O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 09 de Novembro de 2010

Nesta hora, todos os esforços são necessários, todas as vozes são bem-vindas.

 

Do que menos precisamos é de estigmas.

 

Se não são possíveis consensos máximos, não desperdicemos os consensos mínimos.

 

É fundamental que a comunidade se reerga como um todo e que nenhuma energia seja desperdiçada.

 

As diferenças são uma preciosidade. Que elas incorporem a missão de dar vida a uma nova (e melhor) vida para todos.

 

Penso, por isso, que o grande problema, hoje, não é tanto o relativismo. É, acima de tudo, a falta de compaixão, a intolerância, o recuo da justiça, o obscurecimento da paz.

 

Há muitas lágrimas a desfilar em rostos que alojam corações sofridos.

 

Jesus disse que a fé salva. Mas teve o cuidado de prevenir, como Paulo de Tarso percebeu, que a única fé que salva é aquela que actua pelo amor.

 

A grande doutrina é o amor.

publicado por Theosfera às 11:38

Uma congratulação pelo muro que caiu.

 

Um lamento por tantos muros que se levantam. Entre as pessoas!

publicado por Theosfera às 11:37

Estive uma única vez na vida com o Dr. Pina Moura. Sabem onde?

Numa Igreja.

 

Estive uma única vez na vida com o Dr. Jaime Gama. Sabem onde?

Numa Igreja.

 

Estive uma única vez na vida com o Doutor Francisco Louçã. Sabem onde?

Numa Igreja.

 

Deus é o maior traço de união entre os homens. Mesmo entre aqueles que dizem não acreditar, mas que, no fundo, não apagam os elos que os vinculam ao divino.

 

No fundo, no fundo, no fundo, Deus mora em todo o ser humano.

 

Por falar em Francisco Louçã, a sua biografia conta um episódio que já ouvira reportar quando estive em Lisboa.

 

Um dia, um colega (uma figura pública de um quadrante político oposto ao dele) ofereceu-lhe 20 escudos para Louçã pronunciar um palavrão que começa por m.

 

Pois o jovem Francisco, inflexível no seu bom comportamento, não se deixou subornar.

 

Bom aluno, sempre foi do contra. Mas alguém com inteligência pode não ser do contra?

publicado por Theosfera às 11:36

Rezava, convidava a rezar, anunciava a mensagem. Nunca elevou a voz nem maltratou ninguém. Esmolava os pobres e convivia com os simples.

 

Na rua, recebeu provas de simpatia. Em casa, foi marginalizado, torturado, perseguido e rudemente eliminado.

 

Já não existe. É uma recordação. Apenas. 

publicado por Theosfera às 11:32

Quando Te quero encontrar, Senhor, não olho só para o alto.

 

Olho para baixo. Tu também estás nas profundezas, nos simples, nos pequenos.

publicado por Theosfera às 11:24

Segunda-feira, 08 de Novembro de 2010

1. Por muito que cada homem viva, por muito que o mundo dure, ninguém põe em causa que tudo caminha para o fim.

 

Mas fim pode não ser somente termo. Pode (e deve ser) sobretudo finalidade, realização conseguida, objectivo alcançado.

 

É por isso que tudo caminha para o fim é uma frase que há-de ser complementada com uma outra, da autoria de Maurice Blondel, segundo o qual tudo tende para o cume.

 

Nem sempre, porém, o sentido destas duas afirmações está em sintonia. Na hora que passa, elas parecem ter entrado em colisão. Uma espécie de paralelismo assimptótico ameaça desencontrá-las.

 

Afinal, o progresso não é universal, nem unívoco nem irreversível.

 

Não é universal porque continua a deixar muita gente de lado. Não é unívoco porque aquilo que para uns é um elemento de crescimento, para outros é um factor de retrocesso. E não é irreversível porque há recuos onde até pouco só parecia haver avanços.

