O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

Se um sorriso passear pela tua face, não o comprimas. Sorri.

 

Mas se uma lágrima assaltar os teus olhos, não a sufoques. Chora.

 

Não te preocupes com as impressões dos outros.

 

Em cada momento, sê autêntico, inteiro.

 

Deixa que o teu rosto seja o espelho da tua alma.

 

Um coração puro não tem ornamentos nem suporta disfarces.

 

Um coração puro é o mais belo enfeite de uma vida limpa.

 

Muitos andam envolvidos com as aparências.

 

Uma só coisa, porém, é necessária: ser verdadeiro.

 

Apenas a verdade é bela.

publicado por Theosfera às 00:00

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Sábio não é o que presume que sabe. Pelo contrário, é o que pensa que não sabe e, nessa medida, se esforça por saber.

 

O verdadeiro sábio procura e partilha.

 

Não é fácil incluir a humildade na sabedoria. Mas o mais difícil é alcançar a sabedoria da humildade.

 

Só a humildade é, autenticamente, sábia. Só ela nos traz ligados à terra.

 

Só ela nos conduz à profundidade. E não é na profundidade que estão as raízes de tudo?

 

O maior sábio é o que nem sequer dispensa o primeiro saber: o saber que não sabe, o saber do não saber.

 

Sem o primeiro passo, podemos dar o segundo? Sem o primeiro saber, será possível ascender a todos os outros saberes?

 

Porque humilde, o verdadeiro sábio não se considera superior nem vê os outros como inferiores. Para ele, os outros não estão abaixo nem tampouco ao lado. Os outros estão dentro dele. Cada ser humano pertence a todo o ser humano, a toda a humanidade. Este é o padrão basilar da sabedoria.

 

Quando vejo alguém humilde, posso não saber quem é. Mas sei que é um sábio, uma pessoa de bem.

publicado por Theosfera às 10:55

Em muitas cidades aparece o anúncio de que se compram valores.

 

Depois, lê-se que se trata de valores monetários.

 

Mas não deixa de haver motivos para pensar.

 

Numa cultura mercantilizada, não faltará quem coloque tudo em leilão.

 

Há quem venda tudo. Até valores. Até os valores.

 

Sucede que quem vende valores é porque já não os tem. E quem os compra também não passará a possuí-los.

 

Os valores cultivam-se. Aprofundam-se. E partilham-se.

 

Nunca se vendem nem compram.

 

Quando se fala de compra de valores, é porque eles já não existem.

publicado por Theosfera às 10:54

As redes sociais alteraram o perfil do relacionamento humano.

 

O facebook está até a massificar o conceito de amigo.

 

A amizade, supostamente, está à distância de um clique.

 

Não espanta, pois, que Mark Zuckerber, o criador daquela famosa rede, seja rico e famoso. Acaba de ser eleito a pessoa do ano 2010.

 

Isto dá que pensar.

 

A cultura da rede abre muitas janelas. Mas fecha também muitos corações.

 

Estamos cada vez mais em contacto. Mas somos cada vez menos profundos.

 

E, ao contrário do que parece, a transparência não tende a aumentar.

 

Porque a privacidade não é respeitada, as pessoas passarão a ter maior cuidado com o que dizem e com o que escrevem.

 

O problema é que tal cuidado não existe acerca dos outros.

 

A devassa e a intriga ameaçam não parar.

publicado por Theosfera às 10:54

Recordo o discurso do então Primeiro-Ministro aquando da cerimónia de adesão de Portugal à então CEE.

 

Assegurou o Dr. Mário Soares, em Junho de 1986, que «a solidariedade da Europa não nos faltará».

 

É claro que tudo isto funcionava mais como um apelo do que como uma certeza.

 

Ninguém duvida de que, em muitas alturas, a Europa foi magnânima para connosco.

 

Mas, agora que estamos com um forte problema na dívida pública, quem é que nos está a ajudar? Timor e a China!

 

O Padre António Vieira tinha razão quando escreveu: «Para nascer Portugal, para morrer o mundo».

 

Estamos na Europa, mas o nosso destino vai muito para lá dos mares...

publicado por Theosfera às 10:53

O Evangelho de S. João, a partir de certa altura, apresenta-nos duas figuras quase sempre a par: Pedro e o Discípulo predilecto.

 

Vê-se nitidamente que um complementa o outro. Na Última Ceia, Pedro pede ao Discípulo predilecto que pergunte a Jesus quem O iria trair.

 

Após a ressurreição, correm os dois para o sepulcro. O Discípulo predilecto chega antes, mas é Pedro que entra em primeiro lugar.

 

 Em Pedro está figurada a autoridade. No Discípulo predilecto está presente o amor. Ilação: a autoridade só pode ser exercida com amor, a partir do amor.

publicado por Theosfera às 10:52

Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Natal é a noite,

mas é também o dia.

 

Natal é o frio,

mas é também o calor.

 

Natal é a correria,

mas é também a serenidade.

 

Natal é a mesa farta,

mas é sobretudo a alma cheia.

 

Natal é Jesus,

Natal é a família,

Natal é a humanidade

e Natal também és tu.

 

Não fiques à espera do Natal,

sê tu mesmo o Natal para os outros.

 

Constrói o Natal

não apenas para o dia 25.

 

Constrói o Natal para todo o ano,

para toda a vida.

 

Tu és o Natal

que Deus desenhou e soube construir.

 

É por ti que Deus hoje continua a vir ao mundo.

É em ti que Ele também renasce.

 

Sê, pois, um Natal de esperança,

de sorriso e de abraços,

de aconchego e doação.

 

Também podes ser um Natal com algumas lágrimas.

São elas que, tantas vezes, selam o reencontro

e sinalizam a amizade.

 

Eu vejo o Natal no teu olhar,

no teu rosto,

no teu coração,

na tua alma,

em toda a tua vida.

 

Há tanta coisa de bom e de belo em ti.

Tanta coisa que Deus semeou no teu ser.

 

Descobre essa riqueza,

celebra tanta surpresa,

partilha com os outros o bem que está no fundo de ti.

 

O Natal não termina no dia 25.

Será sempre Natal

porque Deus mora em ti

e porque tu habitas em Deus.

 

Receberás muitos presentes,

mas não esqueças que o melhor presente és tu.

 

Não o negues a ninguém,

principalmente aos pobres, aos doentes, aos que sofrem.

 

Diz aos teus familiares que os amas,

aos teus amigos que gostas deles,

aos que te ajudam como lhes estás agradecido.

 

Não recuses ser Natal junto de ninguém.

Procura fazer alguém feliz.

 

Não apagues a luz que Deus acendeu em ti.

Deixa brilhar em ti a estrela da bondade

e deixa atrás de ti um rasto de paz.

 

Que tenhas um bom Natal.

A partir de agora. Desde já. E para sempre! 

publicado por Theosfera às 10:16

Bem precisamos de um presidente com a simplicidade de um francisco., pois ele tem de ser o defensor do povo. Para isso, precisa de ser rijo como um cavaco. Convém também que seja alegre. E que, no carácter, nunca deixe de ser nobre.

 

Agora, que cada um decida em consciência.

 

Pressinto que não será a campanha a acrescentar nada nem a convencer ninguém.

 

Faz pena que já tenham começado os ataques. E lamento que cada um passe o tempo a dizer que é o melhor quando o importante é o dar o melhor.

 

O mais alto cargo da nação requer elevação no discurso, cortesia no trato, afabilidade nos gestos, determinação na vontade e serenidade no ânimo.

 

Da máxima função espera-se sempre o melhor exemplo.

publicado por Theosfera às 10:06

A minha escala mantém-se inalterável.

 

O melhor continua a ser Pelé. E, logo a seguir, vem Eusébio.

 

Também vi jogar Puskas, Di Stéfano, Bobby Charlton e Cruyff.

 

Há quem pense que Maradona está acima de Pelé e que Messi se prepara para chegar a um lugar acima de todos.

 

Respeito e admito que as recordações da infância condicionem. Mas Eusébio será sempre o segundo melhor de sempre.

