se abre, uma janela que se escancara, uma mão que se estende, um abraço que se dá, um rosto que sorri, uma semente que se lança, um coração que se oferece, uma luz que se acende, uma paz que se partilha.

 

O Evangelho de S. João é, consabidamente, bastante eclesial. Nunca usa, contudo, a palavra Igreja. Aparece, sim, a palavra Deus, a palavra Pai, a palavra Discípulo, a palavra Mundo, a palavra Homem, a palavra Vida.

 

Falemos do que Jesus falou. Façamos o que Ele fez. Amemos o que Ele amou.

 

Paremos um pouco. Ponhamo-nos à escuta e à espera.  Há tanto para ouvir. Tanto para aprender.

 

Como dizia Sebastião da Gama, «tenho muito que fazer? Não. Tenho muito que amar»!

 

Eis um belo tópico. Eis um deslumbrante programa. Eis o único caminho.

 

Só darei o bastante se der tudo.

publicado por Theosfera às 00:00

Sábado, 11 de Junho de 2011

É inevitável ver Jesus a partir da Igreja.

 

Mas é, cada vez mais, necessário rever a Igreja a partir de Jesus.

publicado por Theosfera às 13:24

Nada é novo. Nunca! Já lá estivemos, já o vivemos e já conhecemos. Uma crise financeira, a falência das contas públicas, a despesa pública e privada, ambas excessivas, o desequilíbrio da balança comercial, o descontrolo da actividade do Estado, o pedido de ajuda externa, a intervenção estrangeira, a crise política e a crispação estéril dos dirigentes partidários. Portugal já passou por isso tudo. E recuperou. O nosso país pode ultrapassar, mais uma vez, as dificuldades actuais. Não é seguro que o faça. Mas é possível.

Tudo é novo. Sempre! Uma crise internacional inédita, um mundo globalizado, uma moeda comum a várias nações, um assustador défice da produção nacional, um insuportável grau de endividamento e a mais elevada taxa de desemprego da história. São factos novos que, em simultâneo, tornam tudo mais difícil, mas também podem contribuir para novas soluções. Não é certo que o novo enquadramento internacional ajude a resolver as nossas insuficiências. Mas é possível.
Novo é também o facto de alguns políticos não terem dado o exemplo do sacrifício que impõem aos cidadãos. A indisponibilidade para falarem uns com os outros, para dialogar, para encontrar denominadores comuns e chegar a compromissos contrasta com a facilidade e o oportunismo com que pedem aos cidadãos esforços excepcionais e renúncias a que muitos se recusam. A crispação política é tal que se fica com a impressão de que há partidos intrusos, ideias subversivas e opiniões condenáveis. O nosso Estado democrático, tão pesado, mas ao mesmo tempo tão frágil, refém de interesses particulares, nomeadamente partidários, parece conviver mal com a liberdade. Ora, é bom recordar que, em geral, as democracias, não são derrotadas, destroem-se a si próprias!

Há momentos, na história de um país, em que se exige uma especial relação política e afectiva entre o povo e os seus dirigentes. Em que é indispensável uma particular sintonia entre os cidadãos e os seus governantes. Em que é fundamental que haja um entendimento de princípio entre trabalhadores e patrões. Sem esta comunidade de cooperação e sem esta consciência do interesse comum nada é possível, nem sequer a liberdade.

Vivemos um desses momentos. Tudo deve ser feito para que estas condições de sobrevivência, porque é disso que se trata, estejam ao nosso alcance. Sem encenação medíocre e vazia, os políticos têm de falar uns com os outros, como alguns já não o fazem há muito. Os políticos devem respeitar os empresários e os trabalhadores, o que muitos parecem ter esquecido há algum tempo. Os políticos devem exprimir-se com verdade, princípio moral fundador da liberdade, o que infelizmente tem sido pouco habitual. Os políticos devem dar provas de honestidade e de cordialidade, condições para uma sociedade decente.

Vivemos os resultados de uma grave crise internacional. Sem dúvida. O nosso povo sofre o que outros povos, quase todos, sofrem. Com a agravante de uma crise política e institucional europeia que fere mais os países mais frágeis, como o nosso. Sentimos também, indiscutivelmente, os efeitos de longos anos de vida despreocupada e ilusória. Pagamos a factura que a miragem da abundância nos legou. Amargamos as sequelas de erros antigos que tornaram a economia portuguesa pouco competitiva e escassamente inovadora. Mas também sofremos as consequências da imprevidência das autoridades. Eis por que o apuramento de responsabilidades é indispensável, a fim de evitar novos erros.

Ao longo dos últimos meses, vivemos acontecimentos extraordinários que deixaram na população marcas de ansiedade. Uma sucessão de factos e decisões criou uma vaga de perplexidade. Há poucos dias, o povo falou. Fez a sua parte. Aos políticos cabe agora fazer a sua. Compete-lhes interpretar, não aproveitar. Exige-se-lhes que interpretem não só a expressão eleitoral do nosso povo, mas também e sobretudo os seus sentimentos e as suas aspirações. Pede-se-lhes que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade.

 

Compete-lhes estabelecer objectivos, firmar um pacto com a sociedade, estimular o reconhecimento dos cidadãos nos seus dirigentes e orientar as energias necessárias à recuperação económica e à saúde financeira. Espera-se deles que saibam traduzir em razões públicas e conhecidas os objectivos das suas políticas. Deseja-se que percebam que vivemos um desses raros momentos históricos de aflição e de ansiedade colectiva em que é preciso estabelecer uma relação especial entre cidadãos e governantes. Os Portugueses, idosos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, merecem ser tratados como cidadãos livres. Não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados.É muito difícil, ao mesmo tempo, sanear as contas públicas, investir na economia e salvaguardar o Estado de protecção social. É quase impossível. Mas é possível. É muito difícil, em momentos de penúria, acudir à prioridade nacional, a reorganização da Justiça, e fazer com que os Juízes julguem prontamente, com independência, mas em obediência ao povo soberano e no respeito pelos cidadãos. É difícil. Mas é possível.

