O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Admiro quem tem a coragem de ser impopular.

 

Lastimo quem, querendo ser popular a todo o custo, acaba por se tornar ainda mais impopular.

 

É que quem quer agradar a todos não agrada a ninguém.

 

O povo pode não apreciar quem não agrada. Mas aprecia ainda menos quem só quer agradar.

 

Admiro Bento XVI.

publicado por Theosfera às 12:36

Um procura apurar o putativo sentido oculto do que se encontra revelado. O outro pretende revelar o que se encontrava oculto.

 

Eis, em síntese, a diferença principal entre os dois livros de que mais se fala nesta altura: «O último segredo», de José Rodrigues dos Santos, e «O Céu existe mesmo», de Todo Burpo e Lynn Vincent.

 

Ambos acabam por trazer à superfície a importância da educação e a centralidade do testemunho.

 

José Rodrigues dos Santos é, sem dúvida, tributário do método histórico-crítico aplicado ao Novo Testamento.

 

A outra obra atesta a influência que tem a educação na vida de uma pessoa, ainda que se trate de uma vida com poucos anos.

 

Nada é inócuo na nossa história. E nenhuma bibliografia é indiferente à biografia que a suporta. Inclusive, quando nessa biografia, o que está em causa são experiências do próprio inconsciente.

publicado por Theosfera às 11:13

Os jornais assinalam que estamos na véspera do dia de finados.

 

Sem querer entrar em preciosismos, queria só pontuar uma dupla imprecisão. Quanto ao dia e quanto ao conteúdo do dia.

 

O dia em causa não é 1 de Novembro, mas 2 de Novembro.

 

Amanhã, é dia de Todos os Santos. Como o dia 2 não é feriado, as pessoas habituaram-se a ir aos cemitérios no dia 1. Este ano, já começaram a ir até no dia 30, por ser domingo. Em muitos locais, vão pela madrugada do dia 2.

 

E, depois, no dia 2 comemora-se os fiéis defuntos. Em alguns locais, diz-se apenas fiéis.

 

Finado vem de fim. Ou seja, indica aquele que se finou, acabou. Ora, nós acreditamos que quem morre continua vivo, na felicidade eterna.

 

Defunto vem do verbo fungor, que quer dizer cumprir.

 

Defunto é o que cumpriu. O que cumpriu a etapa terrena da vida. E está na fase eterna da existência.

 

No meio disto tudo, reconheçamos que as palavras são o que menos importa. Mas podem ajudar a perceber o que está em causa.

 

Nós sentimos que os nossos mortos não estão mortos. Eles sobrevivem. Em Deus. E em nós.

publicado por Theosfera às 09:54

«O que é um adulto? Uma criança com idade!».
Assim escreveu (luminosa e magnificamente) Simone de Beauvoir.

publicado por Theosfera às 09:45

Faz hoje, 31 de Outubro, 494 anos que Lutero publicou as suas célebres 95 teses. Abriu-se, assim, caminho para a maior cisão na Igreja ocidental.

 

Reconheço que, sem o saber, na madrugada da minha vida, fui um pouco «luterano».

 

Cheguei a pensar, como sucedeu com Lutero entre 1505 e 1513, que Deus iria condenar-me. Que qualquer coisa O ofendia.

 

Houve, por isso, uma altura em que me confessava quase de dois em dois dias.

 

Descobri, mais tarde, que Deus é um Pai de amor, que está à nossa espera antes de nós irmos ao encontro d'Ele.

 

Continuo a confessar-me todas as semanas. Não já com medo de Deus. Mas com a ânsia de receber o Seu imenso amor. E de saborear a Sua infinita paz!

publicado por Theosfera às 06:53

Há palavras que nos deixam sem elas, sem palavras.

 

Bebemo-las ou mastigamo-las e não conseguimos dizer nada.

 

«O Céu existe mesmo» é um livro campeão de vendas por toda a parte. Entre nós, conseguiu chegar ao primeiro lugar do top das obras mais vendidas.

 

Basta dizer que, em quatro meses, já vai na 11ª edição, com cerca de 100 mil exemplares transaccionados.

 

Colton é um menino de quatro anos operado de urgência.

 

Passado algum tempo, conta o que viveu. E, para surpresa de todos, em vez de falar de médicos e bisturis, fala de Jesus e de anjos.

 

O que ele reporta constitui, desde logo, o eco de uma vivência e a ressonância de um testemunho.

 

A fé corria nas veias desta criança, que a bebeu dos pais.

 

Estava no consciente e mantinha-se no inconsciente.

 

Isabel da Trindade dizia que encontrou o céu na terra porque o céu é Deus e Deus estava nela.

 

É por isso que, quando o céu desce à terra, quem está na terra sente-se já no céu.

 

A experiência do mistério é sobretudo unitiva.

 

E as crianças, na sua espontaneidade criativa, conseguem dar-nos poderosas lições de profundidade.

 

É um livro que cria sentimentos belos e que se aloja facilmente no fundo da alma.

 

Os olhos dos mais pequenos brilham quando os lábios falam desta comovente narrativa.

 

Não conheço ninguém que não tenha ficado tocado com este texto. Eleva. Emociona. Faz pensar. E permite concluir que, em tudo, há um sentido.

 

Afinal, no tempo, é possível ir mais além do tempo. A eternidade não nos esquece.

 

Em tempos de olhares estreitos, precisamos de horizontes largos. São eles que criam as raízes mais profundas.

publicado por Theosfera às 06:41

O Dia Mundial da Poupança, que se assinala hoje, pode ter o efeito de um conselho prudente, mas pode ter também o impacto de uma provocação.

 

Há muita gente que já não consegue poupar. Se o dinheiro nem sequer entra ou se sai, mal entra, como conseguirá poupar?

 

Há que ponderar seguir o conselho que, ontem, um governante dava: emigrar.

 

António Vieira bem dizia: «Para nascer Portugal, para morrer, o mundo». Continua a ser verdade!

publicado por Theosfera às 06:25

Domingo, 30 de Outubro de 2011

O dinheiro é o principal instrumento na economia. Certo? Errado.

 

Mais importante que o dinheiro é a confiança.

 

Quem o assegura é Stephen Covey, um dos 25 americanos mais influentes segundo a «Time».

 

A confiança «é como uma nova moeda». É ela que «vai mudar a velocidade com que se fazem as coisas», pois, «quando há confiança elevada, movemo-nos rápido».

