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Domingo, 02 de Julho de 2017

A. Ser cristão é uma questão de viver, não de dizer

  1. Afinal, em que lugar está Jesus Cristo na nossa vida? Por vezes, entre o dizer e o viver pode subsistir uma grande distância. É um facto que nos dizemos «cristãos». Mas será que procuramos viver como cristãos? Nunca esqueçamos que ser cristão não é uma questão de dizer, mas de viver. Ser cristão, com efeito, não se diz apenas com os lábios. Ser cristão só se diz com a vida.

Seremos nós «cristãos de vida»? Ou seremos apenas «cristãos de língua»? Que estamos dispostos a fazer por Cristo? Que estamos dispostos a deixar por Cristo? Que estamos dispostos a dar por Cristo?

 

  1. Nada — nem ninguém — pode estar acima de Cristo, sob pena de não termos autoridade para nos considerarmos «cristão». Quem se diz «cristão» diz-se «de Cristo». Tenhamos sempre presente que, para um cristão, viver é sempre «cristoviver». Um cristão só vive na medida em que vive em Cristo, com Cristo e para Cristo.

É por isso que, embora pareça radical, Jesus acaba por ser elementar, coerente. No fundo, não é o discurso de Jesus que é radical. O nosso percurso é que, muitas vezes, é insonso e insosso, incolor e inodoro: sem chama, sem garra e sem alma.

 

B. Não há cristão sem Cruz

 

3. Ser cristão implica amar Jesus Cristo acima de tudo e até ao limite. «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim. E quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim» (Mt 10, 37). E tendo em conta que não há Cristo sem Cruz, também não pode haver cristão sem Cruz: «Quem não toma a sua cruz, para Me seguir, não é digno de Mim» (Mt 10, 38).

Ser cristão é agir cristão e o agir cristão tem de ser uma reprodução do agir de Cristo. Uma vez que a Cruz está presente na vida de Cristo, como é poderia estar ausente da vida do cristão? Aliás, nem é preciso fazer um grande esforço para a procurar. A Cruz está sempre a vir ao nosso encontro. Mesmo que tentemos fugir da Cruz, é mais do que evidente que a Cruz nunca foge de nós.

 

  1. Tomar a Cruz é arriscar a vida; é aceitar perder a vida. Para Jesus, só ganha a vida quem dá a vida, quem se dá na vida. Daí o Seu (veemente) apelo: «Quem conservar a vida para si, há-de perdê-la; e quem perder a vida por Minha causa há-de encontrá-la» (Mt 10, 39). O que se perde é a nossa vida própria. O que se ganha é a própria vida de Cristo. Não foi Ele que Se apresentou como sendo a vida? «Eu sou a vida», diz Jesus (Jo 14, 6).

A nossa opção é, pois, muito clara. Ou queremos uma vida própria, enquistada em nós mesmos, rebolada no nosso egoísmo pessoal, ideológico e terreno. Ou abrimo-nos a uma vida maior, centrada em Deus e disponível para todos. É certo que a escolha não é fácil. A pulsão individualista é muito forte. Mas o «Eu» de Cristo em nós fará maravilhas inauditas. A felicidade nunca é tão grande como quando nos damos a Deus e aos irmãos.

 

C. Porque Deus não desiste de nós, não desistamos nós de Deus

 

5. Tomar a Cruz não tem nada de depressivo. Tomar a Cruz tem tudo de expressivo. No fundo, a Cruz expressa a realidade do nosso Baptismo. Como ouvimos na Segunda Leitura, «nós, que somos baptizados em Jesus Cristo, somos baptizados na Sua morte» (Rom 6, 3). É que, só estando com Cristo na morte, conseguiremos estar com Cristo na Sua vitória sobre a morte.

