O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

1. Yves Congar falou do «outono da Igreja», Karl Rahner dissertou sobre a «invernia da Fé» e o próprio Joseph Raztinger tem tecido abundantes considerações sobre a «crise do Cristianismo». Para o actual Papa, com efeito, «a autêntica crise mal começou; e devemos contar com grandes abalos».

Verdade seja dita que a questão não é de agora. No fundo, a Igreja parece ter contrato firmado com a adversidade.

 

2. Sucede que, talvez ao contrário de outrora, o principal problema da Igreja não é externo. O principal problema da Igreja é interno.

De fora continuam a vir a interpelações. Mas é de dentro que, não raramente, emergem os maiores obstáculos.

 

3. A essência do Cristianismo — recorda Bento XVI — «é uma história de amor entre Deus e os homens». Daí que o Santo Padre tenha pedido «menos burocracia e mais Espírito Santo».

A preocupação deveria ser acolher o mundo. Mas, à primeira vista, a opção parece ser assimilar o espírito do mundo.

 

4. Ora, isto não convence nem atrai. É que, para assimilar o espírito do mundo, não é preciso pertencer à Igreja.

O mundo necessita de se ver acolhido, mas pela diferença, não pela redundância. Se oferecemos o que todos oferecem, por que motivo hão-de as pessoas vir ter connosco?

 

5. Desde o princípio, desde Jesus Cristo, a Igreja está a chamada a ser, no mundo, algo diferente.

É por isso que nunca pode haver, nela, conformismo ou resignação. A Igreja tem de sobressair por uma sadia inquietude e por um permanente despojamento.

 

6. O fundamental, para a Igreja, não é a adaptação. É a presença. É a presença da diferença.

Não há dúvida de que o cristão tem de estar no mundo. É essa a vontade de Cristo (cf. Jo 17, 18). Mas é também vontade de Cristo que o cristão não se dissolva no espírito do mundo (cf. Jo 17, 16). Tratar-se-á, portanto, de um estar sem dissolver. Estamos no mundo, mas pertencemos a Cristo.

 

7. Os critérios da Igreja não podem ser os de uma qualquer organização. Os critérios da Igreja só podem ser os de Jesus Cristo, os do Evangelho.

Todavia, se olharmos para certas palavras e atitudes, até o mais desatento será tentado a perguntar: em que se distinguem os cristãos dos outros homens? Como refere Joseph Ratzinger, «para a maioria, o descontentamento em relação à Igreja provém do facto de esta parecer uma instituição como muitas outras».

Será que isto satisfaz?

 

8. Reparando bem, há uma tendência crescente para substituir a pela mera opinião. De resto, muitas intervenções permitem-se trocar o «eu creio» pelo «eu penso» ou, então, pelo «nós decidimos»!

 

9. É por tudo isto que a Igreja tem de prestar atenção ao exterior e tem de ter cuidado com o interior. Ela tem de servir para fora e de mudar por dentro.

Só assim será convincente, atraente e atractiva.

publicado por Theosfera às 10:32

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