 

É a confiança que «muda muitas coisas nas organizações».

 

A confiança começa em casa. «É fácil confiar nos outros quando confiamos em nós; é um processo de dentro para fora».

 

A autoconfiança não quer dizer que se é perfeito. Quer dizer «que se compreende o que se está a fazer e que o mais importante é dar o melhor que se consegue».

publicado por Theosfera às 19:00

A Igreja faz muito pelos pobres, mas pode (deve) fazer muito mais.

 

Não se trata de dar coisas, mas de oferecer um exemplo mais vincado de despojamento.

 

Já não me refiro ao apelo de Dietrich Bonhoeffer, o teólogo mártir de Auschwitz, mas ao que, ontem mesmo, terá dito o Padre Jardim Moreira.

 

É preciso dar mais que o euro. A Igreja, diz, «devia estar mais capaz de se inserir na mudança da sociedade».

 

Estamos demasiado integrados na realidade. Urge participar mais na sua transformação.

publicado por Theosfera às 16:31

Não sei como é que estas coisas se conhecem, mas a imprensa de hoje diz que amanhã vai nascer o bebé 7 mil milhões. Na Índia.

publicado por Theosfera às 16:30

Aprecio muito o autor da expressão, mas confesso que me custa ouvir depreciar a tolerância.

 

Toda a gente sabe que se trata de um mínimo, mas este mínimo, na hora que passa, é muito importante.

 

«Tolerantismo» não me parece, pois, uma expressão muito feliz. E, mesmo involuntariamente, pode desestimular a sua vivência. Nos tempos que correm, a tolerância desponta como um valor inestimável.

publicado por Theosfera às 16:27

À guisa de oráculo, eis o que nos chega, hoje, da pena contundente de Vasco Pulido Valente: «Se o federalismo for a nossa única salvação, não será salvação alguma».

publicado por Theosfera às 16:26

Mais uma hora neste dia. Para fazer o bem. Para ser. Para estar. Para admirar. Para apreciar o contínuo milagre da vida. Para aplaudir o permanente mistério do mundo.

 

Afinal, vale a pena acreditar e nunca desistir.

 

Há sempre um minuto de esperança a seguir a uma hora de desalento.

publicado por Theosfera às 15:38

 O que Jesus mais verbera é a falsidade, a hipocrisia, o fingimento.

 

Se Deus nos deu um só rosto, porquê teimar, tantas vezes, em ter duas (ou mais) caras?

 

A simplicidade não é tida em boa conta nos tempos que correm.

 

Etimologicamente, «pessoa» remonta ao grego «prosopón», que significa «máscara».

 

A tentação de parecer o que não se é e de ser o que não se parece é muito grande.

 

No Evangelho deste Domingo, Jesus censura os que «dizem e não fazem». Não pensemos só nos políticos. As igrejas precisam de aprender a escutar mais, mesmo que falem um pouco menos.

 

A misericórdia e a tolerância têm de ser trazidas para o centro.

 

Importa que olhemos mais para os últimos. Porque, segundo o Mestre, esses serão os primeiros.

 

Somos todos irmãos. E os mais pequenos e pobres não podem continuar esquecidos.

publicado por Theosfera às 06:17

«O melhor modo de nos vingarmos é não nos assemelharmos a quem nos faz mal».
Assim escreveu (notável e magnificamente) Marco Aurélio.

publicado por Theosfera às 06:16

Sábado, 29 de Outubro de 2011

É sempre penoso ouvir dizer que alguém está doente. Ainda mais, quando a doença é um cancro.

 

No caso vertente, trata-se de uma figura que todos aprendemos a admirar: pela sua obra, pelo seu porte, pela sua clarividência, pela sua ousadia.

 

Lula da Silva já venceu muitos desafios, inclusive o de colocar o seu país na rota do desenvolvimento.

 

Mas o que mais me impressionou é que, mesmo quando esteve em «cima», nunca se esqueceu dos que permaneciam em «baixo».

 

É, sem dúvida, uma das (poucas) grandes personalidades do nosso tempo. Formada na universidade da vida. Com suma distinção!

publicado por Theosfera às 21:17

A vida é uma lição. E, nela, os melhores professores são os problemas.

 

É sempre bom condimentar um fundamental optimismo da vontade com um cauteloso pessimismo da inteligência. Ou seja, é importante acreditar no melhor, sem deixar, porém, de estar prevenido para algo que possa correr mal.

 

Sucede que muitos gastam como se nunca houvesse crise. É preciso poupar como se ela pudesse chegar no momento seguinte.

 

O mal é o de quem nada consegue manter porque as necessidades são tantas e os proventos são tão poucos que já não há por onde apertar. Mas, no geral, ainda há muito supérfluo a consumir(-nos).

publicado por Theosfera às 16:39

Há outras visões acerca da crise.

 

Há outros caminhos para sair da crise.

 

Mas quem manda é quem despeja sacrifícios sem fim e, como se isso não bastasse, ainda se permite prenunciar amanhãs mais cinzentos.

 

Quem manda é quem avisa que o pior está para vir.

 

E quem inspira quem manda vai advertindo que 14 meses de salários é para nunca mais.

 

Será que a história está no fim ou estes visionários já conhecem a história até ao fim?

publicado por Theosfera às 12:19

«A aversão pós-moderna à simplicidade é uma das coisas que esvaziaram a nossa geração».
Assim escreveu (atenta e magnificamente) David Foster Wallace.

publicado por Theosfera às 12:00

Nas crises, não encontramos apenas perigos. Deparamos também com oportunidades.

 

Os perigos aumentam se insistirmos no mesmo. As oportunidades crescerão se optarmos pelo diferente.

 

Todos estamos expostos aos perigos. Todos devemos estar abertos às oportunidades.

 

As religiões são chamadas a proporcionar uma oferta acrescida de espiritualidade. É isso o que as pessoas mais procuram hoje. E é o que elas têm direito a esperar.

 

Toda a gente sabe onde encontrar política. Às vezes, ela está até na religião.

 

Don Delillo, um dos autores mais lidos actualmente, arrasa no diagnóstico: «A religião não é, hoje, uma espiritualidade profunda; é parte da política».

 

Uma crise, enquanto momento de acrisolamento, pode constituir, para a religião, um regresso a ela própria.

