O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Retrato de um percurso. Aqui.

publicado por Theosfera às 23:57

 

1. Nestes tempos em que pouco se cala, ainda há coisas que nunca (ou raramente) se dizem.
 
Umas pertencem, pura e simplesmente, ao silêncio. Outras habitam na intimidade discreta de uma partilha. Mas muitas são o néctar que perfuma a convivência.
 
Haverá, porém, palavras que consigam traduzir o que sentimos, o que está alojado no mais fundo do nosso ser?
 
Quantas vezes dizemos a quem nos ajudou o quanto lhe estamos reconhecidos?
 
Aos nossos familiares ainda vamos permanecendo ligados. Mas em relação aos nossos professores facilmente nos afastamos.
 
Até parece que o que somos nada tem a ver com o que eles foram para nós, em nós, por nós, connosco.
 
 
2. A paternidade e a maternidade não se esgotam nos registos biológicos.
 
Pai e mãe são quantos nos franqueiam as portas da vida. São quantos nos abrem as janelas do futuro. São quantos, pelo conhecimento e pelo porte, vão colorindo as paisagens da nossa existência.
 
George Steiner compara a relação entre professor e aluno à relação entre o pai e a mãe e o filho. Para ele, a relação entre professor e aluno «é a realização de uma alegoria de amor desinteressado».
 
 É mesmo assim. É missão do professor entrar na vida do aluno metendo nela a ciência e o saber.
 
Não é o que fazem a mãe e o pai? Tem de se estabelecer, por isso, uma relação de confiança, assente no respeito e estribada na mútua abertura.
 
 
3. Foi com estes sentimentos que regressei a Resende no passado dia 16 de Março.
 
Regressei só em pensamento, transportado pela lembrança e conduzido pela gratidão.
 
Foi nesse dia que soube que o senhor Prof. José Dias Gabriel tinha sido agraciado com o prémio carreira por toda uma vida dedicada ao ensino.
 
A imprensa assinalava-lhe a fundação da Escola Secundária D. Egas Moniz. Nunca lá estive. Foi na Escola Preparatória D. João de Castro que o conheci.
 
Corria o ano de 1976. Os seminaristas deixavam de ter aulas no Seminário, passando a frequentar o ensino público.
 
Ainda se ouviam os ecos vociferantes da Revolução de Abril. Eram tempos de contínuas alvoradas, em que até as tardes cinzentas pareciam manhãs pintadas de azul.
 
Naqueles dias, o sol dava a impressão de nunca se pôr, mesmo quando a chuva caía. Tudo era promessa. Tudo ressumava esperança.
 
Em tudo, palpitava o dealbar de um mundo novo. Até as pedras das calçadas pareciam sorrir ao ouvir as nossas confidências, ao coscuvilhar os nossos sonhos.
 
 
4. À distância de todos estes anos — já lá vão mais de trinta —, guardo uma comovida recordação dessa época.
 
O senhor professor Gabriel foi um dos artífices do nosso percurso. Primava pela clareza, pela vibração, pela rectidão.
 
Ele e outros professores transmitiam-nos conhecimentos que perduram e forneciam-nos valores que não passam.
 
Conviviam com os alunos vendo neles parceiros mais novos de um destino comum.
 
Eram mestres e sabiam ser amigos. Ao contrário do que se diz, não creio que um professor não possa ser amigo dos seus alunos.
 
Se a amizade é o melhor da vida, porque é que não há-de ser o melhor de uma escola? E, naquele tempo, a escola que frequentei era uma verdadeira escola de amizade.
 
Retenho, comovidamente, o clima de franqueza, o ambiente de solidariedade, a atmosfera de proximidade que a todos nos ligava.
 
Podíamos não ter nada para dizer, mas gostávamos de estar perto uns dos outros.
 
 
5. Na pessoa do senhor professor José Dias Gabriel, saúdo todos os professores e colegas que tive na Escola Preparatória de Resende.
 
Todos me marcaram. E alguns permanecem como das maiores referências da minha vida.
 
Tenho pena de nunca lhes ter dito o que sentia.
 
Mas todos sabem que, naqueles tempos, eu era gago profundo.
 
Dizer uma palavra era, para mim, um tormento. E que tormento! Mas aquilo que não dizia para fora, sentia cá dentro. Muito.
 
Espero ter tempo de verter, de viva voz, o meu reconhecimento a cada um deles. Antes que a tarde venha e o sol se ponha. Para sempre!
 
A todos, muito obrigado. Do fundo do meu coração!
publicado por Theosfera às 16:34

Gandhi não se considerava cristão, mas não há dúvida de que seguia os ensinamentos de Jesus Cristo.

 

Combateu a injustiça, mas nunca foi violento.

 

Persuadiu não pela retórica, mas pela coerência de vida.

 

Iniciou uma grande caminhada com poucas pessoas que, com o passar do tempo, se tornaram milhões.

 

Não respondia às provocações, mas nunca recuou no caminho.

 

Deixo estas palavras, amassadas em sangue, que servem de luzeiro para a estrada da nossa existência: «Se vos baterem, não retribuais a pancada. Se vos derem um tiro, não riposteis ao fogo. Se vos injuriarem, não repondais às injúrias. Continuai sempre a andar. Alguns de nós poderão ter de morrer antes de chegar ao destino. Alguns de nós poderão ter de ir para a prisão antes de lá chegar, mas nós continuaremos sempre a andar».

publicado por Theosfera às 14:31

Em toda a parte se discute a autoridade.

 

Nota-se a falta dela, sem dúvida. Mas as soluções que se alvitram não sei se contribuem para extinguir ou para agravar os poblemas.

 

A autoridade não é o mesmo que autoritarismo.

 

Não se atribui por decreto. Não se reivindica em desespero. A autoridade conquista-se, exerce-se.

 

Ela vem pelo comportamento, pelo exemplo, pela confiança, pela empatia, pela amizade, pela comunhão.

 

Volto a Albert Schweitzer: «O exemplo não é a melhor maneira de convencer os outros; é a única».

 

O problema não está na falta de autoridade. O problema está no défice da relação. Comecemos por aqui.

publicado por Theosfera às 14:27

Dói-me muito a dor e a infelicidade das pessoas.

 

Que posso fazer? Falar? Dizer o quê?

 

Limito-me a estar....

 

Não encontro palavras para expressar tudo o que tenho para dizer!

 

publicado por Theosfera às 14:10

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