O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Falcao marcou de cabeça. Helton segurou com os pés.

 

Eis a diferença num jogo equilibrado com resultado incerto.

 

O F.C. Porto foi como costuma ser, o Sp. de Braga foi maior do que tem sido.

 

O F.C. Porto igualou-se, o Sp. de Braga transcendeu-se.

 

Uma final emocionante teve o desfecho decidido nas imediações do intervalo.

 

O F.C. Porto marcou antes, o Sp. de Braga não marcou depois.

 

O jogo não foi um primor, mas teve garra, empenho e entusiasmo.

 

Foi uma disputa rija, mas sem violência.

 

Há festa no Porto. Mas não há razão para não haver alegria em Braga e um sentimento de contentamento por todo o país.

 

Afinal, em Portugal trabalha-se bem e chega-se longe.

publicado por Theosfera às 21:46

Quem for ao aeroporto Francisco Sá Carneiro ficará com a estranha sensação de que Portugal está em debandada.

 

Não é para fugir à crise. Mas acaba por ser uma forma de (tentar) escapar à realidade.

 

O ser humano, como advertia Elliot, não suporta muita realidade.

 

Marx dizia que a religião é o ópio do povo. Se vivesse hoje, era capaz de dizer o mesmo do futebol.

 

O certo é que a alma humana tem necessidade destes escapes.

 

Um pouco de alienação também não faz mal. Desde que não se exagere, o espírito precisa de tónicos.

 

O importante é que haja paz e sã convivência.

 

Os olhos de Portugal estão, hoje, em Dublin.

 

No fundo, precisamos de sair para nos reencontrarmos.

 

É o nosso destino. Só somos nós próprios quando conseguimos ir mais além de nós mesmos.

 

O nosso grande troféu é esta nossa capacidade de levantar a cabeça quando os olhos parecem não sair do chão.

publicado por Theosfera às 11:16

«De cem em cem anos - diz o povo na sua proverbial sageza -, os filhos de pastores tornam-se doutores e os filhos de doutores tornam-se pastores».

 

Ou seja, nem sempre se fica no poço e nem sempre se permanece no alto.

 

O sobredito povo também reza que «não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe».

 

Daí que seja importante não entrar em depressão nas horas más nem enveredar pela euforia nas horas boas.

 

O problema é que as transições não são tão demoradas como insinua o ditado referido no início deste texto.

 

Não são precisos cem anos para passar do topo à base, para cair no fundo.

 

Pelos vistos, faz hoje dez anos que o Boavista se sagrou campeão nacional. Proeza inaudita e sinal de um período de glória que parecia inaugurar-se. Afinal, arrasta-se actualmente pelo terceiro escalão do futebol português.

 

O mesmo poderia dizer-se, aliás, do Belenenses (que também já foi campeão e que anda pelos últimos lugares da II Divisão), do Estrela da Amadora, do Farense, do Riopele, do Campomaiorense, etc.

 

Noutro plano, bastaram umas poucas horas para que o director da maior organização financeira do mundo trocasse um luxuoso hotel por uma pequena cela.

 

«Sic transit gloria mundi». A glória do mundo é (mesmo) muito efémera. E não mostra grande compaixão. As mãos só aplaudem quem está em cima. Raramente se estendem aos que estão em baixo.

 

São os que precisam mais de apoio. Mas acabam por ser os maiores esquecidos.

 

Tudo é transitório neste mundo.

publicado por Theosfera às 11:06

1. Aí está mais um dia para confirmar o que, desde sempre, se suspeitava e o que, desde há muito, se sabia: o futebol é bastante mais que um desporto.

 

Ele tornou-se também um fenómeno mediático de dimensões singulares e uma actividade económica de proporções únicas.

 

Não deixa, com efeito, de ser sintomático ver como é que, numa altura de crise, todo um país consegue desligar dos problemas para se concentrar nas vicissitudes de uma bola conduzida por vinte e dois homens.

 

E é poderosamente significativo verificar as somas vultuosas de dinheiro que, mesmo no epicentro da sobredita crise, continuam a ser movimentadas à volta deste fenómeno.

 

 

2. Há, sem dúvida, uma necessidade infrene de escapar, nem que seja por uns dias, à dureza da realidade. Impressiona vivamente a identificação das populações com uma realização que, à partida, é meramente lúdica.

 

O real esmaga-nos com a sua crueza. O futebol não nos dá pão, mas vai oferecendo (quando oferece) contentamento, exultação e farta vivacidade.

 

Em poucas ocasiões os sentimentos se soltam como no futebol: a alegria, a tristeza, a proximidade, a violência, o patriotismo.

 

A bem dizer, a terra tem semelhanças com a bola e, pelos vistos, é a bola que mais a faz movimentar.

 

Há uma espécie de relação simbiótica que ilustra este impacto planetário do futebol. Não é a terra tão redonda como a bola e não é a bola tão redonda como a terra? 

 

3. O futebol faz-nos lembrar e faz-nos também esquecer. Até parece que o nosso compromisso com a causa da justiça desaparece às portas do futebol.

 

Sofremos com a vida, mas pouco nos incomodam os milhões que serpenteiam no futebol.

 

Até os mais pobres exultam com o investimento que os seus clubes fazem no plantel. Desde que as vitórias venham, todos os sacrifícios são bem-vindos e todas as somas acabam por ser vitoriadas.

 

Não espanta, assim, que o futebol seja muito mais que um desporto.

 

Há quem faça dele uma ciência e apresente as tácticas e as jogadas como algo acabado de sair de um laboratório ou de uma sebenta.

 

Também não falta quem o patenteie emoldurado em belas peças de literatura.

 

E, claro, abunda igualmente quem o transfigure numa acção bélica como se de uma guerra se tratasse.

 

Desde logo, a linguagem eleva o futebol ao patamar de uma questão de vida ou de morte. É como se tudo esteja em jogo numa partida. Daí os feridos. Daí as mortes. E daí as vitórias não só de alguém, mas contra alguém.

 

O futebol é um fenómeno antropológico de grande complexidade. Ele mistura a eficácia com a arte. Nele há lugar tanto para a elite como para o popular.

 

É uma amálgama que tanto faz aproximar como explodir. É verdadeiramente imprevisível.

 

 

4. Como não podia deixar de ser, também não escasseia quem assimile o futebol à religião.

 

Dir-se-ia que o ser humano não passa sem rituais. E se não os faz nas igrejas, não os dispensa nos estádios.

 

A conversação está cheia de pontos comuns. Fala-se da no triunfo. Aponta-se o clube como uma religião e o estádio como um inferno.

 

Há quem faça peregrinações por causa de um jogo e dá-se até o caso de um dirigente ser conhecido como…papa!

 

Recordo que o anterior seleccionador italiano, Roberto Donadoni, assinalou, há anos, que se Bento XVI e João Paulo II  fossem jogadores de futebol, «localizá-los-ia claramente do meio-campo para a frente».

 

Porquê? Porque, no mundo dos princípios, «não faz falta somente defensores mas também dianteiros».

 

 

5. Joseph Ratzinger, que nunca apreciou muito o desporto, refere que o futebol pode «ensinar o respeito mútuo, onde a aceitação de regras por todos faz com que, apesar da contenda, subsista aquilo que une e unifica».

 

Que o jogo de logo à tarde sirva, sobretudo, para aproximar pessoas, cidades e sentimentos.

 

Se houver serenidade e entreajuda, ninguém perderá mesmo que alguém não vença.

 

No campo só uma equipa pode ganhar. Mas, se quisermos, na vida todos poderão sair vencedores!

publicado por Theosfera às 10:09

Eis, finalmente, um dia em que uma decisão europeia está nas mãos de entidades portuguesas.

 

Digo entidades e não individualidades de propósito e por respeito à verdade.

 

Em Dublin, vão jogar dois clubes de Portugal, mas não duas equipas portuguesas.

 

A maioria dos jogadores do F.C. Porto e do Sp. de Braga não nasceu no nosso país.

 

De entre os 22 atletas que vão iniciar a partida, apenas seis são portugueses: Rolando, João Moutinho, Varela, Miguel Garcia, Sílvio e Hugo Viana.

 

Também este é um sinal dos tempos e o futebol acaba por funcionar como uma imagem da vida.

 

Portugal tanto é exportador de talentos como importador de valores.

 

Não deixa, entretanto, de ser curioso notar como, numa altura em que Portugal parece quedar-se na cauda da Europa em muitos aspectos, uma competição europeia é decidida por dois emblemas lusitanos.

 

E, no caminho para a final, tiveram de superar algumas das maiores potências do futebol.

 

Este é um sinal de que a vontade opera maravilhas.

 

O troféu virá para Portugal. Eis uma garantia que se pode assegurar mesmo antes de o jogo começar.

 

Em tempos depressivos é algo relevante.

 

A vida não se resume ao futebol. Mas o futebol pode pilotar a auto-estima do povo.

 

Que prevaleça a serenidade, o respeito e a paz.

 

Só um irá ganhar. O que não quer dizer que alguém vá perder.

 

Só perde quem desiste de lutar.

publicado por Theosfera às 09:58

«Uma verdade deve saber-se sempre e dizer-se às vezes».