O esforço que é hoje pedido aos Portugueses é talvez ímpar na nossa história, pelo menos no último século. Por isso são necessários meios excepcionais que permitam que os cidadãos, em liberdade, saibam para quê e para quem trabalham. Sem respeito pelos empresários e pelos trabalhadores, não há saída nem solução. E sem participação dos cidadãos, nomeadamente das gerações mais novas, o esforço da comunidade nacional será inútil.

É muito difícil atrair os jovens à participação cívica e à vida política. É quase impossível. Mas é possível. Se os mais velhos perceberem que de nada serve intoxicar a juventude com as cartilhas habituais, nem acreditar que a escola a mudará, nem ainda pensar que uma imaginária "reforma de mentalidades" se encarregará disso. Se os dirigentes nacionais perceberem que são eles que estão errados, não as jovens gerações, às quais faltam oportunidades e horizontes. Se entenderem que o seu sistema político é obsoleto, que o seu sistema eleitoral é absurdo e que os seus métodos de representação estão caducos.

Como disse um grande jurista, “cada geração tem o direito de rever a Constituição”. As jovens gerações têm esse direito. Não é verdade que tudo dependa da Constituição. Nem que a sua revisão seja solução para a maior parte das nossas dificuldades. Mas a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis.

 

Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia. A liberdade necessita de Justiça, tanto quanto de eleições.Pobre país moreno e emigrante, poderás sair desta crise se souberes exigir dos teus dirigentes que falem verdade ao povo, não escondam os factos e a realidade, cumpram a sua palavra e não se percam em demagogia!
País europeu e antiquíssimo, serás capaz de te organizar para o futuro se trabalhares e fizeres sacrifícios, mas só se exigires que os teus dirigentes políticos, sociais e económicos façam o mesmo, trabalhem para o bem comum, falem uns com os outros, se entendam sobre o essencial e não tenham sempre à cabeça das prioridades os seus grupos e os seus adeptos.

País perene e errante, que viveste na Europa e fora dela, mas que à Europa regressaste, tens de te preparar para viver com metas difíceis de alcançar, apesar de assinadas pelo Estado e por três partidos, mas tens de evitar que a isso te obrigue um governo de fora.
País do sol e do Sul, tens de aprender a trabalhar melhor e a pensar mais nos teus filhos.
País desigual e contraditório, tens diante de ti a mais difícil das tarefas, a de conciliar a eficiência com a equidade, sem o que perderás a tua humanidade. Tarefa difícil. Mas possível.

publicado por Theosfera às 11:19

Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

Quando revisito palavras e gestos de pessoas como João XXIII, quando releio os textos do Concílio Vaticano II, fico com a estranha sensação de que a clareira de sol daquele amanhecer deu lugar a um entardecer cinzento.

 

Urge replantar a esperança nos corações.

 

Importa perceber que a história tem a sua própria cadência. Avança do passado para o futuro. Não regride do futuro para o passado. E nem sequer estaciona no presente. O presente é transcorrência.

 

O tempo do Espírito não está longe do espírito do tempo.

 

Entender o tempo é o primeiro passo para acolher o Espírito que nele flui.

publicado por Theosfera às 23:02

Em Dia de Portugal, sabemos, com maior facilidade, o nome dos primeiros-ministros de Espanha do que de Portugal. Desde a instauração da democracia (aqui em 74, lá em 75), a Espanha conta cinco. E Portugal?

 

Em Dia de Camões, quase não se falou no nosso maior poeta.

 

Em Dia das Comunidades, ficamos a saber, uma vez mais, que os nossos emigrantes pensam, cada vez mais, em não voltar.

publicado por Theosfera às 16:26

Perder oportunidades é desolador. Mas perder pessoas é um desperdício sem remissão.

 

Ao ouvir António Barreto, o pensamento inquieta-se. Como é possível que o país não aproveite melhor uma pessoa desta envergadura?

 

Num tom pausado, o saber escorre e as verdades soltam-se. Não há palavras de circunstância. Tudo ressuma profundidade e pertinência.

 

A mensagem flui, escorreita.

 

É preciso que as pessoas se entendam. É fundamental ouvir os que se manifestam e escutar os que se abstêm.

 

Há ânsias reveladas e sonhos escondidos.

 

É necessário redescobrir a grandeza do nosso desígnio.

 

António Barreto é uma voz que não podemos sufocar.

 

Dizer que é um senador é dizer pouco. Ele vai muito à frente dos que se julgam estar na frente.

 

Não são assim tantos os sábios. Não desperdicemos os que restam.

publicado por Theosfera às 13:04

Há muitos que estão à espera que a religião não abafe o espírito da surpresa e da esperança. Que cesse a desconfiança em relação ao mundo e às novidades que nele fervilham. Que o discurso arrastado e sem chama possa dar lugar à palavra libertadora e com alma. E que se transmita sempre o que vem do fundo. A sinceridade é o eco epifânico da verdade. Deixemos a encenação para outros palcos. Nunca percamos a autenticidade.

publicado por Theosfera às 12:56

1. O 10 de Junho não é só um feriado para nós. É também um feriado sobre nós, sobre Portugal.

 

Tirando as cerimónias e discursos oficiais, além de mais um estendal de condecorações, que vestígios há de uma paragem para reflectir?