 

A espiritualidade não é um pretexto para a pessoa se fechar. Pelo contrário, é o melhor meio de se abrir. A partir de si mesma. Do fundo de si mesma!

publicado por Theosfera às 11:44

Muito se fala de «ética republicana» nestes tempos. Mas uma coisa é falar, outra coisa é cumprir.

 

Pode haver corte nos vencimentos, mas os gastos com os nossos representantes ainda são deveras avultados.

 

Há, entretanto, um episódio da «ética monárquica» que faria bem relevar.

 

Numa crise que houve, no país, em 1892, o rei D. Carlos abdicou de 20% do orçamento da casa real.

 

Achava ele que o rei e respectiva família «deviam ser os primeiros nos sacrifícios extraordinários que as circunstâncias impõem à Nação»!

publicado por Theosfera às 11:43

Quem manda na Europa?

 

Merkozy.

 

As cimeiras servem para discutir e (mesmo que custe) aprovar o que Merkel e Sarkozy decidem.

 

Mas, no fundo, Merkel é que determina. É por isso que «ozy» está como sufixo. Como apêndice?

publicado por Theosfera às 11:42

Os políticos ganharão pouco, reconheço. Mas, mesmo assim, ganham mais que a média do país.

 

A Eslováquia adoptou uma medida criativa, que estimulará certamente a produtividade.

 

O salário dos políticos está indexado à média nacional e ao défice. Se o salário médio subir e a meta do défice for alcançada, o salário dos políticos também subirá.

publicado por Theosfera às 11:41

Vão-se os ditadores e extinguem-se as organizações terroristas. E, mesmo assim, não nos sentimos seguros, em paz.

 

Hoje, já não se luta por pátrias nem por ideais. Luta-se, cada vez mais, pela mera sobrevivência.

 

Os homicídios estão a crescer. Os assaltos estão a aumentar. A ansiedade dispara sem freio.

 

Eis uma luta em que só teremos vencidos!

publicado por Theosfera às 11:39

Há uma espécie de teimosia entre o cidadão e a realidade.

 

Por muito que nos doa, vamos empobrecer. Mas está a custar admiti-lo.

 

Não podemos levar o mesmo padrão de vida.

 

Porventura, teremos de cortar no supérfluo enquanto é tempo. Antes que sejamos obrigados a cortar no essencial.

 

São José Almeida tem razão: «Negar a realidade não a faz desaparecer».

 

Já há muita gente na penúria. O processo de empobrecimento será muito mais célere do que foi o processo de enriquecimento!

publicado por Theosfera às 11:37

A verdade está sempre na totalidade. Não a parcializemos, pois.

 

Dizer que há países onde só existem 12 salários por ano é verdade, mas apenas uma parte da verdade.

 

O montante desses 12 salários é muito superior aos 14 que os portugueses (ainda) recebem. E alguém pode dizer que trabalham mais que nós?

publicado por Theosfera às 11:36

«Entre os direitos de que tanto se tem falado, há um que tem sido esquecido e em cuja defesa todos estamos interessados: o direito de nos contradizermos».
Assim escreveu (astuta e magnificamente) Baudelaire.

publicado por Theosfera às 11:35

«Explora-te por dentro. É dentro que está a fonte do bem e ela pode jorrar sempre, se a explorares sempre».
Assim escreveu (sábia e magnificamente) Marco Aurélio.

publicado por Theosfera às 11:33

1. Foi a 21 de Novembro de 1964 que o Papa Paulo VI proclamou Maria como «Mãe da Igreja», isto é, como «Mãe de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores». Esta ideia, aliás, está incoada na Lumen Gentium quando afirma que a Igreja «venera Maria como Mãe amantíssima com afecto de piedade filial», enquanto «Mãe de Cristo e Mãe dos fiéis».

 

Dada a ligação de Maria a Cristo e à Sua nova corporeidade, a Igreja, compreende-se que, tal como Cristo, também a Igreja esteja marcada ontologicamente pela figura de Maria. A Mãe da Igreja configura, assim, uma Igreja maternal.

 

De resto, esta índole maternal pode, inclusive, remontar ao próprio mistério trinitário de Deus. Se a Igreja é, como observa Bruno Forte, o ícone da Trindade, ela torna presente no mundo as pessoas divinas. 

 

Estas não podem ser lidas de forma sexista. O esforço da Teologia contemporânea vai no sentido de superar uma leitura masculinizada da paternidade divina. Jurgen Moltmann refere-se à «paternidade maternal de Deus». E é impossível não recordar a célebre afirmação de João Paulo I no dia 10 de Setembro de 1078: «Deus é Pai e, ainda mais. Mãe»!

 

No fundo, Maria, iconiza para nós a maternidade de Deus. E a Igreja é chamada a presencializá-la constantemente.

 

Na maternidade de Maria - assinala Bruno Forte -, «o Pai revela-Se como Aquele que, desde sempre e gratuitamente, começou a amar e que, por isso, está na origem de todo o verdadeiro começo de amor gratuito e fecundo no tempo».

 

Nessa maternidade de Maria, nota-se como «a essência de Deus vivo é o Seu amor em eterno movimento de saída de Si, como amor amante; de acolhimento de Si, como amor amado; de retorno a Si e de infinita abertura ao outro na liberdade como Espírito do amor trinitário: a essência do Deus cristão é o amor no seu processo eterno, é a história trinitária do amor, é a Trindade como história eterna de amor, que suscita e assume a história do mundo».

 

O seio de Maria é precisamente o veículo pelo qual esta maternidade divina se torna também uma maternidade humana. A Igreja é chamada, nas palavras e nas atitudes, a tornar presente uma atitude materna perante as situações, os problemas e os desafios. «Maria é o ícone maternal da paternidade do Pai». S. Luís Maria de Monfort dizia que foi Deus «que comunicou a Maria a Sua fecundidade para Lhe conceder o poder de gerar o Seu Filho e todos os membros do Seu corpo místico».

 

 

 

2. Deus é Pai, mas não é um pai masculino. Também não é feminino. Está para lá das determinações sexistas. Humanamente, é representado pelo masculino e pelo feminino.

 

Em Cristo, Deus não Se masculinizou; humanizou-Se. É, por isso, possível dizer que a paternidade divina é também uma paternidade maternal. André Manaranche foi mesmo ao ponto de assegurar: «Deus só é pai quando promete um amor de mãe».