 

 

2. Este último ponto, aliás, está atravessado no interior de muitos e a levar muitas vidas à beira do precipício.

 

Houve conquistas ao longo de décadas que, de repente, começaram a ruir como um castelo de cartas.

 

Já não são apenas os pobres de outrora que continuam a lidar com a indigência. São os, até agora, remediados e prósperos que começam a ser afectados pela miséria.

 

A classe média, considerada motora para o desenvolvimento de um país, depara-se com uma situação de ruptura.

 

Começa a ser frequente ver pessoas com bons carros e óptimas moradias bater à porta de instituições de solidariedade, mendigando bens essenciais. É que o desemprego entra em todas as casas e envolve todas as famílias.

 

O progresso não satisfaz, assim, todas as necessidades. Para nosso pesar, ele cria muitas lacunas.

 

 

3. O problema é que, mesmo no seu (suposto) auge, não nos apercebemos de que o progresso não é possível se não for global.

 

A sociedade, não só a classe política, estacionou numa concepção economicista do progresso.

 

O dinheiro abre muitas janelas, mas está longe de preencher todas as ânsias.

 

E quando se desliga o progresso da justiça, abrem-se feridas que, mais cedo ou mais tarde, acabam por sangrar.

 

Daí que, desde algum tempo, a ideia de progresso comece a ser associada à ideia que, à partida, mais oposta parece: a ideia de decadência.

 

 Luís Racionero escreveu, de resto, um livro muito pertinente a que deu o sintomático título de O progresso decadente.

 

Fazendo uma revisão sobre os últimos cem anos, sintetiza: «O século XX abriu-se com teorias sobre a decadência e fechou-se com teorias sobre o caos. Pelo meio, topamos com um colossal progresso tecnológico».

 

Acontece que já Edgar Morin tinha observado que todo o progresso acarreta sempre um retrocesso.

 

E o certo é que o progresso tecnológico tem acarretado (ou coexistido com) um retrocesso humanístico.

 

Como o deslumbramento é, quase sempre, ofuscante, o enamoramento pelas tecnologias não nos deixaram ver devidamente o logro em que estávamos a cair.

 

 

4. Preocupante não é só, agora, a falta de dinheiro em muitos lares.

 

Preocupante (e aflitiva) é a colossal insensibilidade que, desde há muito, se tinha instalado em imensos corações.

 

Houve alturas em que se pagava para não produzir em vez de se pagar para distribuir.

 

Houve momentos em que se obrigava a lançar sobras alimentares no lixo, apesar da fome.

 

Luis Racionero anota que «o desenvolvimento moral não seguiu o ritmo de desenvolvimento material. O material progrediu, o moral estagnou».

 

A factura está aí. Com a estagnação da moral, o desenvolvimento material começa a ser uma recordação.

 

É curioso que, já há mais de trinta anos, o Padre Manuel Antunes, pressentia «a falta de uma revolução moral».

 

Esta falta é, hoje, mais gritante do que nunca. Para poder supri-la, todos têm de ser mobilizados.

publicado por Theosfera às 11:51

Nesta manhã escura, o tempo está como o rosto de muitas pessoas: triste, abatido, a lacrimejar.

 

Apetece recordar Sebastião da Gama: «Meu país desgraçado. E, no entanto, há sol em cada canto». O que até nem acontece. Hoje, por sinal, nem o sol brilha.

 

Se o presente já é carregado, o futuro ameaça tornar-se pouco menos que insuportável.  Em cada página de jornal, lá aparecem vozes à guisa de pitonisas prenunciando mais tempestade.

 

Parece que, dentro de pouco tempo, a saúde e a educação vão deixar de ser gratuitas.

 

Um aluno, frequente a escola pública ou o ensino privado, vai ter de suportar os custos.

 

No fundo, isso já acontece pela via dos impostos. Só que parece que, além desta via, ainda vai ser preciso pagar mais.

 

O Estado Social vai caindo.

 

Mas ainda acredito numa inflexão.