Assim escreveu (luminosa e magnificamente) Kahil Gibran.

publicado por Theosfera às 00:01

Jesus não destrói o culto, mas supera o culto do templo.

 

No diálogo que mantém com a Samaritana, antecipa tempos em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar, não num determinado lugar, mas em espírito e verdade.

 

Kahil Gibran tem, pois, razão quando avisa: «A vida de todos os dias é o teu templo e a tua religião».

 

É na vida que tudo se decide. É na vida que ocorrem todos os encontros: com o Homem e com Deus.

 

É, portanto, na vida que se concretiza a essência da religião, como ligação entre o Céu e a Terra, entre o Tempo e a Eternidade, entre o Humano e o Divino.

 

Foi na vida que Jesus veio ao nosso encontro.

 

Parafraseando um antigo Chefe de Estado, diria que há (mais) Jesus para lá do Templo.

 

Ele não está fora do Templo. Mas está totalmente dentro do Tempo!

publicado por Theosfera às 00:00

Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Há muitos cristãos que lêem textos e frequentam centros das religiões orientais. Não, necessariamente, para se tornarem hindus ou budistas, mas para se reencontrarem como cristãos.

 

Ali deparam, especialmente, com dois valores fundamentais, que reconhecem serem também os de Jesus: a paz no interior e a compaixão para com os outros.

 

Ora, isto revela um potencial enorme, mas que, por vezes, teima em continuar inexplorado pela vertigem descaracterizadora em que, não raramente, nos deixamos atolar.

 

Por outro lado, esta osmose inter-religiosa atesta que no diferente poderemos reencontrar a nossa identidade: como pessoas e como crentes.

 

No fundo, é sempre possível aprender com os outros a sermos nós próprios.

 

Não há problema nenhum em mudar. Se todo o mundo é composto de mudança, a religião não deixará de mudar. Sobretudo quando a mudança nos reencaminhar para o melhor de nós mesmos e das nossas raízes.

publicado por Theosfera às 23:00

Às vezes, parece que o mais importante é a disciplina, o direito, a norma.

 

Se há alguma falha neste capítulo, aparece logo a penalização.

 

Já se a falha ocorre no capítulo do amor, parece não haver grande problema.

 

Parece que o amor da lei prevalece sobre a lei do amor.

 

Para um cristão, esta inversão é insustentável.

 

Basta olhar para as Bem-Aventuranças, para a parábola do bom samaritano, para a pauta do juízo final ou para o discurso da última ceia. Todas as dúvidas são dissipadas.

 

Aliás, o Concílio Vaticano II diz claramente que a lei suprema do Povo de Deus é o Mandamento Novo do Amor (cf. Lumen Gentium, 9).

 

Para aqui é que todas as energias devem ser convocadas.

 

Discutir preceitos e doutrinas é natural. Mas litigar por causa delas é desperdiçar esforços.

 

O importante é viver o Evangelho junto das pessoas, ser eco de esperança perto dos mais pobres.

 

É bom que nos ajudemos na vivência do Mandamento Novo. Mas para quê praticar a delação se alguém fala ou actua de um modo diferente?

 

Evocando Pedro Laín Entralgo, diria que é preciso ser consensuante mesmo com quem se mostra discrepante.

 

No fundo e como dizia Miguel de Unamuno, «nada nos une tanto como as nossas discordâncias».

 

Mesmo na diferença, somos todos irmãos.

 

Na escola da comunhão, há que reaprender a conjugar as diferenças.

 

Unidade não é uniformidade. Há lugar para todos na Casa de Deus.

 

(Não subscrevendo todas as posições de Leonardo Boff. Hans Kung, Bernhard Haring, Jacques Gaillot ou William Morris, creio que o seu afastamento nos empobrece. Numa família, todos podem discutir, mas ninguém deve ser afastado).

publicado por Theosfera às 21:55

O diferente fascina e atemoriza. Tanto infunde espanto como provoca medo.

 

Daí que o instinto perante o diferente percorra um caminho que vai da admiração à rejeição.

 

O que se passa com os refugiados de povos em guerra é uma realidade assustadora e um sinal preocupante.

 

São seres humanos que procuram na mesma (e única) terra uma oportunidade.

 

Acontece que a oportunidade que lhes foi negada na sua pátria acaba por lhes ser (re)negada no seu mundo.

 

Jesus é o corolário onde se encontram todas as diferenças.

 

Mas nem sempre em nome de Jesus conseguimos respeitar as diferenças.

 

O Cristianismo foi plural nos começos. A unidade era vista como a integração das diferenças.

 

A diferença nunca pode ser um estigma. É ela que nos enriquece.

 

A autoridade não pode ser vista como um freio, mas como um estímulo.

 

Se até na Casa do Pai há muitas moradas, como é que, até lá, só se pode trilhar uma única estrada?

publicado por Theosfera às 12:40

Os anjos são enviados de Deus.

 

Nunca os vimos, mas sentimos a sua presença.

 

Mas não há só anjos com asas.

 

Há também anjos que nos dão asas.

 

Há pessoas que são anjos.

 

publicado por Theosfera às 11:12

A montanha não é apenas o alto.

 

É também a subida, a queda, a nova subida, o suor, o desgaste, o desânimo, a vontade de desistir e a determinação em insistir.

 

Chegar é importante. Mas subir é prioritário.

 

Nunca saberemos quando se chega. Mas sabemos que, não desistindo de subir, estaremos perto da chegada.

publicado por Theosfera às 11:09

Não acendemos a luz quando tudo é claro.

 

Só ligamos a luz quando está escuro.

 

A luz só brilha na escuridão.

 

Mas nem a escuridão ofusca o brilho da luz.

publicado por Theosfera às 10:56

1. Foi John Kennedy quem disse que, «nas grandes crises, surgem grandes homens».

 

Daí a sensação de desconforto pelo facto de, na hora presente, não estar a emergir uma referência, uma personalidade de excepção, uma figura que se destaque.

 

Não se trata de um messias, mas de alguém que acrescente algo ao cidadão comum. Alguém que se imponha não apenas pela sua inteligência, mas pela sua conduta, pela sua coerência, pela sua visão. Alguém que saiba ler os sinais que o tempo vai emitindo e que intervenha com a prontidão necessária.

 

Sucede que esses grandes homens teimam em não aparecer. Porque não existem? Porque não querem arriscar? Ou porque os caminhos estão tapados?

 

Às vezes, subsiste mesmo a impressão de que a qualidade e a seriedade constituem uma contra-indicação. Parece que só a vulgaridade compensa.

 

 

2. Dizem os estudiosos que nos falta não apenas uma ética, mas também uma épica.

 

Marcello Caetano prevenira o país, há mais de quatro décadas, para a necessidade de se habituar a ser governado por pessoas normais.

 

E o certo é que, como alerta Daniel Innerarity, «a actual paisagem política não é determinada pelo estado de excepção, mas por um presente talvez medíocre, talvez desanimador».

 

Já não há espaço para «a figura do herói» nas suas diversas configurações: «o que sabe, o que decide, o chefe exclusivo, o que unifica ou polariza».

 

A política está a entrar «num horizonte pós-heróico», em que «as alternativas são menos do que parece».

 

É claro que tudo isto causa «desconcerto e insegurança». Temos de nos ir despedindo dos «acordos absolutos, das dissensões definitivas, das contraposições rígidas entre nós e os outros».

 

Uma ruptura pode dar lugar a uma aliança, do mesmo modo que uma aliança pode dar lugar a uma ruptura.

 

A política deve preparar-se para um futuro «não planificável, mas fundamentalmente incerto».

 

 

3. Numa sociedade sem heróis, a identificação com o líder tende a desaparecer e a desconfiança propende a aumentar.

 

Uma das aprendizagens que urge fazer «é descodificar o discurso, veemente umas vezes para produzir a impressão de diferença, outras vezes para dissimular a semelhança».

 

A prioridade há-de ser «a gestão civilizada do desacordo em torno das concepções de interesse geral».

 

É que «o dissenso não exclui o consenso», sabendo, porém, que «a regra é o dissenso e consenso a excepção».

 

Numa época em que os heróis desaparecem e as referências minguam, resta-nos «escolher entre males».

 

Não raramente, escolhemos para evitar um mal maior, «para barrar o caminho ao pior».

As expectativas são, assim, cada vez mais baixas e a decepção, pelo contrário, é cada vez maior.

 

 

4. Se o líder não pode ser diferente, que, ao menos, possa introduzir alguma diferença. Se não for em competência, que seja em dignidade, em ânimo, em estímulo, em esperança.

 

O que distingue o líder do comum dos cidadãos será sempre a visão e a decisão. O líder é o que vê antes, decide cedo e, nessa medida, estimula sempre.

 

O bom líder é o que tira partido das capacidades de cada um. É o que motiva. É o que nunca deprime. É o que sabe aliar o talento ao esforço. 

 

Meditem no exemplo do Braga e vejam se não é de um timoneiro como Domingos (ainda por cima com) Paciência que o país precisa.

 

Um líder não é tudo. Mas continua a ser muito importante.

 

Estamos num tempo em que liderar é sobretudo gerir, manter, conservar.

