O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 05 de Janeiro de 2010

 

 
1. A esta hora já nos apercebemos de que não é a simples passagem de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro que opera a mudança por que tanto sonhamos.
A mudança no tempo não introduz, por si só, a mudança na vida. No fundo, o futuro acaba por ser uma sucessão do presente, quando devia ser uma construção do presente.
Já há muitos anos, Albert Camus nos alertara para o perigo da inércia: «A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo no presente».
Hoje em dia, o sentimento geral é de resignação. Basta olhar para a face das pessoas e para o esgar de abatimento que se desprende do olhar.
Tudo somado, acabamos por ser o que não queremos e acabamos por não querer o que somos.
A nossa maneira de ser — e de estar — é como o clima nesta época: frio. Aliás, não é preciso fazer grandes balanços. O nosso rosto diz tudo.
 
2. Sentimo-nos pequenos diante do peso da realidade. Arrepiamo-nos perante o mal e sobretudo perante a injustiça, mas que fazemos?
No fundo, entramos na engrenagem. Lamentamos a situação, mas a sua filigrana invade-nos e apodera-se de nós.
Não queremos o que somos nem somos o que queremos. Mas não saímos deste labirinto.
Temos uma espécie de calculadora interior que nos dita as regras. Ela diz-nos que, se não queremos ser postos de lado, temos de aceitar as regras do jogo. Mesmo que se trate de um jogo tecido pela iniquidade.
José Gil disse, há não muitos anos, que, «sem justiça, não é possível a democracia». Não é possível a democracia e é impossível a vida.
No entanto, que estamos dispostos a fazer para terminar com a justiça? Muitas vezes, acabamos por contribuir para que ela se alastre.
Umas vezes, é a indiferença filha do cálculo. Achamos que o mundo é uma máquina e não um corpo. Um corpo tem coração. Uma máquina tem peças. Quando as peças não funcionam, deitam-se fora e substituem-se por outras.
O pragmatismo impõe-nos que aceitemos as coisas tal como elas aparecem. Nada disto é sadio, mas tudo isto é aceite.
Quem ergue a voz fica marcado e é rapidamente silenciado. O mais que fazemos, então, é partilhar as nossas mágoas em privado, aceitando a injustiça em público.
 
3. Edgar Morin afirmou que cada progresso acarreta sempre um retrocesso. Salta à vista que o portentoso progresso tecnológico tem acarretado um perigoso retrocesso espiritual.
André Comte-Sponville adverte-nos que, na actualidade, a questão prioritária é a espiritualidade. É ela que nos leva a aterrar na nossa humanidade e na humanidade dos outros. Mas o imediato não se compadece com estas considerações.
Para vencer a injustiça, é preciso, acima de tudo, vencer o medo. É preciso, com feito, vencer o medo de perder o lugar, o medo de perder o prestígio, o medo de perder o aplauso.
Muita gente me tem dito, certamente com o melhor propósito, que não vale a pena incomodarmo-nos com o mundo. Primeiro, porque somos poucos e pequenos para tarefa tão grande. E, depois, porque tudo acabará por melhorar.
 
4. Acontece que este é um grande equívoco. A injustiça não acaba por inércia. É preciso fazer muito para que ela termine. Já para que a injustiça continue, basta uma coisa: não fazer nada.
Nunca é demais lembrar a severa admoestação de Edmund Burke: «Tudo o que é preciso para que o mal triunfe é que as pessoas de bem nada façam».
Como referia Luther King, o que dói não é só o grito dos maus; é também — e bastante — o silêncio dos bons, das pessoas de bem.
Para vencer a injustiça é preciso vencer o medo. O medo de falar, o medo de sofrer, o medo de ser criticado.
Ninguém, por si, é capaz de acabar com a injustiça. Mas todos podemos contribuir, pelo menos, para que ela não fique no esquecimento.
Pertinente é, pois, o apelo de Shirin Ebadi: «Se não podeis eliminar a injustiça, pelo menos contai-a a todos».
A injustiça gosta do silêncio, da cumplicidade. Calar diante da injustiça é ser conivente com ela.
Ergamos a voz contra a injustiça. Ergamos a voz pela justiça. E pelas vítimas da injustiça!
publicado por Theosfera às 16:45

 