 

No limite, cada um vai meditando sobre si e sobre os seus. Os problemas de cada um já são suficientemente aflitivos. Pouco — ou nenhum — espaço sobra, assim, para a comunidade.

 

 

2. Somos um país pequeno, mas que, mesmo assim, não cabe em si.

 

 Conseguimos dar novos mundos ao mundo e, apesar disso, não resolvemos os problemas que asfixiam o nosso viver colectivo.

 

Temos passado, mas parece que não temos memória. Guardamos a história, mas não aparentamos ter muita vontade de continuar a fazer história.

 

 A síntese angustiada de Pessoa mantém-se pertinente: «Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez. Falta cumprir-se Portugal».

 

Hoje, voltam a dizer-nos que somos um país adiado, mas, nesse caso, já o somos há muitos séculos.

 

 

3. Não somos perfeitos. Às vezes, até nos mostramos contrafeitos.

 

Temos defeitos. Eis o nosso drama, eis também a nossa sorte. Se não fossem os nossos defeitos, o que nos motivaria? Se tudo já estivesse feito (e bem feito), que futuro nos restaria?

 

Houve algum momento em que Portugal não esteve em crise? Em que altura não se disse que vinham aí tempos difíceis?

 

 A tudo temos sobrevivido. Temos sobrevivido à realidade, cruel. E temos sobrevivido aos diagnósticos, nada estimulantes.

 

 Somos, enfim e como afirmava o Padre Manuel Antunes, uma excepção.

 

 Constituímos um paradoxo vivo. Somos «um povo místico mas pouco metafísico; povo lírico mas pouco gregário; povo activo mas pouco organizado; povo empírico mas pouco pragmático; povo de surpresas mas que suporta mal as continuidades, principalmente quando duras; povo tradicional mas extraordinariamente poroso às influências alheias».

 

 

4. Seja como for, continuamos a sentir Portugal, a fazer Portugal e, não raramente, a chorar Portugal.

 

 Tantas vezes, são essas lágrimas que nos identificam e pacificam. Aquilo que soa a desespero acaba por saber a esperança.

 

 Apesar das tardes sofridas, acreditamos sempre que uma manhã radiosa voltará a sorrir.

 

É por isso que nunca desistimos de nós. É por isso que, não obstante as nuvens, há sempre um Portugal a brilhar em milhões de corações espalhados pelo mundo!

publicado por Theosfera às 10:53

Quem é mais ateu? Quem mais nega Deus? O descrente que se assume? Ou o crente que se presume?

 

Não será que o ateísmo dos ateus, no fundo, é mais uma denúncia de muitos crentes em Deus do que uma negação do Deus dos crentes?

 

Quando se contesta a presença pública da fé será que há um incómodo perante Deus ou um desencanto diante do contra-testemunho dos crentes?

 

E, desse modo, não poderá ser o ateísmo uma busca de autenticidade? Não poderão estar, portanto, muitos ateus mais próximos de Deus?

 

Não serão as suas perguntas mais consistentes que as nossas respostas?

 

Quantos serão os crentes que se alojam no coração de quem se diz ateu?

 

E quantos serão os ateus que se escondem no íntimo de quem se diz crente?

 

Admiro os primeiros. Temo os segundos.

publicado por Theosfera às 10:52

Quinta-feira, 09 de Junho de 2011

Para seres grande, não precisas de ter tamanho.

 

Só precisas de ter alma.

 

A grandeza não está na altura. Está na profundidade.

publicado por Theosfera às 11:04

Desengane-se quem pensar que o poder é uma pura questão de estratégia ou de ideologia. O exercício do poder tem muito que ver com a saúde.

 

É o que David Owen nos mostra na volumosa obra que acaba de sair em Portugal: Na doença e no poder.

 

O experiente político inglês convoca uma série de casos em que demonstra que muitas decisões importantes para a história do mundo foram condicionadas pelo estado de saúde dos que as tomaram.

 

É por isso que os políticos devem publicitar não apenas as suas ideias, mas também o seu boletim clínico.

 

Mas se há doenças que os políticos trazem, há doenças que o próprio poder provoca.

 

David Owen detém-se bastante na síndrome de hubris, palara grega que tem que ver com arrogância, desprezo, superioridade, excesso de confiança. Traduz-se numa perda do sentido da realidade que o exercício do poder acaba, inevitavelmente, por trazer.

 

É de origem britânica o célebre adágio segundo o qual «todo o poder corrompe e o poder absoluto tende a corromper absolutamente».

 

Nada como estar de passagem e nunca deixar de olhar para baixo.

 

A política não pode ser uma profissão. Tem de ser um serviço transitório.

 

O poder tem de estar submetido à realidade. Não pode ser a realidade a estar submetida ao poder.

publicado por Theosfera às 10:55

«A tentativa de combinar sabedoria e poder só raramente foi bem sucedida e por pouco tempo».

Assim escreveu (atenta e magnificamente) Albert Einstein.

publicado por Theosfera às 10:44

Entende-se que os políticos se preocupem com o poder. Mas era bom que se concentrassem, um pouco mais, na mensagem, nos ideais, no exemplo, na conduta.

 

Não faltam políticos com desenvoltura no discurso e agilidade na estratégia. Sobressai, contudo, um défice de espessura. É tudo muito vaporoso, telegénico, fabricado. Em suma, aposta-se mais na pose que no porte.