 

O sol voltará a brilhar nos corações.

publicado por Theosfera às 09:54

Domingo, 07 de Novembro de 2010

... para ler textos destes:

 

«A chuva cai do céu sobre as incertezas da terra e o vento atravessa de sons as nossas ansiedades. As agitações naturais figuram os desastres humanos e as violências da vida repetem as tempestades da atmosfera».

 

O resto pode ser encontrado no suplemento Actual do semanário Expresso.

 

A prosa, notabilíssima, é de José Manuel dos Santos.

 

Um bálsamo de bem escrever. Todas as semanas.

publicado por Theosfera às 22:52

Há fome em Portugal.

 

Há escolas que têm de abrir ao fim-de-semana para alimentar os alunos.

 

Há pessoas com rendimentos elevados que foram atiradas para o desemprego. Agora, têm de recorrer à sopa dos pobres.

 

Há um certo destempero nas intervenções.

 

Começa a preocupar o facto de os melhores optarem pelas empresas e pelas universidades (geralmente lá fora) ficando o país sem rumo e sem justiça.

 

Há-de haver uma luz. A esperança encarrergar-se-á de a fazer brilhar.

 

Mas, nesta hora, há muita gente com o coração despedaçado.

publicado por Theosfera às 22:14

Impressiona ver como as pessoas que estão mais perto da luz são também aquelas que mais experimentam a escuridão.

 

A aridez e a secura sempre acompanharam, quais intrusos, as pessoas com uma vida espiritual mais fecunda.

 

 Santa Teresa de Ávila quase desesperou com a ausência de vontade de rezar.  S. João da Cruz atravessou muitas noites de espírito. Santa Teresa de Lisieux verteu páginas de uma tal angústia que houve quem as amenizasse aquando da publicação da História de uma alma.

 

 Madre Teresa de Calcutá (três Teresas envolvidas nestas histórias de sofrimento!) também teve a visita da escuridão. As provações atingiram a vértebra da sua alma.

 

 Ela mesma confessou: «Se eu, alguma vez, vier a ser Santa, serei, com certeza, uma santa da escuridão. Hei-de estar permanentemente fora do céu a iluminar os que, na terra, se encontram na escuridão».

 

 É verdade que a luz resplandece mais na escuridão. Mas não deixa de ser sintomático que se acentue mais a dor da escuridão do que a fruição da luz.

 

 Mistérios que só Deus, no Seu Espírito, logrará decifrar...

publicado por Theosfera às 22:12

Muito melhor seria o mundo (e muito mais sadio o relacionamento humano) se, antes de falar, escrever ou agir, pensássemos no sofrimento que podemos provocar no nosso semelhante.

 

Humilde? Sempre. Sobretudo com os pequenos.

 

 Arrogante? Jamais. Sobretudo com os simples.

 

O que mais custa perder: os amigos.

 

Onde se perdem mais amigos: não é na morte.

 

Onde melhor se conhecem os amigos: na adversidade.

publicado por Theosfera às 22:03

Sexta-feira, 05 de Novembro de 2010

O tempo-eixo ou axial foi marcado, acima de tudo, pelo surgimento de grandes pessoas, de líderes de excepção.

 

Karl Jaspers refere quatro: Sócrates, Confúcio, Buda e Jesus.

 

Na hora que passa, sentimos a falta não só de grandes ideias, mas sobretudo de fortes lideranças.

 

Não precisamos de ninguém que nos substitua, mas de alguém que veja antes e caminhe à frente. De alguém que segure as coisas nas horas difíceis. De alguém que seja mais que o retrato da mediania.

 

Pressinto que esses líderes até existem. Mas estão sufocados pela mediocridade reinante.

publicado por Theosfera às 11:10

O jornalista perguntava há dias: alguém se recorda de um grande discurso nos últimos trinta anos?

 

O cronista responde que se recorda apenas de dois e, ainda por cima, feitos pela mesma pessoa.

 

Acrescentava alguém que estava com medo de reler os discursos de Salazar pois temia tornar-se salazarista. Tudo por causa da qualidade supina dos seus discursos.