 

Os antigos tinham uma percepção fascinante do divino. Clemente de Alexandria, por exemplo, sustentava que «o Pai, no Seu amor, abriu-Se a nós e tornou-Se nossa mãe. Sim, no Seu amor, o Pai tornou-Se uma mulher».

 

Pela eterna geração do Filho, o Pai fez-Se a eterna Mãe. Um Concílio de Toledo, numa linguagem antropomórfica, não hesita em afirmar que o Filho foi gerado «do útero do Pai»!

 

É, seguramente, neste sentido que E. Doyle defende que Deus «deve ser também a fonte da maternidade, a suprema perfeição feminina»!

 

Anselmo de Cantuária fez esta oração: «Jesus, bom Senhor, não és também minha mãe? Ou não será mãe aquele que, como a galinha, reúne os seus pintainhos debaixo das asas? De facto, Senhor, Tu és minha mãe!»

 

 

 

3. Maria desponta, por conseguinte, como Mãe da Igreja e, nessa medida. como modelo da Igreja Mãe.

 

Olhando para Maria, a Igreja, como refere o Concílio Vaticano II, «torna-se também mãe mediante a Palavra de Deus aceite com fidelidade pois, pela pregação e pelo baptismo, gera para uma vida nova e imortal os filhos concebidos por obra do Espírito Santo». Se Maria é inseparável da Igreja e se a Igreja é indissociável de Maria, então a maternidade de Maria estende-se na maternidade da Igreja.

 

É neste sentido que o tema da Igreja Mãe está já muito disseminado pela Teologia dos primeiros tempos. Imitando Maria, a Igreja é chamada à missão de fazer nascer Cristo no coração das pessoas. Como Mãe, diz S. Paulino de Nola, «recebe a semente da Palavra eterna, traz os povos para o seu seio e dá-os à luz». Tal como Maria, também a Igreja é convidada a ser fecunda na vida da fé, na misericórdia, na tolerância, no serviço generoso, expressões do seu ser mais profundo de mãe na graça.

 

Na Mãe de Deus, a Igreja encontra o seu arquétipo de povo marcado pelo amor, impelido a gerar filhos para Deus pelos caminhos da solicitude, do acolhimento, da paciência e da perseverança. A Mãe de Cristo converte-Se, assim, na grande figura da Igreja Mãe.

 

Em Maria Mãe, a Igreja Mãe alcança a sua máxima perfeição. Ela é, como assinalou Otto Semelroth, o seu «gérmen» e o seu «pléroma». Maria é na Igreja - destacou Berulle - «o que a aurora é no firmamento».

 

 

4. A esta luz, a Igreja há-de revelar uma conduta marcada pela tolerância, entendida não como último recurso para com aquele que mal suportamos, mas como sintoma do respeito que todos nos merecem. Esta tolerância não é restrita aos que comungam das nossas ideias e pontos de vista. Ela configura a largueza de horizontes do Reino.

 

Para John Locke, a tolerância autentica o perfil da verdadeira Igreja: «A tolerância a respeito dos que têm opiniões religiosas diferentes é tão conforme com o Evangelho e com a razão que parece monstruoso haver homens afectados de cegueira numa tão clara luz».

 

Uma Igreja mariana aceita as escolhas de cada um, não recriminando ninguém pelas suas opções. É, de facto, a cada um que cabe a escolha da igreja ou da fé a professar. Ainda de acordo com John Locke, impor uma opção religiosa «não é exigido por Deus, porque em nenhum lado transparece que Deus tenha atribuído semelhante autoridade aos homens sobre os outros homens de maneira a poderem obrigá-los a abraçar a sua religião». 

 

Neste sentido, na Igreja «não deve existir nenhuma coacção; as escolhas serão radicadas, ultimamente, na interioridade pessoal, no mais profundo das almas». As posições de cada um serão tomadas pessoalmente. «Não competem nem ao Estado, nem a um príncipe, nem às próprias igrejas». Nesta linha, «nem o cuidado do Estado, nem o direito de legislar permitem ao magistrado descobrir com mais certeza o caminho que leva ao céu do que a um particular a sua reflexão e o seu estudo».

 

O respeito pela consciência é um imperativo indeclinável. «Nenhum caminho que eu siga contra a minha consciência me conduzirá alguma vez à morada dos bem-aventurados. Posso enriquecer numa profissão que detesto, posso curar-me graças a remédios em que não confio, mas não posso salvar-me por uma religião de que duvido, por um culto que abomino. Seja o que for que se possa pôr em dúvida em matéria de religião, uma coisa pelo menos é certa; é que nenhuma religião, que não tome como verdadeira, pode ser para mim verdadeira ou útil».

 

 

5. Uma Igreja marcada por Maria propõe aquilo em que acredita, mas não condena quem pensa e sente de modo diferente. Abre o coração a todos. Acolhe cada um no seu seio. A tolerância não é um sinal de fraqueza, mas um sintoma de pujança. Fraqueza haverá na atitude oposta. Como referia Andrei Sakarov, «a intolerância não é mais que a angústia de não ter razão».

 

Haja em vista que a fé não é convincente apenas pela consistência teológica ou pela coerência doutrinal. A fé não é convincente quando os crentes se julgam melhores que os outros.

 

A fé torna-se convincente quando consegue superar o que é mau e acrescentar o melhor ao que já é bom. Nunca a fé será convincente quando imita o pior e compete com os outros no triste campeonato da iniquidade.

 

 

 A violência é sempre inqualificável. Mas a violência religiosa é, pura e simplesmente, abjecta. A violência, como demonstram os estudos de René Girard, sempre pairou nas imediações do sagrado. Como é que as pessoas que se consideram mais religiosas desfiguram tão flagrantemente a religião?

 

Ruiz de la Peña estava certo. É preciso recompor o rosto de Deus. É urgente deixar que Deus seja Deus. Ou será que é preciso descer as escadas do templo para O reencontrar? Por algum motivo Jesus avisou que o verdadeiro culto é o que é prestado em «espírito e verdade» (Jo 4, 23).

 

Deus pode ser encontrado em qualquer lugar. Mas o melhor santuário é a consciência recta. O coração limpo. O olhar puro. A vida solidária.

publicado por Theosfera às 01:05

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Ralph Emerson disse que «um problema sem solução é um problema mal colocado».

 

Tente colocar, então, o seu problema de outra maneira.