 

E não destaco apenas o talento com a bola. Sublinho, antes de mais, a humildade na vida.

 

É difícil ser grande e continuar humilde. É difícil ser grande e tratar os colegas mais velhos por senhor.

 

Os jornais dizem que Eusébio chegou a Portugal há 50 anos. E não foram só os seus golos que nos alegraram. O seu exemplo continua a enriquecer-nos. 

publicado por Theosfera às 09:59

Há um esvaziamento no mundo que me preocupa. É o esvaziamento de pessoas de bem.

 

Os melhores partem cedo. Hans Ur von Balthasar assinalava que Jesus morreu no meio-dia da Sua existência.

 

Há pessoas que nunca partem tarde. O seu exemplo faz muita falta.

 

Ontem, foi a vez de Richard Holbrooke.

 

Fez a paz nos Balcãs. Andava empenhado em conseguir a paz no Afeganistão.

 

O coração não resistiu. Que o seu testemunho não seja desperdiçado.

publicado por Theosfera às 09:54

Estar de saco cheio é sinónimo, de acordo com a língua brasileira (cada vez mais diferente do português, por muitos acordos ortográficos que queiram impor) é estar aborrecido, com a paciência esgotada.

 

Há, porém, um texto de S. Bernardo, muito interessante por sinal, que nos fala de um saco cheio.

 

Neste caso, é um saco cheio que Deus nos enviou com a Sua misericórdia. Trata-se de um saco que «se rompeu durante a paixão, para derramar o preço do nosso resgate que nele se continha; um saco pequeno, mas cheio».

publicado por Theosfera às 09:53

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

S. João da Cruz foi um grande santo e, como tal, incompreendido, posto de lado.

 

Passou pela noite do espírito. Foi tentado pela desesperança.

 

A vida não é fácil para ninguém. Nem para os que estão mais perto da Luz.

publicado por Theosfera às 11:41

A verdadeira alegria está na autenticidade.

 

Exibir um riso de circunstância, só para ornamentar a face, é uma forma de hipocrisia.

 

A alegria é, antes de mais, a verdade.

 

Por isso é que Paul Claudel estava certo quando asseverou que «a alegria é a coisa mais séria deste mundo».

 

Podemos acrescentar que a seriedade é a coisa mais alegre desta vida.

publicado por Theosfera às 11:39

É habitual ouvirmos, por esta altura, muitos hinos à caridade. E também é certo que não faltam campanhas de solidariedade em favor dos mais pobres.
 
Mas parece que é tudo muito artificial. Muito fingido. E muito corrido.
 
Damos as sobras. Os restos.
 
Acabamos por não permitir que se faça o essencial. Isto é, que se instaure uma verdadeira cultura da partilha e da repartição dos bens.
 
Estes são pois uns dias de excepção e não tanto de coroamento de uma sensibilidade. No fundo, tudo isto mostra que continua a prevalecer o egoísmo.
 
Ainda vivemos muito para dentro de nós. Descontando estes (poucos) dias…
publicado por Theosfera às 11:38

Este caso WikiLeaks mostra bem duas coisas:

 

- uma avidez pela informação totalmente descontrolada; nem o supostamente secreto fica de lado;

 

- a necessidade de termos cada vez mais cuidado; mesmo em circuitos privados, é preciso ponderar muito bem; no fundo, nada deve ser dito em privado que não possa ser assumido em público.

 

O problema é que, deste modo, a desconfiança tenderá a aumentar. Um segredo será, cada vez mais, o que está dentro de nós. Para lá disso, é um risco total e deveras perigoso. Mas ainda há excepções.

publicado por Theosfera às 11:34

O caso WikiLeaks não é o vendaval tempestuoso que se antecipava, mas não deixa de provocar estragos em todo o planeta. Trata-se de uma vaga de chuva que se fez sentir um pouco por toda a parte.

 

O Vaticano terá sido descrito, nas escutas interceptadas, com um estado ou um poder «fechado, provinciano e antiquado».

 

Não me vou deter sequer nos (des)qualificativos.

 

A questão coloca-se, desde logo, no substantivo.

 

Sabemos que, sem entrar em polémicas, o facto de a Igreja ser dirigida a partir de um estado encerra um considerável índice de problematicidade.

 

É certo que, hoje em dia, não estão em jogo as pretensões de outrora. Trata-se-á de uma forma de agilizar uma presença que se deseja universal, junto de todos.

 

Mas não há dúvida de que a figura de um estado é difícil de articular com o princípio bíblico-teológico que alicerça a Igreja.

 

Não esqueçamos que o Fundador (e perene Fundamento) da Igreja deixou bem claro que recusava qualquer reino deste mundo.

 

No seu propósito de presença em todos os espaços, a Igreja foi assimilando as formas de ser e estar de cada ambiente. Em Roma, assimilou o império.

 

Daí que tenha pertinência a observação do Prof. Juan Laboa Gallego, reputado historiador, quando dá voz «à impressão de que em Jerusalém ficou a coroa de espínhos e em Roma a tiara». Já agora, também em Belém terá ficado a manjedoura.

 

É claro que há sempre o risco de subsistir algum simplismo nestas sínteses. Elas valem sobretudo pela sua dimensão simbólica. É sabido que Pedro e Paulo não foram para Roma à procura de qualquer poder. Eles mantiveram-se sempre pobres e foram até martirizados. O problema veio depois.

 

Talvez impressione que, volvidos tantos séculos e atenta a vontade de refontalização, ainda não se tenha optado por um despojamento maior.

 

Ninguém estará à espera de que, nos próximos tempos, apareça um papa Cirilo (personagem central de As sandálias do pescador, de Morris West) a desfazer-se por completo do Vaticano.

 

Mas não há dúvida de que era tempo de, também neste ponto, nos aproximarmos mais de Jesus. Não convencemos apenas pelas palavras. Aliás, ninguém será convencido pelas palavras se os gestos não estiverem em conformidade com elas.

 

Reitero que não valerá a pena criar polémicas. Mas é indiscutível que o estado do Vaticano é mais filho do tempo do que emanação de Cristo.

 

Uma Igreja pobre será a maior riqueza que teremos para oferecer.

publicado por Theosfera às 11:06

A Igreja é memorial. Mas, por vezes, há nela tantos esquecimentos. Sobretudo do essencial.

 

A Igreja é disse-o Walter Kasper «a casa da verdade». Mas, por vezes, resvalamos nela para a mentira.

 

A Igreja é comunidade. Mas, por vezes, cultivamos nela o mais arrepiante individualismo.

 

A Igreja é a morada da paz. Mas, por vezes, arquitectamos nela tantos focos de acrimónia, agressividade e violência.

 

O que vale é que a Igreja é sempre Igreja. Mesmo quando, em Igreja, não a construímos, nem a amamos.

publicado por Theosfera às 11:03

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Um dos dualismos não totalmente superados é o que presume que o padrão da inteligência dispensa o coração.

 

É vulgar ouvir dizer de alguém que reputamos intelectualmente dotado tratar-se de um cerebral. E ser cerebral é, para muitos, o mesmo que frio, distante, sem emoções.

 

É bom ter presente que, parafraseando Olegario González de Cardedal, a sabedoria resulta da aliança entre a complexidade da inteligência e a simplicidade do coração.

 

Já Pascal, aliás, apelava para as razões do coração. Ele apercebeu-se de que o coração tem razões que nem a razão conhece.

 

Mas creio ter sido Hölderlin quem elevou esta ideia a alturas mais sublimes: «Ser de coração puro é o mais alto que os sábios pensaram e que os mais sábios fizeram».

publicado por Theosfera às 11:47

Uma disputa se perfila, nesta época do ano, entre duas figuras: o Menino Jesus e o Pai Natal.

 

No imaginário dos mais pequenos, nos espaços comerciais e nos órgãos de comunicação, é indesmentível que o Pai Natal está a ganhar terreno.

 

É claro que se trata de uma figura simpática, acolhedora e que não traz mal nenhum. Pelo contrário, até oferece presentes.

 

Mas é aqui, porém, que entra em cena algum capital de problematicidade.

