O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

Uma ditadura só muda quando termina. Qualquer alteração que possa fazer não lhe apaga o seu carácter de ditadura.

 

O regime chinês pode agregar os mais ricos, mas não está a conseguir manter-se na alma do povo.

 

A repressão ainda é grande, mas o despertar da consciência cívica é cada vez mais sonoro e visível.

 

Há um número crescente de movimentos populares de defesa de direitos.

 

O povo já não glorifica espontaneamente os líderes. O silêncio já não é a nota dominante.

 

A proverbial paciência asiática prevalece. Mas coexiste com uma paulatina mobilização cívica.

 

O Prémio Nobel da Paz de 2010, atribuído a Liu Xiaobo, foi um reconhecimento e um estímulo.

 

A reacção destemperada do poder só prova uma coisa: a onda está em marcha.

 

A ditadura continuará a alardear reformas, para que tudo continue assim por muito tempo. Mas as ditaduras não são eternas.

 

Vale a pena ler o livro de Liu Xiaobo, cuja versão portuguesa saiu neste mês de Setembro.

 

É um hino coragem. E um convite à esperança.

 

Nem as grades de uma prisão sufocam o clamor pela justiça e pela liberdade.

publicado por Theosfera às 21:11

«Há três coisas de que todos os homens sábios sentem medo: do mar da tempestade, de uma noite sem lua e da fúria de um homem gentil».
Assim escreveu (sábia e magnificamente) Patrick Rothfuss.

publicado por Theosfera às 19:30

1. Também na Igreja o verbo que cada vez mais se conjuga é o fazer.

 

No início de cada ano pastoral, a pergunta que, invariavelmente, se formula é: «Que vamos fazer?».

 

No decurso das várias etapas e nos balanços retrospectivos de fim de ano, a pergunta a que, inevitavelmente, se pretende responder é: «Como avaliar o que acabámos de fazer?».

 

A missão vai-se, assim, circunscrevendo a uma interminável sequência de realizações que, apesar de estimáveis, nos desgastam muito e preenchem pouco. E todos nos vemos, à força de participar em tantas actividades, a resvalar perigosamente para o activismo.

 

Uma insatisfação percorre os espíritos. Sentimos que a dimensão operativa de Marta é necessária, mas notamos que nos falta a dimensão contemplativa de Maria, sua irmã. Jesus não diz que Marta estava errada. Mas não deixou de afirmar que Maria escolheu a melhor parte (cf. Lc 10, 42).

 

O fazer é, pois, importante. O doutor da lei que interpela Jesus sobre o acesso à vida eterna sabe que ele passa pelo fazer: «Que hei-de fazer para possuir a vida eterna?»(Lc 10, 25). E, depois de contar a parábola do Bom Samaritano, Jesus também responde dentro do fazer: ««Faz tu também do mesmo modo»(Lc 10, 37). 

 

Como se compreende, não se trata de um fazer pelo fazer. Trata-se, sim, de um fazer completamente habitado pelo ser, neste caso, por um ser habitado pela bondade e pela compaixão.

 

Fazer pelo fazer não passa de obreirismo. Só um fazer inundado pelo ser é portador de uma mensagem, de uma proposta, de um projecto de vida. Daí a advertência de João Paulo II quando, na Novo Millennio Ineunte, ressalvava que o ser prevalece sobre o fazer. O fazer é chamado a ser uma epifania do ser.

 

Damos conta, hoje em dia, de que o nosso ser está desabitado, ferido e continuamente atordoado por uma espiral de coisas sem fim que temos de fazer.

 

A Igreja não é imune a esta propensão. Fazemos acções para as pessoas, mas estamos pouco com as pessoas.

 

Vamos ao encontro com assiduidade, mas não nos deixamos encontrar com frequência. Faz muita falta, na missão, o estar. Desde logo, porque, como alertava Xavier Zubiri, «estar é ser em sentido forte».

