O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

«Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem».

Assim escreveu (primorosa e magnificamente) Agostinho da Silva.

publicado por Theosfera às 21:23

Percebe-se que, por vezes, haja necessidade de advertir. Mas haverá alguma legitimidade para condenar?

 

A liberdade, pela sua própria natureza, preceitua a pluralidade e acolhe a diferença.

 

No quadro desta diferença, é admissível que haja alguém que funcione como alerta. O diálogo é tecido de fluência, influência e refluência. Em relação à verdade, ninguém é dono. Todos somos peregrinos na sua busca.

 

É por isso que, na liberdade, a descoberta não exclui a possibilidade do erro. Mas alguma vez será lícito o castigo por errar?

 

Só não erra quem não busca. Só não cai quem não caminha.

 

Hoje, graças a Deus, já não há execuções na fogueira. Mas, infelizmente, ainda sobram algumas imposições ao silêncio.

 

Aceita-se que nem tudo o que Leonardo Boff e Bernhard Häring escreveram esteja concorde com a ortodoxia. Percebe-se que, fraternalmente, se chame a atenção. Mas será que punir pelo que se pensa é uma atitude cristã?

 

Confesso que Leonardo Boff nunca fez perigar a minha fé. Pelo contrário, até acrescentou entusiasmo ao meu crer de adolescente e jovem.

 

Jesus Cristo LibertadorA Trindade é a melhor comunidade, A Graça libertadora no mundo ou A vida para além da morte mostram, para lá de recursos conceptuais, uma vibração enorme.

 

São livros que trouxeram o tesouro de sempre para o tempo de hoje. Mais: conseguiram arriscar, tomar uma posição. Os preteridos passaram a preferidos, a protagonistas. Quem? Os pobres.

 

O que Boff assinala em A Igreja, carisma e poder estará atravessado por algum excesso. Mas isso é o preço de quem não fica de braços cruzados.

 

Que houvesse um diálogo fraterno aceita-se. Mas que se imponha silêncio a quem faz da palavra forma de vida e instrumento de serviço é algo que deixa um desconforto na alma.

 

Reconheço que, embora caladamente, o acompanhamento do processo movido a Leonardo Boff foi das primeiras grandes decepções que tive na vida.

 

Entre cristãos, entre discípulos do mesmo Jesus, as coisas não poderiam ser resolvidas de outra maneira?

 

Será que um teólogo também não recebe inspiração?

 

Foi Paulo que disse que Jesus Cristo nos libertou para a liberdade.

 

É importante habituarmo-nos à largueza de horizontes de Cristo. E o próprio Cristo fala não apenas pela voz da autoridade.

 

Aliás, se a autoridade em nome de Cristo é um serviço, é como irmãos (e jamais como senhores) que temos de nos ver e como servos que temos sempre de nos comportar.

 

Um servo serve. Avisa. Mas nunca condena.

 

 

publicado por Theosfera às 14:05

A liberdade é, sem dúvida, um caminho para a paz. Aliás, a ausência de liberdade acarreta, quase sempre, a asfixia da paz e, consequentemente, o desencadear das guerras.

 

No Egipto, os judeus prosperavam. Tinham tudo. Excepto liberdade. Não aguentaram. Rebelaram-se e empreenderam os caminhos do êxodo, guiados por um Deus (Ele mesmo) libertador.

 

A liberdade pertence, pois, à natureza constitutiva do Homem. «Só presto para ser livre», afirmou Miguel Torga.

 

A liberdade religiosa inscreve-se aqui, no horizonte da liberdade humana.

 

A liberdade de crer (ou não crer) tem de ser integralmente respeitada.

 

Sabemos, porém, que este é um direito que está longe de ser adquirido.

 

Nos últimos tempos, têm-se multiplicado atentados e ceifado vidas.

 

Há quem não aceite o diferente. Há quem não suporte a crença diferente. A paz fica ameaçada.

 

Mas há outro ângulo do problema que importa contemplar.

 

A liberdade religiosa, para ser um direito, tem de constituir um dever.

 

É fundamental proclamá-la, mas é urgente, acima de tudo, cultivá-la.

 

A liberdade religiosa inclui a liberdade em cada religião.

 

A liberdade de cada crente há-de ser incrementada nas religiões.

 

É preciso ter presente que não são apenas os sistemas políticos que se demitem de promover a liberdade religiosa. As próprias religiões, que invocam a liberdade para si, nem sempre a estimam com a intensidade devida.