 

Desde logo, é preciso não perder de vista que o Natal, queiramo-lo ou não, assinala o nascimento (natal) de Jesus.

 

Em segundo lugar, verificamos que o paradigma de actuação do Pai Natal é o consumo.

 

As crianças encantam-se com ele porque é aquele que dá, é aquele que traz o que se pede, o que se exige.

 

Ora, o Menino Jesus era muito mais comedido. Os seus presentes eram bastante sóbrios. Mas, quase sempre, surpreendentes.

 

Por outro lado, é uma figura que aponta para valores totalmente distintos. O Menino, com a sua singeleza, incorpora uma cultura da sobriedade, da partilha, do encanto.

 

Nunca é demais insistir neste ponto. Se queremos inculcar valores, precisamos de apontar referências.

 

Haverá, independentemente da opção religiosa de cada um, maior referência ética que Jesus?

 

Não removamos o Pai Natal. Mas, acima de tudo, não eliminemos o Menino Jesus.  

publicado por Theosfera às 10:40

O caso WikiLeaks é uma poderosa certificação de um cultura (ou anticultura, conforme o ponto de vista) em que as competências subjugam por completo a sabedoria. Isto para já não falar da ética, completamente sufocada.

 

O ponto de partida é que aquilo que, tecnicamente, é possível fazer é feito. A comunicação social vive da informação. Quanto maior for a informação para veicular, melhor.

 

É neste preciso ponto que a sabedoria entra em jogo. Ou, melhor, devia entrar.

 

É que a sabedoria, como lembra Zubiri, consiste sobretudo em discernir. E, neste particular, o que mais se nota é a falta de discernimento.

 

De facto, o que nos é apresentado como informação não passa de devassa, de intriga, de rumor, de coscuvilhice, de deslocação do contexto: o que se passa em privado é colocado na praça pública sem o menor controlo.

 

É certo que foi por este modo que se puseram cobro a ocorrências de corrupção. O caso Watergate é, talvez, o mais apelativo. Mas, como sempre, a excepção confirma a regra. Transformar a excepção em regra será um bom princípio?

 

Acresce que esta não é uma questão exclusiva da comunicação social. Este tipo de informação tem presença porque tem consumo.

 

A ética não está apenas em causa na comunicação social. A cidadania vai-se também afastando dos padrões mais elevados de conduta.

 

Afinal, num tempo em que tudo é público, porque é que os segredos deviam ser privados?

 

Só que, por este (des)caminho, a convivência torna-se praticamente irrespirável.  

 

Confesso que estes tempos me deixam interiormente abalado.

 

Como reinstaurar um mínimo de decência?

publicado por Theosfera às 10:27

 É uma das conjugações mais difíceis de obter: entre a justiça e a misericórdia.

  

Há quem defenda uma justiça pouco misericordiosa. E há quem considere que a misericórdia é pouca justa.

 

Faz bem lembrar uma das primeiras encíclicas de João Paulo II (a Dives in Misericordia), onde se diz claramente que «a misericórdia faz parte da justiça». Nem poderia ser doutra maneira.

 

Basta pensar em Deus. Ninguém é mais justo que Ele. E todos sentimos como, na Sua infinita justiça, resplandece uma imensa misericórdia.

 

De resto, em Deus, tudo é imenso: a justiça e também a misericórdia.

 

Na nossa finitude, é natural que nem sempre atinjamos esta articulação.

 

Quando exercemos a justiça, parece que a misericórdia se obscurece.

 

E, quando apelamos à misericórdia, dá a impressão que não queremos nada com a justiça.

 

Entendemos, amiúde, a justiça como sinónima de desresponsabilização. Em síntese, não pomos misericórdia na justiça nem justiça na misericórdia.

 

Não temos presente que a justiça e a misericórdia são duas irmãs gémeas. As duas procedem de uma única fonte: o amor.

 

Urge, pois, na Igreja e na sociedade, colocar uma afinidade onde tende a existir um antagonismo.

 

A justiça com misericórdia não se inibe obviamente de repreender, de exortar. Mas nunca afasta; nunca condena; nunca exclui.

 

Devemos ser claros quanto a princípios. Mas sempre misericordiosos para com as pessoas.

 

Nunca nos apressemos a julgar ninguém. Tanto mais que, como diz a Bíblia, o juízo pertence a Deus. Só a Deus (Deut 1, 17).

 

Fiquemos com a sábia recomendação de Santo Agostinho: no certo unidade, no incerto liberdade; em tudo caridade.

 

O amor é a palavra última, a palavra definitiva.

 

O amor é divino! E Deus é amor!

publicado por Theosfera às 10:17

Domingo, 12 de Dezembro de 2010
Por esta altura é já grande a fadiga e incontrolável a ansiedade.
 
Até as crianças já perderam o encantamento da surpresa e a fantasia da expectativa do que poderão receber naquela noite santa. Agora fazem exigências, ainda por cima dispendiosas. Nas lojas acotovelam os pais: «Quero isto. E mais isto. E mais isto»
 
Aos idosos, levamos apressadamente uma peça de roupa ou um bolo. E lá continuam eles na cama. Tantas vezes sozinhos. Quando muito, são convidados para a «consoada». Só que, na manhã de Natal, são reconduzidos ao abandono de há muito. À solidão de sempre.
 
Urge pois desmaterializar as ofertas de Natal. É preciso recordar que o maior presente é a presença.
 
É a companhia. É o afecto. É o apoio. É a certeza de que alguém pode contar connosco.
 
Não nos esqueçamos de que, para muitos, a noite de 24 para 25 deste mês vai ser uma noite triste. Uma noite sofrida. Uma noite chorada.
 
A casa até pode estar repleta de coisas. E a alma também poderá estar cheia. Mas de mágoas. De dores. De ingratidões sem fim…
publicado por Theosfera às 11:03

O senhor presidente da república confessou-se envergonhado pela fome que existe em Portugal.

 

Quem não se sente constrangido diante desta situação?

 

O problema é que uns têm mais responsabilidades que outros.

 

E a sociedade civil, como mostram todas estas campanhas, até corresponde, até se mobiliza.

 

O problema estriba, invariavelmente, na classe dirigente que vai degolando o que resta de esperança.

 

É, de facto, a classe que nos vem dirigindo desde há muito que vai asfixiando os cidadãos. Exige cada vez mais. Oferece cada vez menos.

 

E quando digo que oferece cada vez menos, não me reporto apenas a apoios. Refiro-me sobretudo às oportunidades.

 

Precisamos de pensar numa nova forma de fazer política. Só pode haver política com prioridades claras. E a grande prioridade tem de ser atender às grandes necessidades.

 

É que, mesmo em crise, há quem prospere. Só os pobres não descolam. Porque há quem não deixe. É injusto.

 

É nesta altura que a voz da Igreja tem de ser erguida. Na linha de Jesus e de João. Clamando por justiça e mostrando, sem rodeios, de que lado está. 

publicado por Theosfera às 11:02

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
 
-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
 
- Está bem, eu sei!
 
- E as garrafas de vinho?
 
- Já vão a caminho!
 
- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
 
- Não sei, não sei...
 
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
 
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
 
Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!
 
Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
 
Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
 
O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!
 
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
 
- Foi este o Natal de Jesus?!!!
 
 
(João Coelho dos Santos
in Lágrima do Mar - 1996)
publicado por Theosfera às 11:01

O religioso não pertence às religiões; pertence à humanidade.

 

É como fenómeno humano (e não apenas religioso) que tem de ser tratado. Já é tempo.

 

Tudo o que seja para enquistar será também para empobrecer.

 

Daí que o religioso deva ser discutido não apenas nas igrejas e nos salões paroquiais.

 

O religioso é para ser debatido na praça pública.

 

Onde está o homem, aí está (também) a religião.

 

Inversamente, nada do que é humano pode ser visto como extra-religião.

 

Qualquer questão humana é, ipso facto, uma questão religiosa.

 

Na vida, não há compartimentos estanques.

 

Se alguma coisa a globalização nos tem ensinado é a interacção, a interdependência.