 

Já agora, não deixe de o recolocar à luz de Deus.

 

E não diga apenas a Deus que tem um grande problema. Diga também ao seu problema que tem um grande Deus!

publicado por Theosfera às 23:17

Duas frases, aparentemente triviais, podem readquir pertinência acrescida nestes tempos de penumbra.

 

Uma é de Zubiri: «Viver é optar».

 

Esta é, de facto, a hora de mostrar de que lado estamos.

 

Não se pode ser neutral quando há tanta gente a sofrer. Nem a neutralidade activa e operante de Gramsci é suficiente. Urge escolher um lado. E para quem possui um mínimo de consciência cívica só pode ser o lado dos pobres, dos esbulhados nas suas expectativas, dos sacrificados nas suas legítimas aspirações.

 

Bergson disse também algo óbvio: «Escolher é excluir».

 

O lado do poder será insinuante. Há que respeitar quem o exerce. Mas, independentemente de quem o detém, a nossa consciência deverá levar-nos a optar pelas vítimas do poder.

 

Já há dor a mais no nosso país!

publicado por Theosfera às 23:09

Neste dia, há 46 anos, o Concílio Vaticano II, já perto do seu final, publicava um dos seus documentos mais relevantes.

 

Tratava-se da declaração «Nostra aetate», que versava o diálogo entre a Igreja e as religiões não-cristãs.

 

O espírito de confronto dava lugar ao espírito de encontro.

 

Os outros credos deixavam de ser condenados e inundados de anátemas. Pelo contrário, a Igreja reprovava, «como contrária ao espírito de Cristo, toda a discriminação ou violência por motivos de raça, cor, condição ou religião».

 

Reconhecendo que, no fundo, a humanidade constitui uma «única comunidade», a Igreja assumia «nada rejeitar do que nas outras religiões existe de verdadeiro e santo». 

publicado por Theosfera às 19:23

No seu passeio tétrico pelo mundo, a morte visitou a minha terra natal e aboletou-se com uma das melhores pessoas que ela vira nascer.

 

O senhor Aníbal Carvalho foi sempre um homem bom, amigo de fazer o bem, prestável para todos.

 

Trabalhador do campo, mantinha um porte afável que o nobilitava e distinguia pela urbanidade do trato.

 

É dífícil dizer seja o que for numa hora destas.

 

A melhor palavra não é a que flui pelos lábios, mas a que emerge do coração.

 

Fica uma prece pelo seu eterno descanso e uma oração solidária pela família enlutada.

 

Apesar dos seus 70 anos, ficamos com a sensação de que a morte vem sempre cedo. E que tem uma especial apetência pelos bons!

publicado por Theosfera às 16:23

«Homem de um só parecer

De um só rosto, de uma só fé

De antes quebrar que torcer

Muita coisa pode ser

Homem da corte não é».

 

Assim poetou (notável e magnificamente) Sá de Miranda.

publicado por Theosfera às 10:53

Dai-nos, Senhor, a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos destes seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos, Senhor, a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos Vosso mandamento
Para que venha a nós o Vosso reino 
Dai-nos, Senhor, a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Fazei, Senhor, que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos, Senhor, a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos 
 SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
publicado por Theosfera às 10:37

Há uma frase de ontem que vale como um programa para sempre.

 

A «dimensão espiritual é um elemento chave para a construção da paz».

 

Foi dita pelo Papa e merece ser reflectida, digerida e aplicada.

 

A espiritualidade tem de ser uma prioridade, desde logo, para as religiões.

 

Estas, muitas vezes, também atestam esta carência.

 

Trata-se, pois, de uma urgência.

 

Há muita falta de respiração espiritual nas religiões.

 

As estruturas são necessárias, mas a espiritualidade é decisiva.

publicado por Theosfera às 10:13

O encontro de ontem, em Assis, não juntou apenas líderes religiosos. Congregou também representantes dos que não têm religião.

 

Julia Kristeva, conhecida filósofa e psicanalista, usou da palavra para pedir aos crentes que não tenham medo do humanismo e que vençam a desconfiança.

 

«Do humanismo cristão o humanismo secularizado é o herdeiro, muitas vezes, inconsciente».

 

Retomando o brado de João Paulo II quando foi eleito, convidou as religiões a não terem medo da cultura contemporânea e a «ousarem o humanismo».

publicado por Theosfera às 09:56

«Ser frontal e independente tem um enorme preço em Portugal. É-se alvo de despedimentos, ataques e insultos».
Assim escreveu (pertinente e magnificamente) Eduardo Cintra Torres.

publicado por Theosfera às 09:49

José Rodrigues dos Santos, na linha aliás de alguns cultores do método histórico-crítico, defende que um texto bíblico é tanto mais autêntico quanto mais antigo.

 

Só que, em contradição com este princípio, a determinação deste critério é bastante tardia. Tem pouco mais de dois séculos.

 

O facto de haver camadas redaccionais acrescentadas aos textos não conflitua, necessariamente, com a sua autenticidade.

 

Todos nós sabemos que os textos foram redigidos a partir de tradições orais que circulavam entre as comunidades cristãs.

 

É natural que tais tradições não fossem passadas a escrito ao mesmo tempo. O livro do Génesis, como se sabe, também tem várias camadas redaccionais, cuja proveniência é de séculos muito distantes.

 

Não é, de resto, o que sucede connosco? Quando escrevemos um texto, não acrescentamos, muitas vezes, parágrafos e frases que nos parecem importantes?

 

Neste campo, a Igreja foi muito cuidadosa.

 

Textos bastante laudatórios atribuídos a apóstolos (Filipe, Tomé, Pedro) não foram aceites.

publicado por Theosfera às 09:36

Bento XVI concluiu o encontro inter-religioso que convocou para Assis (centro da Itália), afirmando que a «dimensão espiritual é um elemento chave para a construção da paz».

 

O Papa falava diante de 300 representantes religiosos e académicos, procedentes de 50 países, reunidos numa jornada de oração e reflexão pela paz e a justiça no mundo que assinalou o 25.º aniversário da primeira iniciativa do género, promovida por João Paulo II.

 

«O evento de hoje mostra como a dimensão espiritual é um elemento chave para a construção da paz. Através desta peregrinação única, fomos capazes de nos comprometermos num diálogo fraterno, aprofundar a nossa amizade e aproximarmo-nos em silêncio e na oração», disse, em inglês, na Praça de São Francisco.

