O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 15 de Maio de 2011

Transcrevo o texto que Anselmo Borges publicou, ontem, no DN sobre o mais recente livro de Andrés Torres Queiruga.

 

Com esta transcrição, queria aproveitar para sinalizar a minha admiração pelo autor do artigo e a minha impagável gratidão ao autor do livro, uma das pessoas que mais me ajudou na vida.

 

Penso que Andrés Torres Queiruga, da Universidade de Santiago de Compostela, é um dos mais vigorosos e penetrantes teólogos católicos vivos, numa ousadia única de colocar a fé cristã em confronto radical com a modernidade e vice-versa. Acaba de publicar em castelhano uma obra seriamente original sobre o tema em epígrafe: Repensar el mal, que obriga a pensar.
 
Lá está o famoso dilema de Epicuro: Ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?
 
São precisamente os pressupostos do dilema que o autor começa por desmontar, a partir de uma ponerologia (de ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, os próprios animais também sofrem. Todos passam por crises e doenças e todos morrem. E perguntamos: donde vem o mal?
 
Quando procuramos a raiz última do mal, encontramo-la na finitude. O mundo é finito e, por isso, há nele, inevitavelmente, mal: o finito não pode ser perfeito, pois tem falhas, carências, e nele haverá choques, pois, como escreveu Espinosa, "toda a determinação é negação".
 
A primeira coisa que, portanto, é preciso considerar é que o mundo produz mal, todo o mal tem origem no próprio mundo. Por isso, na peste negra, houve procissões; com o terramoto de Lisboa, pensou-se que Deus o tinha permitido. Agora, com o tsunami no Japão, dá-se uma explicação científica, e, com a sida, investiga-se nos laboratórios.
 
Dizer que Deus é omnipotente, infinitamente bom, que nos ama e que poderia acabar com o mal do mundo, criando-o perfeito, mas que não quer, é uma contradição. Se vemos uma mãe ao lado do filho torcendo-se de dor, sabemos que ela não pode evitá-la - se pudesse, não o permitiria. O que se passa é que, se não é possível um mundo perfeito, sem mal, não tem sentido perguntar por que é que Deus não fez um mundo perfeito. Não se diz que existe algo que Deus não pode fazer: simplesmente se nega uma contradição. Se o mundo não pode ser perfeito, não posso esperar que Deus o faça, não posso pretender que divida uma turma em três metades.
 
A pergunta é outra: se o mal é inevitável, por que é que Deus o criou? "Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo."
 
Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis, fé: justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem a sua resposta para o problema. O crente religioso tem a sua: crê que Deus não teria criado o mundo, se de algum modo não fosse possível libertar--nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. Quem pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como Amor e Anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.
 
Mas ergue-se uma objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Confiamos em Deus e podemos mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, mas possível.
 
Sim, a pessoa é um ser finito, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Há aquele passo de Tristão e Isolda, na experiência amorosa, quando Tristão diz: "Tu és Tristão e eu sou Isolda". E Isolda: "Tu és Isolda e eu sou Tristão". Esta reciprocidade no amor, que não anula a pessoa, porque quanto mais amas mais és, cria uma relação especial. Ora, esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé, apoiada em razões: "Deus pode entregar-se-nos nesta abertura infinita, de tal modo que podemos dizer, como Tristão e Isolda, que somos Deus, que está em nós", desde sempre.
publicado por Theosfera às 23:41

Hoje, falou-se do Pastor que, sendo apresentado como bom, é, originalmente, descrito como belo.

 

Eis, portanto, um oportunidade para ver o que andamos a fazer com a Bondade e com a Beleza.

 

Xavier Zubiri escreveu que «o pulchrum é algo aberto e que a beleza nunca é algo fechado».

 

Tomás de Aquino, falando da música, escreveu que, «embora os ouvintes não percebam de quando em quando aquilo que é cantado, compreendem todavia por que motivo se canta: para louvar a Deus. E isso é suficiente».

