O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 30 de Julho de 2017

A. Não basta sermos «cristãos de lábios»

  1. Afinal, o que é prioritário para nós? Os nossos lábios dizem que Deus está acima de todas as coisas. Mas, por vezes, na nossa vida colocamos muitas coisas acima de Deus. Também aqui, é frequente a nossa vida desdizer o que o que nossos lábios dizem. Aliás, o próprio Deus, pela boca de Isaías, Se queixava: «Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim» (Is 29, 13; cf Mt 15, 8).

Não basta sermos «cristãos de lábios». Os lábios devem falar do que se vive e não do que parece que vivemos. Por conseguinte, temos de ser, antes de mais e acima de tudo, «cristãos de vida», cristãos para toda a vida.

 

  1. Já o Bem-Aventurado John Henry Newman notava que muitos de nós aparentam ser «envelopes sem alma». Ou seja, apostamos muito no aparato — e na aparência —, mas investimos pouco (ou quase nada) na substância, na profundidade, na alma. Ainda patenteamos uma grande dificuldade em passar de nós para Cristo. Ainda há muito «eu» a condicionar-nos e a tolher-nos.

Para Santo Agostinho, como para tantos outros, era imperativo dizer o que o diz a Igreja: «Falo com a voz da Igreja» («Voce Ecclesiae loquor»). Não falamos — nem devemos viver — em nome próprio. Falamos — e devemos viver — para Deus e para os filhos de Deus.

 

B. Que estamos dispostos a deixar pelo Reino dos Céus?

 

3. É por isso que o Reino dos Céus é comparado a um tesouro (cf. Mt 13, 44). Este tesouro, como assinala o Evangelho, permanece frequentemente escondido. É preciso, pois, destapá-lo, trazê-lo para fora, para que todos o vejam, acolham e vivam. É curioso que, na parábola que escutámos, o homem que encontra o tesouro escondido começa por voltar a escondê-lo. Ele queria ficar com o tesouro. Por tal motivo, comprou todo o campo onde estava o tesouro (cf. Mt 13, 44).

O tesouro era tão importante que valeu a pena o investimento e o sacrifício. O mesmo acontece com a pérola. Aquele que encontra uma pérola de grande valor vende tudo o que possui para a poder comprar (cf. Mt 13, 45-46). Ficar com aquela pérola justifica que se venda tudo o resto. O Reino dos Céus — a melhor pérola — justifica que deixemos tudo.

 

  1. Discernir o que é prioritário é sinal de sabedoria. É o que o sábio Salomão mais pede a Deus. Salomão é o paradigma do verdadeiro sábio, que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir — nem guiar — por valores efémeros. Tudo ocorre no âmbito de um diálogo entre Deus e Salomão. Este jovem rei é sábio, desde logo, no reconhecimento dos seus limites. E mostra-se — ainda mais — sábio no reconhecimento de Deus como fonte de sabedoria.

Salomão considera-se imaturo, impreparado, Não se deslumbra por ser muito novo (cf. 1Rs 3, 7). Ser novo é, antes de mais, uma oportunidade para aprender. O problema é que, muitas vezes, há quem julgue que ser novo é um pretexto para mandar, para impor. É preciso perceber que, como refere o Eclesiastes, tudo tem seu tempo e sua hora (cf. Ecl 3, 1). Há muito que aprender na vida. E é com Deus que mais temos a aprender.

 

C. Faz falta distinguir o bem do mal e o mal do bem

 

5. É sintomático notar que Salomão não pede a Deus «longos anos, nem riquezas, nem a vida dos seus inimigos» (1Rs 3, 11). Isto é, Salomão não se mostra utilitarista. Não pensa em si: nem nas suas conveniências nem nos seus interesses. Salomão pede a Deus a chave de uma sabedoria não cognitiva nem intelectual, mas profundamente existencial. Salomão pede a Deus o mais necessário e também o mais raro. Pede-Lhe «um coração compreensivo, para distinguir o bem do mal» (1Rs 3, 9).