 

Dizem, aliás, que, à sua cabeceira, figuravam os sermões do Padre António Vieira, um genial manuseador da palavra. E, nessa medida, considerado o imperador da lingua portuguesa.

 

E é aqui que tocamos o punctum saliens do problema.

 

Todos nós transportamos o nosso húmus, a circunstância que nos forma, o ambiente em que crescemos.

 

O ensino, desde há décadas, propõe o conhecimento num plano meramente instrumental. As competências são sobrevalorizadas em detrimento dos conteúdos e da forma.

 

As imagens do parlamento e os textos da comunicação social documentam um empobrecimento crescente na arte de falar e de escrever.

 

O professor, tido como um mestre, já não é visto como alguém que ensina a discorrer. A avaliação, não raramente, consiste em identificar situações ou em escolher possibilidades.

 

A construção do texto, que certifica a elaboração de um pensamento, ressente-se cada vez mais.

 

Nesta itinerância pela estrada do tempo, há que não perder de vista aquilo que vamos perdendo. É ocioso estacionar apenas nos ganhos...

publicado por Theosfera às 10:58

O poder não devia ser exercido pelos poderosos, mas pelos humildes, pelos pobres, pelos homens de paz.

 

O poder devia ser entregue a quem revelasse maior pudor diante dele. Deixar-se seduzir pelo poder é muito perigoso. Leva, quase sempre, à ambição de eternização no poder. O poder deve ser transitório, humilde, pudico, pacificante.

 

 Já S. Clemente exortava as autoridades «a exercer o poder que Deus lhes concedeu na paz e na mansidão com piedade».

publicado por Theosfera às 10:51

Quinta-feira, 04 de Novembro de 2010

O sistema educativo sente-se oprimido.

 

Quase ninguém o nega. Mas praticamente ninguém o inverte.

 

O Estado resolveu colocar-se no centro e assumir o protagonismo.

 

A sociedade não sente força para reagir.

 

Ken Robinson, connhecido especialista de renome mundial, põe o dedo na ferida: «Os professores é que são o sistema educativo e não o Ministério da Educação».

 

Porque é que há diversidade em tudo (nos restaurantes, na música, no desporto) e na escola não? «Queremos que estas sejam todas iguais, mas não são máquinas, são organismos vivos».

 

O sistema educativo, tal como está montado, burocratiza a aprendizagem e, nessa medida, «está a matar a criatividade das crianças».

 

Com tanta interferência do Estado, «há um clima de medo entre os professores».

 

É preciso que o Estado se modere e dê espaço às escolas, permitindo que cada um descubra o seu elemento (título de um dos livros mais célebres deste autor).

publicado por Theosfera às 11:49

É prematuro concluir que Obama está arrumado.

 

Cada país tem a sua cultura política específica.

 

Nos Estados Unidos, já houve presidentes que tiveram de lidar com Congressos adversos e, não obstante, asseguraram a reeleição.

 

Pode haver fecundidade nesta tensão criativa entre o poder executivo e o poder legislativo.

 

E Obama já mostrou perceber o sinal do eleitorado. Assumiu as responsabilidades. E deu a entender que não contava que a situação fosse tão difícil.

 

Os campos estão extremados. E o fenómeno Tea Party é, sem dúvida, preocupante.

publicado por Theosfera às 11:45

Todos nos sentimos pequenos diante da morte, diante dos mortos. É por isso que recorremos à fé n'Aquele que, passando pela morte, venceu a morte. Se a fé é importante para lidar com a vida, é determinante para lidar com a morte.

 

Também na morte celebramos a fé, o mistério da fé que é, simultaneamente, um mistério de morte e de vida. Na verdade, o mistério pascal articula a passagem da morte à vida pela ressurreição de Jesus Cristo. N'Ele todos morremos. N'Ele todos ressuscitamos.

 

Daí que não seja completamente certo dizer que, num funeral, celebramos a vida. É verdade, mas é só uma parcela da verdade.