 

 

2. É certo que a desambientação das pessoas (fixam-se cada vez menos num único lugar) acarreta, quase automaticamente, a despersonalização dos ambientes (crescentemente mais frios). Mas isso só reforça a urgência de imitar Jesus, que, não descurando o contacto com as multidões, singularizava cada pessoa. Veja-se o caso de Nicodemos ou da Samaritana.

 

Actualmente, se é necessário ter disponibilidade para fazer, é preciso cada vez mais tempo para estar: para estar com as pessoas, para estar com cada pessoa.

 

Eis, pois, o desafio do presente e, simultaneamente, a lição das origens: partir da pessoa, centrar na pessoa, orientar para a pessoa. Isto não contende com a expressão comunitária da fé, já que a comunidade é a (comum) unidade entre os seus membros. Quanto mais na pessoa, mais na comunidade.

 

Não se trata apenas, nem principalmente, de um estar físico, quase passivo, meramente reactivo, como quem se limita a esperar que as coisas aconteçam e que as pessoas venham. Trata-se, sim, de um estar presencial, vivencial e testemunhal, próprio de quem não se desencontra do momento que vive nem desatende as situações que nele ocorrem.

 

O fazer, só por si, enche: a agenda, os dias, a vida. Mas apenas o estar preenche. Basta olhar, de resto, para Maria, aquela que está. Ela está quando Jesus realiza o primeiro dos Seus sinais, em Caná (cf. Jo 2, 1). E está junto à Cruz (cf. Jo 19, 25).

 

Curiosamente, o quarto Evangelho, nas duas únicas vezes que se refere a Maria, enquadra tais referências com o verbo estar, o que lhe confere uma reconhecida ênfase: «Houve um casamento em Caná da Galileia e a Mãe de Jesus estava presente»(Jo 2, 1); «Junto da cruz de Jesus estavam Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe...»(Jo 19, 25).

 

Nas duas situações, a mensagem deste estar é igualmente relevante: a profunda união com Jesus, desde o início da missão até aos confins da entrega. É este estar que revela o que se é. Quando se está unido a alguém, é porque o ser está totalmente vinculado a esse alguém. É porque a vida não faz sentido sem esse alguém.

 

Não é certamente anódina a menção do evangelista, no relato das Bodas de Caná, a Maria como «a Mãe de Jesus»(Jo 2, 1). A vinculação fica, desde logo, acentuada. Este estar de Maria com Jesus é também um estar com os noivos no apuro por que passaram ao faltar o vinho (cf. Jo 2, 3).

 

 

3. Uma Igreja de perfil mariano sabe que, ao estar em Jesus, está, imediatamente, com aqueles que se encontram em dificuldade, em provação.

 

Uma Igreja de perfil mariano não se queda pela analítica. Intervém em prol dos que precisam. Maria intercede pelos noivos. E fá-lo de uma maneira confiante. Faz-Se eco das necessidades dos homens junto de Jesus e torna-Se portadora da atitude de Jesus junto dos homens.

 

Como destaca Max Thurian, «no Seu acto de fé e na Sua oração, Maria apresenta-Se como a representante da humanidade em situação difícil. Ela é a figura da humanidade que espera a libertação».

 

Maria nem sequer precisa de uma resposta directa. Até a aparente admoestação de Jesus — «Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou»(Jo 2, 4) — funciona como estímulo para depreender que o pedido tinha sido atendido.

 

Uma Igreja de perfil mariano sabe que a única resposta perenemente válida é a mesma de sempre: «Fazei o que Ele [Jesus] vos disser»(Jo 2, 5).

 

A Igreja não aponta caminhos próprios nem transporta soluções inventadas. Ela é o eco da presença libertadora de Jesus. Ela sabe que Jesus conduz a história e que, na hora certa, faz emitir os Seus sinais.

 

Uma Igreja de perfil mariano não deixa de estar nas horas difíceis. Aliás, é sobretudo nas horas difíceis que ela está.

 

E se, nas Bodas de Caná, essa presença já se encontra assegurada, junto à Cruz torna-se irreversível.

 

Uma Igreja de perfil mariano existe especialmente para os momentos de aperto. Faz sua a cruz de todos os que sofrem, de quantos são injustiçados e oprimidos.