 

Tudo tem que ver com tudo.

 

Deus é (obviamente) uma questão teológica. Mas o homem não o é menos. Disse-o Hannah Arendt e a experiência confirma-o a cada instante.

 

A política, a cultura, a economia e o desporto não são, por isso, campos delimitados, magnitudes fechadas.

 

São áreas abertas. São questões (igualmente) teológicas.

 

Onde está o humano, aí tem de estar também o divino .

A única coisa que não se deve tolerar a uma religião é a indiferença e a desumanidade.

publicado por Theosfera às 11:00

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

O belo tem muitas visitações, mas consegue surpreender-nos, quase sempre, de um modo discreto, entre o afável e o sublime.

 

A sala de espectáculos estava apenas composta. O concerto merecia mais, justificava muito mais.

 

Mas quem se deslocou sentiu-se lubrificado por dentro.

 

Solo voces é um grupo de Lugo, que se dedica à interpretação de música gregoriana, percorrendo várias fases e múltiplas temáticas.

 

O belo, aqui, não está apenas no conteúdo. Sobressai também na forma.

 

O concerto fluiu com simplicidade, que é, sem dúvida, a grande armadura do encanto.

 

A alma sente-se compensada quando a qualidade é oferecida sem mácula.

 

Nesta noite, a arte foi servida em doses generosas. Não houve dieta de beleza.

 

 

publicado por Theosfera às 23:13

Essencial ler (e meditar) dois notáveis textos neste sábado que começou soalheiro, mas que já está tingido de cinzento: Bagão Félix no Público e José Manuel dos Santos no Expresso Actual.

 

Não estamos preparados para os tempos que aí vêm. E nem sequer sabemos o modo como havemos de sair deles.

 

A falsidade está a converter-se em cânon, à força de tanta insistência e despudor.

 

As palavras que nos avisam nada resolvem. Apenas parecem aprofundar o torpor.

 

José Manuel dos Santos, luminoso como sempre, atinge o zénite: «O pior é ouvir os que são réus a falarem como juízes». No fundo, «as vozes erguem-se para proclamar o óbvio e baixam-se para murmurar o absurdo. As palavras levantam-se para afirmar o injusto e caem para gaguejar o inútil».

 

A vozearia que atordoa e a escrita que nos polui estão «sempre do lado da morte. A monstruosidade quer mais monstruosidade e a avidez exige mais avidez. Todos apontam o dedo a todos, todos desviam o olhar de todos, mas todos se fazem com todos. Os culpados de ontem são os inocentes de hoje e os inocentes de hoje serão os culpados de amanhã».

 

Este é o domingo da alegria. E o certo é que, apesar das agruras deste tempo soturno, ainda se descortinam clareiras de riso. Para fora, pelo menos.

 

Mas quem tem coragem de assumir que é preciso mudar?

publicado por Theosfera às 15:56

Para haver decisão, tem de haver reflexão.

 

Para haver reflexão, tem de haver silêncio.

 

Para haver silêncio, tem de haver recolhimento.

 

Para haver recolhimento, temos de entrar dentro de nós mesmos.

 

Há quanto tempo não visitamos este (nosso) santuário interior?

 

Vivemos de um modo cada vez mais ex-cêntrico, longe do centro da nossa interioridade.

publicado por Theosfera às 15:28

Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Hoje é o Dia dos Direitos do Homem.

 

Assinala-se o aniversário da declaração universal, ocorrida neste dia em 1948.

 

O Prémio Nobel da Paz vai ser atribuído, mas, porventura, nunca será recebido.

 

O dissidente chinês continua encarcerado.

 

A China criou um prémio alternativo confiando-o ao patrocínio de Confúcio.

 

E ainda houve países que se solidarizaram com a China, não estando presentes na cerimónia de Oslo. 

 

Notamos, assim, que os direitos humanos ainda subsistem como uma miragem em muitas partes do mundo. Há quem seja reprimido pelo que diz, pelo que faz, pelo que pensa e até só por existir, por ser.

 

Para lá dos casos mais cruéis, há muitas outras situações preocupantes. Não há país ou instituição que tenha as mãos completamente limpas neste capítulo.

 

A cultura dos direitos humanos emerge, portanto, como uma prioridade. Ela só pode desenvolver-se a partir de uma correspondente cultura dos deveres.

 

Os direitos de todos têm de ser deveres para cada um.

 

Hoje, os direitos continuam ameaçados no exterior (pela respressão) e no interior (pelo egoísmo).

 

Penso em tanta gente espezinhada, explorada, ofendida, manietada. Penso também em tantas vozes que se deveriam erguer e permanecem caladas.

 

Creio, porém, que, como diz um Salmo de Advento, a paz e a justiça se hão-de abraçar. Tudo mudará.

 

Ainda viverei para ver? Se não vir aqui, hei-de ver de lá!

publicado por Theosfera às 10:49

Meu Deus, meu Deus, por que permitis que tantos sejam abandonados?

publicado por Theosfera às 10:48

«A amizade tem três vidas: nasce na alma de quem a dá; permanece no coração de quem a recebe e fica na memória de quem a sabe estimar».

Assim escreveu (pura e magnificamente) Elisabete Santos.

publicado por Theosfera às 10:47

O nome por que é conhecida já diz tudo (não dizendo nada) acerca do quadro de referências e de valores que nos são impostos.

 

Lady Gaga vai estar em Portugal.

 

Parece que o seu nome arrasta multidões, além de um séquito volumoso: nada menos que 34 camiões.

 

O que mais impressiona é verificar como, numa jovem de 24 anos, já nada existe de natural, de espontâneo, de puro. Tudo, nesta figura, é fabricado, é construído, colado. Tudo cheira a artificial.

 

Nem o nome é o dela. É todo o mundo que está nela. É toda esta subcultura que a domina por completo. É toda a anticultura que alicerça o seu êxito, mas que revela também o seu (e nosso) vazio.

 

Perturbador é sentir que não falta quem se reveja nestes ídolos. É que, ao contrário do ícone (que aponta para outro), o ídolo aponta para si.

 

O mundo do espectáculo e da moda acaba por constituir uma montra do estado a que chegamos: a mediocridade, o deslumbramento, a vaidade, o nada.

 

Não se vislumbra qualidade, beleza, autenticidade. Tudo é fingido. Tudo é gritado. Tudo é agitado.

 

E ainda há multidões que correm atrás destes modelos! Será o abismo que nos espera?

 

Quero acreditar que uma luz há-de brilhar. Há muito bem a ser semeado.

 

O problema é que os holofotes estão na direcção errada. Só nos mostram o que pouco vale.

publicado por Theosfera às 10:39

Há qualquer coisa de problemático nas festas de Natal que, por esta altura, assomam já aos ecrãs da televisão.

 

Descontando as campanhas de solidariedade, sempre meritórias, há ali ingredientes que nada têm de natalícios.

 

Eis um sinal dos tempos. As pessoas falam dos outros, mas passam o tempo a exibir-se e, ainda por cima, com futilidades revestidas de grotesco que configuram um preocupante mau gosto.

 

Que saudades do tempo em que as pessoas que apareciam na comunicação social primavam pela compostura e por uma nobre sobriedade!

 

Há coisas que vamos perdendo naquilo que vamos conquistando. É preciso ter a coragem de ser diferente.

 

Respeitando a liberdade de cada um, é perturbador verificar a forma caricata como as pessoas se vestem ou se (des)penteiam, o modo como falam ou gritam e a maneira como se deslumbram consigo mesmos.

 

Até no mais ínfimo pormenor, a decadência nos visita. A construção assume, quase sempre, a feição de uma desconstrução.

 

Ontem à noite, vi uma cena que julgo ser reveladora. O que não fizeram alguns actores por terem obtido um prémio vulgar na sequência de um programa banalíssimo!

 

Razão tem, pois, Michael Cunninghan quando fala da dieta do belo que, hoje em dia, percorre grande parte da expressão artística.

 

Desvalorizamos a filosofia (o amor do saber) e estamos a defenestrar a filocalia (o amor da beleza).