 

Precisamos de criar um tempo em que liderar seja, acima de tudo, transformar, renovar, alargar, romper muros, semear esperança.

 

 

publicado por Theosfera às 09:36

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Estes são tempos em que precisamos mais de ideias do que de dinheiro, mais de cultura do que de finanças.

 

Salta à vista que o dinheiro sem ideias facilmente entra no caminho da injustiça e da vertigem do lucro. As finanças sem a cultura assemelham-se a um corpo sem alma.

 

 Precisamos de uma cultura que aprofunde, que problematize, que questione, que ouse.

 

Parece que há um deslocamento do dogma da religião para a política e para a economia.

 

O programa da troika é dado como indiscutível.

 

A criatividade é nula. Tudo se resume a fait-divers.

 

Só quando voltarmos a apostar na educação como caminho de sabedoria transformaremos o presente em construção de futuro.

publicado por Theosfera às 10:36

Domingo, 15 de Maio de 2011

Transcrevo o texto que Anselmo Borges publicou, ontem, no DN sobre o mais recente livro de Andrés Torres Queiruga.

 

Com esta transcrição, queria aproveitar para sinalizar a minha admiração pelo autor do artigo e a minha impagável gratidão ao autor do livro, uma das pessoas que mais me ajudou na vida.

 

Penso que Andrés Torres Queiruga, da Universidade de Santiago de Compostela, é um dos mais vigorosos e penetrantes teólogos católicos vivos, numa ousadia única de colocar a fé cristã em confronto radical com a modernidade e vice-versa. Acaba de publicar em castelhano uma obra seriamente original sobre o tema em epígrafe: Repensar el mal, que obriga a pensar.
 
Lá está o famoso dilema de Epicuro: Ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?
 
São precisamente os pressupostos do dilema que o autor começa por desmontar, a partir de uma ponerologia (de ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, os próprios animais também sofrem. Todos passam por crises e doenças e todos morrem. E perguntamos: donde vem o mal?
 
Quando procuramos a raiz última do mal, encontramo-la na finitude. O mundo é finito e, por isso, há nele, inevitavelmente, mal: o finito não pode ser perfeito, pois tem falhas, carências, e nele haverá choques, pois, como escreveu Espinosa, "toda a determinação é negação".
 
A primeira coisa que, portanto, é preciso considerar é que o mundo produz mal, todo o mal tem origem no próprio mundo. Por isso, na peste negra, houve procissões; com o terramoto de Lisboa, pensou-se que Deus o tinha permitido. Agora, com o tsunami no Japão, dá-se uma explicação científica, e, com a sida, investiga-se nos laboratórios.
 
Dizer que Deus é omnipotente, infinitamente bom, que nos ama e que poderia acabar com o mal do mundo, criando-o perfeito, mas que não quer, é uma contradição. Se vemos uma mãe ao lado do filho torcendo-se de dor, sabemos que ela não pode evitá-la - se pudesse, não o permitiria. O que se passa é que, se não é possível um mundo perfeito, sem mal, não tem sentido perguntar por que é que Deus não fez um mundo perfeito. Não se diz que existe algo que Deus não pode fazer: simplesmente se nega uma contradição. Se o mundo não pode ser perfeito, não posso esperar que Deus o faça, não posso pretender que divida uma turma em três metades.
 
A pergunta é outra: se o mal é inevitável, por que é que Deus o criou? "Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo."
 
Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis, fé: justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem a sua resposta para o problema. O crente religioso tem a sua: crê que Deus não teria criado o mundo, se de algum modo não fosse possível libertar--nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. Quem pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como Amor e Anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.
 
Mas ergue-se uma objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Confiamos em Deus e podemos mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, mas possível.
 
Sim, a pessoa é um ser finito, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Há aquele passo de Tristão e Isolda, na experiência amorosa, quando Tristão diz: "Tu és Tristão e eu sou Isolda". E Isolda: "Tu és Isolda e eu sou Tristão". Esta reciprocidade no amor, que não anula a pessoa, porque quanto mais amas mais és, cria uma relação especial. Ora, esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé, apoiada em razões: "Deus pode entregar-se-nos nesta abertura infinita, de tal modo que podemos dizer, como Tristão e Isolda, que somos Deus, que está em nós", desde sempre.
publicado por Theosfera às 23:41

Hoje, falou-se do Pastor que, sendo apresentado como bom, é, originalmente, descrito como belo.

 

Eis, portanto, um oportunidade para ver o que andamos a fazer com a Bondade e com a Beleza.

 

Xavier Zubiri escreveu que «o pulchrum é algo aberto e que a beleza nunca é algo fechado».

 

Tomás de Aquino, falando da música, escreveu que, «embora os ouvintes não percebam de quando em quando aquilo que é cantado, compreendem todavia por que motivo se canta: para louvar a Deus. E isso é suficiente».

 

E não é a Beleza que, como inquiria Fedor Dostoievsky, há-de salvar o mundo? Mas que beleza nos salvará? O ser absolutamente belo, acrescenta o imortal escritor, é Jesus Cristo. A Sua beleza está no Seu despojamento, na Sua entrega.

 

A Beleza, como já intuíam os antigos, é, juntamente com a Verdade e com a Bondade, um outro nome de Deus.

 

Foi pena que, durante séculos, tivéssemos esquecido a Beleza. Por isso até se alterou a descrição que Jesus faz de si mesmo em Jo 10,11. Aqui aparece-nos como o «bom Pastor». Mas no original não está assim. Se fosse bom estaria agathós. Mas o que lá aparece é kalós.

 

«Eu sou o belo Pastor» é o que nos surge e é assim que deveríamos ler. É claro que o bom é belo. Mas o belo também não é bom?

 

Para Sto. Agostinho, o belo é o esplendor da verdade e para Heidegger é a manifestação da verdade.

 

Zubiri ajuda-nos a desenterrar o belo do prolongado cativeiro em que esteve retido. A Beleza, tal como a bondade e a verdade, é actualidade da realidade. A realidade é actualizada na inteligência como verdade, na vontade como bondade e no sentimento como beleza.

 

Na vida, precisamos não só de uma filosofia, mas também (e bastante) de uma filocalia. O amor da sabedoria surge sempre irmanado ao amor pela beleza.

 

Segundo von Balthasar, para a sociedade actual a via para chegar a Deus  é a via do 3º transcendental,  o transcendental esquecido, a Beleza.  A Beleza é o Todo que se oferece no fragmento.

 

Bento XVI chama a atenção para uma tentação muito forte, ínsita na cultura contemporânea e até em alguns sectores da Igreja. Trata-se da tendência (ou, melhor, da tentação) para separar a Beleza da Verdade e da Bondade.

 

 Tarefa impossível, porém. As três estão unidas e fundidas em Deus. Deus é a Beleza máxima, a Bondade maior e a Verdade suprema.

 

 A Beleza sem a Verdade reduz-se a um mero deleite estético. É na Verdade que a Beleza é bela.

 

 É claro que custa apelar para a Verdade num tempo que parece ter contrato firmado com a mentira. Mas haverá Beleza sem Verdade?

 

 A dedicação à Verdade acarreta sempre anticorpos. Há quem não suporte a Verdade e faça tudo para torpedear e agredir os que, modestamente, procuram viver no seu seio.

 

 Eis, pois, uma proposta de vida que não podemos desatender: viver a Beleza da Verdade e viver a Verdade da Beleza. No fundo, só a Beleza é verdadeira. E só a Verdade é bela. Deixem-nos procurar a Verdade. E desfrutar da sua Beleza.

publicado por Theosfera às 23:19

É nos tempos de ditadura que nascem as aspirações pela democracia. E é nos tempos de democracia que emergem as pulsões totalitárias.

 

Nos tempos em que a liberdade se fecha, clamamos pelo pluralismo. Nos tempos em que a liberdade se dá por garantida, ofuscamos o referido pluralismo.

 

Num mundo globalizado, é fácil pormo-nos a falar do mesmo. Quando algo acontece com impacto em qualquer parte do mundo, parece que todos temos de dizer alguma coisa.

 

A informação carece de pluralismo. O monismo instala-se com facilidade. Há um tema dominante e, depois, apêndices.

 

Em tempos de recessão, dizem-nos para poupar. Poupem-nos, pois, a pormenores que só fazem aumentar o tédio e desligar o televisor.

 

Ajudem-nos a peregrinar pela esperança e a não estiolar nas teias miasmáticas do pesadelo.

 

Em tempos sombrios, não haverá ninguém ungido por alguma luminosidade?

publicado por Theosfera às 23:11

Sábado, 14 de Maio de 2011

Jesus aparece-nos como a porta que abre.

 

Ele chega ao coração para congregar os que se sentem distantes.

 

Não há anátemas nem extorsões.

 

A afabilidade de Jesus é de uma vastidão total.

 

Ninguém fica fora do convite.

 

Todos são convidados a entrar.

publicado por Theosfera às 16:35

Realidade.

 

Talvez porque sofre muito com ela, o ser humano não gosta que lhe falem dela.

 

T.S. Elliot percebeu isso há décadas: «Vai, vai, vai, disse a árvore: o género humano não pode suportar muita realidade».