 

O mundo é feito de mudança e as transições epocais invadem todos os sectores. Os políticos que triunfam hoje não triunfariam noutras alturas e vice-versa.

 

Os militantes parecem querer quem tenha muito tempo à sua frente. Não faria mal, porém, que se voltassem para pessoas que têm muito tempo atrás de si.

 

É o tempo que se vive a melhor iluminação para o tempo que há para viver.

 

Pessoalmente, pressinto que figuras como Jaime Gama e Luís Amado ainda teriam muito para dar.

 

O perfil humanista, a substância cultural, o tom moderado e o domínio das situações são ingredientes preciosos para os tempos que correm e para os tempos que estão para vir.

 

Há, porém, quem prefira mais frenesim, mais movimento, mais vibração.

 

As decisões dos outros são, obviamente, para respeitar. Mas as nossas convicções não devem ser para calar.

 

O que, hoje, está na penumbra verá, alguma vez, a luz do sol?

 

Assim espero.

 

Importante é que não se olhe apenas para onde os ventos correm.

 

O caminho não se faz apenas por onde a corrente nos leva, mas também para a voz interior nos conduz.

publicado por Theosfera às 10:44

O conceito de inteligência tem que ver, antes de mais, com leitura. Inteligente é o que sabe ler, é o que lê dentro, é o que desce à profundidade.

 

A leitura não se reduz ao livro. Há um movimento que vem da vida para o livro e que vai do livro para a vida.

 

Promover a leitura não é, pois, estacionar no texto. É também integrar-se no contexto que o motiva e que o recria constantemente.

 

O livro mais conseguido não é o de papel. As palavras, dizendo muito, nunca revelam tudo.

 

É por isso que o autor inicia o livro. Cada leitor fica com a missão de o continuar.

 

Vale sempre a pena revisitar um livro. Ele pode ser o mesmo, mas é sempre possível encontrar nele algo de novo.

 

Há livros que dão vida. Há vidas que dão livros.

 

Para escrever é necessário possuir talento. Mas é mais importante ter alma.

 

É por isso que muitos dos melhores livros nem sequer foram escritos em papel. Mas foram inscritos na vida. 

 

A grande lição dos livros é que, geralmente, as histórias acabam bem. Ora, isto é um convite.

 

Se nos livros tudo acaba bem, será impossível que na vida tudo termine bem?

 

Afinal, quem escreve livros são pessoas. Se as pessoas conseguem encaminhar tudo para o bem nos livros, não deixarão de fazer o mesmo na vida.

 

Esta noite, houve uma sessão de leitura no Colégio da Imaculada Conceição.

 

Dos grandes leituras d'ouro para os pequenos é o título da obra.  

 

Os textos foram escritos pelos mais crescidos e foram declamados pelos que estão a crescer.

 

Sentia-se uma osmose entre o livro e a vida, entre o sonho e a realidade, entre a tarde e a manhã, entre o presente e o futuro.

 

Os que leram já vão escrevendo. A sua alma é um livro aberto. Com palavras soltas. Que brotam de um coração puro. E de um olhar límpido e transparente.

 

Parabéns pela iniciativa.

 

Afinal, a humanidade é, toda ela, um enorme livro. Sem ponto final.

publicado por Theosfera às 09:56

Quarta-feira, 08 de Junho de 2011

Deste dia vem um apelo e emerge uma denúncia.

 

O apelo: que a Europa não tenha medo de Deus.

 

A denúncia: as pessoas estão a viver, cada vez mais, à margem da fé.

 

É sempre pertinente alertar.

 

Não há que ter medo de Deus. Nem há motivos para viver nas margens da fé.

 

Só que, com todo o respeito, não creio que haja medo de Deus nem que se viva nas margens da fé.

 

O que se passa é outra coisa.

 

Falamos de Deus e da fé, mas temos o pensamento nas igrejas.

 

As igrejas vão-se esvaziando, é certo. O que não quer dizer que a relação com Deus se esbata.

 

Há um encontro com o divino para lá do templo. A fé não se dilui na alma das pessoas.

 

O encanto por Deus é, muitas vezes, acompanhado por um desencanto pelas igrejas.

 

Até o Papa assinalou que a Igreja, chamada a ser um veículo de anúncio, pode tornar-se um obstáculo.

 

Cada um de nós é chamado a reflectir no que faz. E as próprias igrejas não podem deixar de meditar no que realizam.

 

Uma coisa salta à vista. O que disse Jesus à samaritana vai-se verificando. O templo é cada vez mais transportado para a vida, para o coração, para a profundidade.

 

O que importa é a relação com Deus, é a misericórdia, é a compaixão.

publicado por Theosfera às 16:29

Mesmo em democracia, há coisas que não devem ser ditas e há coisas que não devem ser feitas.

 

A democracia não é a ausência de normas. É o enquadramento das normas ao serviço do bem comum.

 

A discordância é sempre legítima. Mas a insinuação nunca é tolerável.

 

O que, ontem, disse Ana Gomes, pessoa que admiro, não é correcto. Mas é um sinal.

 

Maquiavel afirmou que, idealmente, o príncipe (no fundo, o governante) deve ser, ao mesmo tempo, temido e amado. E se não poder ser as duas coisas, mais vale ser temido do que amado!

 

O que estas (e outras) declarações mostram é que os líderes já não são amados nem temidos.

 

Parece que o ambiente já não coloca obstáculos a nada. Mas a consciência de cada um deve continuar a colocar alguns limites.

