O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 13 de Dezembro de 2009

 

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
 
-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
 
- Está bem, eu sei!
 
- E as garrafas de vinho?
 
- Já vão a caminho!
 
- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
 
- Não sei, não sei...
 
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
 
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
 
Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!
 
Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
 
Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
 
O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!
 
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
 
- Foi este o Natal de Jesus?!!!
 
 
(João Coelho dos Santos
in Lágrima do Mar - 1996)
publicado por Theosfera às 06:09

De António a 13 de Dezembro de 2009 às 14:36
Por alguma razão, Cristo disse que " o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça"...

De Maria da Paz a 13 de Dezembro de 2009 às 14:44
Rev.mo Senhor Doutor:
Muito bem-haja pela pertinência desta poesia de João Coelho dos Santos! Infelizmente, tão pertinente!
Muito obrigada pelo alerta!
Que isto aconteça com agnósticos ou ateus, compreende-se!
Mas com Cristãos...

Dói-me saber que na minha terra já não há Natal. Foi substituído, a mando da FRELIMO, pela "Festa da Família". Apenas e só.
E houve um período em que nem era, sequer, feriado: as pessoas eram obrigadas a trabalhar neste dia: "um dia como qualquer outro". É esta a liberdade comunista!
Afectuosamente,
Maria da Paz


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