São Paulo avisa: «Assim como Cristo ressuscitou dos mortos […], também nós caminharemos numa vida nova. Se morrermos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos» (Rom 6, 4.8). É por isso que a Páscoa não é só a Ressurreição. A Ressurreição é o «terminus ad quem» da Páscoa. Mas o «terminus a quo» da Páscoa é a Morte. A Páscoa começa com a Morte. A Páscoa é a passagem da Morte para a Ressurreição. Só há Ressurreição depois da Morte. É, portanto, preciso morrer para ressuscitar. Nunca percamos de vista. É preciso morrer para o pecado, para o egoísmo, para a mentira, para toda a espécie de mal e de maldade.

 

  1. O Baptismo opera, de modo sacramental, esta morte para o pecado e esta vida para Deus. No Baptismo, identificamo-nos com Cristo na Morte e identificamo-nos com Cristo na Ressurreição. A Morte, que já não tem domínio sobre Cristo (cf. Rom 6, 9), também nenhum domínio terá sobre quem está em Cristo. No Baptismo, começamos a viver para Deus (cf. Rom 6, 10).

Estaremos, então, dispostos a esta morte para termos acesso a esta vida? Estaremos dispostos a morrer para o pecado, para o mal e para a maldade? Estaremos dispostos a permanecer vivos para Deus em Cristo Jesus (cf. Rom 6, 11)? Nem sempre o que se celebra no Sacramento se torna visível na vida. Há que fazer convergir o plano sacramental com o plano existencial. Quando cairmos, não hesitemos em voltar a levantar-nos. Deus não desiste de nós. Não desistamos nós de Deus.

 

D. Cristo vai com quem parte

 

7. Jesus identifica-Se totalmente com os Seus discípulos. Ele vai com quem parte. Foi essa a Sua última promessa: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). É por isso que quem ouve o discípulo, ouve o próprio Mestre: «Quem vos ouve, a Mim ouve» (Lc 10, 16). Quem acolhe os enviados de Jesus, acolhe Jesus e o próprio Pai: «Quem vos acolhe, acolhe-Me a Mim e quem Me acolhe, acolhe Aquele que Me enviou» (Mt 10, 40).

Nada é esquecido por Jesus. Até um copo de água fresca, dado aos Seus discípulos, terá a devida recompensa (cf. Mt 10, 42). E se é tão grande a recompensa — a vida do próprio Deus —, porque é que resistimos tanto a dar?

 

  1. A Primeira Leitura descreve um gesto de hospitalidade para com um enviado de Deus e a recompensa de Deus por tal gesto. Esta mulher não se limita a oferecer a Eliseu uma refeição. Ela manda também construir, para o profeta, um quarto no terraço da sua casa.

O gesto da mulher não vale apenas pela importância da hospitalidade. Ele sinaliza também o reconhecimento de que Eliseu é um homem de Deus, através do qual Deus age no mundo. No fundo, ao ajudar Eliseu, a mulher está a colaborar com Deus.

 

E. Nunca nos enclausuremos em nós

 

9. Em resposta à generosidade da mulher, Eliseu anuncia-lhe o nascimento de um filho. A promessa tem um valor especial, dada a dificuldade de ter filhos que pesa sobre o casal, devido à avançada idade do marido.

Este episódio ensina-nos que colaborar com Deus é fonte de vida e de bênção. Deus não deixa de recompensar quantos com Ele se dispõem a colaborar.

 

  1. Por conseguinte, não sejamos cristãos de «meias-tintas» ou a «meio-gás». Cristãos temos de ser sempre por inteiro, em completo «full time». É verdade que há muitas adversidades por fora e bastantes obstáculos por dentro. Mas, se tivermos vontade, a presença de Cristo tudo removerá. Nada — nem ninguém — é tão forte como a força de Cristo.

Abramos, pois, a portas do nosso coração. Não aceitemos ficar enclausurados em nós. Cantemos sempre a divina bondade. E procuremos «semeá-la» por toda a humanidade!

publicado por Theosfera às 05:49

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