 

Não é sequer preciso haver leis. Basta que sigamos o imperativo que (quero acreditar) continua a fazer-se ouvir no fundo de cada pessoa. E que, no mínimo, preceitua que não se faça aos outros o que não gostamos que façam a nós.

 

Mas estou convencido de que tudo não terá passado de um lapso momentâneo. A serenidade e a elevação depressa retomarão o seu lugar.

 

Até porque o civismo é o cimento que alavanca a vida pública.

 

E da política, se não vier mais nada, devem vir os melhores exemplos. 

publicado por Theosfera às 11:58

Os partidos têm os seus defeitos, mas, mesmo com os seus defeitos, são essenciais para a democracia.

 

É importante, por isso, que sejam estimulados a melhorar o seu serviço e a optimizar os seus recursos.

 

Não há dúvida de que, quando se pensa em partidos, pensa-se em poder.

 

É inevitável que cada força partidária esteja focada na forma de chegar mais depressa ao poder e de se estabilizar, duradouramente, no poder.

 

Isso não impede que se reflicta sobre a sua matriz, identidade, vocação.

 

A elevada abstenção não indica apenas alheamento da vida política. Pode identificar também um segmento inexplorado de um eleitorado potencial. Trata-se, porventura, de cidadãos que estão à espera de ser convencidos. Por atitudes convincentes.

 

Eis, portanto, uma passagem que se abre: da desilusão à expectativa.

 

O PS entrou em processo de escolha de uma nova liderança.

 

Ainda que tal não seja verbalizado, é natural que a preocupação seja pensar naquela pessoa que melhor pode assegurar o regresso ao poder.

 

E o que está em discussão, para já, são nomes.

 

Seria bom que, a montante e a jusante deste debate, se fizesse um outro.

 

O PS é um partido estruturante do nosso regime democrático. Pugnou pela liberdade e liderou a entrada de Portugal na Europa. Tem no seu código genético uma referência de primeira grandeza como Antero de Quental.

 

Num tempo de esbatimento das ideologias, também o PS foi invadido, como é compreensível, por uma certa deriva tecnocrática. O pragmatismo assim o terá ditado.

 

Mas nota-se também uma grande nostalgia pela tradição humanista que este partido sempre mostrou. Tal tradição humanista levou a que, a certa altura, o PS atraísse não apenas os cultores do socialismo democrático, mas também paladinos de outros ideais como a democracia cristã.

 

O personalismo deixou de ter porto de abrigo na actual paisagem político-partidária. É por isso que as pessoas passam facilmente da direita para a esquerda e da esquerda para a direita.

 

Esta volatilidade pode agilizar o sistema, mas acaba também por certificar o esboroamento do tecido programático dos partidos.

 

Nestas eleições, quase não se falou de socialismo, de social-democracia ou de democracia cristã.

 

Os tempos são outros e as coisas mudam. O problema não é tanto a falência das ideologias, mas a ausência de ideais.

 

Os nomes que se perfilam para a liderança do PS avultam pela capacidade oratória, pela gestão das equipas e pela capacidade de adaptação aos novos tempos.

 

Mas não haverá alguém que consiga revitalizar a génese humanista, solidária e altruísta do socialismo democrático?

 

Quererá o PS gerar uma alternativa ou estará mais empenhado em preparar uma alternância?

 

Desta vez, o PS vai ter algo que costuma faltar: tempo.

 

E o tempo pode oferecer a moderação, a sensibilidade e a esperança de que todos precisam.

 

publicado por Theosfera às 11:57

Terça-feira, 07 de Junho de 2011

Os relatórios dos economistas assemelham-se, por vezes, aos vaticínios de Cassandra ou às profecias de Malagrida.

 

Dão por inevitável o descalabro. Só falta dizer a hora.

 

Se estas energias forem reencaminhadas para a esperança, poderemos vir a ter um fluxo de surpresa.

 

A realidade deve ser conhecida. Mas não poderá ser transformada?

publicado por Theosfera às 15:56

Numa altura em que as pessoas se sentem deslaçadas, é importante lembrar que o Espírito, como lembrou Hilário de Poitiers, é o laço.

 

O futuro devia unir-nos, mas parece ser o passado a dividir-nos e o presente a afastar-nos.

 

Descansamos no estafado cliché de que sempre foi assim. Ainda que tenha sido, não terá chegado o momento de tentar fazer diferente?

 

Precisamos de restaurar a confiança e de redespertar o fio adormecido da esperança.

 

Custa ouvir comentários, que povoam a paisagem cinzenta da comunicação social, onde a divergência para ter sido superada pelo ódio.

 

A decência será sempre o valor supremo.

 

Porque é que os vencidos são obrigados a retirar-se? Onde está inscrita essa lei não escrita?

 

Afinal, os outros só valem se nos conduzirem ao poder?

 

Os vencedores de agora já sabem com o que podem contar na hora do infortúnio.

 

Os aliados de agora estão à espera do momento seguinte.

 

Há um trabalho enorme a fazer no país. Há uma tarefa ingente a realizar no coração de cada um.

 

Amanhã será melhor não por haver mais dinheiro. Amanhã será melhor se o interior de cada um for diferente. Mais fraterno. Mais humano.

publicado por Theosfera às 11:54

Segunda-feira, 06 de Junho de 2011

Não comunicamos apenas quando abrimos os lábios.

 

A boca fechada não impede que a alma esteja aberta e o coração disponível.

 

Há coisas que não se dizem com palavras. O silêncio também tem um sortilégio surpreendente e uma eloquência poderosa.