 

Uma vez que, na hora presente, a realidade é bastante dura, não falta quem prefira um discurso que passe por cima dela.

 

Há quem venere os líderes que mistificam o real.

 

É por isso que, hoje em dia, os candidatos vêm da televisão para a sociedade e não da sociedade para a televisão.

 

Alguns dos principais líderes partidários começaram por ser figuras mediáticas.

 

Quem passa bem na televisão está em melhores condições de chegar ao país.

 

Ninguém (ou quase ninguém) pergunta por programas. O desempenho televisivo parece bastar.

 

A realidade voltará a 6 de Junho.

publicado por Theosfera às 16:28

François Mitterand disse que, depois dos estadistas, costumam vir os contabilistas.

 

Estamos num tempo em que liderar é sobretudo gerir, manter, conservar.

 

Precisamos de criar um novo tempo em que liderar seja, acima de tudo, transformar, renovar, alargar, romper muros, semear esperança.

publicado por Theosfera às 12:55

O Concílio Vaticano II empenhou-se em ler os sinais dos tempos, expressão sábia que remete para algo essencial, determinante.

 

Perceber os sinais que cada tempo emite é, por isso, um sinal de sensatez e de fidelidade.

 

O tempo não é o espaço da dissolução, mas é o terreno da mudança.

 

Por muito que queiramos, não temos vinte anos quando completamos cinquenta.

 

Restaurar o passado quando se caminha para o futuro pode ser um sonho legítimo, mas é uma opção impossível.

 

O tempo é o caminho para o espírito. Nesse caminho, há lugar para o antigo e para o novo, para o antes e para o depois.

 

O presente, como dizia Zubiri, é transcorrência, uma espécie de transporte do ontem para o amanhã.

 

Cada época nunca pode ser a mera continuidade da época anetrior. Cada tempo emite os seus sinais.

 

A grande inspiração do Concílio foi não andar para trás. O passado continua a ser uma referência, mas a inspiração é a origem.

 

Refontalizar, palavra fecunda na trajectória conciliar, é voltar à fonte para melhor continuar o caminho.

 

É a partir da fonte Jesus que o Concílio propôs um encontro com o moderno. Impressiona, pois, que ele tenda a ser aplicado, por vezes, em sentido pré-moderno.

 

O Concílio foi um caminho aberto, que não pode ser interrompido. A renovação da mensagem é inseparável de uma reforma das estruturas.

 

O importante é que a Igreja se repense e se reforme incessantemente a partir de Jesus e de cada época em que se encontra.

 

O despojamento, a humanidade, a clemência, a bondade e a opção pelos pobres terão de estar na linha da frente.

 

A fidelidade não é apenas doutrinal. Tem de ser também iconográfica.

 

A simplicidade de Jesus tem de resplandecer mais na Igreja de Jesus.

 

O povo continua a ser crente, mas é também cada vez mais crítico.

 

Certos posicionamentos doutrinais partem do princípio de que os outros são adversários e que nós temos uma espécie de direito de propriedade sobre a verdade.

 

Urge repor a liberdade à cabeça de tudo. Onde há poder, fenece a liberdade e decai a afirmação da verdade. É que o medo condiciona e pode mesmo bloquear.

 

Jesus foi, além de claro, muito simples.

 

Voltar às Ben-Aventuranças e ao Mandamento Novo é uma opção que tem tudo para (re)mobilizar tantas vidas sedentas de sentido.

 

A Igreja é chamada a estar com os pobres, os que choram, os que constroem a paz, os puros de coração, os perseguidos.

 

Para quê tantas leis se uma única lei tudo resume: o Amor?

 

 

publicado por Theosfera às 12:54

Pelos vistos, não se ganham eleições a pensar. Pelos vistos, só se ganham eleições a falar.

 

Justamente na hora em que se devia pensar no país, eis que muitos aproveitam para falar de si mesmos.

 

Não admira, por isso, que o dado mais relevante de muitos estudos de opinião seja a percentagem dos que dizem não votar.

 

É certo que, como vinca Daniel Innerarity, estamos numa sociedade pós-heróica. As pessoas de excepção não querem aparecer ou não as deixam aparecer.

 

Mas não façamos deste um tempo de pós-esperança.

publicado por Theosfera às 11:48

Se dúvidas houvesse em alguns espíritos, a realidade dissipou-as.

 

A violência não é jamais a resposta à violência.

 

A morte de Ben Laden começa a ter um eco demasiado forte, estilhaçando vidas inocentes.

 

Ontem, um atento fez oitenta mortos.

 

A relativa indiferença que estas notícias provocam revela o estado de anemia em que nos encontramos.

 

Não sei o que estamos a fazer. A combater a violência é que não estamos com certeza.

 

Ela não pára de crescer.

publicado por Theosfera às 11:43

Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia em 2001, afirma que as medidas de austeridade «não funcionam» e impedem a criação de emprego necessária ao crescimento económico.


Citado pela Bloomeberg o economista diz que «a austeridade é uma experiência que já foi tentada antes com o mesmo resultado», acrescentando que cortes orçamentais em ciclos de fraco crescimento levam a um aumento do desemprego e travam a recuperação.


«A austeridade não funciona, não leva à criação de economias mais eficientes nem a um crescimento mais rápido», refere.


Uma sondagem feita pela Bloomberg, publicada hoje, revela que a maioria dos investidores não acredita que Portugal consiga pagar a dívida, apesar das restrições orçamentais.

publicado por Theosfera às 21:33

Quando um povo se desgasta tanto e a produtividade é baixa, quando parte deste mesmo povo é apreciada lá fora pelo que produz, a explicação só poder ser uma: liderança.

 

Pensemos em dois exemplos: a Alemanha e a Coreia.

 

Os alemães estiveram divididos. O padrão de desenvolvimento da Alemanha Ocidental e da Alemanha de Leste era muito diferente.

 

Os coreanos permanecem divididos. A Coreia do Sul está desenvolvida. A Coreia do Norte mantém-se profundamente subdesenvolvida.

publicado por Theosfera às 11:35

«Sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei».

Assim escreveu (subtil e magnificamente) Jorge Luís Borges.

publicado por Theosfera às 11:24

O que sempre marcou Jesus com os outros foi a largueza de horizontes.

 

O que sempre demarcou Jesus em ralação a outros foi a misericórdia, a tolerância, a compaixão.

 

Ele não condenou quem pecava, franqueou as portas do paraíso a um ladrão e deu a comunhão a quem O entregou.

 

Severo foi apenas (mas de modo muito contundente) para com a hipocrisia, a duplicidade.

 

Não me repugna que se dê a comunhão a Robert Mugabe, que tem perseguido e eliminado muitos dos seus concidadãos.

 

Afinal, todos precisam de um reencontro com a verdade da existência e de um estímulo para que se tornem outros.

 

Mas penso em tantos a quem a comunhão é negada porque (tantas vezes, no meio de dramas de consciência) tomaram determinadas opções na sua vida pessoal.

 

Apesar disso, são incapazes de fazer mal seja a quem for. E esmeram-se na prática do bem, na promoção da justiça e na vivência do amor pela partilha com os mais desfavorecidos.

 

Jeus foi assertivo na Sua mensagem. Mas nunca estigmatizou ninguém. O Seu coração rasgava-Se para todos.

 

É importante que a largueza se manifeste diante de ditadores como Mugabe. Andrés Torres Queiruga, para escândalo de alguns, disse há dias que Deus não condena ninguém. Nem Hitler.

 

É fundamental que o coração da Igreja de Jesus seja magnânimo como foi o coração de Jesus.

 

E se oferece o corpo de Jesus a quem, publicamente, semeia a morte, como negá-lo a quem melhor quer crescer na vida?

publicado por Theosfera às 11:13

«Só seremos nós quando formos além de nós».

Assim escreveu (notável e magnificamente) Ernâni Lopes.

publicado por Theosfera às 11:12

Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Na vida há viagens, porque a vida, ela mesma, é uma peregrinação.

 

No seu decurso, tanto encontramos quem nos empurre como quem nos estenda a mão.

 

Tanto deparamos com que nos ilumine como quem nos obscureça.

 

Há vidas que são luz para a nossa vida, mesmo quando outras vidas tentam obstruí-las com o breu das trevas.

 

Viver é peregrinar. Peregrinar é viver.

 

Não se morre quando se cai. Só se morre quando se desiste de peregrinar.

publicado por Theosfera às 14:15

O ser começa pelo sentir. É pelo sentir que a realidade entra em nós. E que, nessa medida, nos leva a perceber que também há realidade em nós.

 

Xavier Zubiri, num plano metafísico, e António Damásio, num plano científico, coincidem em algo fundamental. O próprio acto de entender não se pode separar do sentir.

 

Uma suposta anulação do sentir não pode ser vista como indiciadora de superioridade.

 

Já dizia o grande Dostoiévsky que «o principal é o coração, o resto é disparate».

 

O intelecto também é necessário, mas só quando for habitado pelas razões do coração.

 

Até Deus, como refere o profeta, é dotado de entranhas comovidas (rahamim).

 

A síntese da sabedoria, avisa Zubiri, está na inteligência sentiente, na inteligência que sente.

