O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 10 de Setembro de 2017

 A. Cada pessoa é bastante, mas não é o bastante

  1. Confesso que nunca gostei de ouvir chamar a alguém «deficiente». Tal (des)qualificativo pressupõe que, por contraste, haja quem seja «suficiente». Mas haverá alguém verdadeiramente «suficiente»? Haverá quem seja «suficiente» para nascer, para receber educação e saúde? Cada pessoa é bastante, mas não é o bastante. Nenhuma pessoa se basta a si mesma.

Não faltará quem se considere «auto-suficiente», isto é, quem se considere «suficiente» em si mesmo, por si mesmo. Acontece que a experiência está sempre a mostrar que todos nós somos seres incompletos e, nessa medida, carentes e insuficientes. Sozinhos, nada conseguimos. Precisamos dos outros para nascer, para crescer, para receber educação e saúde. Se não houvesse tu, haveria eu?

 

  1. Sozinhos, nem sequer nos conhecemos. O povo até diz que «ninguém é bom juiz em causa própria». E se o fundamental objectivo do conhecimento é cada um conhecer-se a si mesmo, a vida mostra que é sempre necessário que alguém no-lo recorde.

O Salmo 36 (v. 10) proclama que só na luz de Deus encontramos a luz. Só em Deus nos conhecemos verdadeiramente. É no mesmo sentido que o Concílio Vaticano II sustentou que só Jesus Cristo, Deus feito homem, revela o homem ao homem. Como observou Karl Rahner, «Cristo é a resposta total à pergunta total»: à pergunta total sobre Deus e à pergunta total sobre o homem. Por conseguinte, se queremos saber quem é Deus, a resposta é Cristo; se queremos saber quem é o homem, a resposta é Cristo. Em Cristo, sentimo-nos perto de Deus e do que Deus é para nós.

 

B. O amor faz bem até àquele que faz (o) mal

 

3. Ao contrário do que possamos presumir, nós, cidadãos (e, ainda mais, cidadãos com fé), não temos créditos, só temos débitos, só temos dívidas. O que somos devemo-lo a tantos: desde logo, a Deus; depois, aos nossos pais e, no fundo, a todos os membros da sociedade. E porque estamos em dívida, devemos ser dádiva. Saldamos a nossa dívida sendo dádiva. Saldamos a nossa dívida pela dádiva do amor. Daí a exortação de São Paulo: «Não tenhais qualquer dívida a ninguém senão a de vos amardes uns aos outros» (Rom 13, 8). Só o amor é capaz de saldar as nossas dívidas. E é por isso que, como nota o mesmo São Paulo, «quem ama o próximo cumpre a Lei» (Rom 13, 8).

Na sua sabedoria simples — e na sua simplicidade sábia —, o povo diz que «amor com amor se paga». Mas, mesmo que não haja amor para connosco, há-de haver sempre amor a partir de nós. Ou, melhor, a partir de Deus em nós. Pois quando há autenticamente amor, não somos nós que amamos; é Deus que ama através de nós. São Paulo adverte que o amor é «o pleno cumprimento da Lei» (Rom 8, 10). O amor não faz mal (cf. Rom 8, 10). O amor faz bem até àquele que faz (o) mal.

 

  1. O amor consiste em oferecer o bem. E, correspondentemente, consiste também em afastar do mal. Cada um de nós foi colocado na vida como o profeta foi colocado em Israel: como «sentinela» (Ez 33, 7). De acordo com Isaías, a função da sentinela é anunciar a chegada da manhã no meio da escuridão da noite (cf. Is 21, 11-12). Ser sentinela não é ser polícia. Não é policiar nem controlar, é acompanhar: é acompanhar a vida dos outros.

Comentando a afirmação de Ezequiel, S. Gregório Magno recorda que «a sentinela está sempre num lugar alto, a fim de perscrutar tudo o que possa vir ao longe». Este lugar alto onde, hoje, se encontra a sentinela é o Evangelho. É a partir do Evangelho que nos tornamos responsáveis por nós e corresponsáveis pelos nossos irmãos.