 

A sua voz é a ressonância do grito de todos os condenados. É na Cruz que Maria é dada como Mãe ao discípulo e, nele, a toda a Igreja e a toda a humanidade (cf. Jo 19, 27).

 

De acordo com Aristide Serra, «a Mãe de Jesus é a Mãe universal dos filhos dispersos de Deus, unificados na pessoa de Jesus, que Ela revestiu da nossa carne no Seu seio materno».

 

Uma Igreja de perfil mariano não foge nas horas de dor. Pelo contrário, é uma Igreja que está, de uma forma ainda mais envolvente, nesses instantes de suplício.

 

A palavra de uma Igreja de perfil mariano não é uma dissertação em nome próprio. Ela faz-se porta-voz de tantas ânsias reprimidas e tantos sonhos esmagados.

 

 

4. A Igreja não é representante de si mesma. Ela dá a sua voz. O silêncio de uma Igreja de perfil mariano é uma escuta solidária, de quem está.

 

Sob este padrão, importa conceber a pastoral não tanto em função do território, mas em função do ser humano. A pessoa é o campo, o terreno, a prioridade.

 

 Não propugno uma Igreja parada, na mera expectativa. Ao invés, porfio por uma Igreja atenta, activa e interveniente, que se faça eco de tantos silêncios impostos e que se torne voz de tantos anseios torturados.

 

Como diz Hans Urs von Balthasar, «a Igreja não pode apontar nunca para si mesma, nem administrar, nem dispor do princípio sobre o qual está fundamentada. Ela é o que é transcendendo-se a si mesma».

 

 Ela não pode ver-se como estrutura de poder, mas como povo de orantes e como comunidade de serviço.

 

Cabe-nos, por conseguinte, redescobrir uma espiritualidade que desemboque permanentemente na caridade. Tal é o preceito recordado por S. João: «Quem ama a Deus ame também a seu irmão (1Jo 4, 21).

 

Quanto mais voltada estiver a Igreja para fora de si mesma, mais identificada estará consigo mesma.

 

Foi este o procedimento do Fundador e perene Fundamento. Sendo a nova corporeidade de Cristo (daí que Johannes Möller lhe chame a «encarnação permanente»), a Igreja é chamada a reproduzir incessantemente o perfil de actuação de Jesus. Ele deu o exemplo: «Como Eu fiz, fazei vós também» (Jo 13, 15).

 

 

5. Na nossa época, praticamos muito o andar, o correr. É fundamental reaprender a estar, a acolher, a escutar. Nos tempos que correm, somos eco do que colhemos no andar. Importa ser,  sobretudo, ressonância do que recolhemos no estar.

publicado por Theosfera às 16:01

Confesso que ainda não tinha pensado nisso, mas o cronista trouxe à lembrança uma situação importante.

 

Na recente onda de vandalismo que varreu a Inglaterra, nada parece ter escapado à fúria das pilhagens.

 

Roubaram comida, bebida, computadotes, telemóveis, etc. De tudo um pouco. De tudo não é bem assim. Nenhuma livraria foi assaltada.

 

Por um lado, sossegaram os seus proprietários, poupados assim ao vulcão devastador.

 

Mas, por outro lado, é preocupante notar que as novas gerações não se interessam pela cultura. Talvez se se interessassem, não houvesse tanta violência.

 

A falta de cultura redunda, quase sempre, na falta de harmonia, na intolerância. Tudo desagua na violência.

 

Até quando?

publicado por Theosfera às 15:53

Ninguém cresce com inibições. Ninguém se afirma com bloqueios constantes e obstáculos sem fim.

 

Será a economia um mundo à parte ou uma parte do mundo?

 

Há quem pense que a solução para os problemas está (apenas!) em sacrifícios, em austeridade, em restrições.

 

O certo é que, à medida que se intensifica a «terapia», mais vão aumentando os sintomas da «doença». Não haverá alternativa?

 

A Islândia, há poucos anos, esteve no fundo. Em 2008, passou pela maior crise de toda a Europa.