 

Bem avisado andava o sábio Eurípedes: «Fala se tens palavras mais fortes que o silêncio, ou então guarda silêncio».

publicado por Theosfera às 22:44

Não foi só o PS a ser superado pela Oposição. Foi sobretudo o Governo a ser vencido pela Realidade.

 

A maioria dos votantes e a quase totalidade dos que não votaram disseram, antes de mais, o que não queriam.

 

O povo não quer mais austeridade. Está saturado de tanta austeridade.

 

Acontece que aquilo que as pessoas não querem é muito diferente daquilo que as pessoas acabaram por aprovar.

 

No fundo, ontem foi aprovada a continuação da austeridade. A tal austeridade que as pessoas não querem.

 

Daí que a realidade, que derrotou os vencidos, possa, daqui a algum tempo, derrotar os vencedores.

 

Vai haver alternância, mas pouco espaço haverá para a alternativa.

 

Há, entretanto, um mínimo que se espera. Que se fale verdade. Que não se negue a realidade. Que se aposte na justiça. Que se olhe para quem vive em dificuldade. Que haja desapego em relação ao exercício de cargos públicos.

 

Que o novo poder não faça do poder anterior pretexto para as coisas que não correrem bem. Que o novo poder encontre um suplemento de alento para que as coisas possam correr melhor.

 

O memorando da troika não deixa muito espaço de manobra. Mas pouco será limitar-se a fazer de outro modo o que já estava a ser feito.

 

O tempo já não é de culpas nem de desculpas. O tempo é de acção, de união e de seriedade.

 

Acabem-se os juízos sobre os erros do passado. Unamos esforços na construção do futuro.

 

Para já, parece sombrio. Cabe-nos dar-lhe motivos para reaprender a sorrir.

publicado por Theosfera às 11:37

O momento foi quase surreal e o incómodo tornou-se evidente.

 

Estava o ainda primeiro-ministro a responder a perguntas após ter anunciado a sua demissão, quando uma jornalista o confronta com a possibilidade de vir a ser envolvido em processos judiciais.

 

Os apupos foram sonoros e a perplexidade notória.

 

Acresce que a jornalista era da emissora católica portuguesa.

 

Confesso que até eu me senti arrepiado.

 

É preciso ter um sentido de oportunidade naquilo que fazemos.

 

Percebe-se que haja curiosidade quanto ao futuro dos políticos, mas importa ter uma noção dos limites.

 

Aceita-se que a função da comunicação social seja incomodar, mas a daí a provocar vai uma grande distância.

 

Independentemente da valoração da acção e do perfil do político em apreço, dava para ver que aquele não era um momento fácil.

 

Um político é, antes de mais, um ser humano.

 

Que estas atitudes sejam tomadas por alguém em nome de uma emissora católica só faz aumentar o grau de preocupação.

 

Não havia necessidade.

publicado por Theosfera às 10:24

«Se confessássemos todos os nossos pecados aos outros acabaríamos a rir-nos da nossa falta de originalidade».

Assim escreveu (pertinente e magnificamente) Kahil Gibran.

publicado por Theosfera às 10:13

É fundamental superar, de vez, o clima de crispação que ensombrou esta campanha.

 

Só com unidade, pontuada com ânimo e moderação, poderemos reconstruir o país.

 

O programa da troika (FMI+UE+BCE) irá ser executado por um duo (PSD+CDS). Mas ninguém pode ser dispensado.

 

Era bom que se apostasse não tanto nos mais conhecidos de cada partido, mas nos mais capazes do país.

 

O espírito não deve ser ocupar lugares, mas exercer uma missão. A competência é necessária. Mas o desprendimento não é menos estimável.

 

As finanças são determinantes no presente. Mas não se subalterne a educação. Ela é, pura e simplesmente, decisiva para o futuro.

 

Dizem que Portugal virou à direita. O importante é que siga à frente.

publicado por Theosfera às 09:53

Domingo, 05 de Junho de 2011

Não sendo fácil, o mais difícil não é ganhar eleições.

 

Não sendo impossível, o mais difícil é governar o país.

 

A partir de agora, começa o verdadeiro escrutínio.

 

Queremos crer que Portugal não é uma missão impossível.

publicado por Theosfera às 23:23

O povo já decidiu e os resultados estão escrutinados.

 

Ninguém pode ser dado como vencido.

 

E só haverá vencedores se for o país a triunfar.

 

Amanhã começa a verdadeira campanha: a de recuperar Portugal.

 

Ninguém pode ser dispensado desta tarefa. Todos são necessários para esta missão.

publicado por Theosfera às 21:59

Este é o momento da expectativa, da ansiedade.

 

Dentro de minutos, será anunciada a decisão do povo.

publicado por Theosfera às 19:35

Habitualmente, estas efemérides assinalam aquilo que está em causa.

 

O Dia Mundial do Ambiente chama a atenção para o nosso (des)cuidado para com a natureza.

 

Nos últimos tempos, tem havido sobejos intentos de uma Teologia ecológica.

 

A partir da criação, há elementos de sobra para um crente se empenhar activamente na promoção de uma cultura de respeito para com a totalidade da obra de Deus.

 

Jürgen Moltmann, por exemplo, mobiliza-nos para a urgência de uma ética da reconciliação com Deus, com os homens e com a criação.

 

Haja em vista, desde logo, uma evidência: por cada vitória do Homem contra a natureza, surge uma revolta da natureza contra o Homem.

 

É que Deus perdoa sempre, o Homem perdoa às vezes, mas a natureza não perdoa nunca.

 

Ela sente-se. Estrebucha. Estremece. E revolta-se.