 

Líderes cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, representantes de religiões africanas e asiáticas, bem como um grupo de agnósticos, renovaram neste encontro um «solene compromisso comum pela paz».

 

«Vamos continuar a reunir-nos, vamos continuar a estar juntos nesta jornada, em diálogo, na construção diária da paz e no nosso compromisso por um mundo melhor, um mundo no qual cada homem e mulher, cada povo, possam viver de acordo com as suas legítimas aspirações», declarou o Papa.

 

A celebração concluiu-se diante do túmulo de São Francisco de Assis, santo católico dos séculos XII-XIII que inspirou iniciativas de diálogo inter-religioso.

publicado por Theosfera às 00:45

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

1. É difícil encontrar um fio condutor para explicar os acontecimentos.

 

O desenvolvimento não garante a segurança nem, por si só, oferece a felicidade.

 

As sociedades mais avançadas têm os seus dramas e não estão isentas de alojar pessoas e organizações com propósitos cruéis.

 

Os próprios estudiosos têm dificuldade em descrever o nosso tempo.

 

Vergílio Ferreira anotava que a história é feita de intervalos. Para Marc Augé, que criou o termo sobremodernidade, «não sabemos em que história estamos».

 

Alvin Toffler limitava-se a verificar que «somos a última geração de uma civilização velha e a primeira geração de uma civilização nova».

 

 

2. Sucede que a moldura deste novo mundo é muito híbrida, por vezes parece indefinida.

 

O local onde tudo se definia (o campo) está praticamente deserto. Onde mais nos encontramos são os lugares de passagem. É o caso dos hipermercados ou dos aeroportos.

 

Marc Augé caracteriza estes espaços como não-lugares. Neles, há multidões, mas não se chegam a estabelecer relações. Neles, somos capazes de reter caras, mas não de colher grandes impressões.

 

Os não-lugares não favorecem a permanência. Promovem a circulação e estimulam o consumo.

 

As pessoas procuram ter uma casa, mas passam pouco tempo nela. No tempo laboral, deslocam-se para o trabalho. Na época de férias, retiram-se para longe.

 

 

3. O próprio modo de vestir torna-se cada vez mais incaracterístico. Só em desfiles etnográficos se afere a proveniência, a identidade.

 

 A tendência é para estar em todos os lugares como se estivéssemos em lugar nenhum. Limitamo-nos a ser «turistas consumidores», como diagnostica Zygmunt Baumann.

 

Um exemplo: ao chegar a uma igreja, não se esboça um gesto de religiosidade; a primeira coisa que se faz é olhar para os vitrais, para o tecto e fazer umas fotos.

 

Para muitos, até os templos deixaram de ser locais de peregrinação. Tornaram-se meros locais turísticos.

 

As pessoas vivem nas cidades, mas os comportamentos são cada vez menos cívicos, cada vez menos urbanos.

 

Hoje, permanecemos cada vez menos e circulamos cada vez mais.

 

É tudo muito intenso em cada momento. A dimensão de futuro está a esbater-se. A utopia parece esgotar-se. Daí que os economistas e os gestores quase abafem os escritores.

 

Como falar do futuro se o presente nos traz tão constrangidos?

 

 

4. A democracia vai-se generalizando, mas, no fundo e como adverte Marc Augé, a sua configuração assemelha-se «a uma oligarquia planetária».

 

São poucos os que decidem o destino de (quase) todos.

 

Já nem os relacionamentos entre as pessoas são sólidos. São até cada vez mais líquidos. Este é, segundo Zygmunt Bauman, o tempo da «modernidade líquida».

 

Ao contrário dos corpos sólidos, «os líquidos não podem conservar a sua forma, quando pressionados por uma força exterior, por mínima que seja. Os laços entre as suas partículas são demasiado fracos para resistir. Ora, este é precisamente o traço mais marcante do tipo de coabitação humana característico da 'modernidade líquida'».

 

 

5. O diagnóstico é de uma clareza diáfana. Será que há coragem para adoptar a necessária terapia?

 

Não há decretos que valham. Só uma revolução no interior pode tornar tudo diferente, tudo melhor, tudo mais humano, mais fraterno, mais respirável.

publicado por Theosfera às 21:34

Atesta José Rodrigues dos Santos que Maria não foi virgem e que teve mais filhos.

 

A tese não é nova e a resposta também é antiga.

 

Quando anuncia a vinda do Messias, Isaías (7, 14) usa a palavra hebraica «almah». Etimologicamente significa «jovem». É claro que «jovem» não é necessariamente o mesmo que «virgem».

 

Acontece que a tradição judaica mais erudita sempre entendeu «almah» no sentido de «virgem».

 

Por isso, os tradutores da Bíblia para o grego, no século III a.C., usaram o termo «parthénos» (virgem) para traduzir «almah».

 

S. Mateus (1, 23) utilizou a profecia de Isaías na sua forma grega: «parthénos».

 

Quanto aos «irmãos» de Jesus, é preciso ter presente que quer o hebraico «ah», quer o grego «adélphos» incluem não apenas os filhos do mesmo pai e da mesma mãe, mas também os primos, os tios, etc.

 

É possível ser mãe e ser virgem? Segundo a fé, é possível. De que modo? Não sabemos.

 

Acontece que uma das formas de saber que a razão nos oferece é, desde logo, o não saber.

 

Ninguém chega a saber alguma coisa se não começar por saber que não sabe.

 

As perguntas pertencem à razão. Mas há respostas que pertencerão sempre ao mistério.

 

É por isso que a fé não é racional, mas razoável. A razão não a explica, mas admite-a.

 

Isto não deslustra a razão nem apouca a fé. Como notava Pascal, «é um acto de razão reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam»!
 

Mas também se não fosse assim, teria o profeta Isaías (7, 14) necessidade de falar de «sinal»?

 

Uma jovem dar à luz é a coisa mais normal. Já dar à luz e ser virgem sai totalmente fora da normalidade.

 

Mas, como tudo, a fé é uma proposta livre para uma resposta livre.

 

É um acontecimento da liberdade. Só na liberdade há condições para acreditar. Só crê quem quer.

 

publicado por Theosfera às 14:00

«Peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

 

É este o lema do encontro entre religiões que, neste momento, decorre em Assis.