 

Hoje, está a recuperar a olhos vistos. O caminho não passou pelas teses liberais do FMI. Pelo contrário, passou pela rejeição deliberada do FMI. No Brasil e na Argentina, aconteceu o mesmo.

 

E a Bélgica está a ter o maior crescimento económico europeu porque não tem Governo que possa aplicar as medidas de austeridade. Sorte a dos belgas. A produção aumenta. Há mais condições para a dívida ser abatida.

 

Não há, pois, uma receita única. A vulgata neoliberal já provou que não vale muito. O que é estranho é que nem nos deixem escolher a melhor via.

 

Porque será?

publicado por Theosfera às 15:50

Um médico e um enfermeiro existem para quê?

 

Pergunta ociosa para nós, mas, pelos vistos, pertinente para muitos.

 

No Bahrein, por exemplo, um médico e um enfermeiro existem para fazer a vontade ao Governo.

 

Assistir seres humanos não é a prioridade. Pode até constituir um delito.

 

É assim que vinte médicos e enfermeiros foram, ontem, condenados a penas de prisão entre cinco e quinze anos. Porquê?

 

Porque prestaram assistência a manifestantes feridos na repressão das autoridades contra milhares de pessoas que, na rua, pediam o fim do regime.

 

Não dá para acreditar? Às vezes (muitas vezes?), a realidade ultrapassa a ficção...

publicado por Theosfera às 10:09

Uma subtileza de Jean-Jacques Rousseau que revela muita coisa: «A espécie de felicidade que me falta não é tanto fazer o que quero, mas não fazer o que não quero»!

publicado por Theosfera às 09:57

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Por muito que um professor leve para uma sala de aula, é sempre muito mais aquilo que acaba por trazer.

 

Ele vai para ensinar e acaba sempre por aprender.

 

Atrás de si estão horas passadas à volta de livros. À sua frente, porém, palpita o livro mais eloquente: aquele que está a ser elaborado em forma de vida.

 

Trata-se de um livro já com alguns capítulos, muitos pontos de exclamação e de interrogação, múltiplas reticências. Mas ainda longe (muito longe) de um qualquer ponto final.

 

É, de facto, imenso o que se aprende quando se ensina.

 

A vida de um aluno é um «livro» que vale a pena ser lido.

 

Cada «página» é única, irrepetível. Tem o nome de «hoje». E, coisa maravilhosa, permite entrever já o «amanhã» que está a chegar. Em forma de surpresa. E com luminosos vislumbres de esperança!

publicado por Theosfera às 15:46

Cheguei a Lisboa há 22 anos, completaram-se ontem.

 

Na paróquia de S. João de Brito, fiz uma aprendizagem, em chave existencial, do que é ser padre.

 

Encontrei sacerdotes totalmente devotados à sua missão e uma comunidade transbordando uma generosidade sem limites.

 

Respirava-se um ambiente de família entre todos.

 

O que mais me impressionou sempre foi o sentido do «outro», que transpirava nos mais pequenos gestos.

 

Impossível esquecer, já no último ano em que lá estive, o que os jovens fizeram para apoiar um grupo de pessoas que, de um dia para o outro, ficaram desalojadas em Camarate.

 

Mobilizaram toda a comunidade (crentes e não crentes) e, durante dias, ali estiveram junto de desconhecidos que depressa passaram a ser tratados como irmãos.

 

Tanta coisa poderia dizer. O importante é a gratidão que fica e a imagem que permanece.

 

Só queria agradecer a tantos que, durante do dia de ontem, me contactaram de várias formas. Mesmo que já tivesse esquecido, teria sempre quem me reavivasse a memória.

 

Foram apenas quatro anos. Em 1993, regressei às origens. Mas o que aprendi ficou gravado no mais fundo do meu ser de uma forma sentida, reconhecida, agradecida.

 

A Paróquia de S. João de Brito acompanhar-me-á sempre. Até ao fim!

publicado por Theosfera às 15:23

Em Maria, a Igreja encontra um tópico de especial relevância para o enquadramento das suas relações com Deus e com o mundo.

