O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

 1. Parece pouco e, de facto, é pouco. Mas é com esse pouco que se vê muito. 

 

O pouco são as condições de vida que o presente oferece. E, não obstante, o milagre acontece. As pessoas estão a sobreviver.

 

É certo que, como diz Edgar Morin, «sobreviver não é viver». Eu sou tentado, porém, a objectar que, hoje por hoje, sobreviver é mais do que viver. É conseguir, do quase nada, fazer quase tudo: comer, estudar, ir ao médico, pagar a habitação.

 

Há pessoas que vivem nos limites sem que os limites as limitem. Pelo contrário, parecem espicaçadas pelas condições adversas. E, mesmo no limite, os obstáculos vão sendo transpostos e o caminho vai sendo trilhado. Há vasto sangue, bastante suor e muitas lágrimas, mas não há desistência. Nem resignação.

 

A experiência mostra que não é na abundância que a qualidade mais se certifica. É sobretudo na penúria que as capacidades se testam.

 

O que se via como impossível, afinal, está a revelar-se possível. As pessoas não estão a vencer a crise. Mas a crise também não está a vencer as pessoas.

 

E mais importante do que vencer a crise não será saber (sobre)viver em plena crise?

 

 

2. A fama parece que dá tudo. Parece que dá tudo muito cedo. Parece que dá tudo muito rápido. Até a viagem pela vida corre veloz para os famosos.

 

Só que a fama, que tudo dá, não se esquece de dar também tortura, também vazio, também tédio. A fama, que alimenta muitas vidas, acaba por devorar essas mesmas vidas.

 

A fama vai moendo, vai desgastando, vai matando. Michael Jackson, Amy Winhouse e Whitney Houston são alguns dos muitos que a fama elevou às alturas. E que a mesma fama atirou para os fundos.

 

Enfim, a fama dá tudo. Mesmo tudo. Até a ilusão de tudo. Até o fim de tudo!

 

 

3. A desesperança não visita apenas quem tem pouco. Também incomoda quem tem muito, quem aparenta ter tudo.

 

As pessoas facilmente se apercebem de que nem tudo é bastante. Nem tudo chega para satisfazer quando esse tudo se limita ao ter, ao mandar, ao aparecer.

 

É por isso que, no plano emocional, existe uma simetria entre os muitos pobres e os muito ricos. Em ambos os casos, a desesperança é avassaladora, asfixiante, brutal. Os muito ricos parecem tão pobres como os pobres. Falta-lhes sentido, horizontes, felicidade!

 

Com efeito, tão desesperado surge quem tem fome de pão como quem tem fome de fama. E nem a satisfação deste desejo parece abrir a porta da realização pessoal.

 

 

4. O caminho não será, para já, superar a crise. O caminho terá de ser aprender a viver em crise.

 

A adversidade não é agradável, mas pode ser preciosa. É ela que nos ensina a tirar o máximo do mínimo. Quando os recursos não abundam, pode abundar a criatividade, a esperança, a solidariedade.

 

É por isso que podemos não estar a viver um crepúsculo. Podemos estar a passar por uma nova aurora, por um novo amanhecer. Afinal, não é nas trevas que melhor se vê a luz?

 

Se repararmos bem, este período está a ser supremamente fecundo. Na prosperidade, quando o dinheiro jorrava, conseguia-se muito: viajar, consumir, trocar de carro, comprar moradias.

 

Agora, quando o dinheiro escasseia, as pessoas, afinal, conseguem o mais importante: viver e ajudar a viver, partilhando.

 

Há quem só consiga muito com muito. Felizes aqueles que, com pouco, conseguem (quase) tudo!

publicado por Theosfera às 13:24

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