 

Na Eucaristia (inclusive na Eucaristia exequial) celebramos a vida e celebramos a morte: a morte de Cristo e a vida de Cristo, a morte e a vida dos que estão em Cristo.

 

 Também num funeral o protagonista é Cristo, o Seu mistério pascal. É neste sentido que o Catecismo da Igreja Católica recomenda que «os funerais cristãos são uma celebração litúrgica da Igreja. O ministério da Igreja tem em vista exprimir a comunhão eficaz com o defunto e fazer a comunidade reunida participar das exéquias anunciando a vida eterna».

 

 A liturgia propõe três tipos de celebração dos funerais, correspondendo aos três lugares onde acontece (a casa, a igreja, o cemitério) e segundo a importância que a ele atribuem a família, os costumes locais, a cultura e a piedade popular.

 

 A Liturgia da Palavra, por ocasião dos funerais, «exige um preparação bem atenciosa, pois a assembleia presente pode englobar fiéis pouco assíduos à liturgia e também amigos do falecido que não sejam cristãos. A homilia em especial deve "evitar género literário de elogio fúnebre", deve iluminar o mistério da morte cristã com a luz de Cristo Ressuscitado».

 

 Não é que não se deva falar do defunto. Ao falar do mistério pascal de Cristo, já se está a prestar a melhor homenagem ao defunto, integrando-o na vida do próprio Senhor Jesus. É Ele, só Ele, que tem o protagonismo.

 

 Há muito a melhorar neste campo. A abertura a Cristo é o ápice da vida. E o sentido da morte.

publicado por Theosfera às 11:14

Quarta-feira, 03 de Novembro de 2010

Mais um sábio a defender que isto já lá não vai com uma reforma. É necessária uma revolução.

 

Para Fernando Savater, o sábio em causa, tal revolução tem de começar pela educação.

 

Não há novidade nesta tomada de posição. O problema é que, sendo tantas as vozes a propugnar uma revolução com base na educação, tão poucos parecem ser os actos no sentido de a levar a efeito.

 

Savater propõe uma verdadeira Educação Cívica, que «introduza a capacidade de agir em democracia».

 

Estranhamente, não quer a religião na escola. Umberto Eco, que também é laico, entende que a religião, enquanto fenómeno humano, deve ter espaço nos estabelecimentos de ensino.

 

Voltando a Savater, registe-se a importância da autoridade. Segundo ele, «uma aula é hierárquica». E, apesar de a escola dever preparar para a democracia, ela «não é democrática».

 

Recusando qualquer alarmismo, assume que «a escola sempre viveu em crise». Ela «anda sempre atrás da sociedade, dado que os professores foram educados no passado e têm de educar para o futuro».

 

Mas não é bom que seja assim? O movimento do tempo não se faz do passado para o futuro? Não é no passado que o futuro germina? Não é a memória a alma da cultura?

 

É preciso, de uma vez para sempre, recolocar a escola no seu autêntico estatuto. «As aulas não são uma reunião de amigos nem um recreio. São um lugar onde se transmite conhecimento».

 

Esta dimensão, a do conhecimento, é decisiva. Uma sociedade ignorante tenderá a escolher representantes ignorantes. Ora, isso mina completamente a democracia.

 

«Se os políticos que ocupam os cargos são incompetentes, somos nós que os elegemos, e fomos nós que, apesar de acreditarmos que podemos ser melhores do que eles, não nos oferecemos para o lugar deles».

 

E Savater dá um exemplo. Há uma figura no país vizinho conhecida pela sua ignorância e futilidade. Uma sondagem, entretanto, diz que muitos espanhóis votariam nela para primeira-ministra.

 

Convidado a comentar este dado, Savater perguntou: «Vocês acreditariam que os mesmos espanhóis votariam nesta pessoa para treinadora da selecção nacional?». Resposta pronta: «Claro que não! O lugar de treinador da selecção nacional é um posto demasiado sério!»