 

Trata-se, sem dúvida, da (dupla) questão decisiva.

 

Habitualmente, dizemos que só na verdade encontramos a paz.

 

Importa não esquecer que é apenas na paz que estamos em condições de encontrar a verdade!

publicado por Theosfera às 13:49

José Rodrigues dos Santos enfatiza o facto de Jesus não ter sido cristão.

 

Mas isso toda a gente sabe.

 

«Cristão» é a denominação que se dá não a Cristo, mas ao seguidor de Cristo.

 

A Igreja, no fundo, constitui a passagem do «Jesus pregador» ao «Cristo pregado».

 

Não há contradição entre os conteúdos das respectivas missões.

 

Jesus fala do Reino de Deus. A Igreja, ao falar de Jesus, fala do mesmo, ou seja, da realização desse Reino na Sua pessoa, na Sua acção, na Sua vida, na Sua morte e na Sua ressurreição.

publicado por Theosfera às 11:00

Sem menoscabo pelo seu trabalho, confesso que o livro de José Rodrigues dos Santos não me suscita grande curiosidade como teólogo nem me provoca qualquer preocupação como crente.

 

Até considero positivo este debate que se acendeu, quase de repente, na sociedade portuguesa. Trata-se do sinal de que, no fundo, a figura de Jesus não tem sido muito estudada.

 

José Rodrigues dos Santos dá mais credibilidade à críticas das fontes do que às fontes.

 

Nós, apesar da atenção devida a esta crítica, continuamos a ser fiéis ao conteúdo das fontes.

 

A profecia de Simeão continua válida. Jesus é sempre um sinal de contradição (cf. Lc 2, 34).

publicado por Theosfera às 10:38

1. A verdade, ao contrário do que dizem, não é filha do tempo. Cada tempo só nos oferece parcelas, vislumbres, aproximações.

 

A verdade é filha da eternidade. Apenas nela podemos contemplá-la na sua totalidade e na sua profundeza.

 

Por enquanto, o nosso convívio com a verdade é feito de clareiras e de obscuridades, de dialécticas e tensões.

 

A verdade transcende sempre qualquer discurso acerca dela. Por cada verdade, não falta quem proponha uma verdade diferente.

 

Cada palavra é parcial e nem todas as palavras chegam para dizer a totalidade do real. Como observou Herman Hesse, «tudo o que pode ser dito com palavras é parcial».

 

Filha do tempo (e particularmente deste tempo) parece ser a suspeita. Assiste, por isso, razão a José Rodrigues dos Santos quando confessa nada haver de novo no seu mais recente livro: O último segredo.

 

A urdidura que percorre estas páginas já preencheu outras páginas. Existe fluidez no discurso e o leitor (identificado na inspectora policial Valentina Ferro) tenderá a ficar suspenso do talento argumentativo do narrador (figurado no investigador Tomás Noronha).

 

As semelhanças com O Código da Vinci, de Dan Brown, são notórias. O filão aparenta transportar uma via rápida (e uma garantia segura) para o êxito. Afinal, Jesus continua, dois mil anos depois, a despertar paixões e a suscitar curiosidade.

 

 

2. Apresentando-se a obra como um romance, seria de esperar, à partida, que estivéssemos diante de uma construção literária. 

 

Acontece que esta é uma construção que, no fundo, visa uma desconstrução: a desconstrução do Jesus que nos é apresentado pelos Evangelhos e transmitido pela catequese e pela teologia.

 

Numa nota final, o Autor dá conta, aliás, da sua opção, pondo em causa a afinidade entre Jesus e o Cristianismo.

 

As suas referências movem-se no âmbito da procura do Jesus da história, que se pretende separado do Cristo da fé. A atenção maior terá sido dispensada às teses difundidas por Bart Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte (EUA).

 

O ponto de partida (e o permanente pano de fundo) é que a Igreja, sabendo a verdadeira identidade de Jesus, não está interessada em que ela seja conhecida: «Se Jesus voltasse à Terra, a Igreja declará-Lo-ia herege!».

 

O mais surpreendente, porém, não é esta fractura. Já Dostoiévsky, entre outros, aludiram a ela. O mais surpreendente, para muitos, será o horizonte dessa clivagem.

 

Para José Rodrigues dos Santos, Jesus não seria um reformador do Judaísmo, mas um judeu ultra-ortodoxo, ainda mais rigorista que os fariseus! Estes consideravam que «os gentios eram imundos. Por isso, Jesus nem Se misturava com eles! Na verdade, discriminava-os»!

 

De acordo com o Autor, as frases que revelam abertura a todos os povos e atestam compaixão e misericórdia não passarão de acrescentos posteriores.

 

Jesus estaria convencido da chegada iminente do Reino de Deus, tema muito caro da apocalíptica judaica. Ante a Sua morte, os discípulos reescreveram o Seu ensinamento, dando-lhe uma moldura mais universal.

 

 

 

3. A abordagem dos textos bíblicos não prima pela coerência. Por um lado, são descredibilizados, como sendo tardios, para demonstrar que não nos permitem ter um acesso fiável a Jesus. Por outro lado, são seleccionadas cirurgicamente algumas passagens para provar determinadas posições.

 

Acresce que, se o critério é a data, não se entende que dê maior crédito a textos que são ainda mais tardios que os do Novo Testamento. No entanto, o livro invoca vários apócrifos para falar, por exemplo, de Maria Madalena.

 

Se «os Evangelhos são reconstituições teologicamente orientadas», quem nos afiança que outras fontes não sejam ideologicamente tuteladas?

 

A ausência de originais de textos bíblicos não põe necessariamente em causa o essencial acerca da figura de Jesus.

 

Detectar oscilações entre os textos é um exercício legítimo de crítica literária. Já qualificar globalmente os Evangelhos como sendo «falsificações» é um julgamento sumário que, além do mais, está longe de ser consensual entre os investigadores.

 

 

4. O mais sintomático é que aquele que é visto como o ápice da Revelação esteja a ser submetido ao escrutínio do oculto. Quem nos garante que o sentido (pretensamente) escondido seja mais consistente que o sentido revelado?

 

Sucede que a hermenêutica da suspeita tende a esventrar a nossa predisposição para a confiança. Que os autores do Novo Testamento sejam pessoas de fé é uma coisa. Que, por tal motivo, sejam uns falsificadores deliberados da realidade histórica é outra coisa, completamente diferente.