 

Maria não protagoniza uma vida que se anula, mas uma vida que se eleva. Ao enviado de Deus, Ela não diz que abdica de Si; Ela diz que integra em Si a vontade do Pai.

 

«Faça-se em Mim segundo a Tua Palavra»(Lc 1, 38) não é uma capitulação; é uma opção.

 

Maria encontra-Se conSigo quando acolhe a proposta do Pai. Ela aceita apagar-Se para que a luz divina brilhe sobre todos.

 

Ela realiza-Se maximamente quando segue o Seu Filho. Por isso, apela a que O escutem: «Fazei o que Ele vos disser»(Jo 2, 5).

 

A Igreja, prolepticamente idealizada no seio de Maria, adquire esta identidade e assume este perfil: aceitar apagar-se para que resplandeça a luz trazida por Jesus.

 

Tal como Maria, a Igreja atinge o ápice da sua realização quando não se fala dela. Nunca é ela própria como quando se apaga a ela mesma.

 

João Baptista, que pertencia à família de sangue de Jesus e Maria, incorporou também igual prioridade: «Ele [Jesus] deve crescer e eu diminuir»(Jo 3, 30).

 

É por isso que, como bem sublinhou Emmanuel Levinas, «mais alta que a grandeza é a humildade». É ela, e não a imponência egocêntrica, que nos aproxima da verdade e nos conduz para a autenticidade.

 

Deste modo, quando a preocupação com a instituição é residual, então é porque se percebeu o fundamental e se acedeu ao prioritário.

 

Maria iconiza um modelo de Igreja em que, voluntariamente, se dá a Deus o único lugar que merece: o lugar central.

 

Uma Igreja de rosto mariano sabe que não tem vida própria. A bem dizer, a Igreja não vive; é Cristo que vive nela (cf. Gál 2, 20).

publicado por Theosfera às 15:16

«O único valor permanente é a pessoa».

 

Eis o que, avisadamente, disse D. Manuel Clemente.

 

O problema é que submetemos este valor permanente ao valor oscilante que é o dinheiro.

 

Nunca nos satisfaz, mesmo quando é muito. E deprime-nos quase sempre, sobretudo quando, como agora, escasseia.

 

O pior é que o homem está subordinado ao dinheiro em vez de ser o dinheiro a estar subordinado ao homem.

 

Já nem o permanente consegue permanecer?

 

Esta é uma crise de valores, de inversão de valores.

 

A superação da crise terá de passar, pois, pela restauração dos valores.

 

Nunca podemos oscilar diante do que é permanente.

publicado por Theosfera às 10:07

Curiosa a modesta qualificação que Mark Twain atribuía à sua obra: «Os meus livros são como água, os dos grandes génios são vinho. Felizmente toda a gente bebe água».

 

Se o escritor, que faleceu em 1910, vivesse hoje, aperceber-se-ia, continuando modesto, de que a sua obra se transformou em vinho. E do melhor!

 

O problema é que os consumidores continuam a preferir água. E raramente da melhor!

publicado por Theosfera às 10:05

A Igreja também morre?

 

Se cada um dos seus membros (nós) morre, se o Seu Fundador morreu e se Ele disse que o discípulo não é superior ao Mestre (cf. Jo 15, 20), então não há dúvida quanto à resposta.

 

E o certo é que, sem qualquer pendor masoquista, Cirilo de Alexandria cantava «um cântico de louvor pela morte da Igreja»!

 

Só que, tal como acontece em Jesus Cristo, a morte da Igreja é uma morte «morticida», uma morte que mata a morte, uma morte que é portadora de vida.

 

Não se trata, portanto, de extinção, mas de transformação e, neste caso, de coroamento, de plenitude, de suprema realização.

 

Dir-se-ia, à luz do que Jesus disse sobre a semente lançada a terra, que a Igreja vive para morrer e morre para viver!

 

Bruno Forte reconhece que «a Igreja cederá o lugar à luz plena da glória, quando Cristo vier finalmente na Sua última vinda».

