O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 02 de Abril de 2017

A. Jesus ressuscita ao «terceiro dia» para nos ressuscitar (logo) ao «quarto dia»

  1. Não é só para Lázaro que Jesus fala. É também a cada um de nós que Jesus Se dirige: «Sai para fora» (Jo 11, 43), diz Jesus a Lázaro de uma forma intencionalmente pleonástica. «Sai para fora», diz Jesus a cada um de nós de um modo igualmente forte. Jesus quer tirar-nos dos «túmulos» (cf. Ez 37, 12) em que o nosso «eu» nos traz «sepultados».

É o nosso «eu» que nos traz moribundos. É, por isso, do nosso «eu» que Jesus nos vem libertar. É o nosso «eu» que nos traz «atrelados» à mordaça do pecado e da morte por este acarretada. O nosso «eu» também nos faz «cheirar mal» (cf. Jo 11, 39). Só Jesus, com o Seu odor, nos liberta deste infectado fedor.

 

  1. Jesus, que ressuscita «ao terceiro dia» (1Cor 15, 4), quer ressuscitar-nos logo no «quarto dia» (Jo 11, 39). Isto significa, uma vez mais, que Ele ressuscita para que nós ressuscitemos. Nós só ressuscitamos em Jesus, nós só ressuscitamos com Jesus. É Jesus que manda tirar a pedra do nosso túmulo (cf. Jo 11, 39). O «eu» é esta pedra que nos fecha, o «eu» é esta pedra que nos traz fechados (cf. Jo 11, 38).

Ressuscitar é, assim, libertar. A Ressurreição é a suprema libertação. Jesus, ao ressuscitar Lázaro, mostra que Ele mesmo é a Ressurreição e a suprema libertação. Mas nem isso O impede de chorar. A Sua divindade não ofusca a Sua humanidade e a Sua humanidade não obscurece a Sua divindade. Jesus, que ressuscita Lázaro, chora por Lázaro. Jesus era muito amigo de Lázaro (cf. Jo 11, 35-36), como é muito amigo de cada um de nós.

 

B. A morte como «adormecimento»

 

3. «Senhor, aquele de quem és amigo está doente» (Jo 11, 3). Eis o que foi dito a Jesus há dois mil anos. Eis o que pode — e deve — ser dito a Jesus hoje. Tantos são os que estão doentes. Tantos são aqueles a quem só Jesus pode curar. Não tenhamos medo de recorrer a Jesus. Jesus está sempre disponível para vir em nosso auxílio. Quando sabe que o amigo está doente, Jesus altera os planos e muda de caminho (cf. Jo 11, 7) apesar da hostilidade dos judeus (cf. Jo 11, 7). Sabendo também da nossa doença existencial, Jesus está sempre disponível para nos curar.

Como é sabido, Jesus não vai logo para casa de Lázaro. Permanece ainda dois dias no local onde estava (cf. Jo 11, 6). Lázaro está doente, mas a sua doença não é de morte; é para que nela se manifeste a glória de Deus (cf. Jo 11, 4). Aquela morte é vista sobretudo como uma oportunidade para reforçar a fé na Ressurreição (cf. Jo 11, 15).

 

  1. Afinal, é preciso morrer para ressuscitar: só ressuscita quem morre. É por isso que Jesus, apesar de saber que Lázaro tinha morrido (cf. Jo 11, 14), fala da sua morte como um adormecimento: «O nosso amigo Lázaro está a dormir; mas Eu vou lá para o acordar» (Jo 11, 11). É curioso notar como a interpretação que Jesus dá à morte de Lázaro é muito semelhante à interpretação que os primeiros cristãos dão à morte do próprio Jesus. Também a morte de Jesus é vista como um adormecimento. São João diz que, antes de «entregar o Espírito», Jesus «inclinou a cabeça» (Jo 19, 30).

Ora, inclinar a cabeça é a posição não só de quem morre, mas também de quem dorme. Aliás, há uma máxima muito antiga segundo a qual a Igreja nasce do lado «adormecido» — não «morto» — de Cristo na Cruz. Na morte de uma pessoa santa, costumamos dizer que «adormeceu no Senhor». E, já agora, convirá recordar que a palavra «cemitério» significa não «lugar onde se morre», mas «lugar onde se dorme».

