O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 09 de Julho de 2017

A. Não separemos o que Jesus uniu: sabedoria e humildade

  1. Quem não deseja progredir no conhecimento e avançar na sabedoria? Também sobre isto, o ensinamento de Jesus é cheio de luz. D’Ele nos vem a indicação mais preciosa. Quem alguma quiser saber, de humildade tem de se abastecer.

Não separemos nunca o que Jesus quis unir sempre: a sabedoria e a humildade. Só pela humildade se chega à sabedoria. Só quem tem consciência de que não sabe, procura saber. Um dos homens mais sábios de sempre teimava em confessar que, quanto mais sabia, mais sabia que não sabia. A sua humildade guiou-o até aos mais elevados promontórios da sabedoria. É por isso que só o humilde é sábio. É por isso que só o humilde é verdadeiramente grande. Não foi em vão que Emanuel Lévinas reconheceu que «mais alta que a grandeza é a humildade».

 

  1. A humildade consegue chegar aonde a arrogância não é capaz de se acercar. A arrogância nem sequer tem consciência do que lhe escapa. Por tal motivo a arrogância é a irmã gémea da ignorância. Só a humildade se lança ao encontro do que lhe falta. É assim que a arrogância vive da presunção. Só a humildade alcança — ainda que se canse — o que procura. Ao reconhecer as suas limitações, o humilde não se acomoda e vai procurando supri-las. Na sua humildade, torna-se sábio porque a primeira sabedoria é ter consciência de que é necessário procurá-la.

Com tantos alardes de sabedoria, falta-nos dar conta do saber inicial: o não-saber. Não percebemos que todo o saber começa por um não-saber. «Não sei» também é resposta. Só depois de passarmos por este primeiro saber, estaremos em condições de nos abrirmos aos outros saberes. Como pode chegar ao maior saber quem não passou devidamente pelo primeiro saber?

 

B. A humildade é o melhor guia — e o maior guião — para a sabedoria

 

3. Facilmente se percebe, assim, que a humildade seja o melhor guia — e o maior guião — para nos aventurarmos pelos caminhos da sabedoria. É que a humildade, abrindo-nos as portas a toda a sabedoria, nunca nos fecha as janelas deste primeiro saber.

Onde não há humildade, haverá sabedoria? Thomas Elliot não tinha dúvidas. Para ele, a única sabedoria que existe «é a sabedoria da humildade». A humildade é sempre sábia e a sabedoria deve ser sempre humilde. Se a sabedoria não é humilde, não é sábia. Sábio, com efeito, não é o que presume que sabe. Pelo contrário, é o que pensa que não sabe e, nessa medida, se esforça por saber. Não é fácil incluir a humildade na sabedoria. Mas o mais difícil é alcançar a sabedoria da humildade.

 

  1. A humildade ajuda-nos a conhecer melhor Deus, o mundo, a vida, os outros e nós mesmos. De facto, se nos conhecêssemos verdadeiramente, seríamos mais humildes. Se fôssemos mais humildes, conhecer-nos-íamos verdadeiramente. Havia um santo que achava que «o conhecimento de nós mesmos como que nos leva pela mão até à humildade». Poderemos acrescentar que, complementarmente, a humildade leva-nos pela mão até ao conhecimento de nós mesmos.

A humildade é o chão onde tudo nasce e cresce. Sem humildade, vogamos sempre na ilusão. Na sabedoria humilde e na humildade sábia, apercebemo-nos de que, sendo diferentes de todos, não somos superiores a ninguém. Porque humilde, o verdadeiro sábio não se considera superior nem vê os outros como inferiores. Para ele, os outros não estão em baixo nem tampouco ao lado. Os outros estão dentro dele. A humildade faz-nos perceber que cada ser humano pertence a todo o ser humano, a toda a humanidade. Este é o padrão basilar da sabedoria.