 

Saibamos, pois, respeitá-la e promovamos um ambiente são, harmonioso, sereno e pacificante.

publicado por Theosfera às 12:00

É natural que o próximo Parlamento e o futuro Governo, seja qual for a respectiva composição, introduzem mudanças em muitos segmentos da nossa vida.

 

Não poderão o próximo Parlamento e o futuro Governo suspender a aplicação do Acordo Ortográfico?

 

Neste caso, faço meu o apelo do jornal Público.

 

Tendo em conta que o célebre memorando da troika não segue as normas do referido Acordo, não será possível que isso conduza «ao seu corajoso abandono, a bem da língua portuguesa e da sua saudável diversidade internacional»?

 

É que, pelos vistos, até no Brasil há uma grande contestação ao que consideram ser um relaxamento no uso da língua.

 

Se alguma coisa se quiser fazer (uma língua não é inamovível), siga-se o percurso normal: primeiro pense-se e, depois, faça-se.

 

Neste caso, parece que foi ao contrário: fez-se e, só agora, começamos a pensar.

 

É tudo tão arbitrário (consoantes mudas que acabam, consoantes mudas que ficam) que parece deixar de haver um fio condutor.

 

As explicações que são dadas só vêm envolver-nos com um enorme tédio.

 

Até a beleza do nosso idioma parece evaporar-se.

 

Será que tudo isto é irreversível?

 

Com serenidade, pense-se o que foi feito e, se for caso disso, repense-se o que terá sido pensado.

publicado por Theosfera às 10:47

Hoje é dia da ascensão de Jesus.

 

Ascensão quer dizer subida.

 

Tu já subiste bastante. Mas irás subir ainda mais.

 

Irás subir até ao alto dos teus sonhos, até ao infinito da tua esperança.

publicado por Theosfera às 06:08

«Quem diz a verdade acaba no caminho do exílio».
Assim diz (pertinente e magnificamente) um provérbio turco, via Abrupto.
publicado por Theosfera às 00:00

Sábado, 04 de Junho de 2011

Às vezes, acontece que andamos por longe à procura do que está perto. Andamos lá fora em busca do que está dentro.

 

Às vezes, estamos tão habituados a algo ou a alguém que já nem damos pela sua presença. Sobretudo quando se trata de uma presença discreta, com modos suaves, quase imperceptíveis.

 

Há muitas perguntas a que eu não sei responder. Mas se me perguntarem onde está Deus?, eu respondo, sem hesitação, que Deus está em ti.

 

Deus não está só no templo. Deus está também no tempo.

 

Deus não está só na igreja. Deus está também nos acontecimentos.

 

Deus não está só no papa, nos bispos e nos padres. Deus está, desde logo, em cada ser humano.

 

Vem na Bíblia: a grande imagem de Deus é o Homem.

 

Por isso, Jesus é claro: «Tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos Meus irmãos, a Mim o fareis»(Mt 25, 40).

 

Eu vejo Deus em ti. Vejo Deus na tua vida. Vejo Deus no teu coração.

 

É importante rezar, vir à Igreja. Mas não é menos necessário praticar o bem, ajudar os outros.

 

Como avisa Kahil Gibran, «a vida de todos os dias é o teu templo e a tua religião».

publicado por Theosfera às 22:18

Disse o poeta inglês John Donne que «nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo o homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme».

 

De facto, não há ninguém sem alguém. É por isso que viver é conviver e existir é coexistir.

 

O que somos não está apenas em nós. Está também — e bastante — nos outros, naqueles que nos ajudam a ser e naqueles a quem ajudamos a ser.

 

Todo o êxito resulta, pois, do esforço de cada um e da ajuda de outros, de muitos outros.

 

É neste sentido que o mais importante não é o sucesso que se alcança; é o sucesso que se ajuda a alcançar.

 

O importante não é o que cada um acumula para si, mas o que cada um consegue dar de si. O objectivo não é ser o melhor. É dar o melhor.

publicado por Theosfera às 17:49

 A vida pode ser descrita assim: uma sucessão de começos e uma sequência vertiginosa de fins.

 

Em cada começo, apontamos para o fim. Em cada fim, apontamos para um novo começo.

 

Cada começo é uma sementeira. Cada fim é uma colheita.

 

É no início que o fim começa. E é só no fim que o início termina.

 

É por isso que o começo é fundamental. Mas o fim é que é decisivo.

 

O fim não fecha as portas que o começo abre.

 

O fim rasga novos caminhos, conduz a novos horizontes.

 

Em cada fim, nasce um novo começo.

 

O fim não é o sonho desfeito, mas o sonho realizado. Não é a acção interrompida, é o projecto concretizado.

publicado por Theosfera às 17:48

O teu olhar é a janela da tua alma.

 

É por ele que tu entras no mundo. É por ele que o mundo entra em ti.

 

Mas o teu olhar não está apenas nos teus olhos.

 

O teu olhar está alojado no teu coração.

 

Os teus olhos enxergam o visível. Mas só o teu coração é capaz de captar o invisível. 

publicado por Theosfera às 16:06

«Não há fuga possível ao dilema do ser humano. Quem quiser escapar à incerteza da fé terá de experienciar a incerteza da descrença, que, por sua vez, nunca pode dizer com certeza definitiva se não é a fé que é a verdade. Ninguém pode tornar Deus e o seu Reino evidentes aos outros nem a si mesmo. Tanto o crente como o não crente, se não se ocultarem a si próprios e à verdade do seu ser, participam, cada um à sua maneira, na dúvida e na fé. Nenhum deles pode escapar completamente à dúvida, nenhum pode escapar completamente à fé; para um a fé torna-se presente contra a dúvida, para o outro mediante a dúvida e sob a forma da dúvida. É a figura fundamental do destino humano: só poder encontrar a definitividade da sua existência nesta rivalidade sem fim de dúvida e fé, perplexidade e certeza. Talvez assim precisamente, a dúvida, que impede um e outro de se fecharem em si mesmos, possa tornar-se o lugar da comunicação. Ela impede-os de se encerrarem totalmente em si próprios, abre o crente ao que duvida e o que duvida ao que tem fé; para um é a sua participação no destino do descrente, para o outro a forma como a fé, apesar de tudo, permanece um desafio».