 

Aliás, ela sabe que não é a luz, que não é o centro. A luz da Igreja é Jesus Cristo. O centro da Igreja é Deus, o Seu mistério, a Sua revelação, o Seu amor.

 

Nenhum eclesiocentrismo é saudável. Quando nos centramos na Igreja, não estamos a prestar um bom serviço à Igreja. A Igreja existe por causa de Jesus Cristo e da salvação da humanidade.

 

A morte da Igreja, insiste Bruno Forte, «é uma transformação no que há de melhor» já que nos conduz «da finitude do tempo para a eternidade da vida divina».

 

Numa altura em que a vida está cheia de adversidades, é reconfortante sentir que até a morte pode ser uma oportunidade. Nem a morte é o fim. Há um sentido para lá do fim.

 

Por isso, a morte não é termo, mas trânsito.

 

Pascalmente falando, é uma passagem que nos introduzirá na plenitude sonhada e na felicidade sem fim!

publicado por Theosfera às 09:14

Hoje, 29 de Setembro, celebramos a festa dos arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael.

 

Os anjos são enviados de Deus. Nunca os vimos, mas sentimos a sua presença.

 

Mas não há só anjos com asas. Há também anjos que nos dão asas.

 

Há pessoas que são anjos.

publicado por Theosfera às 00:40

A prova de que Mourinho é grande é que, após a sua chegada ao Real Madrid, o Barcelona está cada vez melhor.

 

Já antes mostrava sede de vitórias. Agora parece insaciável.

 

É com os maiores que nos tornamos melhores.

 

Para Mourinho não deve ser agradável, mas cabe-lhe um mérito assinalável. Quanto mais aperfeiçoa o Real, tanto mais está a espevitar o Barcelona a atingir a perfeição.

 

O perigo foi transformado num estímulo. Eis a melhor homenagem que pode ser feita a Mourinho.

 

Quem vê o Barça jogar, até parece que é tudo simples. Só que a simplicidade dá muito trabalho. E requer imenso talento!

publicado por Theosfera às 00:32

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

Não estaremos nós a falar muito das estruturas externas da Igreja e pouco de Deus e de Cristo?

 

Esta pergunta não é de nenhum teólogo desalinhado. Ela foi formulada em Roma há já 26 anos. Foi no Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 para assinalar o vigésimo aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II.

 

Não será, porém, que, volvidos quase três décadas, aquele reparo mantém total pertinência?

 

Não estaremos ainda demasiado eclesiocentrados?

 

Nunca percamos de vista que a Igreja só existe para a ser a respiração de Deus no tempo e para tentar ser o eco da aspiração pela justiça que palpita no mundo.

 

Mais espiritualidade e mais intervenção profética. Mais denúncia e mais anúncio. Mais oração e mais acção social.

 

Eis o que se espera. Eis o que muitos aguardam.

 

O tempo passa. O momento urge.

publicado por Theosfera às 22:22

O sorriso apagou-se tão repentimente como se acendera.

 

Há 33 anos, o mundo alvoroçava-se com a notícia da morte inopinada de João Paulo I, o Papa do sorriso, eleito 33 dias antes.

 

Muitos deram dele a imagem de um homem ingénuo. Inegenuidade, contudo, é o que patenteia tal percepção.

 

Foi sempre de uma dedicação imensa a Deus e ao próximo.

 

Tinha uma assolapada paixão pela catequese. Nos 33 dias de pontificado, deixou uma marca imperecível sobre o amor materno de Deus.

 

«Deus é Pai e, ainda mais, Mãe». Eis o que saiu dos seus lábios a 10 de Setembro de 1978. Foi uma lição viva.

 

No fundo, sempre é possível conjugar a firmeza com a serenidade.

publicado por Theosfera às 13:40

João Paulo I foi um Papa breve que deixou um rasto longo e uma marca imperecível.

 

João Paulo II foi, sem dúvida, um sonho que se transformou em realidade. João Paulo I foi uma realidade que subsiste no sonho.

