O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

1. O presépio ainda está montado, mas a lição do presépio há muito foi esquecida. Alguma vez terá sido apreendida?

 

Até parece que a manjedoura ficou, para sempre, em Belém. É certo que, nesta altura, podemos vê-la em muitas igrejas, mas será que a podemos encontrar no dia-a-dia da Igreja? Que é feito da simplicidade dos começos?

 

É muito pertinente, por isso, a observação de Juan Laboa Gallego. Às vezes — diz — «dá a impressão de que em Jerusalém ficou a coroa de espinhos e em Roma a tiara». 

 

É claro que há sempre o risco de subsistir algum simplismo nestas sínteses.

 

Pedro e Paulo não foram para Roma à procura de qualquer poder. Eles mantiveram-se pobres e foram até martirizados. O problema veio depois.

 

Sem entrar em polémicas, é sabido que o facto de a Igreja ser dirigida a partir de um Estado causa alguma perplexidade. Como sustentar o Estado do Vaticano sob o ponto de vista bíblico e teológico?

 

 

2. Hoje em dia, já não estão em jogo as pretensões de outrora. Tratar-se-á de uma forma de agilizar uma presença que se deseja universal, junto de todos.

 

 Mas não há dúvida de que a figura de um Estado é difícil de articular com o princípio que alicerça a Igreja.

 

 Não esqueçamos que o Fundador (e perene Fundamento) da Igreja deixou bem claro que recusava qualquer poder deste mundo.

 

 Ao estender-se pela terra, a Igreja foi assimilando as formas de ser e de estar de cada ambiente. Em Roma, assimilou o império.

 

Talvez impressione que, volvidos tantos séculos, ainda não se tenha optado por um desprendimento maior.

 

 Ninguém estará à espera de que, nos próximos tempos, apareça um papa Cirilo (personagem central de As sandálias do pescador, de Morris West) a desfazer-se por completo do Vaticano.

 

 Mas não há dúvida de que era tempo de, também neste ponto, nos aproximarmos mais de Jesus.

 

 

3. Não convencemos apenas pelas palavras. Aliás, ninguém será convencido pelas palavras se os gestos não estiverem em conformidade com elas.

 

Como Jesus foi sempre a transparência do Pai — «quem Me vê, vê o Pai» (Jo 14, 9) —, não deveria a Igreja procurar ser a transparência de Jesus?

 

Para tal, não basta ser o eco das Suas palavras. É fundamental procurar ser a reprodução das Suas atitudes, dos Seus gestos.

 

Daí que falar em nome de Jesus Cristo num ambiente de pompa crie uma profunda sensação de desconforto. A credibilidade fica, imediatamente, ferida.

 

A este propósito, vem-me à lembrança a alusão que, entre o desapontamento e a ironia, faz Sören Kierkegaard ao bispo de Copenhaga.

 

Revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, avança o prelado pela catedral, com todo o seu séquito em esplendor.

 

Senta-se, então, num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

 

Se calhar, o melhor seria chorar. É que, sem a ressonância da vida, a palavra não passa de ornamento retórico.

 

 

4. Jesus é a Palavra feita vida e a vida feita Palavra. Palavra e vida estão unidas em Jesus.

 

Num tempo em que se gritam tantas palavras, faz pena que a Palavra de Jesus seja remetida ao silêncio e atirada para o esquecimento.

 

Se a memória a guarda, a prática, muitas vezes, parece que não a acolhe.

 

A Igreja tem de procurar ser espelho e jamais pode ser muro.

 

Assim, quando arrumarmos as peças do presépio, não atiremos para longe a manjedoura.

 

Retenhamos a sua permanente lição. A manjedoura é o certificado da humildade de Deus e o convite ao despojamento da Igreja.

 

Deus não está no mundo pela pompa. Deus vem pela simplicidade e pela pobreza.

 

Uma Igreja pobre será (sempre) a maior riqueza que teremos para oferecer.

publicado por Theosfera às 11:08

Foi há apenas dois dias.
 
Foi. Quer dizer que já não é.
 
Parece aliás que foi há muito tempo e que passou por nós como uma seta.
 
Que fizemos do Natal?
 
Onde escondemos o seu encanto?
 
Para onde despachámos o seu conteúdo? A sua mensagem? Os seus apelos?
 
O dia de Natal deveria ser o dia do grande encontro. Do permanente advento. Da perene celebração da chegada de Deus ao mundo, o maior presente que o céu ofereceu a terra e a melhor prenda que a terra ofereceu ao céu.
 
A qualidade do Natal não se vê nas coisas. Vê-se — ou deveria ver-se — nas atitudes. Nas decisões. Nos comportamentos. Nos gestos.
 
O dia de Natal deveria ser, portanto, um estímulo para que todos os dias fossem dias de Natal. Isto é, dias de nascer para Aquele que nasce em nós.
 
Porque Natal foi quando Deus quis.
 
E porque Ele quis fazer Natal, haverá Natal quando nós quisermos. Eu e tu.
publicado por Theosfera às 11:06

Hoje é dia de S. João Evangelista, o Homem da Palavra, o Homem do Amor. A grande Palavra é o Amor. O Amor é a maior Palavra.

 

O seu Evangelho começa pela exaltação da Palavra que está em Deus, da Palavra que é Deus e da Palavra que Se faz carne.

 

A sua vida termina com a apologia do amor. Além do que diz nas Cartas (Deus é amor), consta que, já idoso, sendo muito requisitado para falar aos cristãos, limitava-se a repetir: «Meus filhos, amai-vos uns aos outros».

 

Os ouvintes, a determinada altura, resolveram questioná-lo: «Tudo bem, João, mas nada mais tens para nos dizer?» 

 

E o Apóstolo respondia: «Nada mais tenho para vos dizer, porque nada mais é necessário dizer, só o amor basta».

 

Só o amor, viria a dizer muitos séculos depois von Balthasar, é digno de fé!

publicado por Theosfera às 10:59

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