 

As próprias músicas que vão passando nas ditas festas de Natal são de uma pobreza assustadora. Mas o que mais impressiona é a falta de humildade. É o tom de voz.

 

Digo isto com pena. Preocupa-me o presente e aflige-me o futuro. Deveras.

publicado por Theosfera às 10:32

Escreveu Séneca: «Ninguém ama a sua terra porque é grande, mas porque é sua».

 

A minha terra é o mundo; a minha pátria é a humanidade. Só posso amar toda a gente e gostar de toda a terra.

 

Pode parecer um relativismo ou falta de bairrismo. Estou, contudo, cada vez mais seguro de que, como disse um dia Shimon Peres, «a terra é sagrada, mas a vida é mais».

 

 Amo, pois, a vida. A minha porque é minha. E a dos outros, porque é igualmente minha!

 

Não fazemos todos parte uns dos outros? Não nos pertencemos todos uns aos outros?

publicado por Theosfera às 10:28

Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2010

Acabou de nascer e já era idoso.

 

Como sempre, o rosto não enganava. Mas, naquele caso, não era doença, a progéria que tanto aflige os pais e prenuncia um fim precoce.

 

Parecia que aquela vida começara de modo diferente: do depois para o antes, do fim para o princípio.

 

A tormenta inicial dos pais foi cedendo lugar ao mais puro espanto.

 

À medida que o menino crescia, o rosto rejuvenescia.

 

E, para pasmo de todos, o processo não se alterou. Cada dia que passava, tornava-se mais novo.

 

Com o passar dos anos, a juventude aparecia e a infância espreitava.

 

Crescer era, assim, um caminho para ser criança.

 

A maturidade atingia-se com a chegada da infância.

 

Os anos corriam e o encanto alastrava.

 

A beleza do rosto era acompanhada pela ternura dos gestos, pelo brilho do olhar, pela candura da alma.

 

Toda a gente admirava e comentava. Que pena não sermos todos assim! Porque é que o crescimento há-de consistir no afastamento da infância?

 

Porque é que perdemos a capacidade de nos espantar com a vida, com as pessoas?

 

Tantas vezes se confunde maturidade com mero calculismo e forte desconfiança...

 

Porque é que esquecemos a criança que, um dia, morou em nós?

 

Então todos decidiram nunca envelhecer por dentro, mesmo quando os anos avançavam por fora.

 

E, a pouco e pouco, os risos eram de criança.

 

O céu podia estar cinzento. Mas as estrelas não paravam de brilhar. Os olhos das pessoas eram constelações de esperança.

 

publicado por Theosfera às 19:23

Tudo o que é precioso acaba por ser raro e, ao mesmo tempo, desejado.

 

Os valores pertencem, consabidamente, ao que há de mais precioso e também ao que há de mais raro.

 

À partida, esta parece uma causa perdida e um combate arrumado.

 

Os apelos aos valores são sempre pregões de esperança, mas que, por vezes, assumem a forma de gritos de desespero.

 

O valor tem que ver com o durável. Sucede que, naquela que Lipovetsky descreve como a era do efémero, tudo tem uma duração muito reduzida.

 

Nem os valores escapam a esta erosão. Os comportamentos alteram-se e a referência aos valores mantém-se.

 

É curioso notar que Paul Valadier, num estudo já com alguns anos, afirma que a evocação dos valores é uma espécie de socorro quando tudo o resto se esfuma no campo da ética e da moral.

 

Retenha-se que crise de valores é uma expressão recorrente, embora tenha redobrado de intensidade nos últimos tempos.

 

A questão é que, ao longo de séculos, os valores, embora mudando, provinham, geralmente, de um único princípio. Este era de natureza religiosa ou filosófica ou política.

 

Hoje em dia, os princípios inspiradores são múltiplos. Os próprios ídolos desencadeiam comportamentos que muitos reproduzem.

 

A manutenção de um quadro de valores consensuais remete, cada vez mais, para a importância das referências. Sem referências credíveis, os valores ficam ao arbítrio das afinidades mais fúteis.

 

Que referências credíveis oferecem os adultos aos mais jovens?

 

No mundo da pluralidade, é preciso não esquecer a importância do discernimento. Este, como sustentava Zubiri, é a alavanca da sabedoria.

 

Para isso, importa oferecer um conjunto de critérios que, no fundo, não andarão longe dos universais, ou seja, daquilo que acaba por estar em tudo: o bom, o belo e o verdadeiro.

 

Discutir os valores é pedagógico, mas, na hora que passa, urgente é propugnar a sua (absoluta) necessidade.

 

Deixemos que os mais novos tomem contacto com pessoas que se distinguiram pela rectidão, pela autenticidade, pela justiça, pela coragem, pela humildade, pela paz.

 

São elas que melhor transportam os valores. Certificam que é possível vivê-los e que, apesar de tudo, não é impossível sobreviver com eles.

 

Mesmo que não desfrutem de fama, dispõem do melhor capital: a decência.

publicado por Theosfera às 11:29

Hoje, 9 de Dezembro, assinala-se o Dia Internacional contra a Corrupção.

 

Este tem sido um combate inglório, acima de tudo porque não há legislação que consiga o fundamental: mudar-nos por dentro.

 

O primeiro (e decisivo) passo seria não transigir na mínima cedência. O problema é que praticamente todos nós contemporizamos com as máximas prevaricações.

 

É por isso que até um sábio como Tomás de Aquino é visto como um ingénuo porque acreditou em quem o chamou para ver um boi a voar.

 

Para ele, inadmissível era que um frade pudesse mentir... 

publicado por Theosfera às 11:08

Se (ou quando) perderes tudo, não percas a esperança. Porque hás-de dizer que há tantas nuvens debaixo do sol em vez de reconheceres que há tanto sol por cima das nuvens?

 

É verdade que as nuvens estão mais perto e, segundo dizes, duram há mais tempo. Mas quem te garante que, ainda hoje, o sol não vai romper?

 

Não acreditas? Espera. Olha que — dizia Charles Péguy — «a esperança espanta o próprio Deus»!

publicado por Theosfera às 10:48

Que comovente é a Tua pureza, a Tua lisura e transparência, a candura do Teu sim e a persistência da Tua dádiva, Mãe!

 

Tu és grande na humildade, imensa na disponibilidade, insuperável na simplicidade e na capacidade de entrega.

 

Que belo ter uma Mãe assim, como Tu, Maria!

 

Mãe da escuta, eleva-me conTigo para junto de Teu Filho.

 

Acompanha os meus passos, abre caminhos para eu percorrer ao encontro de Jesus!

 

Às vezes, existe a tentação de olhar para Maria ao arrepio do que Ela é e do que Ela quis ser.

 

Ela é serva, voluntariamente serva.

 

Ela não é dominadora, mas servidora. Por isso é aclamada como senhora, como Nossa Senhor. Senhora porque servidora.

 

Será que ainda não aprendemos?

publicado por Theosfera às 10:46

Quarta-feira, 08 de Dezembro de 2010

O Natal não tem começo. Ele é o começo. Ou, melhor, o contínuo recomeço.

 

É por isso que, em cada dia, há sempre motivo para respirar o Natal.

 

O frio lembra o Natal. Mas o calor também não o faz esquecer, porque o Natal é um mistério que nos aquece por dentro.

 

O Natal é para todos, mas são os mais pequenos que melhor o interpretam.

 

São eles que melhor transportam e recriam o encantamento do mistério do Natal.

 

Ao ver a destreza e a comoção com que os mais pequenos (en)cantam o Natal, dou comigo a pensar. Como seria bom que crescêssemos na idade sem, contudo, perder a infância.

 

Afinal, foi como criança que Deus quis vir ao nosso mundo.

 

Enquanto os mais pequenos nos deslumbrarem, não deixaremos de acreditar que a paz é possível e que o mundo novo não será uma pura miragem.

 

Esta noite, houve sorrisos belos e encantos mil no palco e na plateia, contagiada e envolvida.

 

A cidade acorreu à sala de espectáculos, transformada numa imensa ceia de Natal.