 

Para muitos, o lugar de treinador é mais importante que o lugar de primeiro-ministro.  Está tudo dito.

 

Venha a revolução na educação. Ontem já era tarde.

publicado por Theosfera às 10:32

A Escatologia trata das eschata e do eschaton. Ela transita entre as coisas últimas e o último. As coisas últimas são os novíssimos: morte, juízo, inferno ou paraíso. O último é uma pessoa (Jesus Cristo) ligada a um acontecimento (a Salvação) e a uma atitude (a Esperança).

 

É fundamental preparar as coisas últimas a partir do último. Por isso é que, como advertia Moltmann, a Escatologia consiste também numa meditação sobre a esperança. E daí que a Escatologia não deva vir no fim, devendo figurar desde o princípio.

 

Toda a mensagem cristã é escatológica. Caminhamos para as coisas últimas vivendo sob a inspiração do último. Deste modo, a Escatologia constitui um poderoso impulso para a transformação do presente.

 

O presente tem de ser a imagem e a antecipação do futuro. É a partir do futuro que vivemos. Do futuro que não sucede ao presente, mas do futuro que o transforma, que o preenche, que o plenitudiza.

publicado por Theosfera às 10:28

Terça-feira, 02 de Novembro de 2010

É Novembro e, apesar do sol, o ar é um pouco sombrio, carregado.

 

Este é o tempo em que pensamos mais no tempo, no fim dos tempos e nos tempos do fim.

 

Este é o tempo em que o tempo se auto-suspende e nos fixamos para lá do tempo.

 

Este é o tempo em que o tempo se senta. Só a eternidade voa. E se aloja em nós.

 

Este é, pois, um tempo de viagem: do tempo para a eternidade e da eternidade para o tempo.

 

De desencontro em desencontro, rumo ao encontro total e, assim o esperamos, feliz.

publicado por Theosfera às 13:47

1. As viagens mais marcantes não são aquelas que nos levam aos mais diferentes lugares. Serão, antes, aquelas que, por dentro, nos conduzem às ideias, aos ideais, às convicções.

 

Antony Flew foi um activo viajante (e um insaciável peregrino) entre Deus e a negação de Deus, entre a negação de Deus e Deus.

 

Curiosamente, não foi a Igreja que o segurou na hora de sair. Não foi também a Igreja que o atraiu no momento de voltar.

 

O regresso de Antony Flew a Deus move-se, segundo o próprio, no mero campo da razão.

 

O seu caso nem sequer pode ser alinhado na tendência que Grace Davie qualifica como «crença sem pertença».

 

Antony Flew atesta que não foi guiado pela fé. A mesma razão que o levara, em jovem, a negar Deus é que o impeliu, praticamente no fim da vida, a reafirmar Deus.

 

 

2. Antony Flew terá sido, porventura, o mais célebre filósofo ateu dos últimos tempos.

 

Nele se inspiram, com efeito, algumas das figuras que, ultimamente, têm corporizado o chamado novo ateísmo.

 

Foi, portanto, com espanto que, pouco antes da sua morte (ocorrida a 8 de Abril deste ano), Antony Flew fez sair um livro com o sugestivo título Deus (não) existe.

 

Aqui explana toda a sua trajectória e aprofunda os motivos da mudança. «Tudo num plano puramente natural, sem qualquer recurso a fenómenos sobrenaturais».

 

Por outras palavras, estamos perante «uma peregrinação da razão e não da fé».

 

 

3. Para ele, não é necessário ser crente para encontrar Deus. Basta seguir o conselho de Sócrates: «Temos de seguir a razão para onde quer que ela nos leve».

 

Flew não abandonou o ateísmo por causa de algum argumento novo. Procurou, simplesmente, estar atento à natureza.

 

Foram as leis da natureza que transportaram Flew para a Inteligência infinita. Foram elas que o tornaram sensível àquilo que os cientistas denominam a Mente de Deus.