1. Ainda ecoam, no nosso espírito, os votos que trocámos na viragem de 2009 para 2010.
Muitas foram as promessas que nos fizeram. Bastantes foram as promessas que nós mesmos fizemos.
No alvorecer de um ano novo, é muito forte o desejo de uma vida nova. Mas já estamos precavidos e é quase certo o resultado do embate que tal desejo vai ter na realidade.
Esta, com a sua incoercível inclemência, acaba por trucidar sempre os sonhos mais ousados e a vontade mais decidida.
No dia 2 de Janeiro (ou, talvez, no dia 4, segunda-feira), já acordámos para os problemas habituais e para as dificuldades de sempre.
As expectativas são tão baixas que qualquer melhoria será apontada como um enorme êxito.
A sensação que dá é que todos estamos à espera do pior. Precisa-se, pois, de um suplemento de esperança.
E, neste particular, valerá a pena parafrasear a célebre recomendação de Kennedy: «Não perguntes apenas ao mundo o que pode fazer por ti; pergunta sobretudo a ti o que podes fazer pelo mundo».
 
2. O cenário não é entusiasmante e a tarefa não será fácil. Não são as promessas que, por si só, alteram a realidade.
Aliás, numa época dominada pelo efémero, as promessas depressa se esfumam. A esta altura, os votos de bom ano novo parecem já imolados pelas agruras do quotidiano.
As promessas tornaram-se uma espécie de balão de oxigénio que nos remetem para um mundo de ilusões que depressa se desfazem.
A vida tornou-se uma rotina em que cada fracasso gera propósitos de mudança. Que, rapidamente, verificamos que não se cumprem.
Dostoiévski bem alertava: «Prometer uma mudança, no fundo, resume-se a mentir, por mais respeitável que seja quem promete».
Talvez haja, aqui, algum excesso, mas não deixa de sobrar uma nesga de verdade.
Não basta prometer. É preciso, acima de tudo, realizar. O maior poder, como nos adverte José Antonio Marina, é precisamente este: tornar real o possível.
 
3. Sempre ouvi dizer que o demónio se alimenta de propósitos. No início de um ano, não faltarão.
Ninguém questiona que muitos deles são formulados com a melhor das intenções. Mas não podemos viver ao ritmo dos propósitos que nunca se realizam.
Sábia é, por isso, a recomendação de Santo Inácio de Loyola. Trata-se da recomendação dos três p’s.
Dizia o fundador da Companhia de Jesus que os propósitos devem ser poucos, pequenos e possíveis.
É que, se forem muitos, facilmente nos dispersamos. Se forem grandes, dificilmente os fixamos. E se não forem possíveis, instintivamente os pomos de lado.
Na verdade, somos muito ambiciosos na formulação de propósitos, quando devíamos ser mais ambiciosos na sua concretização.
Ainda me lembro do primeiro retiro em que participei e da cara de espanto do seu orientador quando leu o propósito que alguém tinha feito: «Prometo fazer tudo o que ouvi aqui»!
Há quem diga que o Islão mobiliza muita gente por causa da simplicidade da sua doutrina. O próprio Cristianismo, que, por vezes, se nos afigura tão complicado, também é luminosamente simples.
Jesus tudo resumiu numa única lei: a lei do amor. Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a nós mesmos é a súmula da mensagem e a chave do seguimento de Cristo.
Curiosamente, Sebastião da Gama percebeu isto muito bem quando escreveu: «Tenho muito que fazer? Não. Tenho muito que amar».
O Evangelho desponta, por vezes, como uma proposta muito bela, mas também como um caminho que teimamos em não trilhar.
 
4. No início de mais um ano, não prometamos fazer muita coisa. Sem dúvida que muito é preciso fazer. Mas seleccionemos uma coisa de cada vez.
Achamos que é necessário mudar muito lá fora, nas estruturas. E é verdade. Mas comecemos a mudança por nós.
Não é mais fácil, mas sempre será mais exequível, basicamente porque depende de nós.
O que nunca podemos presumir é que a mudança ocorre por inércia. Já, há séculos, dizia Francis Bacon que, por inércia, as coisas só pioram.
Se queremos que as coisas melhorem, temos de fazer alguma coisa. A começar pela nossa vida.
 
publicado por Theosfera às 10:48

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