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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

1.    Confesso que também a mim começa a entediar bastante o caudal informativo sobre os casos de abuso de crianças na Igreja Católica.

 

Acontece que esta saturação constitui não apenas um sinal, mas também um perigo.

 

É normal — e muita gente me tem dado conta disso — que a insistência nos acontecimentos negativos conduza a uma fadiga. Há coisas que já não suportamos ouvir.

 

Sucede, porém (e aqui reside o perigo), que tal saturação acaba por degenerar, a médio ou a longo prazo, na resignação, no inconformismo e na indiferença.

 

Eu sei que estamos longe de um sentimento desta natureza. E seria bom que nunca lá chegássemos.

 

Só que a história, a mestra por excelência, está cheia de situações que, começando por causar repulsa, vão evoluindo para a despreocupação.

 

Quem não se indignou com o início da guerra no Iraque? E quem faz caso, agora, com os atentados que, quase diariamente, continuam a dizimar vidas?

 

No caso da pedofilia, precisamos de tudo menos de amorfia cívica. É, sem dúvida, doloroso ouvir falar de tudo isto. Mas é muito pior que nos habituemos à ideia e que consideremos que (embora infelizmente) as coisas são assim.

 

No limite, não deixemos de pensar que se a nós nos dói ouvir falar da pedofilia, à multidão incontável das suas vítimas dói muito mais.

 

E estamos perante uma dor tantas vezes calada, tantas vezes ameaçada, tantas vezes chantageada…

 

 

2. É claro que uma catarse em público não constituirá a melhor terapia para problemas deste género.

 

Há que respeitar os limites da mágoa reprimida e da ofensa acumulada. Tem de haver o máximo cuidado e a mais apurada delicadeza no tratamento destas ocorrências.

 

Mas o que não se pode é fazer de conta que as coisas não existem. De resto, o bem da Igreja está em tudo menos na contemporização com monstruosidades desta índole.

 

O bem da Igreja, à luz do ensinamento do seu Fundador, radica, antes de mais e acima de tudo, na solidariedade para com os mais pequenos, os mais débeis.

 

Acresce que, dado o volume de casos, não podemos remeter tudo para a esfera da responsabilidade pessoal de cada um.

 

É evidente que esta nunca pode ser negligenciada. Para mal de muitos, há pedofilia em todas as camadas sociais e nas mais diferentes opções de vida.

 

Mas a incidência é tão acentuada na Igreja (um caso que fosse já seria demais, como alguém lembrou) que não podemos pôr completamente de lado as questões sistémicas.

 

 

3. Há, pois, que perguntar. Que estará a ser feito ou o que estará a deixar de ser feito para que, desde há uns tempos para cá, estas situações estejam a atingir uma proporção tão alarmante?

 

Será que é tudo uma questão de distúrbio pessoal? Não haverá também disrupções sistémicas?

 

Toda a gente conhece a mensagem de Cristo e a doutrina da Igreja nesta área. Como se entende então que alguém, que anuncia tal mensagem e prega tal doutrina, as contradiga não uma nem duas vezes, mas de uma forma contínua e com uma aparente descontracção?

 

E como se explica que só nos incomodemos quando as coisas são publicitadas quando a gravidade estriba no facto de elas terem ocorrido?

 

Como perceber que haja um aumento exponencial destes factos nas últimas três ou quatro décadas?

 

Como aceitar que, pelos vistos, tudo tenha decorrido normalmente até tudo vir para a praça pública.

 

Deixemos os julgamentos para quem tem de julgar. Mas não nos demitamos de reflectir nem de inflectir. E, neste capítulo, reflectir é fundamental e inflectir é urgente.

 

A possibilidade de falhas tem de ser sempre tida em conta, apesar de falhas que envolvam abusos de menores sejam impossíveis de admitir.

 

Por muito que nos esforcemos na preparação dos sacerdotes, nunca nos podemos abrigar de surpresas. Se as pessoas até para si são uma surpresa, quanto mais o não serão para os outros?

 

Feita a ressalva, há que inquirir. Será que está a ser colocado o devido cuidado na selecção, no discernimento e no acompanhamento dos sacerdotes?

 

É óbvio que nunca se pode prever ou prevenir tudo. Mas não é impossível acautelar muita coisa.

 

 

4. Em tempo pascal, encontramos um tópico poderoso e um paradigma insuperável para enfrentar esta crise.

 

A ressurreição é transformação, é recusa do conformismo, mesmo perante aquilo que parece irreversível.

 

Empiricamente, nada é mais irreversível que a morte. E até a morte foi vencida. O fundamental é que voltemos a Cristo, à origem.

 

Nunca percamos de vista que o lugar da Igreja está em cada tempo, mas a força da Igreja encontra-se nas suas origens.

 

Nas origens, vemos um fluxo de coragem que não recua perante nada. Nem perante a ordem do tribunal. É essa coragem que leva a desobedecer até às ordens do juiz.

 

Pedro foi claro: «Não podemos calar o que vimos e ouvimos» (Act 4, 20). A ocultação nunca foi lei para Cristo nem norma para os apóstolos…

 

 

publicado por Theosfera às 11:45

Respiro Deus em toda a parte. Ele nunca deixa de ser estar comigo, de estar em mim.

 

Como Tomé, confesso: Meu Senhor e meu Deus! Tudo me leva a olhar para Ele.

 

A Teologia não pode preocupar-se apenas com a identidade do Cristianismo; tem de preocupar-se também (e bastante) com a sua significação.

 

O Cristianismo não existe para si; existe para todos. É a todos que temos de nos abrir. É com todos que temos de estar.

 

O testemunho é a categoria fundamental, decisiva.

publicado por Theosfera às 10:56

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