 

Admiro imenso a obra gigantesca de João Paulo II, a sua fé inquebrantável, a sua personalidade enorme.

 

Gostaria, contudo, de poder ter assistido ao que teria sido o pontificado de João Paulo I.

 

Foi pena só podermos ter desfrutado de um. É maravilhoso podermos dispor da intercessão e do exemplo dos dois.

 

publicado por Theosfera às 10:19

A sabedoria de Albert Schweitzer é sublime porque está ancorada na experiência, na vida. Por isso, tudo o que diz é pertinente.

 

Recolhamos estas palavras: «Os únicos homens verdadeiramente felizes são os que buscam uma maneira de serem úteis aos outros».

 

Como médico, Schweitzer tinha noção de que a maior enfermidade da humanidade era a «egopatia». Trata-se de uma doença letal.

 

A vida só se tem quando se dá. Quando tudo se centra no «eu», é só nuvens, é só muros.

publicado por Theosfera às 09:57

O comunismo nasceu para defender os pobres, mas, ao que parece, ele está a promover cada vez mais os ricos.

 

O dono da maior fortuna da China vai pertencer ao comité central do Partido Comunista Chinês.

 

Comunismo ou capitalismo de Estado? Nem direitos humanos, nem liberdade, que fica do ideal?

 

Sinal (mais um) destes tempos em que tudo, ou quase, se faz. E em que pouco, ou nada, se assume!

publicado por Theosfera às 09:55

Não sei se é assim, mas, a ser assim, é preocupante, assustador.

 

Alguém, com problemas oncológicos, lamentava-se, esta manhã, acerca do que lhe foi dito nos serviços que frequenta.

 

A quimioterapia que faz todas as semanas vai ter de ser alterada por razões de redução de custo.

 

Como se compreende, a ilação foi imediata. Será que o combate ao sofrimento passará pela (progressiva) eliminação do sofredor?

 

Alguém consegue imaginar-se no lugar destas pessoas?

publicado por Theosfera às 09:53

Frustrar uma expectativa a poucos dias da sua concretização não é sadio. Nem, muito menos, pedagógico.

 

Mas também penso que o maior prémio para os melhores alunos é o próprio saber.

 

É bom que haja reconhecimento. Mas é importante que este não passe apenas (nem principalmente) pelo dinheiro.

 

O maior certificado da sabedoria é uma conduta pautada pela dignidade, pela honradez.

 

Antes de morrer, Luther King pediu à família que não lembrassem o Prémio Nobel recebido. E era um Nobel. Queria, antes, que fosse recordado por ter sido um homem bom.

 

A bondade compensa por si mesma.

publicado por Theosfera às 09:52

Alessio Mastani pretendeu, talvez, ter um momento de glória, mas conseguiu, ainda assim, revelar uma coisa que escasseia cada vez mais: sinceridade.

 

Basicamente, o corretor disse que estava feliz com a crise e que, todas as noites, sonhava com momentos como este.

 

É preciso topete, diremos nós. O adágio latino continua actual: «Mors tua, vita mea».

 

Quantos não haverá que pensam e fazem o mesmo?

publicado por Theosfera às 09:49

Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Desde sempre gostei de música. Mas desde cedo percebi que iria limitar-me a ser um modesto ouvinte.

 

Dizem que o estudante faz-se e o músico nasce. E eu não nasci para a música.

 

Na música, sempre priorizei a mensagem, a intervenção, a melodia, a paz.

 

A música que se fazia quando cresci continua a tocar-me. Falava de manhãs que não envelhecem, embora estejam a ser devoradas pelo pragmatismo e pela injustiça.

 

Foi relativamente tarde que descobri Bach. Mas quando a ele cheguei, não mais dele consegui sair.

 

Não é tanto pela sumptuosidade barroca. É sobretudo pela harmonia e pela transparência.

 

Então as Paixões (de S. Mateus e de S, João) cativam-me completamente.

 

Ainda hoje, continuo a arrepiar-me quando as oiço. Bem mereceu, pois, o título de «quinto evangelista».

