O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 08 de Junho de 2011

Deste dia vem um apelo e emerge uma denúncia.

 

O apelo: que a Europa não tenha medo de Deus.

 

A denúncia: as pessoas estão a viver, cada vez mais, à margem da fé.

 

É sempre pertinente alertar.

 

Não há que ter medo de Deus. Nem há motivos para viver nas margens da fé.

 

Só que, com todo o respeito, não creio que haja medo de Deus nem que se viva nas margens da fé.

 

O que se passa é outra coisa.

 

Falamos de Deus e da fé, mas temos o pensamento nas igrejas.

 

As igrejas vão-se esvaziando, é certo. O que não quer dizer que a relação com Deus se esbata.

 

Há um encontro com o divino para lá do templo. A fé não se dilui na alma das pessoas.

 

O encanto por Deus é, muitas vezes, acompanhado por um desencanto pelas igrejas.

 

Até o Papa assinalou que a Igreja, chamada a ser um veículo de anúncio, pode tornar-se um obstáculo.

 

Cada um de nós é chamado a reflectir no que faz. E as próprias igrejas não podem deixar de meditar no que realizam.

 

Uma coisa salta à vista. O que disse Jesus à samaritana vai-se verificando. O templo é cada vez mais transportado para a vida, para o coração, para a profundidade.

 

O que importa é a relação com Deus, é a misericórdia, é a compaixão.

publicado por Theosfera às 16:29

Mesmo em democracia, há coisas que não devem ser ditas e há coisas que não devem ser feitas.

 

A democracia não é a ausência de normas. É o enquadramento das normas ao serviço do bem comum.

 

A discordância é sempre legítima. Mas a insinuação nunca é tolerável.

 

O que, ontem, disse Ana Gomes, pessoa que admiro, não é correcto. Mas é um sinal.

 

Maquiavel afirmou que, idealmente, o príncipe (no fundo, o governante) deve ser, ao mesmo tempo, temido e amado. E se não poder ser as duas coisas, mais vale ser temido do que amado!

 

O que estas (e outras) declarações mostram é que os líderes já não são amados nem temidos.

 

Parece que o ambiente já não coloca obstáculos a nada. Mas a consciência de cada um deve continuar a colocar alguns limites.

 

Não é sequer preciso haver leis. Basta que sigamos o imperativo que (quero acreditar) continua a fazer-se ouvir no fundo de cada pessoa. E que, no mínimo, preceitua que não se faça aos outros o que não gostamos que façam a nós.

 

Mas estou convencido de que tudo não terá passado de um lapso momentâneo. A serenidade e a elevação depressa retomarão o seu lugar.

 

Até porque o civismo é o cimento que alavanca a vida pública.

 

E da política, se não vier mais nada, devem vir os melhores exemplos. 

publicado por Theosfera às 11:58

Os partidos têm os seus defeitos, mas, mesmo com os seus defeitos, são essenciais para a democracia.

 

É importante, por isso, que sejam estimulados a melhorar o seu serviço e a optimizar os seus recursos.

 

Não há dúvida de que, quando se pensa em partidos, pensa-se em poder.

 

É inevitável que cada força partidária esteja focada na forma de chegar mais depressa ao poder e de se estabilizar, duradouramente, no poder.

 

Isso não impede que se reflicta sobre a sua matriz, identidade, vocação.

 

A elevada abstenção não indica apenas alheamento da vida política. Pode identificar também um segmento inexplorado de um eleitorado potencial. Trata-se, porventura, de cidadãos que estão à espera de ser convencidos. Por atitudes convincentes.

 

Eis, portanto, uma passagem que se abre: da desilusão à expectativa.

 

O PS entrou em processo de escolha de uma nova liderança.

 

Ainda que tal não seja verbalizado, é natural que a preocupação seja pensar naquela pessoa que melhor pode assegurar o regresso ao poder.

 

E o que está em discussão, para já, são nomes.

 

Seria bom que, a montante e a jusante deste debate, se fizesse um outro.

 

O PS é um partido estruturante do nosso regime democrático. Pugnou pela liberdade e liderou a entrada de Portugal na Europa. Tem no seu código genético uma referência de primeira grandeza como Antero de Quental.

 

Num tempo de esbatimento das ideologias, também o PS foi invadido, como é compreensível, por uma certa deriva tecnocrática. O pragmatismo assim o terá ditado.

 

Mas nota-se também uma grande nostalgia pela tradição humanista que este partido sempre mostrou. Tal tradição humanista levou a que, a certa altura, o PS atraísse não apenas os cultores do socialismo democrático, mas também paladinos de outros ideais como a democracia cristã.

 

O personalismo deixou de ter porto de abrigo na actual paisagem político-partidária. É por isso que as pessoas passam facilmente da direita para a esquerda e da esquerda para a direita.

 

Esta volatilidade pode agilizar o sistema, mas acaba também por certificar o esboroamento do tecido programático dos partidos.

 

Nestas eleições, quase não se falou de socialismo, de social-democracia ou de democracia cristã.

 

Os tempos são outros e as coisas mudam. O problema não é tanto a falência das ideologias, mas a ausência de ideais.

 

Os nomes que se perfilam para a liderança do PS avultam pela capacidade oratória, pela gestão das equipas e pela capacidade de adaptação aos novos tempos.

 

Mas não haverá alguém que consiga revitalizar a génese humanista, solidária e altruísta do socialismo democrático?

 

Quererá o PS gerar uma alternativa ou estará mais empenhado em preparar uma alternância?

 

Desta vez, o PS vai ter algo que costuma faltar: tempo.

 

E o tempo pode oferecer a moderação, a sensibilidade e a esperança de que todos precisam.

 

publicado por Theosfera às 11:57

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