 

O sentir é a porta que faz entrar a realidade em nós e nos faz entrar a nós na realidade.

publicado por Theosfera às 11:29

A alma humana é um segredo que nem ela própria consegue desvendar.

 

Em cada momento, julga que abarca o presente, o futuro e até (quem sabe?) a própria eternidade.

 

E, no entanto, a mesma alma, no momento seguinte, parece despontar com outras feições, como se um novo tecido a envolvesse.

 

Bate a alma a tantas portas, que, aparentemente, lhe desvendam a chave da felicidade.

 

Mas, à medida que o tempo (es)corre, apercebe-se de que um halo de insatisfação não a larga.

 

A alma vê-se, muitas vezes, vaporosa como cada instante. Mas, ainda assim, persiste.

 

A síntese de uma vida superior, dizia Dostoiévsky, é a beleza e a oração.

 

Conseguir uma existência reconciliada é um desígnio que não nos deixa e que, embora nos escape, está sempre à distância de um permanente recomeço.

 

Viver é não desistir de procurar.

publicado por Theosfera às 10:54

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

O regresso do Cristianismo a Cristo não passa só pela doutrina.

 

A fidelidade a Jesus não consiste apenas na repetição do que Jesus disse. Consiste sobretudo na imitação do que Jesus foi.

 

A humildade, o despojamento, a simplicidade e a opção preferencial pelos pobres estão inscritos no código genético do seguimento de Cristo.

 

A ostentação, a sobranceria e a proximidade com o poder criam uma fricção.

 

Às vezes, há o sério risco de um afastamento do Cristianismo em relação a Cristo.

 

Há configurações que se distanciam da identidade.

 

Subsiste, por vezes, a impressão de que há um desfasamento entre o que o Cristianismo é e aquilo em que o Cristianismo se tornou.

 

Uma das diferenças mais notórias tem que ver com a pluralidade e a integração do diferente.

 

Parece que a unidade resulta mais da imposição de um centro do que do acolhimento de muitos pontos.

 

No princípio, notava-se uma coexistência entre várias formas de organização. Até a designação dos servidores das comunidades era variada. Não havia qualquer problema com isso.

 

A posição que não venceu no Concílio de Jerusalém (que pretendia que todos os cristãos passassem pela circuncisão) não foi estigmatizada.

 

Os vencidos não foram expulsos. Não houve anátemas.

 

Infelizmente, as épocas seguintes nem sempre se deixaram iluminar pela luz das origens.

 

Ainda hoje, quem lê (e ouve) posições conservadoras e posições progressistas fica com a sensação de que o maior adversário é um irmão na fé.

 

Há algum progressismo que parece dissolver a fé na simples moda de cada época. E existe um certo conservadorismo que entricheira a fé, recusando a menor abertura aos sinais dos tempos.

 

Acresce que esta animosidade interna está polarizada em torno de querelas doutrinais, rituais e disciplinares. Ou seja, fala-se muito de problemas institucionais e pouco em Jesus.

 

Não raramente, o que se torna central são conceitos e afirmações que não vêm de Jesus.

 

Tudo isto são sinais de que a história está longe do fim. E não faria mal, em muitos pontos, regressar às origens.

 

Cristo é a cabeça do Cristianismo. O Cristianismo não é a cabeça de Cristo.

publicado por Theosfera às 23:30

Um discurso não pode valer apenas pelo ornamento retórico. A sensatez do conteúdo deve prevalecer sobre a estética da forma.

 

Daí que seja preciso ter cuidado com quem fala demasiado bem.

 

Não se trata de estigmatizar a arte de bem dizer. Trata-se, sim, de introduzir alguma cautela no discernimento.

 

A demagogia tem uma especial apetência pela retórica.

 

Sem uma forte componente ética, um bom discurso pode ajudar não a revelar, mas a esconder.

 

Um bom discurso tanto pode ajudar a difundir a melhor ideia como pode ajudar a publicitar o pior projecto.

 

Hitler, embora não muito dotado intelectualmente, era mestre no manuseio da palavra.

 

Os seus discursos eram inflamados e envolviam as assembleias, suspensas do que ele dizia.

 

O discurso do rei faz-se eco desta apreciação. O que Hitler dizia era mau. Mas era bem dito.

 

Ele não se fazia rogado e conseguia enlear até os sectores mais imprevistos.

 

Muito gente não saberá, mas houve um bispo que escreveu um livro acerca dos fundamentos do nacional-socialismo. No fundo, pretendia dar-lhe um enquadramento teológico.

 

Alois Hudal, assim se chamava o prelado, perguntava na introdução: «Não terá o Nacional-Socialismo trazido ao povo alemão uma ideia boa e válida para que o apoio ao movimento com uma atitude religiosa positiva seja não só desejável como absolutamente necessário?».

 

Como ponto em comum entre católicos e nazis, o antístete apontava a mesma convicção na obediência cega à autoridade.

 

É claro que Roma não concordou e o próprio Papa Pio XI fez sérios reparos à obra. E, apesar da simpatia inicial de Hitler (leitor compulsivo), o nazismo também não apreciou por aí além esta injecção de catolicismo na sua ideologia.

 

O que importa realçar é o perigo. Até as piores ideias podem contagiar quem menos se pensa.

 

O poder nunca deixou de suscitar uma teologia subserviente. Pela palavra. Ou pelo silêncio.

publicado por Theosfera às 11:22

Numa altura em que tanto se compete no uso da palavra, talvez não fosse inoportuno reflectir sobre a importância do silêncio.

 

É claro que não é fácil encontrar a medida justa. À semelhança de Gregório Magno, já todos nos arrependemos de ter calado quando deveríamos falar e de ter falado quando nos deveríamos calar.

 

Post factum, sabemos melhor. Mas não há dúvida de que o silêncio pode ser tão eficaz como a palavra. Perceber a sua oportunidade é o segredo da sabedoria.

 

Tendo sido Winston Churchill tão expedito no uso da palavra, há um episódio em que o seu silêncio se revelou determinante: para a sua carreira, para o seu país e até para o mundo. Santana Castilho faz-se eco deste caso num texto que assina no Público.

 

Quando Chamberlain compreendeu que não era o primeiro-ministro adequado para liderar o Reino Unido na guerra, escolheu, como era tradição no partido conservador inglês, o seu sucessor: Lorde Halifax.

 

Mas Chamberlain queria um governo forte e sabia, por isso, que era indispensável que Churchill fizesse parte do elenco. Convocou-o e disse-lhe:

- Halifax é o melhor, mas temos necessidade de si. Aceita ser o número dois?
 
Churchill, por patriotismo e por dever, disse que sim. 
 
Horas depois, Lorde Beaverbrook, magnata da imprensa inglesa, pediu a Churchill para o receber com urgência e disse-lhe:
- Não é possível! Aceitou que seja Halifax o primeiro-ministro?
 
Churchill respondeu que se tratava de um assunto de Estado e que não seria curial discuti-lo com ele. Beaverbrook insistiu. Churchill respondeu que não tinha outra saída. E Beaverbrook voltou à carga:
- É um crime contra a Nação! Só você poderá mobilizar a Grã-Bretanha.
 
No fundo, Churchill concordava com Beaverbrook. Mas objectou que tinha dado a sua palavra e que não voltaria atrás. Então, Beaverbrook disse:
- Peço-lhe, ao menos, uma coisa. Quando for convocado por Chamberlain, com Halifax, e Chamberlain lhe perguntar se confirma a sua aceitação, fique em silêncio durante três minutos. Três minutos completos. Em nome da Inglaterra, peço-lhe!
 
Churchill achou isto impertinente e não viu como isto poderia mudar a situação. Mas, como tinha amizade e estima por Beaverbrook, prometeu-lhe que o faria.
 
No dia seguinte, Churchill e Halifax encontraram-se no gabinete de Chamberlain, na Dowing Street. Chamberlain pediu a Churchill:
- Pode confirmar, se faz favor, a Lorde Halifax, que aceita fazer parte do seu governo?
 
Churchill ficou calado. Passou um minuto, e Churchill continuava em silêncio. Minuto e meio depois, Churchill permanecia em silêncio. Ainda não tinham transcorrido os três minutos, lorde Halifax não aguentou, exclamou e saiu:
 
- Creio que é Winston Churchill que deve ser o primeiro-ministro!
 
Não hesitemos em recorrer à terapia do silêncio. Até para recuperar o valor da palavra. O descrédito do discurso começa a ser saturante.
 
Uma palavra só é devidamente acreditada quando é germinada no silêncio.
 
É o silêncio que fermenta a palavra mais sólida.
publicado por Theosfera às 10:19

Disse Martin Heidegger que «a Filosofia fala grego».

 

É, pois, para a Grécia que costumamos olhar quando queremos aprender a pensar.

 

Talvez nunca, como agora, tenha sido importante olhar para a Grécia. Temos de repensar.

 

A Grécia recebeu, há um ano, uma ajuda internacional, cujo balanço não está a ser muito positivo.

 

Os sacrifícios são muitos. A austeridade é brutal. E, não obstante, a dívida cresce.

 

Motivo? A economia decresce.

publicado por Theosfera às 10:12

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Jesus pretendeu uma evolução no judaísmo, mas acabou por ser condenado por ter operado uma revolução.