 

C. A humildade não igualiza, mas fraterniza

 

5. A humildade não nos igualiza, mas fraterniza-nos. Não nos torna iguais, mas ajuda a tornar-nos irmãos. Não nos torna iguais pela simples razão de que estamos marcados — e enriquecidos — pela diferença. Mas torna-nos irmãos porque, capacitando-nos da nossa incompletude, nos leva a aprender com as riquezas de que os outros (também) são dotados.

No fundo, a humildade é a verdade e a verdade é a humildade. Assim sendo, a verdade não é violenta nem torturante. Aparece e dá-se a quem a procura. A verdade é Jesus Cristo, o Humilde. É na humildade de Cristo que, como nos disse Bento XVI, «Deus não nos deixa tactear na escuridão. Ele mostrou-Se como homem. Ele é tão grande que pode até tornar-Se pequeníssimo». A esta luz, as pessoas humildes são aquelas que percebem que o mundo não termina nem acaba em si. São aquelas que percebem que o centro do mundo não está em si. São, pois, aquelas que não olham para si. São aquelas que olham para fora de si.

 

  1. Afinal, até o mais alto quis descer até ao mais baixo. Até Deus é humilde. Em consonância com a imagem e semelhança de Deus, o humilde não olha de cima, olha para cima. Orson Welles verbalizou o essencial da humildade quando disse: «Penso que é impossível que o homem seja grande se não admitir que há alguma coisa maior do que ele».

Sucede que, como reparou Xavier Zubiri, o homem tem uma grande dificuldade em aceitar «a ideia de um ser supremo». Sem se aperceber, ele coloca o divino ao nível do humano e coloca o humano ao nível do divino. Concretamente, a humanidade descobre-se «imersa na técnica, que quase não põe limites ao domínio da natureza pelo homem». São cada vez mais os que se resignam a permanecer «aposentados na sua vida». O seu horizonte parece ser mais a técnica do que a eternidade.

 

D. Até Deus quer ser humilde

 

7. Há, portanto, um solipsismo existencial que vai fazendo o seu caminho. O homem, deslumbrado consigo mesmo e com os seus feitos, presume que não precisa de Deus. E, ao mesmo tempo, acha que também não precisa dos outros. Estamos no tempo em que cada um parece querer «valer por si mesmo». É a «cultura self» no seu pior.

Esquecemos que até Deus, sendo único, não é um. Não notamos que Deus, em Si mesmo, é família, é partilha e comunhão. Pode dizer-se que Deus exerce, eternamente, a arte da humildade.

 

  1. Deus exerce, desde sempre esta arte da humildade. Como Holderlin reparou, «Deus criou o mundo como o mar criou os continentes: retirando-Se», ou seja, dando espaço. Segundo a doutrina hebraica do «zimzum», Deus como que Se contrai na Sua imensidão para «hospedar» o homem e todo o universo.

Por aqui se vê como Deus deixa o mundo ser mundo e como Deus deixa o homem ser homem. Deus é tão humilde e recatado no mundo que alguns até dizem que não O sentem, que não O vêem nem O ouvem.

 

E. A grandeza dos «pequeninos»

 

9. Jesus, o Filho de Deus, era manso e humilde (cf. Mt 11, 29): mansamente humilde e humildemente manso. Jesus garante-nos que Deus não Se revela na arrogância, no orgulho, na prepotência, mas na simplicidade, na humildade, na pobreza.

É por isso que Jesus louva o Pai por Se revelar não aos que se julgam sábios e inteligentes, mas aos verdadeiros sábios e inteligentes: os pequeninos, isto é, os humildes. É que só estes, vazios de si, estão disponíveis para acolher a novidade libertadora de Deus.

 

  1. O próprio Jesus apresenta-Se «humilde e manso». Ele vem não sobrecarregar, mas para aliviar. O Seu jugo não é cruel; é suave. E a Sua carga não é pesada; é leve.

Aprendamos, então, com Jesus. Não nos julguemos maiores que ninguém. A todos demos as mãos. E nunca nos esqueçamos de viver como irmãos!

publicado por Theosfera às 05:17

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