O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 17 de Março de 2011

O tempo, afinal, desapareceu. Já nem vale a pena perguntar por ele.

 

À menor saudação ou à mais leve tentativa de abordagem, aparece a sentença: não há tempo.

 

Ninguém tem tempo. Onde está ele?

 

Andamos nele. Viajamos por ele. Mas fomo-nos perdendo nele.

 

O krónos devora-nos. Só no kairós nos reencontraremos.

 

É preciso parar um pouco no tempo para recuperar o sentido do tempo.

 

A vida é um percurso que nós transformamos em corrida.

 

É fundamental que a eternidade volte a habitar o tempo.

 

Voltaremos a encontrar o tempo que perdemos?

publicado por Theosfera às 21:44

No meio da catástrofe, não é só a destruição que se destaca. É também (e acima de tudo) a dignidade que resplandece.

 

Nem um país tecnologicamente omnipotente escapa à fragilidade.

 

Quando a natureza se revolta desta maneira, resta-nos acautelar os danos.

 

As consequências de um terramoto desta dimensão dificilmente serão evitadas. Quando muito, só poderão ser minoradas.

 

Este é o tempo de, como dizia Sebastião de Carvalho e Melo, enterrar os mortos e tratar dos vivos.

 

Mas há vivos que estão dispostos a morrer para que outros vivos não morram.

 

A central nuclear de Fukushima é uma ameaça séria. E sabemos que as radiações são potencialmente mortais.

 

Daí que seja espantoso saber que há cinquenta trabalhadores que permanecem dentro da central para tentar impedir uma tragédia de proporções incalculáveis.

 

Eles certificam que, afinal, não estamos perante uma omnifragilidade. Na fragilidade também está alojada muita força.

 

O risco de serem contaminados é enorme. A sua vida está em risco. E eles sabem-no.

 

Isto é de herói.

 

Realce também para a intervenção do imperador. Apelou à calma e à compaixão, termo muito caro a uma cultura de raiz budista.

 

Akihito nunca tinha feito uma declaração em directo na televisão. Sinal de que o momento é grave. Mas sintoma também de que ainda há quem resista (estoicamente?) à vertigem mediática.

 

O que aparece em demasia corre sérios riscos de se banalizar, de se desgastar.

 

O recato imperial encerra uma dose enorme de sabedoria. Que não deveria ser desperdiçada. Noutras latitudes.

publicado por Theosfera às 11:46

Maurice Blondel não escondia a pertinência da pergunta: será que a nossa vida tem sentido?

 

André Malraux achava difícil encontrar uma resposta. Para ele, a nossa civilização seria a primeira que à pergunta pelo sentido responderia simplesmente não sei.

 

Por sua vez, Pierre Pierrard mantinha que a nossa vida, apesar de tudo, tem sentido porque Deus lhe dá um sentido.

 

E Karl Rahner especificava que Cristo é a resposta total à pergunta total.

 

Ora, a pergunta total, decisiva, é precisamente a pergunta do sentido.

 

A resposta de Jesus é a abertura a Deus e o amor ao próximo. É a aposta na eternidade e o investimento no tempo. É a recusa do status quo

 

Para Jesus, a realidade não é tanto para compreender. É sobretudo para transformar.

 

Diante de catástrofes como a do Japão, ficamos desmobilizados e atormentados pelas perguntas.

 

A pergunta pelo sentido é a mais lancinante.

 

Mais do que uma resposta, Jesus corporiza o eco das nossas inquietações.

 

Ele torna-Se, por isso, um horizonte de esperança.

 

Acima de tudo, Ele é aquele que está. Não paira. Está.

 

Jesus é aquele que sofreu como nós. Que gritou como nós.

 

E mesmo depois do que parecia ser o fim, voltou a começar.

 

É quando parece que tudo acaba - dizia Agostinho - que tudo verdadeiramente começa.

 

Isto não apaga a dor. Mas também não abafa a esperança.

 

Só faz sentido haver Igreja para ser o eco desta esperança solidária, deste amor compassivo.

 

Ela é chamada a aliviar as dores e não a sobrecarregar quem já está bastante sobrecarregado com toda a espécie de dores. Incluindo a dor da incompreensão.

 

Ela é convidada a ser o espaço dos recomeços particularmente para quem julga que já tudo terminou.

 

Ela tem de ser o alento e não o tormento.

 

Daí que tenha de vencer a desconfiança em relação ao mundo e ao tempo. 

 

Quem acredita em Deus não pode desistir da obra de Deus.

 

Acreditar é, acima de tudo, não desistir. É voltar a começar. Aqui ou noutro lado. No tempo ou na eternidade. 

publicado por Theosfera às 11:34

A Igreja não é um fim. Nem é o fim.

 

Não é o objectivo que nos mobiliza. Nem é o termo para onde caminhamos.

 

A Igreja é um instrumento ao serviço do Evangelho e um meio de construção do Reino de Deus.

 

Espanta, por isso, a tentação do eclesiocentrismo. E fere bastante que se estacione tanto nos meios em detrimento do fim.

 

A resistência à mudança é, assim, um sintoma preocupante.

 

Se Jesus foi, essencialmente, um reformador, é com dificuldade que se assiste à reacção negativa às reformas. Isto apesar de, nos documentos oficiais, se reconhecer a necessidade da reforma e até da reforma perene.

 

Reformar é, a partir da etimologia, voltar a dar a forma. Ora, a forma da Igreja terá de ser sempre a forma de Jesus.

 

Ele é que é o critério, a norma, a referência.

 

Alguém pode sustentar que não é preciso melhorar as formas até agora encontradas?

 

Acresce que a Igreja transporta o eterno, mas está no tempo. E o tempo é o espaço da mutação.

 

A grandeza do divino é a capacidade de ser dito de formas tão diferentes.

 

Pedro Mexia admira-se porque as discussões da actualidade são as mesmas de há quarenta anos.

 

São os mesmos os apelos à mudança. E, segundo ele, são as mesmas as resistências à mudança.

 

Tais apelos, de resto, não tocam no perene. Não preconizam alterações doutrinais de fundo.

 

Limitam-se a reclamar uma maior participação e clamar por uma cultura da misericórdia.

 

Nenhuma das mudanças, refere Mexia, «toca no essencial, mas várias são decisivas neste momento histórico».

 

É salutar esta preocupação. O conformismo nunca motivou ninguém.

 

Importa ter presente que a mudança não é, necessariamente, uma cedência. E é bom que se compreenda que a fidelidade é muito mais que a resistência.

 

Decididamente, Deus é eloquente embora não goste de ser loquaz. Nunca deixa de falar, ainda que goste de se mostrar subtil.

 

E um dos locais onde a Sua voz mais se faz sentir é o tempo. É cada tempo, este tempo também.

 

Captar o sentido do tempo acaba por equivaler a perscrutar a voz de Deus.

 

Afinal, o espírito do tempo (zeitgeist) transporta-nos, invariavelmente, ao tempo do Espírito.

 

A Igreja não é uma redoma em que tenhamos de nos fechar. Tem de ser sempre uma janela que urge abrir.

publicado por Theosfera às 11:07

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