 

Tal revolução consistia na proximidade de Deus (sem pôr em causa a Sua transcendência) e na igualdade entre todos os homens (sem pôr em risco as diferenças entre eles).

 

Jesus respeitava a lei, mas ia mais além da lei.

 

Era cumpridor, mas não Se mostrava submisso.

 

Advertia, mas não condenava.

 

Era assertivo, mas não transigia com a violência. Nem para Sua defesa.

 

Era aberto, mas não imparcial. Assumia uma predilecção pelos pequenos, pelos pobres e pelos humildes.

 

Condensou a Sua mensagem num mandamento: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei».

 

O Seu amor por nós foi maximamente ilustrado na Cruz. Deu tudo. Deu-Se todo.

 

No regresso à vida (e na anástase para Deus), disse para que levassem esta mensagem a todo o mundo.

 

O Cristianismo primevo assim procedeu. Espalhou a mensagem. E o impacto foi parecido com o do Mestre: muitos aderiram, alguns litigaram.

 

A revolução de Jesus estava em marcha.

 

A partir de certa altura, houve uma involução, um recuo.

 

O império deixou de perseguir os cristãos. E começou até a perseguir os não cristãos. Não faltou quem justificasse tudo isso. O imperador era visto como o 13º apóstolo. O seu poder (mesmo quando exercido de forma autocrática e prepotente) era atribuído a Deus.

 

Há quem não suporte uma teologia política para defender os pobres sem se importar que haja uma teologia política para apoiar quem oprime os pobres!

 

Para se explicar, o Cristianismo recorreu à filosofia grega. Para se organizar, adoptou o direito romano.

 

A mensagem foi apresentada sob a forma de doutrina. E o amor foi transfigurado em poder.

 

Jesus acolheu sempre o diferente. A Igreja começou a ter dificuldades com o dissonante.

 

Jesus apelava para o amor. No Cristianismo começou a insistir-se no poder.

 

Estes critérios levaram a que se justificasse o injustificável como a inquisição, a pena de morte, a escravatura.

 

Jesus foi sendo lido à luz do sistema eclesiástico. É importante que o sistema eclesiástico seja lido à luz de Jeus.

 

A Igreja proclama Jesus como sendo a luz. Importa que se deixe iluminar por Ele.

 

A revolução de Jesus não pode ser detida pelos que se dizem Seus seguidores. 

publicado por Theosfera às 22:55

O Festival da Eurovisão já não é o que era.

 

A participação portuguesa é que, pelos vistos, continua a ser como (quase) sempre foi.

 

Desta vez, nem sequer foi à final. Salvou-se a luta. E a alegria.

publicado por Theosfera às 22:11

A lógica beligerante que impende sobre a política pode mobilizar algumas massas, mas não serena os espíritos.

 

Clausewitz descrevia-a mesmo como um modo não sangrento de fazer guerra.

 

As campanhas eleitorais costumam ser o zénite deste modo sem modos de fazer política.

 

Vivemos, hoje, uma fase em que precisamos obviamente de clarificação, mas não podemos dispensar a convergência.

 

Há trinta anos, Roger Garaudy fazia notar que «a democracia não é a direita contra a esquerda, nem a esquerda contra a direita. A democracia é cada uma das pessoas e das comunidades participando todos os dias na invenção de um futuro que não é simples prolongamento do passado».

 

O problema é que «o mal vem muito de cima» e rapidamente atinge todas as camadas.

 

Andamos todos deslaçados. Até Garaudy dava conta de que não basta o crescimento económico. Só venceremos a crise «com uma esperança e uma fé».

 

Para ele, «a grande fraqueza dos movimentos revolucionários no Ocidente, no século XX, foi a de se terem separado da fé. A grande fraqueza das igrejas cristãs foi a de se terem separado dos movimentos populares».

 

Segundo Garaudy, a importância da fé reside no facto de ela nos «arrancar ao nosso pequeno eu, aos nossos pequenos interesses, e de nos ajudar a realizar a nossa vida sentindo-nos responsáveis por todos os outros e por todo o seu futuro».

 

Um novo espírito precisa-se. Mais aberto. Mais solidário. Mais inclusivo. Mais com. E menos contra.

publicado por Theosfera às 21:53

O pensamento deve muito a Sócrates. Não quer dizer que antes dele não se pensasse. Só que a moldura do pensamento era diferente.

 

Anteriormente, a pensamento era uma construção. Com Sócrates, continuou a ser uma construção, mas que não dispensava uma desconstrução.

 

Sócrates começou por questionar o estabelecido. Desmontava verdades adquiridas. Por isso, tornou-se incómodo. Pensar, desde o princípio, é um exercício perigoso.

 

Para Sócrates, importante não é agradar ao chefe nem seguir as maiorias. O segredo está no imperativo da consciência.

 

Fernando Savater oferece uma panorâmica muito sugestiva acerca de Sócrates e do pensamento num livro intitulado História da Filosofia sem medo e sem pavor.

 

Pensar é algo muito nobre. Mesmo quando «vem e vai», como poetou o grande João de Araújo Correia. 

publicado por Theosfera às 21:25

Ontem, houve tensão. Hoje, está a haver alguma distenção.

 

Entre José Sócrates e Paulo Portas, notou-se bastante crispação. Predominou a estratégia. O que estava em causa era saber se alguma coligação era possível entre aqueles dois líderes e seus respectivos partidos.

 

Como isso não acontece entre Jerónimo de Sousa e Passos Coelho, foi possível apurar, no debate desta noite, um maior esclarecimento.

 

O clima foi de uma grande urbanidade. Não houve interrupções. Este é o ambiente que eleva o nível da acção política.

publicado por Theosfera às 21:20

O relacionamento entre os povos tende a replicar, como aliás se compreende, as relações entre as pessoas.

 

No fundo, os relacionamentos deixam de ter a feição de encontros para assumirem, cada vez mais, a forma de contratos.

 

Tudo é mercantilizado num jogo de ganhos e perdas, de prémios e punições.

 

A solidariedade não passa de um ornamento retórico que faz aparições fugazes.

 

A ajuda que Portugal vai receber é um caso que merece ser estudado.

 

Não se trata verdadeiramente de um auxílio, já que existe uma forte componente de punição. Basta olhar para as altas taxas de juro.

 

Ninguém está disposto a perder mesmo quando em causa estão povos e pessoas que passam pelo mistério da fragilidade.

 

No fundo e ao contrário do que diz Dostoiévski, a compaixão já não é a lei que predomina na vida pública.

 

Era bom que os políticos e os economistas (e também os cidadãos) lessem os grandes escritores. Até para não perderem as grandes referências.

 

Falta uma asa humanista no voo que nos quer levar para o abismo. Só com um reforço do humanismo conseguiremos sair do pântano.

 

A crise não é só (nem principalmente) económica. A montante e a jusante desta, há uma panóplia de factores a ter em conta. Não lhes percamos o rasto. 

publicado por Theosfera às 16:32

É bom que haja pluralidade. É legítimo que exista divergência. E é até salutar que se coloque intensidade no debate.

 

O que não será edificante é que se emoldure tudo isso num clima de animosidade e num quadro de crispação.

 

Este é o tempo em que a pedagogia é mais necessária e se impõe como prioritária.

 

Acresce que os olhos dos nossos credores estão mais voltados na nossa direcção. Em alguns casos, é a primeira vez que jornais de dimensão mundial olham para Portugal com atenção.

 

E, pelos vistos, a avaliação não está a ser muito animadora.

 

As constantes interrupções, o ataque permanente, a insinuação constante e o ar sobranceiro não são, definitivamente, ingredientes de afirmação democrática.

 

O destempero na linguagem e a agressividade na pose não nos ajudam a crescer.

 

Ainda estaremos a tempo de reacertar no caminho?

publicado por Theosfera às 14:46

Candidato foi uma das palavras que, ontem, se ouviu no debate.

 

O interlocutor queria fazer baixar o patamar. O litigante não estaria ali como primeiro-ministro, mas como candidato. Como ele, aliás.

 

Naquele momento, eram iguais. Ambos eram candidatos. Mas seriam cândidos?

 

Sem menoscabo pela função governativa, talvez até seja uma promoção.

 

Candidato é uma daquelas palavras carregadas de sentido, a que o uso repetido traz alguma banalização.

 

Candidato vem de cândido, que significa branco e evoca, por isso, pureza, lisura, transparência, autenticidade.

 

Isto corresponde, no fundo, ao essencial da vida pública. Que falta faz a candura na política, na sociedade, no trabalho, em toda a parte!

 

Há tanta escuridão a envenenar o nosso dia-a-dia, o nosso relacionamento. Há tanta escuridão entre as pessoas.

 

Candidatos devíamos ser todos nós, cidadãos. Devíamos primar sempre pela alvura, pela brancura dos gestos e não pela escuridão trapaceira dos golpes.

 

O candidato é alguém que, mesmo não se apontando a si mesmo como modelo, procura ter uma conduta exemplar.

 

Infelizmente, nem sempre as palavras são tomadas pela sua significação. Muitas vezes, são percebidas a partir do uso que delas se faz.