Eis o que urge, eis o que falta. Falta, hoje em dia, distinguir o bem do mal. Há quem troque o mal pelo bem e o bem pelo mal. Há quem chame mal ao bem e bem ao mal. E o pior é que são muitos os que se guiam pelo mal a que chamam bem e esquecem o bem que desprezam como sendo mal.

 

  1. Deus promete a Salomão um «coração prudente e esclarecido» (1Rs 3, 12). E, além de satisfazer o que Salomão pediu, também lhe concede o que ele não pedira. Nos versículos logo a seguir ao texto proclamado na Primeira Leitura, Deus acrescenta mais três dons a Salomão: a riqueza, a glória e uma vida longa (cf. 1 Rs 3,13-14).

Isto significa que Salomão não tem poder próprio. Ele age como uma espécie de intermediário entre Deus e o Seu Povo. É através do rei que Deus governa, que Deus intervém na vida do Povo. Daí que Salomão não conceba a sua missão como um privilégio pessoal para usar em benefício próprio, mas como um ministério que lhe foi confiado por Deus. É a vontade de Deus que importa conhecer. É a vontade de Deus que nos incumbe realizar. Deste modo, Salomão aparece também como o modelo do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa condicionar pelas coisas efémeras.

 

D. O tempo da grande selecção

 

7. Enquanto oportunidade para o discernimento, o tempo da nossa vida é o tempo da grande selecção. Jesus também compara o Reino dos Céus a uma «grande rede» que apanha «toda a espécie de peixes» (cf. Mt 13, 47). De facto, o Reino não é algo como um «condomínio fechado», com lugar cativo para as elites. O Reino é aberto e, por conseguinte, quem a ele se abre está exposto. O cristão é abraçado pelo bem, mas não deixa de estar exposto ao mal.

É neste sentido que, como já dizia Henri de Lubac, «a Igreja não é uma academia de sábios, nem um cenáculo de intelectuais sublimes, nem uma assembleia de super-homens. É precisamente o oposto. Os coxos, os aleijados e os miseráveis de toda a espécie têm cabimento na Igreja, e a legião dos medíocres são os que lhe dão o seu tom».

 

  1. É bom não esquecer que o primeiro cristão a entrar no paraíso foi um ladrão (cf. Lc 23, 43). Como lembra Timothy Radcliffe, o Salvador não deixou ninguém de lado, muito menos «aqueles cujas vidas são um caos». É por isso que a Igreja é uma casa sem portas porque, se as tivesse, teriam de estar sempre abertas. Todos são bem-vindos à Igreja. Ela inclui até os que o mundo exclui.

A Igreja é, pois, para todos. Mas não é para tudo. Na Igreja, Deus dá oportunidade a todos. Ele não quer afastar ninguém. A selecção está sempre a fazer-se. No final, será feita a grande escolha: será recolhido o que é bom e será repelido o que não presta (cf. Mt 13, 48).

 

E. Aproveitemos o novo e não desaproveitemos o antigo

 

9. Em tudo, Deus está sempre a vir ao nosso encontro. Em tudo, Deus concorre para o nosso bem, como São Paulo nos alerta: «Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam» (Rom 8, 28). Assim sendo, o Apóstolo fala daqueles que Deus de antemão conheceu, predestinou, chamou, justificou e e glorificou (cf. Rom 8, 29-30).

No entanto, estes versículos não devem ser lidos em chave minimalista como se a salvação fosse oferecida apenas a um grupo de predestinados. O projecto de Deus está aberto a todos. O problema é que nem todos o acolhem. Em qualquer caso, trata-se de um dom de Deus, disponível desde toda a eternidade.

 

  1. Valorizemos, então, tudo quanto Deus põe à nossa disposição: «as coisas novas» e também «as coisas velhas» (cf. Mt 13, 52). O bem não está só no antigo nem se encontra apenas no novo. O bem está a vir ao nosso encontro desde o princípio. E não deixará de vir, até ao fim. Aproveitemos, então o novo, mas não desaproveitemos o antigo.

 

Como notou Xavier Zubiri, «viver é optar». Deus não pára de chamar. Não paremos nós de Lhe responder. Que a divina proposta mereça sempre a nossa melhor resposta. Deus connosco quer contar para este mundo transformar!

publicado por Theosfera às 05:44

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