 

C. A maledicência é um «desporto» com muitos «praticantes»

 

5. Todos nós somos chamados a ser sentinelas e todos precisamos de alguém que seja sentinela para nós. É que, às vezes, olhamos mas não vemos; outras vezes, vemos mas não reparamos; e, outras vezes ainda, reparamos, mas parece que ignoramos. Não podemos ignorar que o mal nos tenta, que o mal nos assedia, que o mal nos assalta. Anunciar o bem implica denunciar o mal. Não pensemos que o mal dos outros não nos afecta.

O mal devemos evitar, mas de quem faz o mal não podemos fugir. Quem faz o mal continua a ser nosso irmão, um irmão em perigo, por isso mais necessitado de apoio e ainda mais carecido de auxílio. Não chega ser recto em si, é preciso ser correcto para com os outros. A correcção do mal é uma superior demonstração de amizade. Incorrecto é ver o mal e deixar que o mal alastre. Mal é ser indiferente diante do mal. A indiferença é, decididamente, o oitavo pecado capital e, seguramente, não o menos grave.

 

  1. Nunca devemos falar mal, mas, muitas vezes, somos obrigados a falar do mal. Devemos falar do mal com quem o cometeu e não falar de quem o praticou. Aqui, a forma é tão importante como o conteúdo. O Evangelho é claro: «Se teu irmão te ofender, vai repreendê-lo a sós» (Mt 18, 15). Este é o primeiro — e decisivo — passo: falar com a pessoa e não falar da pessoa.

Não só hoje, mas sobretudo hoje, há uma grande tentação para falar dos outros, para falar mal dos outros. A maledicência é um «desporto» que, infelizmente, tem muitos «praticantes». Não temos em conta que grave não é só roubar coisas. Grave é também roubar o bom-nome, a boa fama, a boa reputação.

 

D. Se não pudermos dizer bem, não digamos nada

 

7. É sumamente perturbador o clima de intriga que prospera no mundo e que nem a Igreja deixa de fora. Sim, a Igreja que Paulo VI queria «perita em humanidade», também se deixa arrastar por fortes vendavais de desumanidade.

Quando não pudermos dizer bem de alguém, o melhor é não dizer nada. Só que, por absurdo que pareça, as pessoas parecem consumir mais a má notícia do que a boa notícia. A boa notícia não vende, só a má notícia rende.

 

  1. São muitos os que dizem ser frontais, mas o que são é maledicentes. Passam a vida — e gastam o tempo — a exibir hipotéticos feitos seus e supostos defeitos dos outros. Para nosso pesar, há quem só se sinta bem a dizer mal. Será assim que conseguiremos vencer o mal e combater a maldade?

Façamos, então, uma limpeza dos nossos lábios, dos nossos ouvidos, das nossas leituras, das nossas conversas, das nossas redes sociais. Procuremos estar mais com os outros em vez de falar mal dos outros. Troquemos a maledicência pela beneficência. Fazer bem sempre, falar mal nunca. Não enterremos as pessoas no mal. Falemos do mal com as pessoas, mas nunca falemos mal das pessoas.

 

E. O que não conseguirmos por nós, Deus o conseguirá em nós

 

9. Se não conseguirmos fazer a correcção fraterna em privado, peçamos — como preceitua o Evangelho (cf. Mt 18, 16) — a ajuda de mais alguém, mas sempre discretamente, sempre com recato.

Se nem assim for possível, confiemos o caso à Igreja, que deve ser sempre a casa da verdade e a morada do amor.

 

  1. E, sobretudo em Igreja, dediquemo-nos à oração. «Se dois de vós, sobre a terra, juntarem as suas vozes para pedirem seja o que for, hão-de obtê-lo de Meu Pai que está nos Céus. Pois onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, Eu aí estarei no meio deles» (Mt 18, 19-20).

Façamos oração em comunidade e procuremos superar os problemas em comunidade. O que não conseguirmos por nós, Deus o conseguirá em nós, connosco. Deus é o nosso maior aliado na luta contra o mal. Com Ele, o mal não nos vencerá. Com Ele, o mal será vencido por nós!

publicado por Theosfera às 05:32

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