 

E não há dúvida de que, para muitos, cândido é alguém bom, mas também ingénuo. Alguém que não engana, mas que se deixa enganar.

 

Ora, o que vemos, hoje em dia, é o oposto de tudo isto. Os candidatos são peritos na astúcia. E vibram por todos os poros quando apanham (ou julgam apanhar) o outro em falso.

 

No tempo que passa, o candidato tem pouco de cândido. Recorre à palavra, mas não lhe absorve o sentido.

 

O candidato pratica a propaganda, torna-se uma figura.

 

A humildade não é o seu forte, o que seria de esperar de alguém tatuado pela candura.

 

Era bom que se relesse O pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comte-Sponville. 

 

Não basta exibir o projecto que já se tem e denunciar o programa que outros possam ainda não ter.

 

O ar triunfante pode não ser necessariamente um trunfo.

 

Como era bom que aparecesse alguém que deixasse transparecer o que é ser candidato.

 

Uma candura que não esconda a verdade, que não se refugie em esquemas, que aceite dar a mão e não apontar o dedo é uma conquista que continuaremos a desejar. Por quanto tempo?

publicado por Theosfera às 11:50

Até o sábio fica espantado: «O povo já nem sequer está em choque».

 

Palavras de Eduardo Lourenço para descrever a reacção, aparentemente abúlica, do povo português à crise presente e à austeridade futura.

 

Noutras épocas, a rua estaria em movimento com a estridência dos sons e o eco da revolta.

 

Será que a população está mais madura? Ou não será que uma depressão colectiva se abateu sobre nós?

publicado por Theosfera às 11:25

Segunda-feira, 09 de Maio de 2011

Uma sondagem acabada de divulgar ilustra o que se sente na rua: empate entre os dois maiores partidos. A diferença entre eles é de 1,1%.

 

Para já, ninguém descola.

 

A indecisão é notória. Irreversível?

publicado por Theosfera às 20:02

 

1. Muito se tem falado de mudança: da necessidade de mudar, da urgência de mudar e também da dificuldade em mudar.

 

 

Só que Portugal já mudou. E a mudança veio de fora, ainda por cima com a ameaça de um impacto draconiano na vida das pessoas.

 

 

Dir-se-ia que muito dinheiro vem para o país, mas só a factura chegará ao povo.

 

 

É praticamente impossível divisar neste auxílio monetário uma autêntica dimensão humanitária.

 

 

A mudança passou, pois, de desejada a temida. E a esperança tende a ceder o lugar ao medo.

 

 

Nesta altura, o que o povo quer saber é quem se dispõe a cumprir estritamente o plano da mudança e quem se revela disponível para atenuar os seus efeitos.

 

 

 

 

2. Um programa tecnocrático precisava de ser compensado com uma política humanista. Que atenuasse os danos da austeridade. Que impusesse algumas correcções. Que encurtasse a desigualdade. E que fomentasse uma efectiva rede de solidariedade que não deixasse ninguém sem acesso ao essencial.

 

 

 É claro que, nesta fase pré-eleitoral, o discurso humanista está presente. Mas a experiência demonstra que, no período pós-eleitoral, o mais provável é que ele dê lugar a uma prática contrária.

 

 

 O pretexto será o habitual: as dificuldades que o país atravessa. E as vítimas continuarão a ser as de sempre: os mais desfavorecidos.

 

 

 Os que se comprometeram com a troika não terão grande margem de manobra. Os que se demarcaram da troika não terão grande oportunidade de influência.

 

 

 Era bom, por isso, que houvesse verdade nas propostas e moderação nas acções. Alguma sobriedade, nesta fase, até seria mais esclarecedora.

 

 

 

Cada partido compendiaria as suas propostas e estas seriam remetidas aos cidadãos. Depois de reflexão atenta, fariam a sua opção.

 

 

 Salta à vista, porém, que a prioridade é a coreografia partidária e a encenação mediática.

 

 

Sem se aperceberem muito disso, os cidadãos olham para os líderes como actores e vêem-se a si mesmos como meros espectadores.

 

 

 

 

3. A representação é uma arte, mas o seu lugar é o palco. A política é outra coisa. O seu objectivo não é representar, mas apresentar. E, depois, executar. Sim, executar. Porque decidir já foi com outros.

 

 

 De facto, desta vez, vamos escolher quem executa e não quem decide. Porque quem decide são as entidades que nos vão emprestar dinheiro, ditando as condições em que ele será encaminhado.

 

 

 Todos parecem estar de acordo quanto à necessidade de não impor mais sacrifícios além daqueles que já foram anunciados.

 

 

As pessoas estão saturadas e receosas. Já se sabe que a mudança trará custos. Teme-se que não traga benefícios.

 

 

Precisamos de quem esteja à altura não só dos problemas que enfrentamos, mas também das soluções de que necessitamos. Só assim o medo voltará a ser suplantado pela esperança.

 

 

 

 

4. Mas como vencer o medo quando cada partido garante que, se o outro vencer, as dificuldades aumentarão e a crise se perpetuará?

 

 

Como criar um espírito de entendimento num ambiente de desconfiança?

 

 

Acontece que a política é um espelho do que se passa na sociedade. Estamos num tempo em que os lugares estão cada vez mais perto e as pessoas se sentem cada vez menos próximas.

 

 

Encurtamos distâncias entre lugares. Mas teimamos em cavar distâncias entre pessoas.

 

 

 Já não há fronteiras a delimitar países. Mas continua a haver muros a separar pessoas.

 

 

Necessitamos de dinheiro. Mas precisamos, ainda mais, de restaurar laços e de refazer pontes.

 

publicado por Theosfera às 11:57

Estamos num mundo onde os territórios estão cada vez mais perto e onde as pessoas se sentem cada vez menos próximas.

 

É mais fácil aterrar no local mais distante do que entrar no íntimo da pessoa mais chegada.

 

Encurtamos distâncias entre lugares. Mas cavamos distâncias entre pessoas.

 

Já não há fronteiras a delimitar países. Mas continua a haver muros a separar pessoas.

 

A política é um espelho fiel do que se passa entre os cidadãos. Quando mais precisamos de entendimentos é que mais aparecem os confrontos.

 

As eleições são um momento importante. Mas o desenvolvimento do país há-de ser o objectivo supremo.

 

Não é a 5 de Junho que se vê quem vence. É nos dias seguintes que se vê quem ganha.

 

Não ganha só quem tem mais votos. Ganha sobretudo quem agregar mais vontades, quem congregar mais energias, quem desencadear mais esperança, quem, no fundo, souber estender as mãos e não apenas apontar os dedos.

 

Precisamos de restaurar laços e de recriar pontes.

publicado por Theosfera às 11:08

Neste Dia da Europa, não há grande euforia nem especial entusiasmo.

 

Uma certa angústia paira até sobre os espíritos.

 

Portugal está na Europa, mas vê-se a divergir dela cada vez mais.

 

Estamos nos extremos e parece que nos encontramos na cauda.

 

Em suma, estamos cada vez mais perto dos outros e, não obstante, sentimo-nos cada vez menos próximos dos outros.

 

Fazemos parte de uma entidade que nasceu sob o signo da solidariedade, mas que dá sinais de estar assolada pela indiferença.

 

Em relação à ajuda monetária, o nosso parceiro mais distante (Finlândia) parece estar relutante e até o nosso aliado mais antigo (Inglaterra) parece estar renitente.

 

Hoje é, pois, um dia para celebrar. Mas, acima de tudo, para repensar.

 

Que significa a Europa para os europeus?

publicado por Theosfera às 10:21

Mudar parece ser a palavra trazida para o centro do debate político.

 

O uso desta palavra revela, pois, determinação mas não isenta de alguns perigos.

 

Decidida a mudança a partir do exterior e interiorizada a austeridade que ela acarreta, uma preocupação avulta aos olhos do cidadão. Este quer saber quem se mostra disposto a seguir estritamente os seus ditames e quem se revela disponível para atenuar os seus efeitos.

 

Nesta altura, é a incerteza a predominar e o receio a prevalecer.

 

Quem for mais convincente, e não quem parecer mais convencido, triunfará.

 

Diante deste cenário, era importante que houvesse um reforço da pedagogia democrática e que uma réstia de bom senso não desaparecesse.

 

Se três partidos assinaram o acordo com a troika, é porque se revêem nele. Era bom, por isso, que não excluíssem pontes para um entendimento futuro.

 

A crispação nunca ajuda. E, desta vez, pode prejudicar muito. 

publicado por Theosfera às 10:20

Domingo, 08 de Maio de 2011

Nem sempre o progresso é sinónimo de crescimento. Como alerta Luís Racionero, o progresso também pode ser sintoma de decadência.

 

Temos, por isso, de estar de sobreaviso diante de uma espécie de automatismo do progresso.

 

A escola superior, está, cada vez mais, distante das letras, das humanidades. A pressão do emprego parece criar uma vertigem pelos cursos científicos.

 

A universidade afasta-se assim, crescentemente, do seu conceito. Ela é o território em que muitas especialidades prosperam. E não o terreno onde as muitas especialidades se poderiam cruzar.