 

Parabéns aos alunos e professores do CIC por nos servirem o Natal de um modo tão cativante.

 

A noite fria conseguiu aquecer. Até o temporal abonançou.

 

O vento amainou por instantes. E só choveu paz. 

publicado por Theosfera às 23:00

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade
É que eu vi o teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na Natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só de perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

 Assim poetou (magnificamente) Antero de Quental

publicado por Theosfera às 00:02

Para se namorar do que criou,
Te fez Deus, sacra Fénix, Virgem pura.
Vede que tal seria esta feitura
Que para si o seu Feitor guardou!
 
No seu alto conceito Te formou
Primeiro que a primeira criatura,
Para que única fosse a compostura
Que de tão longo tempo se estudou.
 
Não sei se digo em tudo quanto baste
Para exprimir as raras qualidades
Que quis criar em Ti quem Tu criaste.
 
És Filha, és Mãe e Esposa: e se alcançaste,
Uma só, três tão altas qualidades,
Foi porque a Três de Um só tanto agradaste.
publicado por Theosfera às 00:01

Este dia 8 de Dezembro é um dia cheio de beleza, carregado de comoção. É o dia em que a Mãe começou a ser concebida.

 

A História da Salvação começa a aproximar-se do seu auge. Preservada de toda a culpa, Maria adere incondicionalmente à vontade de Deus. A Sua grandeza está na Sua humildade.

 

Durante anos, este foi o Dia da Mãe. Que todas as Mães se sintam abençoadas pela Mãe!

publicado por Theosfera às 00:00

Terça-feira, 07 de Dezembro de 2010

...pelos seus 86 anos de vida.

 

Há mais de uma década, o senhor confessou-se ser «talvez um místico que se desconhece».

 

Da procura ao encontro há tantas pontes que fazem cruzar caminhos.

 

Que Deus o abençoe. Parabéns pelo seu aniversário. Obrigado pela sua luta em prol da liberdade.

 

Mesmo não concordando em tudo, há que ser justo. O senhor fez muito por Portugal, por nós.

publicado por Theosfera às 23:00

As grandes tiranias não exploram apenas a partir do exterior. As maiores tiranias oprimem, cada vez mais, a partir do interior.

 

O tirano mais perigoso actua dentro de nós. É o egoísmo.

 

O egoísmo ergue um muro. Só faz ver o eu, a partir do eu e à luz do eu.

 

Como, entretanto, esta luz é ofuscante, o egoísmo não deixa ver devidamente o outro. O eu tapa-o, esgana-o, sufoca-o.

 

Eis, pois, a doença mais agreste dos nossos tempos cujos sintomas são pluritentaculares.

 

Sintomas do egoísmo avassalador são a busca do êxito a todo o custo, o culto desmesurado da própria imagem, a sobranceria perante o outro, o não atendimento às necessidades dos demais e uma cultura dos direitos sem deveres.

 

O egoísmo acaba por ser, por isso, uma doença letal, até porque ninguém sobrevive como pessoa à margem dos outros.

 

A terapia para esta doença é o amor, o amor corporizado por Jesus, que é um amor desegoízador, um amor que nos liberta da maior (e, a bem dizer, única) tirania: o egoísmo.

 

publicado por Theosfera às 14:22

Dá-nos Senhor, neste Advento, a coragem dos recomeços.
 
Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi:
dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é.
 
Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história,
pois a priva de surpresa e de esperança.
 
Torna-nos atónitos como os seres que florescem.
 
Torna-nos inacabados como quem deseja.
 
Torna-nos atentos como quem cuida.
 
Torna-nos confiantes como os que se atrevem
a olhar tudo, e a si mesmos, de novo
pela primeira vez.
publicado por Theosfera às 14:15

Nunca somos tão transparentes como pretendemos. Mas também nunca somos tão opacos como alguém pode imaginar.

 

Acabamos por comunicar menos do que aquilo que queremos transmitir. Mas acabamos também por mostrar mais do que aquilo que desejamos esconder.

 

 A relação entre as pessoas é mesmo um mistério que vai muito para lá das palavras. Mesmo aquelas que gostávamos de guardar lá no fundo acabam sempre por vir à superfície. Nem que se seja em forma de recusa ou de silêncio.  

publicado por Theosfera às 11:00

«A dignidade consiste não em possuir honrarias, mas na consciência que delas somos merecedores».

Assim escreveu (pertinente e magnificamente) Aristóteles de Estagira.

publicado por Theosfera às 10:57

Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2010

 1. Bem gostaríamos que o Natal nos transformasse, a nós. Mas verificamos, cada vez mais, que somos nós que estamos a transformar o Natal. A transformar e, o que é pior, a transtornar.

 

Continuamos a celebrar o Natal nas datas de sempre, mas vivemo-lo de um modo cada vez mais distante da sua génese, da sua identidade.

 

O Natal está, crescentemente, marcado pela cadência das propostas comerciais e condicionado pelo volume das carteiras.

 

Tornou-se, assim, o Natal a época em que o consumo atinge proporções descontroladas. A crise pode inabilitar um pouco as despesas, mas não altera significativamente os gastos.

 

Dir-se-á que tudo isto é inevitável, o que não quer dizer que seja aceitável, humanizante.

 

Até partilhamos bastante do que é nosso. Mas será que damos o suficiente de nós?

 

O excesso de coisas contrasta, flagrantemente, com o défice de presença, de afecto, de amor.

 

2. Se repararmos bem, é o Natal uma das épocas em que mais corremos, quando o Natal é, todo ele, um convite ao recolhimento.

 

É certo que a azáfama do Natal nos leva ao encontro das pessoas que estimamos. Mas, mesmo aí, sentimo-nos sobressaltados, envolvidos pelas agruras e devorados pela ansiedade.

 

Há muita partilha nesta altura. A solidariedade é excitada de forma acrescida por estes dias. Pena é que, depois, tudo se esbata.

 

As necessidades não terminam no Natal. Há gente que sofre e geme durante todo o ano. Ainda bem que, ao menos, o nosso altruísmo consegue ser despertado.

 

Mas, apesar de tudo, há qualquer coisa que nos deixa descompensados.

 

Toda esta onda de solidariedade, em si um bem precioso, não consegue extinguir as chamas de egoísmo que alastram no nosso coração.

 

Esta é a quadra em que o dou para que me dês parece ter mais aplicação.

 

É claro que há momentos de convívio que perduram na lembrança, mas é tudo tão formatado que mal há lugar para a surpresa e para o encanto.

 

 

3. Apesar dos constrangimentos, ainda sobejam sinais de Natal no exterior. O que parece é escassear sinais de Natal no interior.

 

O Natal está cada vez mais perto no tempo. Mas não é seguro que esteja mais perto da vida, da nossa vida.

 

Há cada vez menos Natal no espírito e é por isso que há também cada vez menos espírito de Natal.

 

A impressão que mais flutua é a de que, por esta altura, todos andamos a representar um papel.

 

Procuramos figurar aquilo que devíamos ser mas que, na realidade, não somos.

 

Tentamos mostrar que somos bons, tolerantes e dadivosos. A vida, porém, documenta, com extremos de crueldade, que continuamos bem longe da bondade e da tolerância.

 

É por isso que, nestes momentos, a falsidade é ainda mais dolorosa.

 

O mal não é o clima destes dias. O mal é ele não corresponder à verdade. O mal é que ele rapidamente se apaga.

 

Para António Gedeão, Natal é o dia de ser bom. Só que o dia de Natal não devia ter umas meras vinte e quatro horas. O dia de Natal devia ser esticado, alongado.

 

É por isso que encontro muitas lágrimas neste tempo. Há quem sofra ainda mais pelo Natal.

 

Porque sabe que não há Natal nem sequer no Natal. Porque sente que, nesta altura, a hipocrisia é ainda mais difícil de suportar.

 

 

4. O mais curioso é que não precisávamos de tanta coisa para reaprendremos o verdadeiro espírito de Natal.

 

Bastava que nos olhássemos de maneira diferente. Bastava que pautássemos a nossa existência por padrões de verdade, autenticidade, franqueza e justiça.