 

E não é a Beleza que, como inquiria Fedor Dostoievsky, há-de salvar o mundo? Mas que beleza nos salvará? O ser absolutamente belo, acrescenta o imortal escritor, é Jesus Cristo. A Sua beleza está no Seu despojamento, na Sua entrega.

 

A Beleza, como já intuíam os antigos, é, juntamente com a Verdade e com a Bondade, um outro nome de Deus.

 

Foi pena que, durante séculos, tivéssemos esquecido a Beleza. Por isso até se alterou a descrição que Jesus faz de si mesmo em Jo 10,11. Aqui aparece-nos como o «bom Pastor». Mas no original não está assim. Se fosse bom estaria agathós. Mas o que lá aparece é kalós.

 

«Eu sou o belo Pastor» é o que nos surge e é assim que deveríamos ler. É claro que o bom é belo. Mas o belo também não é bom?

 

Para Sto. Agostinho, o belo é o esplendor da verdade e para Heidegger é a manifestação da verdade.

 

Zubiri ajuda-nos a desenterrar o belo do prolongado cativeiro em que esteve retido. A Beleza, tal como a bondade e a verdade, é actualidade da realidade. A realidade é actualizada na inteligência como verdade, na vontade como bondade e no sentimento como beleza.

 

Na vida, precisamos não só de uma filosofia, mas também (e bastante) de uma filocalia. O amor da sabedoria surge sempre irmanado ao amor pela beleza.

 

Segundo von Balthasar, para a sociedade actual a via para chegar a Deus  é a via do 3º transcendental,  o transcendental esquecido, a Beleza.  A Beleza é o Todo que se oferece no fragmento.

 

Bento XVI chama a atenção para uma tentação muito forte, ínsita na cultura contemporânea e até em alguns sectores da Igreja. Trata-se da tendência (ou, melhor, da tentação) para separar a Beleza da Verdade e da Bondade.

 

 Tarefa impossível, porém. As três estão unidas e fundidas em Deus. Deus é a Beleza máxima, a Bondade maior e a Verdade suprema.

 

 A Beleza sem a Verdade reduz-se a um mero deleite estético. É na Verdade que a Beleza é bela.

 

 É claro que custa apelar para a Verdade num tempo que parece ter contrato firmado com a mentira. Mas haverá Beleza sem Verdade?

 

 A dedicação à Verdade acarreta sempre anticorpos. Há quem não suporte a Verdade e faça tudo para torpedear e agredir os que, modestamente, procuram viver no seu seio.

 

 Eis, pois, uma proposta de vida que não podemos desatender: viver a Beleza da Verdade e viver a Verdade da Beleza. No fundo, só a Beleza é verdadeira. E só a Verdade é bela. Deixem-nos procurar a Verdade. E desfrutar da sua Beleza.

publicado por Theosfera às 23:19

É nos tempos de ditadura que nascem as aspirações pela democracia. E é nos tempos de democracia que emergem as pulsões totalitárias.

 

Nos tempos em que a liberdade se fecha, clamamos pelo pluralismo. Nos tempos em que a liberdade se dá por garantida, ofuscamos o referido pluralismo.

 

Num mundo globalizado, é fácil pormo-nos a falar do mesmo. Quando algo acontece com impacto em qualquer parte do mundo, parece que todos temos de dizer alguma coisa.

 

A informação carece de pluralismo. O monismo instala-se com facilidade. Há um tema dominante e, depois, apêndices.

 

Em tempos de recessão, dizem-nos para poupar. Poupem-nos, pois, a pormenores que só fazem aumentar o tédio e desligar o televisor.

 

Ajudem-nos a peregrinar pela esperança e a não estiolar nas teias miasmáticas do pesadelo.

 

Em tempos sombrios, não haverá ninguém ungido por alguma luminosidade?

publicado por Theosfera às 23:11

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