Assim escreveu (notável e magnificamente) Joseph Ratzinger, via Anselmo Borges

publicado por Theosfera às 06:26

É preciso ser muito grande para aceitar ser autenticamente pequeno.

 

Não é fácil ser simples. É necessário muito autodomínio, muito desprendimento, muita humildade.

 

Ser humilde está ao alcance de todos. Mas não está patente em muitos.

publicado por Theosfera às 01:14

Há vinte e dois anos, um grande clamor foi esmagado. Mas o eco do grito conseguiu chegar até hoje.

 

O que aconteceu na Praça Tianammen é daqueles acontecimentos que não prescrevem.

 

É preciso que alguém morra para que a liberdade viva.

 

O povo chinês, para já, ainda só pode sonhar.

 

Mas o importante é que não desista do sonho.

publicado por Theosfera às 01:12

Eis-nos que já estamos numa espécie de sábado santo da nossa democracia.

 

Neste dia, há um grande silêncio e alguma solidão.

 

Amanhã é o momento de decidir. Hoje é a altura de reflectir.

 

Não há campanha. Mas sentem-se os ecos. Pressente-se o rasto.

 

E há distensão. O sol visita-nos. E a selecção vai jogar.

publicado por Theosfera às 01:09

Sexta-feira, 03 de Junho de 2011

O pepino pode matar. Falar ao telemóvel pode provocar cancro.

 

Eis os últimos avisos, em tons de alarme, que vêm dos peritos em saúde.

 

O perigo espreita em todo o lado e ameaça-nos a toda a hora.

 

Viver, afinal, pode ser uma grande doença. Só a venceremos pela bondade, pela compaixão, pela justiça, pelo amor. 

publicado por Theosfera às 11:39

João XXIII teve a preocupação de reconciliar a Igreja com os tempos actuais.

 

A Igreja devia pôr-se ao dia - eis o que ele queria dizer com a conhecida palavra aggiornamento.

 

Também terá manifestado a vontade de ver entrar ar fresco pelas janelas da Igreja. Ou não se fosse o Papa bom um homem do espírito, que, em hebraico, se diz ruah e que significa brisa, vento.

 

Não faltou, porém, quem vaticinasse exposição desmedida a perigos futuros.

 

Na biografia que escreveu, Franco Nogueira conta que Oliveira Salazar viu com muita apreensão a abertura de João XXIII. Perante o referido aggiornamento, terá comentado algo do género: «Este Papa está a abrir as janelas; tem de se preparar para uma grande tempestade».

 

Só que a experiência mostra que, por vezes, é depois das tempestades que damos conta das debilidades da construção. É depois das tempestades que reparamos as casas. E o resultado até costuma ser melhor.

 

Afinal, os tempos estão sempre a emitir sinais. O Papa bom soube estar atento. A sua confiança era maior que o seu temor. A confiança em Deus e nos homens sobrelava o receio das tempestades.

 

Nenhum temor abala um coração magnânimo.

publicado por Theosfera às 11:22

Confesso que tenho uma saudade muito grande do bom Papa João, falecido há precisamente 48 anos.

 

Cada vez sinto mais a falta de homens desta estatura, desta largueza de horizontes e desta bondade ilimitada.

 

Parecem já tão distantes aqueles tempos que pareciam manhãs de dias sem ocaso.

 

Nasci e cresci a ouvir falar deste Homem. Minha querida Mãe estava sempre a invocar o nome desta figura enorme da Igreja e da Humanidade.

 

Quem acompanhou a sua trajectória e leu os seus escritos ficou sempre com esta impressão: João XXIII era indulgente com os outros e exigente consigo mesmo.

 

 O seu lema, tirado de Barónio, era «obediência e paz».

 

Escrevia em 1947: «Em casa, tudo vai bem. A paciência ajuda-me nos meus defeitos e nas minhas imperfeições e dos que trabalham comigo. O meu temperamento e a minha educação ajudam-me no exercício da amabilidade para com todos, da indulgência, da cortesia e da paciência. Não me afastarei deste caminho».

 

Reencontrar João XXIII é sempre um conforto que nunca cansa: «Não há nada mais excelente que a bondade. A inteligência humana pode procurar outros dons eminentes, mas nenhum deles se pode comparar à bondade».

 

 E, atenção, «o exercício da bondade pode sofrer oposição, mas acaba sempre por vencer porque a bondade é amor e o amor tudo vence».

publicado por Theosfera às 11:09

Este é o tempo das promessas.

 

O problema é que a maior parte delas não são cumpridas.

 

Mas, a respeito de algumas, ainda bem que assim é.

 

Um político italiano prometeu que se não ganhasse a presidência da câmara no domingo se suicidaria na segunda!

 

Ainda bem que há promessas incumpridas.

publicado por Theosfera às 11:05

mais sobre mim
pesquisar
 
Junho 2011
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4

5
6
7
8
9

18




Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
hora
Relogio com Javascript

blogs SAPO


Universidade de Aveiro