 

A ciência coloca-nos três dimensões que, segundo Flew, apontam para Deus.

 

A primeira é o facto de a natureza obedecer a leis. A segunda é a dimensão da vida, de seres inteligentemente organizados, que surgiu da matéria. E a terceira é a própria existência da natureza.

 

 Foi neste quadro que achou que, «na vida, os processos reprodutivos têm origem numa fonte divina».

 

É que, inspirando-se numa frase do filme Música no coração, Flew tem muito claro que «nada vem do nada, nunca tal aconteceu».

 

 

4. O testemunho de Antony Flew remete para outros casos, com desfecho diferente.

 

Que terá motivado, por exemplo, Bertrand Russell a permanecer no ateísmo?

 

Nada melhor do que consultar a filha. Esta palpita que, embora o percurso de Russell se orientasse pelos meandros da razão, o que ele via nos crentes deixava-o completamente inibido.

 

No entanto, ela crê «que toda a sua vida foi uma procura de Deus. Algures, no fundo da mente do meu pai, no âmago do seu coração, nas profundezas da sua alma, havia um espaço vazio que fora um dia preenchido por Deus, e ele nunca encontrou uma outra coisa para pôr nesse lugar».

 

Katharine assume gostar de ter convencido o pai «de que tinha encontrado aquilo que procurava, aquela coisa inefável que ele, durante toda a vida, desejara ardentemente. Mas era inútil».

 

O problema é que Russell «tinha conhecido demasiados cristãos fanáticos, daqueles que tiram a alegria e perseguem os seus opositores. Ele nunca seria capaz de ver a verdade que essa gente escondia».

 

A Igreja, que não interferiu em Antony Flew, terá sido um obstáculo para Bertrand Russell. Subsistiu, entretanto, o vazio.

 

Russell disse um dia: «Nada pode penetrar a solidão de um coração humano, excepto a profunda intensidade daquele género de amor que os mestres religiosos pregaram».

 

No fundo, não será o ateu alguém com uma intensa saudade de Deus?

publicado por Theosfera às 13:42

A morte está aqui. Mas a ressurreição mora já ali.

 

Entre a morte e a vida há uma diferença tão grande mas, ao mesmo tempo, uma distância tão pequena!

 

A morte não é fim, mas começo; não é termo, mas trânsito; não é catástrofe, mas passagem: para a plenitude, para o amor, para a vida.

publicado por Theosfera às 10:41

Das eleições dp Brasil sobra, para lá da vitória de Dilma Rousseff, a acesa polémica acerca da intervenção da Igreja na campanha.

 

Os candidatos, vendo na fé um filão e apesar de não serem praticantes, não se escusaram a demandar santuários e a falar com dignitários.

 

Por sua vez, várias figuras da Igreja, vendo nas eleições uma oportunidade, não se eximiram a tomar posição. Alguns (padres e bispos) foram mesmo ao ponto de dizer em quem jamais se deveria votar.

 

Como é sabido, a Igreja professa, oficialmente, isenção em matéria político-partidária. Mas, depois, sabe-se que, no plano informal, essa isenção nem sempre é mantida.

 

Refira-se que tal desiderato não é fácil. Até o silêncio é passível de leitura política.

 

Há duas coisas que importa conjugar: a transparência com a sensatez.

 

Numa sociedade adulta, ninguém deve estar inibido nos seus direitos de cidadania. E mais vale assumir o que se pensa às claras do que insinuar às escondidas.

 

Penso que isto, à partida, não constitui qualquer pressão. As pessoas são maduras e saberão decidir em consciência. Ninguém é dono da consciência dos outros.

 

Acontece que a sensatez obriga a que haja algum cuidado. Assim como não queremos que um jogo de futebol se transforme num comício, também não é expectável que se faça campanha numa Missa.

 

Isto não implica que não se exponha a mensagem de Cristo em todos os domínios, nomeadamente na justiça social e na opção preferencial pelos pobres.

