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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
1. Educar é, sem dúvida, a missão mais apaixonante, mas também a tarefa mais perigosa. Ela está cheia de vastas potencialidades, mas encontra-se também ameaçada por muitos equívocos.
 
Um dos maiores equívocos com que a educação tropeça consiste em achar que a liberdade e a felicidade não são compatíveis com regras.
 
Como queremos que os mais novos sejam livres e, portanto, felizes, propendemos a reduzir as regras ao mínimo.
 
Sucede que este é um engano tremendamente nocivo. Pode agradar à criança, mas não ajuda a criança.
 
Ao contrário do que muitos ainda pensam, sublinha Teresa Sá, «uma criança sem limites não é uma criança livre». Torna-se«escrava das suas pulsões e não é feliz, vive angustiada».
 
Entregue a si própria, «não tem outro guia senão a satisfação imediata». Se quer uma coisa, agarra-a, se não está contente, bate.
 
Este procedimento alavanca, a longo prazo, «um verdadeiro sofrimento psíquico, visto que o sujeito não consegue dizer não a si próprio, e não somente ao educador».
 
A pessoa vai desenvolvendo «não apenas uma vontade de dominar os outros, mas, de igual modo, uma incapacidade de se dominar a si mesmo, de se limitar».
 
Ora, isto é contraproducente. Como nunca se satisfaz, a tendência para a frustração aumenta: «Parecendo dono do mundo, o sujeito está na verdade desmunido, pois não se sente dono do seu próprio mundo interno».
 
 
2. Daí a importância da autoridade na educação. Para Carmo Sousa Lima, a capacidade de lidar com os limites «é um poder muito bom, indispensável».
 
Há que ter em conta especialmente «o poder de dizer "não" na justa medida das coisas que são razoáveis dizer que não. E de dizer que "sim" naquilo que ajuda a criar uma melhor pessoa». 

Trata-se, segundo Teresa Sá, da autoridade «exercida pelos educadores (pais, professores, instituição) que permite à criança e ao jovem integrar os interditos fundamentais ligados à socialização».
 
É que «um adulto que permite tudo não é, para a criança, um adulto que lhe dê segurança».
 
Sem autoridade, «a criança sentir-se-á insegura, deixada só nas perigosas marés da sua impulsividade e destrutividade, abandonada, negligenciada».
 
Acontece que, como alerta Pedro Strecht, a alternativa à falta de autordade não passa pelo «regresso ao autoritarismo».
 
O que tem de haver é uma «autoridade protectora», que proteja as crianças «dos seus próprios movimentos mais primitivos, mais agressivos», como anota Carmo Sousa Lima.
 
Essa autoridade protectora tem de ser exercida desde o princípio. Caso contrário, os consultórios dos pedopsiquiatras e dos psicólogos continuarão a encher-se de «pequenos ditadores», crianças sem limites, algumas a caminho da delinquência, que  deixam os pais aflitos e os professores exaustos.

A prepotência das crianças decorre da falta de limites que, por sua vez, resulta de uma organização social desregrada, sem tempo para o investimento emocional na criança. 

3. É por isso que Raymond Bénévenque tem razão quando defende que «é no mundo dos adultos que se deve lutar por um outro futuro das crianças».
 
Elas replicam o que se passa nos mais crescidos. Por muito que as crianças façam sofrer os pais e os professores, elas acabam por reproduzir o que se passa na sociedade. Não é a sociedade, a começar pela família, que se mostra (teimosamente) desestruturada?
 
Por trás do problema das crianças sem limites, existe a falta de tempo, a velocidade que muitas vezes não deixa pensar. E a incapacidade de pensar dá lugar à depressão que tem como uma das manifestações a chamada «omnipotência infantil».
 
Na educação, o principal requisito é o tempo. Como refere Pedro Strecht, «os pais passam muitas horas a trabalhar, muitas crianças chegam a estar 10, 11 horas na escola. O reencontro, no final do dia, acontece numa situação de grande vulnerabilidade emocional com crianças cansadas, com birras, com pouco tempo para cumprir as rotinas e com pais extremamente cansados do trabalho, portanto num ponto de desencontro, de choque e de conflito. Pela falta de tempo e pela culpabilidade dos pais em relação a isso, a permissividade aumentou».
 
O que faltou ou o que tiveram a mais estas crianças para se tornarem assim? Pedro Strecht recua até aos primeiros tempos da vida da criança e da sua relação com os pais.
 
Donald Winicott aponta a ideia de «holding» para explicar a necessidade do envolvimento da criança «num círculo de amor e de força» juntando o afecto à fixação de limites.
 
A explicação para as manifestações de tirania por parte destas crianças passa então pela pergunta acerca do que tiveram elas a mais.
 
Como acentua Carmo Sousa Lima, «o excesso de "sim" perturbou a capacidade das crianças tolerarem o "não", mas «é o "não" que faz valorizar o "sim" e não o inverso».
 
Depois do período de encantamento que envolve o bebé nos primeiros tempos, os pais devem educar os filhos para a realidade.
 
Há pais que «são de uma ansiedade tal que a criança não pode sair de dentro delas e continua a viver numa espécie de uma bolha protectora, mas que a vai destruindo em termos de autonomia e de identidade».
 
 
4. No fundo, falta perceber que «são os limites que protegem a criança». Os limites têm a sua importância. A ausência de limites, ao invés, é que se mostra inteiramente prejudicial.
 
Uma vez que educar é introduzir na realidade e tendo em conta que na realidade do mundo há limites para tudo, então educar tem ser educar para os limites.
 
Quem não tem em conta os limites não respeita os outros nem se respeita a si mesmo!



 

publicado por Theosfera às 00:08

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