 

C. Um despertador chamado Jesus

 

5. É desta sonolência que Jesus nos vem despertar como despertou Lázaro. Jesus é a vida definitiva que supera a morte. Na Primeira Leitura deste Domingo, Deus oferece ao Seu Povo uma vida nova. Essa vida vem pelo Espírito, que irá inserir o mesmo Povo na fidelidade a Deus e no amor aos irmãos.

Por sua vez, a Segunda Leitura lembra aos cristãos que, no dia do seu Baptismo, optaram por Cristo e pela vida nova que Ele veio oferecer. Convida-nos, portanto, a sermos conformes com essa escolhas, realizando as obras de Deus e vivendo «segundo o Espírito». O Evangelho garante-nos que Jesus é a realização definitiva do divino desígnio de dar aos homens a vida nova. Os que aderem a Jesus Cristo também morrem, mas não ficam mortos: vivem para sempre em Deus.

 

  1. Importa ter presente que este episódio é a última parte do chamado Livro dos Sinais, que vem do capítulo 4 até ao capítulo 11 do Evangelho de São João. Ao longo destes capítulos, através dos «sinais» da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56), Jesus é apresentado como portador da novidade plena.

O texto que hoje foi proclamado constitui a quinta — e última — catequese do referido Livro dos Sinais. Tudo se passa em Betânia, uma aldeia que fica a este do Monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém. Da família de Lázaro faziam parte as suas irmãs Maria e Marta. Trata-se de uma família que Jesus conhece e que conhece Jesus, que ama Jesus e que é amada por Jesus.

 

D. É à nossa vida que Jesus oferece a Sua vida

 

7. Salta à vista que o Evangelho só fala destes irmãos, omitindo qualquer referência a outros membros desta família. Se repararmos, a palavra «irmãos» é a palavra usada por Jesus para se referir aos Seus discípulos (cf. 20, 17). É, pois, como irmãos que Jesus quer que vivamos. É como irmãos que Jesus nos quer encontrar. Jesus quer encontrar-nos como irmãos quando vem à nossa casa, à nossa vida.

É à nossa vida que Jesus oferece a Sua vida. É à nossa vida mortal que Jesus oferece a Sua vida eterna. Assim sendo, a morte não é fim, mas trânsito. É pela morte que passamos desta vida para a vida plena.

 

  1. Jesus não evita a morte física. Nem sequer evitou a Sua própria morte. O que Jesus faz é oferecer ao homem uma vida que se prolonga para sempre. Para que essa vida possa chegar é nós, a única condição necessária é seguir Jesus.

O gesto de dar vida a Lázaro representa o ápice da missão que o Pai confiou a Jesus: dar a vida definitiva ao homem. É por isso que Jesus, antes de mandar Lázaro sair do sepulcro, dá graças ao Pai (cf. Jo 11, 41-42). Ao dar a vida ao homem, Jesus está a realizar a vontade do Pai.

 

E. Não há maior felicidade que a divina amizade!

 

9. Que terá acontecido a Lázaro depois de ressuscitar? Os textos sagrados não dizem mais nada a não ser que os sumos-sacerdotes, além de Jesus, também decidiram matar Lázaro. É que muitos judeus, por causa dele, passaram a acreditar em Jesus. (cf. Jo 12, 11).

Há uma tradição que diz que os três irmãos foram para França, assegurando que Lázaro foi o primeiro Bispo de Marselha. Tendo sido martirizado, há quem acredite que as suas relíquias estão em Autun.

 

  1. Outra tradição indica que os três irmãos foram para Chipre, tendo Lázaro sido Bispo de Cítio ou Lárnaca. Também nesta última cidade estão expostas relíquias que se crêem ser suas. Não falta, porém, quem diga que tais relíquias teriam sido transladadas para Constantinopla. Várias igrejas e capelas foram erigidas em sua honra na Síria.

Enquanto padroeiro da Lárnaca, há nesta cidade uma basílica dedicada a São Lázaro, construída em 890. Antes da basílica, havia um templo do século V no qual existia um sarcófago com a inscrição: «Lázaro, o amigo de Cristo». Eis, assim, o mais belo remate para a nossa vida: sermos «amigos de Cristo» e termos Cristo como Amigo. Não há maior felicidade que a Sua amizade!

publicado por Theosfera às 05:30

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