O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 23 de Julho de 2017

A. A vida cristã não é um «passeio», mas um «combate»

  1. Desengane-se quem pensar que a vida cristã é uma espécie de «passeio» por um mundo sem obstáculos nem acidentes. A vida cristã não é um «passeio», mas um «combate». Aliás, é o próprio São Paulo que confessa a Timóteo ter «combatido o bom combate» (2 Tim 4, 7).

Tal como aconteceu com São Paulo, também nós temos de contar com problemas. Só que os problemas existem não para nos vencerem, mas para serem vencidos por nós com a ajuda de Deus. E nem sequer é o tamanho dos problemas que nos há-de fazer desfalecer ou recuar. O teólogo Eberhard Jüngel reconhecia que «quanto maiores são as dificuldades, tanto maiores são as possibilidades». Deus, com efeito, é maior que a maior das dificuldades. É por isso que, parafraseando alguém, não digamos apenas a Deus que temos grandes problemas; digamos, sobretudo, aos nossos problemas que temos um grande Deus.

 

  1. Fundamental é que tenhamos consciência das dificuldades e que estejamos dispostos a combater os obstáculos. Mau, muito mau, seria que tomássemos as dificuldades como apoios e que nos demitíssemos da missão de ser sal, fermento e luz. Importa que nunca esqueçamos que o nosso lugar no mundo é ser alternativa, não redundância.

Pensadores houve que, há muitos anos, vaticinaram que haveria de chegar um tempo em que tomaríamos o mal como bem e o bem como mal. Nessa altura, os fiéis seriam considerados infiéis e os infiéis seriam apontados como fiéis. Não nos podemos resignar, pois. Há que ser lúcido, deixando-nos guiar pela luz do Espírito Santo, a única que não ensombra, escurece ou engana.

 

B. A «má semente» conflitua com a «boa semente»

 

3. Deus envia o Seu Filho para semear a «boa semente» neste «campo» que é o mundo. É por isso que é no mundo que devemos procurar a semente, fazendo-a crescer para poder frutificar. O mundo, que muitas vezes se comporta como adversário de Cristo, é obra de Deus. Arnold Toynbee até o apresentou como «província do Reino de Deus».

A «boa semente» lançada no mundo pelo Filho do Homem são os «filhos do Reino» (Mt 13, 38). Acontece que, no meio da «boa semente», encontra-se também a «má semente», descrita como joio (cf. Mt 13, 26). Esta «má semente» são os «filhos do Maligno» (Mt 13, 38).

 

  1. É assim que os «dados estão lançados». Como alguém referiu, onde Deus constrói uma Igreja, o Diabo não descansa enquanto não constrói uma capela. Para nosso espanto, Deus não elimina logo a «má semente». Daí que ela cresça juntamente com a «boa semente». É na altura da «ceifa» — o fim do mundo (cf. Mt 13, 39) — que será feita a grande triagem.

A nós cabe-nos discernir e optar. Nós, que somos o terreno onde Deus deposita a «boa semente», também somos o campo onde o Maligno tenta depositar a «semente má».

 

C. É preciso evangelizar o mundo sem «mundanizar» o Evangelho

 

5. É a este mundo — cheio de «boa semente» e, ao mesmo tempo, exposto à «má semente» — que Deus nos envia. Deus não quer que constituamos um mundo à parte, mas que sejamos parte do mundo: para o perceber, para o transformar, para o converter. Deus não quer salvar o mundo à distância, mas pela proximidade, com todos os riscos que isso possa acarretar.

Percebemos, assim, que o Cristianismo tenha nascido peregrino e inconformado. Os primeiros cristãos, em obediência ao mandato de Cristo (cf. Mc 16, 15), viam-se como residentes em qualquer lugar e como habitantes de toda a terra. Não se sentindo distantes dos mais próximos, cedo aprenderam a sentir-se próximos dos mais distantes.

 

  1. Não foram as dificuldades que travaram a determinação dos primeiros cristãos: eles queriam mesmo levar Cristo a todo o mundo e trazer todo o mundo a Cristo. Assim sendo, não procuravam apresentar Cristo segundo os critérios do mundo. Procuravam, antes, construir um mundo segundo os critérios de Cristo. Tentaram, em suma, evangelizar o mundo sem «mundanizar» o Evangelho.

Esta ânsia de anunciar o Evangelho ao mundo não impediu, contudo, que encontrassem focos de incompreensão no mundo. Um escrito do século II — «A Carta a Diogneto» — assinala que os cristãos «amavam a todos, mas eram perseguidos por todos»; «faziam o bem, mas eram punidos como maus». Enfim, notavam que «o mundo odiava os cristãos, que não lhe faziam nenhum mal».

 

D. A alternativa não é a fuga, mas uma nova presença

 

7. Nenhum obstáculo, todavia, os demoveu do seu propósito ou amoleceu o seu discurso. Apesar dos contratempos, persistiram em mudar o mundo em nome do Evangelho. O que nunca admitiram foi mudar o Evangelho por causa do mundo. Quando as perseguições terminaram, o inconformismo manteve-se.

O desafio já não era dar a vida num momento, mas dar a vida a cada instante. No fundo, dar a vida é dar-se na vida. E não só no fim da vida. O Cristianismo, que amava o mundo, não se revia no mundo. Foi por isso que não desistiu de corporizar uma verdadeira alternativa ao mundo.

 

  1. Os cristãos não estavam a fugir do mundo, mas a corporizar uma nova presença no mundo. A opção pelo deserto e a proliferação de mosteiros mostram que houve quem percebesse que o Cristianismo transporta consigo o gérmen da insatisfação. Só que essa insatisfação não está ausente do mundo. Afinal, o deserto e os mosteiros não estão fora do mundo.

Eles são a prova de que é possível centrar a vida em Deus e não apenas por alguns dias. Deus é o centro da vida em cada dia. Daí o encanto. Daí a surpresa. Daí a contínua — e saudável — (pro)vocação!

 

E. Procuremos ser um «campo» (sempre) fecundo

 

9. A semente pode ser pequena quando é lançada à terra. Não espanta, pois, que Jesus compare o Reino dos Céus a um «grão de mostarda» (cf, Mt 13, 31). É a mais pequena de todas as sementes, mas, depois, torna-se a maior de todas as plantas (cf. Mt 13,32).

É muito significativa a reiterada atracção que Jesus tem pelo pequeno e pelos pequenos (cf. Mt 25, 40). Afinal, só o que é pequeno pode crescer. Quem já se julga grande que disponibilidade tem para crescer? É por isso que os supostamente grandes não crescem; rebentam. Ser pequeno não é ser inútil; é estar aberto e disponível. Ser pequeno é deixar-se trabalhar pelo verdadeiramente grande, tão grande que até vem ao encontro da nossa pequenez.

 

  1. O pequeno cresce por acção do «fermento» (cf. Mt 13, 33). Deixemo-nos, então, fermentar por Deus. Pelo Seu Espírito, Ele vem sempre em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rom 8, 26). É por tal motivo que, como notou Agostinho da Silva, «mais alta que a grandeza é a humildade».

Não nos sintamos diminuídos na nossa pequenez. Nela, Deus fará o que sempre fez. É Ele que nos conduz pelos caminhos abertos por Jesus. Acolhamos a «boa semente» que Deus espalha no coração de toda a gente. Não tenhamos medo da «ceifa» final. O bem triunfará sobre o mal. Procuremos ser um campo fecundo e tudo começará a mudar. Neste nosso mundo!

publicado por Theosfera às 05:43

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