 

Bastava que nos lembrássemos não apenas dos nossos direitos, mas também dos nossos deveres.

 

Bastava que fizéssemos tudo para não magoar ninguém. Bastava que honrássemos a palavra dada e que não faltássemos aos nossos compromissos.

 

Bastava, no fundo, que não nos colocássemos no centro. Bastava que percebêssemos que não somos nada sem os outros.

 

Bastava que compreendêssemos que a maior riqueza é um coração puro.

 

Só um coração que chora e sorri, que abarca e abraça, que se comove e encanta, é capaz de nos reconduzir a Jesus.

 

É no coração habitado pela bondade que brilha a mais reluzente estrela de Natal.

 

publicado por Theosfera às 11:41

Quem participa nas Missas exequiais sabe que uma das frases mais emblemáticas de um dos prefácios é a que proclama que «a vida não acaba, apenas se transforma» (vita non tollitur, sed mutatur).

 

O que não talvez não se saiba tanto é a origem desta expressão. Ela vem já do século III e pertence a uma mãe. As mães são sempre sábias!

 

 Foi, de facto, a mãe de S. Sinforiano que, vendo o filho a ser julgado pelo crime de ser cristão, animou-o a que não vacilasse na fé, nas convicções.

 

 Curiosamente, o pretexto fora a recusa de Sinforiano em prestar culto àquela que era apontada como mãe dos deuses: Cibeles.

 

 Eis o que lhe disse a progenitora: «Renova a tua constância. Não podemos temer uma morte que nos leva, com certeza, à vida. Mantém alto o teu coração, meu filho, olha para Aquele que reina nos Céus. Hoje, a vida não te é tirada; é mudada numa melhor».

publicado por Theosfera às 10:22

1. Ensinaram-nos que a verdade está na adequação.

 

Eis, pois, uma verdade antiga sobre a verdade. Não será, contudo, apenas uma parcela da verdade?

 

É que da adequação ao conformismo e à resignação o passo é muito pequeno.

 

Não terá chegado o tempo de perceber que a verdade se encontra, também e acima de tudo, na transformação?

 

 É sabido que a verdade sempre nos surgiu ungida com o selo do imutável.

 

 Sucede que, não raramente, se confundia verdade com simples percepção.

As percepções iam mudando. E, não obstante, proferiam-se sentenças definitivas e condenações irreversíveis.

 

Que garantia tem quem condena de estar mais na verdade que o condenado?

 

 

 2. O perigo da verdade como adequação reside neste ponto.

 

 É que, ao contrário do que preceituava Aristóteles, a verdade pode deixar de ser encontrada na realidade para ficar ao puro arbítrio da autoridade.

 

 Será que a verdade deverá depender da autoridade? Não deverá ser, antes, a autoridade a depender da verdade?

 

 Xavier Zubiri mostrou que a primeira grande tarefa da sabedoria é discernir. E esta é uma missão que radica na consciência. Não é um ditame imposto por uma qualquer autoridade.

 

 Ainda assim, aceita-se que, no plano lógico, a verdade possa ser apresentada como adequação. Se uma parede é branca, não posso dizer que é preta.

 

 Não obstante, há que ressalvar que, mesmo neste plano, é preciso ter cuidado com possíveis distorções.

 

 A mesma realidade desponta, por vezes, emoldurada em diferentes leituras sem que seja lícito pôr em causa a seriedade de quem as faz.

 

 Um mesmo sintoma pode desaguar em diagnósticos diversos. As mesmas pessoas numa multidão podem dar lugar a contabilidades distantes. O mesmo texto pode oferecer interpretações completamente díspares.

 

 É caso para deduzir, parafraseando Napoleão, que olhar para a mesma realidade não quer dizer que, nela, se veja a mesma coisa.

 

 

 3. Estas cautelas impõem que, no âmbito existencial, a verdade não possa ser vista como mera adequação. Na vida, a verdade está sobretudo na transformação.

 

 Também aqui a ajuda de Zubiri é preciosa. Ninguém pode ter a pretensão de possuir a verdade. Todos devem deixar-se possuir pela verdade.

 

 Não pensemos que a verdade é monocolor ou que se presenteia apenas a alguns iluminados.

 

 É preciso ter presente que a verdade nos faz múltiplas visitações. Mais que possuí-la (pretensão, aliás, inviável) ou impô-la (ambição totalmente descabida), do que se trata é de procurá-la.

 

 Para quem procura, cada encontro não é termo, mas etapa e alento para nova busca.

 Facilmente notaremos que não é a verdade que tem de se adequar a nós. Nós é que temos de nos adequar à verdade. É ela que nos molda, que nos configura.

 

 Daí que a verdade esteja do lado da abertura, da mudança, da expectativa, da espera. Ela nunca pode ser aprisionada.

 

 Próximo da verdade não está, pois, quem se conforma, quem se resigna. Próximo da verdade está quem se transforma, quem se deixa transformar pela verdade.

 

Ela não se impõe pela tirania. Ela desce pela epifania. A verdade é o que se desvela, o que se deixa ver.

 

 

 4. Sobra, entretanto, uma pergunta. Em que consiste a transformação proporcionada pela verdade?

 

 As surpresas são incontáveis, mas uma certeza é indesmentível. A verdade aparece-nos sob todas as formas, mas nunca fora da bondade.

 

 Sem bondade, até a verdade é menos verdadeira. Sem bondade, aliás, a própria beleza seria feia.

 

Só quando nos transformarmos pela bondade, encontraremos o acesso à verdade.

 

 Daí que, segundo Agostinho da Silva, o cume do conhecimento não esteja na verdade. «O supremo entender é mesmo a bondade»!   

publicado por Theosfera às 10:21

Foi estabelecida a regra: os funcionários públicos com um vencimento mensal a partir de 1500 euros vão receber menos a partir de Janeiro.

 

Mas as excepções não param.

 

Desta vez, foi o Governo dos Açores que decidiu criar uma compensação para os trabalhadores da região.

 

Mais ruído, pouca serenidade.

 

O cidadão questiona: como é que um país com tanta excepção não consegue ser excepcional?

 

O nosso desenvolvimento e a nossa justiça estão, decididamente, longe da excelência. 

publicado por Theosfera às 10:17

Domingo, 05 de Dezembro de 2010

Este domingo evoca João Baptista, que impressionava não só pelo vigor da sua palavra, mas também pela integridade da sua conduta.

 

Esta sintonia entre a palavra dos lábios e a palavra da vida é decisiva para a credibilidade.

 

Há um texto de Kirkegaard, recuperado recentemente por Anselmo Borges, que serve de contraponto e que, por isso, deve fazer pensar.

 

Vai o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

 

Sem o eco da vida, a palavra não passa de ornamento retórico.

 

Jesus é a Palavra feita vida.

publicado por Theosfera às 11:49

Embora não pareça, foi Bento XVI quem afirmou: «Em vinte séculos de proclamação da mensagem de Cristo, o mundo não está manifestamente melhor».

 

A questão é que devia estar. Acima de tudo, porque foi essa a vontade do próprio Jesus.

 

 O problema não está, manifestamente, na mensagem. Já o Padre António Vieira tematizou sobre a ausência de efeitos da pregação. Igualmente, Gandhi distinguia entre o encanto que sentia por Cristo e o desencanto que lhe provocavam os cristãos.

 

 E, na verdade, Cristo veio para transformar o mundo. A salvação é o zénite da transformação. Não há dúvida de que, como anota Clara Pinto Correia, «a Igreja, para ser levada a sério, tem de praticar o Evangelho».

 

 Há muita gente na Igreja que o vive. Mas também há, dentro dela, muitos obstáculos e bastantes sombras.

 

 Joseph Ratzinger bem dizia, já em 1973, que, por vezes, a Igreja, em lugar de ser anúncio, torna-se o impedimento do anúncio. Sem testemunho não se convence ninguém.

publicado por Theosfera às 11:43

Sábado, 04 de Dezembro de 2010

As campanhas de solidariedade desta altura mostram como há um sentido do outro que não se apagou.