 

A conjugação entre liberdade e paz não resplandece com a transparência esperada no universo das religiões.

 

As religiões não mostram ter uma relação muito livre com a paz nem uma relação muito pacificada com a liberdade.

 

De facto, a paz é muito condicionada e, por vezes, assimilada até à submissão pura e simples. No fundo, só quem aceitar não ser totalmente livre parece ser deixado em paz. Mas será paz esta paz?

 

Por aqui se vê que a relação das religiões com a liberdade não é muito pacífica. Não raramente, até é bastante atribulada. A diferença é, quase sempre, estigmatizada. O outro nem sempre é bem-vindo. A crítica dificilmente é tolerada. Como pode haver uma relação pacífica com a liberdade se a diferença é rejeitada? 

 

Afinal, a consciência de cada um é uma instância de revelação do próprio Deus. Como é possível atentar, então, contra a liberdade?

 

Há, nas religiões, quem seja ameaçado, marginalizado. Há quem sofra processos. Há quem seja condenado a não publicar e a não falar.

 

A coerência impõe, como preceito elementar de decência, que pratiquemos o que, justamente, reivindicamos.

 

A liberdade religiosa é um bem inestimável. E tem de despontar como uma prioridade para todos. A começar pelas próprias religiões.

 

Nem sempre as religiões convivem facilmente com a liberdade.

 

Se Deus nos criou livres, como é que podemos, em nome de Deus, ferir a liberdade? 

publicado por Theosfera às 00:02

A História do Mundo também pode ser descrita como sendo a História do Fim. As perguntas acerca do para onde? e do para quê? ocuparam mentes e encheram páginas no decurso dos séculos.

 

O ser humano sempre teve o seu olhar dirigido para a frente, para o futuro, para o fim. É natural que, na proximidade do fim do ano, esse olhar se intensifique, embora nem sempre venha emoldurado com o desejado entusiasmo.

 

Usando duas conhecidas expressões de Jacques Séguy, dá a impressão de que os «paraísos encontrados» pelo coração facilmente se transformam em «paraísos perdidos» na realidade quotidiana.

 

É por isso que o pensamento do fim assusta um pouco o comum das pessoas. O terreno em que aparece o amanhã surge demasiado movediço. O fim desponta mais como destruição do que como plenitude.

 

Como sintetiza Jean Delumeau, há um contraste entre «dois sentimentos que se opõem. Por um lado, assistimos aos progressos contínuos da ciência e da técnica e apreciamos o conforto que nos trazem. Por outro, constatamos com melancolia que a ciência e a técnica não deram os resultados com que muitos dos nossos antepassados contavam. A verdade é que a felicidade continua a fugir diante de nós e de nada parece servir corrermos cada vez mais velozmente atrás dela».

 

 É nestas alturas que temos de convocar as energias da esperança.

 

Não podemos descrer nem capitular. Os problemas existem não para nos vencerem mas para serem vencidos por nós.

 

Há que empreender na busca da nossa verdadeira vocação: enquanto pessoas e enquanto humanidade. «A humanidade inteira — escreve Jean Delumeau — tem uma vocação e cada um de nós é chamado a um destino que deve levá-lo até Deus».

 

No fundo, trata-se, na linha do que defendia Teilhard de Chardin, de «pancristianizar o universo». É esta, como recomenda John Eccles, a nossa autêntica natureza: «Procurar a esperança na busca do amor, da verdade e da beleza».

publicado por Theosfera às 00:01

É sempre fecundo e estimulante o encontro com os sábios.

 

Num tempo em que abundam os especialistas, faz sempre bem escutar aqueles que aprofundam os temas e rasgam horizontes.

 

Confesso que não sei até onde chega o tesouro de Xavier Zubiri.

 

Falecido há quase 30 anos, continuam a ser publicados livros inéditos com uma cadência impressionante.

 

Neste ano, quase a terminar, vieram a público o segundo volume dos cursos universitários (que abrem com uma espantosa análise das Confissões de Santo Agostinho) e Acerca del mundo.

 

A amplitude de recursos fica bem patente nestas páginas. A abrangência de perspectivas é, na verdade, avassaladora.

 

O mundo é a totalidade e, sobretudo, a humanidade.

 

Destaque para o tratamento dispensado à evolução e à história.

 

publicado por Theosfera às 00:00

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