 

Eis, pois, um livro que, estando longe de ser original, aposta, na linha de outros, na via provocationis (via da provocação). Questiona a verdade em que muitos crêem, sem nos dar certezas definitivas sobre uma alternativa.  

 

É uma ficção que, sibilinamente, pretende reconfigurar uma realidade. Convida à discussão. Mas nada prova. Cada um fica no que lhe parece.

 

Pode, entretanto, ter um efeito positivo: aproximar-nos ainda mais da (incomparável) figura de Jesus.

 

Hoje, como ontem e como sempre, Ele mantém-Se como um sinal de contradição (cf. Lc 2, 34)! 

 

    

 

publicado por Theosfera às 07:20

Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Que o paradoxo comanda a vida, basta olhar para o que se passa no universo das religiões.

 

Destinadas a fomentar a paz, encontram-se afogadas em turbilhões de guerras.

 

Se os conflitos não são tantos como no passado, há sequelas que se prolongam no presente, ameçando tingir de sombras o futuro.

 

É por isso que, para haver paz no mundo, terá de haver paz entre as religiões.

 

O diálogo é, pois, fundamental.

 

O encontro de amanhã em Assis é mais um passo num caminho que não pode ter retorno. E trata-se de mais um certificado de que é possível partilhar não apenas pontos comuns, mas também pontos diferentes.

publicado por Theosfera às 20:55

Ao contrário do que se supunha, parece que terá sido possível a convivência entre seres humanos e dinossauros. É, pelo menos, o que indiciam algumas investigações operadas na China.

 

É claro que a convivência deve ter sido difícil. Mas alguém acha que é fácil a coexistência dos homens entre si?

 

Não precisamos de dinossauros para fazermos a experiência dos perigos que nos envolvem!

publicado por Theosfera às 16:15

Um país sem crianças será um país com futuro?

 

Portugal vai ter, nos próximos quatro anos, a segunda mais baixa taxa de fecundidade do mundo, com 1,3 filhos por mulher, apenas ultrapassado pela Bósnia-Herzegovina (1,1), de acordo com um relatório divulgado, esta quarta-feira, pelas Nações Unidas.

publicado por Theosfera às 16:14

«O tempo revela a verdade».
Assim escreveu (notável e magnificamente) Séneca.

publicado por Theosfera às 16:13

Antoine de Saint-Exupéry exarou uma enorme e bela verdade: «O que nos salva é dar um passo. E outro ainda».

 

De facto, viver é caminhar. Às vezes, é cair. Outras vezes, é levantar. E tem de ser sempre ultrapassar, transcender, superar. Só indo ao encontro nos (re)encontramos.

 

Para isso, é preciso sair, dar: dar passos, dar a vida!

publicado por Theosfera às 13:28

Nem sempre a natureza é cruel, malsã.

 

O sismo da Turquia ceifou muitas vidas e devorou muitos sonhos. Mas, ainda assim, conseguiu poupar um bebé de duas semanas.

 

Ainda há clareiras no meio dos escombros!

publicado por Theosfera às 10:22

Descartando a conotação ideológica (sobre a qual, obviamente, não me pronuncio), tenho para mim que um cristão não pode ser conservador.

 

Jesus inaugurou um movimento de transformação e legou-nos uma mensagem de mudança.

 

A parábola dos talentos é, a este propósito, soberanamente eloquente.

 

Jesus não censura quem obtém pouco. Só verbera o comportamento de quem, com medo de perder o que tem, não arrisca.

 

Jesus não veio para que tudo fique na mesma. Ele veio (e continua a vir) para que tudo seja diferente, para que tudo seja melhor.

 

Eis uma tarefa que está muito longe de ser dada por concluída.

 

Não podemos, pois, estacionar no já dito ou insistir no já conseguido.

 

O caminho ainda não foi totalmente percorrido. Há muita novidade para semear!

publicado por Theosfera às 10:20

Este é um tempo de atropelos.

 

Somos, de facto, permanentemente atropelados por palavras e imagens. Estas, em princípio, retratam uma realidade.

 

Mas quem ouve as palavras e vê as imagens, fica com a impressão de que o real é muito variável.

 

Uma vez mais, o equlíbrio e a moderação podem ser a chave.

 

Porventura, o real não é tão ridente como outrora era pintado. Mas também não será tão tenebroso como, hoje, tende a ser colorido.

 

Acima de tudo, importa não descrer.

 

Há que dizer o que ainda não foi dito. Há que realizar o que ainda não foi feito. Há que trilhar o que ainda não foi caminhado!

publicado por Theosfera às 10:18

Era fim de Outubro, mas estava calor, naquele ano, em 1963.

 

Há 48 anos, neste dia, meus queridos Pais uniram-se em matrimónio.

 

Um beijo sentidamente reconhecido à minha Mãe. Que se mantém comigo aqui.

 

E um beijo reconhecidamente sentido a meu Pai. Que continua comigo lá. Na eternidade. Para onde, afinal, todos caminhamos. E onde, no final, todos nos reencontraremos!

publicado por Theosfera às 10:16

A vida é o sorriso mais belo que a eternidade depositou no tempo.

 

Não deixes de o mostrar nos teus lábios, ainda que as lágrimas se passeiem pela tua face!

publicado por Theosfera às 00:33

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

«A vitória pertence aos pacientes».

 

Eis uma (espantosa) frase que aparece no início do filme «Tahir-Liberation Square», de Stefano Savona.

publicado por Theosfera às 23:41

«A arte de agradar é a arte de enganar».

 

Não será sempre. Mas acaba por ser muitas vezes.

 

O Marquês de Vaunenargues tem muita pertinência no que diz.

publicado por Theosfera às 23:40

«Estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito».

 

Eis uma descrição pertinente do que se passa, hoje. Mas foi feita por Eça de Queiroz no século XIX.

 

Dá que pensar!

publicado por Theosfera às 23:38

«A liberdade não fica mais segura quando é ameaçada pelo despotismo de muitos, em substituição do despotismo de um só. As imagens do assassinato do ditador Khadafi e dos festejos por turbas ululantes armadas de metralhadoras não podem deixar tranquilos os defensores da liberdade. Esta não se dá bem com a chamada "justiça popular" nem com fantasias sobre "governos populares"».
Assim escreveu (avisada e magnificamente) João Carlos Espada.

publicado por Theosfera às 23:37

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