 

Não é tudo.

 

Estas campanhas não alteram as causas da crise. Mas ajudam a minorar muitas das suas consequências.

 

E, pelo menos, há dramas que, nem que seja por instantes, se tornam menos dramáticos.

 

Uma palavra de admiração a todos estes artífices da solidariedade e do desprendimento.

publicado por Theosfera às 14:39

Este poderão vir a ser tempos históricos. Mas, na hora que passa, parecem sobretudo tempos histéricos.

 

São, de facto, tempos em que, como anteviu Huxley em 1942, a falsidade domina, o sentido da honra escasseia, o bem e o mal se equivalem.

 

É certo que os tempos que hoje nos parecem dourados já chegaram a surgir devoradamente sombrios.

 

Perturba sentir que só a distância purifica e acrisola.

 

É bom manter o sentido crítico, mas o reconhecimento do valor devia chegar na hora própria.

 

O mundo parece desassossegado e apenas se empolga com futilidades.

 

Há que apostar no fundo da pessoa. Temos de regressar ao íntimo de cada um.

 

Só quando voltarmos a acreditar, estaremos em condições de esperar o melhor.

 

Na voragem do que vai passando, é preciso não perder de vista o que nunca passa: a verdade, a autenticidade, a justiça, a honestidade e a bondade. 

publicado por Theosfera às 14:32

Há datas que expõem com clareza a extrema velocidade do tempo.

 

Trinta são os anos que já passaram sobre a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa e parece que foi apenas ontem.

 

A comunicação social tem procurado reconstituir os passos da vida e o caminho da morte destes dois estadistas.

 

Há muita coisa que tem vindo à superfície e que, então, estava vedado ao cidadão comum.

 

Nem sequer falta o exercício de história virtual (ou contrafactual) de tentar reconstituir o que seria Portugal se estes homens não tivessem morrido.

 

O constrangimento ideológico ainda se faz sentir com muito vigor.

 

A sensação é que estamos perante vidas interrompidas (como sugere a recente biografia de Amaro da Costa) e diante de um termo antes do fim (como escreve José Manuel dos Santos em mais uma magnífica prosa).

 

Independentemente da valorização das decisões que tomaram, é indiscutível que estamos diante de pessoas que acreditavam no que faziam e que davam a vida por aquilo que diziam.

 

Com quase toda a certeza, não se reveriam na trajectória de muitos que invocam os seus nomes.

 

E é curioso notar a unanimidade laudatória perante as suas figuras quando toda a gente sabe que, no ano em que morreram, sofreram ataques muito para lá do plano político.

 

Acerca de Sá Carneiro, o que ressalta é uma pressa enorme com que gere a sua vida. As contradições foram muitas (entrava e saía do partido, virava-se tanto para o PS como para o CDS), mas sempre com um ardor imenso e uma convicção firme.

 

A contradição, afinal, é um sumo que vem da profundidade da vida. Ninguém lhe escapa. Só nas contradições, as surpresas aparecem.

 

Houve muito do nosso futuro que caiu com aquela avioneta.

 

Nesta hora, o que importa é desejar paz às almas dos que tombaram e honrar as suas memórias. 

publicado por Theosfera às 11:42

Em Deus, tudo é dádiva. Em Cristo, a face de Deus para nós, tudo é entrega. Na Igreja, corpo de Cristo, tudo é dom.

 

Ela está, por isso, marcada pelo dom, pelo dom em excesso, pelo excesso do dom.

 

 Recusar o dom e rejeitar ser dom é atentar, por conseguinte, contra a identidade cristã.

 

 Sabemos, porém, que, por natureza própria, é difícil dar e ser dom. E quanto mais é precisar dar, maiores são as dificuldades em dar.

 

 O perdão insere-se na lógica do dom. É dom através de, através de Cristo, através da Igreja, para todos.

 

 É sabido, no entanto, que nem sempre o entendimento, aqui, está em total sintonia com a vontade. Às vezes, estão até em colisão.

 

 É nossa convicção que é preciso perdoar. Mas, muitas vezes, a vontade resiste.

 

 Noutros casos, é a vontade que está disposta a perdoar. Mas lá vem a memória recordar a ofensa. O perdão existe, mas a recordação persiste. Há sinceridade, sem dúvida, mas continua a haver dor. Como fazer?

 

 O caminho para perdoar pode implicar, antes de mais, reconstituição de tudo o que aconteceu. De facto, só após a conclusão de uma obra, nos conseguimos concentrar noutra obra.

 

 Depois, importa haver algum distanciamento. A proximidade em relação a quem ofende pode levar, ainda que involuntariamente, à continuação da dominação da ofensa sobre o ofendido e à eventual persistência da mágoa, quiçá da raiva.

 

 Em qualquer caso, nunca pode haver rancor, nem desejo de vingança. O grande acto de perdoar consiste em desejar, do fundo do coração, e em fazer o bem mesmo a quem faz mal. Para que, entretanto, isso possa acontecer, algum distanciamento pode ajudar.

 

 Para que a ofensa possa ser superada, a distância em relação à ofensa (e aos ofensores) é um bom caminho.

 

 A excessiva proximidade da situação pode, mesmo contra a vontade, conduzir à indesejada proximidade da ofensa.

 

 O dom tem de prevalecer. O dom do perdão deve subsistir. Há que fazer tudo para que ele se possa alojar no nosso coração. E dele emergir para todos. E para sempre.

publicado por Theosfera às 11:40

Está na moda falar de único. É um conceito que vale a pena reter.

 

Único é cada ser humano. Única é cada entidade. Único é cada momento. Única é cada vida. Daí a aparente contradição: tudo é único.

 

Pode haver semelhanças, mas nunca igualdade total. Não há duas pessoas iguais. Não há dois instantes iguais. Não há duas palavras iguais. 

 

Único é o selo da identidade de cada coisa, de cada pessoa, de cada instante. 

 

No mundo do desporto, está na ordem do dia dizer que o F.C.Porto é a única equipa sem derrotas em toda a Europa.

 

Que este clube é único eis uma verdade. Mas cada clube é único, outra evidência que salta à vista.

 

Quanto a ser o único emblema sem derrotas, depende do termo de comparação.

 

Se se disser que é o único clube da Europa sem derrotas tendo em conta as principais competições, acredito que seja verdade.

 

Mas, só entre nós, lembro que o Vila Real e o Infesta também ainda não perderam esta época.

 

É claro que são clubes dos distritais. Mas nem por isso deixam de pertencer à Europa.

 

De qualquer modo, parabéns ao F.C.Porto pela magnífica época que está a realizar.

publicado por Theosfera às 11:32

Sexta-feira, 03 de Dezembro de 2010

Kierkegaard levanta uma questão inquietante: quem será mais ouvido por Deus? Será aquele que sabe a doutrina toda, mas tem um coração mau? Ou será aquele que, mesmo não sabendo a doutrina, tem um coração bom?

 

Ninguém tem dúvidas quanto à resposta. Jesus, quando apontou para o essencial, disse para aprendermos com o Seu coração manso e humilde.

 

 O fundamental é que apostemos na totalidade. É possível (e, mais que possível, desejável) conhecer a doutrina e praticá-la. Porque a doutrina leva a isso. Não é a doutrina que nos impede de ter bom coração.

 

 Às vezes, os ateus dizem não acreditar em Deus. Mas, no fundo, não acreditam é naqueles que falam tanto de Deus, mas não vivem segundo Ele.

 

 Em boa verdade, o máximo que um irmão ateu pode dizer é que não crê. Como é que ele pode decretar que Deus não existe?

 

 No fundo, o que ele diz é que Deus não existe em na vida de tantos que se dizem crentes. Portanto, somos nós que, tantas vezes, mais argumentos damos para o alastramento da descrença.

 

 Os problemas da Igreja são, cada vez mais, internos. De fora vêm as interpelações. Mas é de dentro que emergem os obstáculos.

 

 Estejamos atentos. E sejamos humildes. Não seremos nós mais ateus do que muitos ateus? 

publicado por Theosfera às 12:01

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