 

Uma reportagem de hoje realça a queda dos cursos de letras, designadamente da História e da Filosofia.

 

É pena. A crise nas humanidades é o sintoma de uma cultura pouco humanitária.

 

Até nas ciências, a interligação com as letras é importante.

 

Além de especialistas do concreto, precisamos de cultores do universal.

 

A maturidade articula-se na complexidade. E atesta-se na integração do diferente.

 

Pessoas de uma só ideia e proprietários de um só saber podem alimentar a ilusão de que tudo está no que aprenderam.

 

O espírito crítico tende a decrescer e o dogmatismo a aumentar.

 

A pressa, atiçada pela pressão, gera uma dificuldade acrescida na digestão de um livro, na meditação de uma palavra ou na degustação de um conceito.

 

O mundo precisa de tudo. A universidade empobrece sem a riqueza que lhe é dada pelas letras.

 

A própria ciência precisa de outros horizontes de questionamento e de problematização.

publicado por Theosfera às 16:05

Os discípulos de Emaús são um retrato. Um retrato de nós mesmos.

 

Como eles (há quem diga que se trata de um casal), também nós somos seres abatidos, caminhando pela estrada, a caminho de casa, no ocaso do dia, ao fim da tarde.

 

As expectativas tinham sido esvaziadas. As esperanças pareciam ter caído. A aposta fora perdida.

 

Mas é nessa mesma estrada, que é a existência, que surgem muitos circunstantes.

 

Em cada um deles está o Jesus que nós, à primeira, não reconhecemos nem acolhemos.

 

Na hora que passa, a solução está na hospitalidade.

 

É preciso receber o outro na nossa casa, na nossa vida.

 

A solidariedade é o único caminho do desenvolvimento. E é também o maior barómetro da hospitalidade.

 

Depois de acolhermos Jesus na pessoa dos pobres, sentir-nos-emos reabilitados e possuídos por uma energia renovada. Estaremos prontos para voltar.

 

A Jerusalém da nossa vida é o local do nosso trabalho, o palco da nossa missão, o chão do nosso destino.

 

Uma nova manhã há-de raiar, vencendo o cinzento da tarde e a espessura da noite. 

publicado por Theosfera às 13:34

A fé não é convincente pela consistência teológica ou pela coerência doutrinal.

 

A fé não é convincente quando os crentes se julgam melhores que os outros.

 

A fé torna-se convincente quando consegue superar o que é mau e acrescentar o melhor ao que já é bom.

 

Nunca a fé será convincente quando imita o pior e compete com os outros no triste campeonato da iniquidade.

 

Pode haver uma miríade de explicações para o que aconteceu no Egipto, esta noite. Mas não existe uma única justificação para o sangue semeado e para as vidas ceifadas.

 

Se é pelos frutos que se conhece a árvore (disse-o o Mestre dos mestres), então estas árvores são completamente infecundas.

 

Tratar-se-á de mais um acidente. Só que já são tantos acidentes que muitos serão levados a encetar a sua procura por outras vias.

 

A violência é sempre inqualificável. Mas a violência religiosa é, pura e simplesmente, abjecta.

 

John Jocke apontava a tolerância como o critério decisivo para aferir a verdadeira religião.

 

A amostra que a realidade nos oferece não é animadora.

 

A violência, como demonstram os estudos de René Girard, sempre pairou nas imediações do sagrado.

 

Como é que as pessoas que se consideram mais religiosas desfiguram tão flagrantemente a religião?

 

Ruiz de la Peña estava certo. É preciso recompor o rosto de Deus. É urgente deixar que Deus seja Deus.

 

Ou será que é preciso descer as escadas do templo para O reencontrar?

 

Por algum motivo Jesus avisou que o verdadeiro culto é o que é prestado em «espírito e verdade».

 

Deus pode ser encontrado em qualquer lugar. Mas o melhor santuário é a consciência recta. O coração limpo. O olhar puro. A vida solidária.

publicado por Theosfera às 13:09

Um dos maiores paradoxos da religião: quase sempre a pregar a paz, quase sempre a violar a paz.

 

Até quando?

publicado por Theosfera às 13:05

Sábado, 07 de Maio de 2011

A ajuda exterior é, antes de mais, por causa das contas. Seria bom que ela viesse, sobretudo, por causa das pessoas.

 

Era bom que os nossos parceiros não nos ajudassem apenas a reduzir o défice. O importante era que nos ajudassem a erradicar a pobreza.

 

Precisávamos de um programa que, desde logo, reagisse à emergência social que estamos a viver. E que se lançasse uma acção que promovesse a instalação de empresas, promovendo o trabalho e combatendo assim o desemprego.

 

Esta ajuda dificilmente chegará aos mais pobres. Pelo contrário, tudo indica que ela vai prejudicar, ainda mais, a vida dos mais desfavorecidos.

 

Com as medidas que se anunciam (corte nos abonos de família, aumento do desemprego, agravamento do custo de vida, redução dos salários e das pensões), os mais pobres vão ter problemas acrescidos.

 

O auxílio monetário é bem-vindo. Mas seria bom que os mais pobres sentissem esse apoio. Acontece que não é isso o que se perfila.

 

Uma intervenção humanitária era bem mais necessária.

 

Estamos num mundo que é uma aldeia cujo dono é o capital.

 

O capital só olha para o capital. Os que o têm triunfam. Os que não lhe conseguem chegar vão definhando.

 

Até quando?

publicado por Theosfera às 20:49

Era bom que este tempo fosse habitado pela esperança. Mas tudo indica que ele será dominado pelo medo.

 

A situação não está bem. Mas há o receio de que fique pior.

 

As sondagens, aliás, espelham isso. A maioria acha que a actual governação não tem sido boa. Mas a mesma maioria considera que a oposição não faria melhor. Daí o empate com sabor a impasse.

 

Pelo olhar das pessoas, este momento parece ter um tom mais crepuscular que auroral.

 

Há uma grande dificuldade em olhar de frente para a realidade. Há quem prefira não saber o que nela ocorre.

 

É por isso que se pensa que, com a verdade, quase nunca se ganha. O problema é que, sem a verdade, perde-se sempre. Mesmo que se tenha a ilusão de ganhar.

 

Em política, como no resto, uma verdade encobre, quase sempre, outra verdade. Só na totalidade se encontra a verdade.

 

O povo tem tido a boca fechada. Mas tem de manter os olhos abertos e os ouvidos atentos.

 

Não há saída?

 

Gregório Nisseno dizia que cada homem é um pequeno mundo. Nenhuma mudança acontece no mundo sem a intervenção das pessoas que nele vivem.

 

A mudança molda as pessoas. E as pessoas moldam a mudança.

 

Fiquemos, pois, com a recomendação de Gandhi: «Sê tu mesmo a mudança que queres para o mundo».

 

No fundo, foi o que propôs Roger Schutz: «Começa por ti».

 

A mudança tem de começar por dentro. Tanto mais que é a única que depende de nós.

publicado por Theosfera às 12:51

Quem ouve António Barreto, Silva Lopes, Medina Carreira, Manuel Maria Carrilho ou Henrique Neto, reforça uma impressão que o tempo tem reforçado.

 

Há muitos socialistas sem partido.

 

Esta crise de pertença, aliás, não afecta só a política.

 

Há também muitos cristãos sem igreja e muitos crentes sem religião.

 

Trata-se de um fenómeno que devia ser atentamente estudado.

 

Isto é, desde logo, sinal de que as pessoas não se conformam. E é também sintoma de que as instituições dificilmente se reformam.

 

publicado por Theosfera às 12:10

O programa da troika é de pendor tecnocrático e liberal.

 

Olha para a realidade a partir do lucro. Quando este falha, há que sacrificar as pessoas. Facilitam-se os despedimentos, diminuem-se os salários, aumentam-se os impostos, agrava-se o custo de vida.

 

Do que precisávamos, por isso, era de um programa humanista, com forte consciência social, reparadora das injustiças e fomentadora da solidariedade.

 

É pena que, nesta hora, este discurso prime pela ausência.

publicado por Theosfera às 12:03

Do estrangeiro vem muito dinheiro para o Estado.

 

Do Estado vem cada vez menos dinheiro para as pessoas.

 

O estrangeiro empresta dinheiro ao Estado.

 

O Estado vai tirar cada vez mais dinheiro às pessoas.

 

Eu sei que este raciocínio é muito simplista. Mas é o que vem mais rapidamente ao pensamento.

 

A realidade com que o cidadão lida não oferece grandes alternativas.

 

Uma grande ajuda exterior vem aí. Mas, no interior, os rendimentos vão baixar e o custo de vida vai subir.

 

Para muitos, a esperança é um vazio. E a mudança é vã.

 

As sondagens reflectem o estado de espírito: empate técnico.

 

Mais do que a esperança, o que está a predominar é o medo. O medo de que tudo fique ainda pior.

 

Nuvens negras alojaram-se na alma.

publicado por Theosfera às 11:52

«A vida é tão curta e o ofício de viver tão difícil que quando começamos a aprendê-lo, temos de morrer».

Assim escreveu (pertinente e magnificamente) Ernesto Sábato.

publicado por Theosfera às 11:49

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