 

Este é o terreno da Igreja: o de apontar valores e princípios. Mas daí a dizer, desde o púlpito, vamos votar neste ou não vamos votar naquele vai uma grande distância.

 

Marina Silva, que é política, eximiu-se a dar qualquer sentido de voto. Disse, e muito bem, que não era dona do voto de ninguém. Nem sequer do daqueles que tinham votado nela na primeira volta. Foi um gesto muito nobre.

publicado por Theosfera às 10:26

Segunda-feira, 01 de Novembro de 2010

Neste dia, tudo parece ungido com uma certa timidez. Até o sol espreitou e a chuva se conteve. O vento pulava pelos cemitérios, enxugando as lágrimas que batiam a face e se sepultavam no coração.

 

Neste dia de todos os santos, recordamos tantos que surgem ante nós como modelos de bondade e referências de vida.

 

Foram nossos pais, vizinhos, amigos. Tornaram-se as vértebras do nosso caminhar.

 

Hoje, os sorrisos, sinceros, despontam um pouco feridos.

 

A nossa história mora já, em grande parte, debaixo da terra.

 

Lá cumpri também o meu ritual. Com toda a minha família, fui à Senhora da Guia.

 

E, no cemitério, além de orar por meu querido Pai, lembrei o que minha amada Avó me disse no dia 1 de Novembro de 1974: «Meu neto, para o ano, já me vens visitar aqui também».

 

Não estava sequer doente. Mas viria a falecer logo no mês seguinte, a 30 de Dezembro.

 

Os meus nove anos de então ficaram atordoados.

 

Uma vez mais, gostei de rever aquela gente que sempre me disse muito e que recordo tanto!

publicado por Theosfera às 18:53

Quem mais ama é quem mais sente e quem mais sofre.

 

Deus quer a Igreja. Diria mesmo que Se arriscou a querer a Igreja. Mas, ainda assim, quis a Igreja.

 

Como dizia S. Cipriano, «ninguém pode ter a Deus por Pai se não tiver a Igreja por Mãe».

 

Deus é o maior amante e, por isso, é também, o maior crítico da Igreja.

 

Com todos os defeitos, é esta a Igreja que Deus quer.

 

Ele não quer outra Igreja. Quer, sim, uma Igreja outra.

 

Estará a Igreja disposta a colaborar com Deus?

publicado por Theosfera às 18:52

De muitos sabemos o nome. Acerca de muitos mais nem sequer alvitramos a existência.

 

Uma coisa este dia põe à tona: são muitos mais os santos do que aqueles que conhecemos, do que aqueles que figuram no calendário.

 

A santidade é para todos. O Concílio Vaticano II falava da «vocação universal à santidade».

 

A santidade consuma-se na eternidade, mas constrói-se aqui, no tempo. A santidade é deixar que Deus aconteça em nós.

 

A santidade é a surpresa da paz, da harmonia, da superação do ímpeto do momento. A santidade não é estrepitosa. É silenciosa, mas interveniente, calma, interpelante.

 

A santidade está ao alcance de todos, de ti também, meu Irmão. Quanto mais longe te consideras, talvez mais perto te encontres. De Deus. De ti. Da vida.

 

Que ninguém se sinta à margem. A santidade não é a ausência de defeitos. Houve santos que pegaram em armas, que mataram, que defenderam a pena de morte. Mesmo assim, Deus não os abandonou. E eles deixaram-se tocar.

 

A santidade ocorre na estrada, na casa, no trabalho. A santidade é o mergulho no eterno. Ela tem de ser alimentada. O segredo? Vive a vida segundo a tua consciência. Deus mora lá. No fundo do teu ser.

 

Com Aquele que perdoou, aprendamos a perdoar. Com Aquele que deu, aprendamos a dar.

 

Com Aquele que amou, aprendamos a amar. Com Aquele que é bom, aprendamos a ser bons.

 

Vale a pena parar hoje, para melhor (re)começar amanhã.

publicado por Theosfera às 18:20

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