O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 16 de Março de 2011

Não são apenas os gestos que ferem. Há palavras que também magoam.

 

Mais. Por vezes, é de palavras agressivas que se passa a agressões.

 

George Orwell advertiu que a degradação das sociedades começa, não raramente, pelas palavras.

 

Daí a imploração do poeta (no caso, Tolentino de Mendonça): «Não uses palavras; qualquer palavra que me digas há-de doer pelo menos mil anos»!

 

O panorama que a actualidade nos oferece resume-se a uma ensurdecedora trovoada de palavras.

 

Façamos um breve conspecto pelo que a nossa memória alcança a partir de jornais, de blogs, da televisão ou simplesmente da rua. Encontramos palavras que sirvam para unir, para encorajar, para abrir janelas de esperança?

 

Algumas encontraremos, sem dúvida.

 

Mas o mais provável é que acumulemos palavras que sabem a fel, que denotam arrogância ou que encerram violência.

 

Parece que, no hebraico, a raiz dbr tanto dá para palavra como para peste.  

 

Nada mais pertinente, convenhamos.

 

É urgente reabilitar a palavra. É fundamental reconduzi-la à sua fonte.

 

Se antes de falar, acharmos que o que vai ser dito vai ferir ou magoar, façamos um compasso de espero.

 

Antes a sobriedade do silêncio do que a tórrida tempestade de certas palavras.

publicado por Theosfera às 11:32

As palavras têm uma origem, percorrem um caminho e constroem uma história.

 

Sucede que, não raramente e como notou Ludwig Wittgenstein, o seu significado é tomado não a partir da sua génese, mas a partir do uso que lhe é dado ao longo do tempo.

 

Católico tornou-se indicador de parcela. Designa uma parte dos crentes, dos cristãos.

 

Sucede que, etimologicamente, católico evoca não uma parte mas o todo.

 

O primeiro a empregar este conceito terá sido Aristóteles, na sua célebre Metafísica.

 

Aí defende que a verdade é católica. Está na totalidade. Hegel e von Balthasar repetiram este ensinamento nas suas obras.

 

Decompondo a palavra, encontraremos kath olon, isto é, segundo o todo.

 

A vida portuguesa vive um momento em que precisava muito de assentar nesta perspectiva.

 

A totalidade está a ser dirigida por uma parte. Esta parte diz que a sua perspectiva é inegociável.

 

A condução do país assemelha-se a uma litigância judicial. Várias partes em confronto. Apenas uma executa o seu programa.

 

Isto é empobrecedor. A parte devia ser iluminada pelo todo. Não devia ser o todo a ser condicionado pelas partes.

 

A verdade é integradora e, por isso, conciliadora e pacificante.

 

Muita falta faz a competência. Mas mais falta faz ainda a sabedoria. Daí o acerto da (inquietante) pergunta de T. S. Eliot: «Onde está a sabedoria que nós perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que nós perdemos na informação?».

 

  Não nos fixemos apenas no que temos conquistado. Pensemos sobretudo no que temos perdido. E procuremos reencontrá-lo.

 

É no todo (e em todos) que a verdade nos visita. Insistir nos pontos de vista parciais, quando em causa está a totalidade, é perder tempo e desperdiçar oportunidades.

publicado por Theosfera às 10:58

Quando se usa a expressão caritas in veritate, percebe-se o alcance, mas adivinha-se também um certo perigo.

 

Não há dúvida de que, como diz o Papa, o amor «há-de ser compreendido, avaliado e praticado sob a luz da verdade».

 

Mas que verdade? A que eu encontro? A que surge a meus olhos como absoluta? E se o outro a contempla de modo diferente?

 

Recorde-se que, à luz da concepção grega (que radica na palavra aletheia), verdade é o que se deixa ver, é o que se desvela.

 

A verdade é, pois, predicada à realidade em si mesma e à percepção que cada um tem dela.

 

É por isso que, para mim, o outro pode não estar na verdade. Para o outro, posso ser eu a não estar na verdade.

 

Nesse caso, não vou amá-lo?

 

A expressão caritas in veritate pode sugerir, embora involuntariamente, uma certa anterioridade da verdade sobre o amor.

 

E o certo é que a história está cheia de crimes em nome da verdade. Por incrível que pareça, a verdade pretextou muitas vítimas.

 

Supostamente, quem não está na verdade merece castigo, penalização e não amor.

 

É curioso que na Bíblia (como, aliás, reconhece o Papa) aparece a expressão inversa: veritas in caritate (Ef 4, 15), a verdade no amor. 

 

É, portanto, na escola do amor que se apreende a verdade.

 

Quando foi preciso dizer quem é Deus, S. João recorreu à linguagem do amor. Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8.16).

 

A verdade acerca de Deus está no amor.

 

É por isso que a verdade que liberta é o amor, o amor que se dá sem medida.

 

O amor da verdade é inseparável da verdade do amor.

 

O amor da verdade não me inibe de propor ao outro aquilo em que acredito. Mas a verdade do amor impõe-me que eu respeite o outro mesmo que ele acredite no oposto.

 

Daí que Yves Congar tenha preconizado, como primeira condição da reforma da Igreja, a caritas, ou seja, «aquele amor desinteressado e realista que quer apenas o bem do outro».

 

Desligada do amor, a verdade apura-se ao modo de uma sentença judicial. Acaba por ser a autoridade a decidir por um dos lados.

 

Ora, a essência da verdade é o encontro potenciado pelo amor. Por vezes e como escreveu Wiliiam Carlos, «até a dissonância conduz à descoberta».

 

Num refrescante livro que acaba de aparecer entre nós, Timothy Radcliffe sublinha que «a atenção ao outro exige que eu aceite que ele se agarre firmemente a verdades que não se ajustam facilmente com aquilo em que eu acredito».

 

De resto, o Reino de Deus é espaçoso. Nele, há lugar para todos.

 

É, por conseguinte, o amor que verdadeia a própria verdade. Torna-a mais verdadeira, mais autêntica, mais universal.

 

O amor não permite que se exclua, que se persiga, que se condene.

 

O amor está sempre na verdade. E a verdade só pode estar no amor.

 

Quando tudo acabar, como anota Paulo, só o amor permanecerá.

 

O amor é a base de tudo. Inclusive da verdade.

 

Há sempre verdade no amor. Necessário é que não deixe de haver amor na procura e na partilha da verdade.

 

A verdade não se pode impor por meios coercivos. Só se pode partilhar através do amor, que dá e recebe, que fala e escuta, que encontra e não cessa de procurar.

 

Uma boa síntese prospectiva de tudo isto poderá ser a recomendação de Agostinho: «Vivei vidas cheias de bondade e mudareis os tempos».

 

O caminho não é tanto a repetição de verdades para os outros. O caminho terá de ser sobretudo a vivência da verdade junto de todos. Pela bondade, pelo amor.

 

Assim, quando usarmos a expressão caritas in veritate, não esqueçamos que ela postula, imperativamente, a correspondente (e matricial) veritas in caritate.

 

No amor está a verdade!

publicado por Theosfera às 00:12

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