 

Confesso que, às vezes, faço umas deambulações e revisito músicas que eram entoadas na minha infância e juventude. Mas rapidamente me canso e depressa volto a Bach.

 

Pelo que dizem, é o que acontece a quantos admiram Bach. Volta-se sempre a Bach. Nunca satura. Há algo de divino naquilo tudo.

 

É indescritível. É sublime. É Bach!

publicado por Theosfera às 22:27

O paradoxo contém a chave que decifra o segredo da vida. Ele desmonta preconceitos e vence lugares-comuns.

 

Qual é o paradoxo da existência?

 

Recebemos quando nos damos. Reencontramo-nos quando vamos ao encontro.

 

Centramo-nos quando nos descentramos. Descobrimo-nos quando nos abrimos. Colhemos quando nos entregamos. Estamos em nós quando nos dispomos a ir além de nós.

 

A meditação é uma porta que nos faz aceder ao mistério e nos transporta até à felicidade.

 

Ela não requer grandes recursos. Ela pressupõe até que não tenhamos recurso nenhum.

 

Paremos. Fiquemos em paz.

 

Não nos preocupemos com palavras, nem sequer com orações.

 

Deixemos tão-somente que alguém nos habite. Deixemos que Deus nos visite.

 

Consintamos que Ele aconteça em nós. Fiquemos à escuta. Continuemos à espera.

 

Aceitar sair de nós é o caminho que nos reconduz a nós.

 

Deus restitui-nos a nós.

publicado por Theosfera às 18:39

W.H. Auden teve uma enorme lucidez quando sugeriu que as escolas fomentassem um espírito de oração em contexto secular.

 

Os alunos deveriam ser ajudados a concentrar-se, única e exclusivamente, naquilo que está diante deles: um texto, um problema de matemática, uma simples frase.

 

Afinal, a atenção é um acto de generosidade, de dádiva, de esquecimento de si, de cuidado pelo outro.

 

Hoje, a inteligência tende a ser dispersiva porque o eu quer tocar muitas coisas ao mesmo tempo.

 

Há, sem dúvida, uma grande agilidade. Mas só a concentração nos faz descer à profundidade: à nossa profundidade, à profundidade dos outros, à profundidade da vida.

 

E isso só se consegue colocando toda a atenção em cada coisa, em cada gesto. Como se cada momento fosse único. Porque, na verdade, cada momento é único, irrepetível.

 

Como desaproveitá-lo? Como não investir tudo nele?

publicado por Theosfera às 15:11

Judeu convicto, especialista em Direito Constitucional, Joseph Weiler defendeu perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos o direito de a Itália ter crucifixos nas paredes das escolas e o direito da França a não os ter. E diz que esse pluralismo europeu é que é bom. Ganhou por 15-2


Tinha acabado cinco horas de aulas, pediu apenas um prato de batatas fritas, que foi petiscando enquanto conversava. Joseph Weiler, nascido em 1951, é um judeu convicto. O que não o impediu de defender a possibilidade de haver (ou não) crucifixos nas paredes das escolas. Virou a opinião do tribunal, dos anteriores 17 a favor de retirar os símbolos religiosos da parede, para uns claríssimos 15 contra. Apenas dois juízes mantiveram a decisão anterior. E adverte: nem a Itália nem a França são neutros em matéria religiosa. Mas ambos devem educar para o pluralismo.

Especialista em Direito Constitucional europeu, Weiler é professor da Católica Global School of Law, da Universidade Católica Portuguesa, e, por isso, vem a Portugal várias vezes por ano.

Tem publicado Uma Europa Cristã (ed. Princípia). E publicará, até final do ano, um livro sobre o processo que condenou Jesus à morte. Nele defende que "o sentido de justiça, na civilização ocidental, provém do julgamento de Jesus", explica ao P2. O Papa disse, no seu último livro, que os judeus não foram responsáveis pela morte de Jesus. Weiler, judeu, irá dizer o contrário. E explicar porquê.

Defendeu o crucifixo nas salas de aula italianas...

Tive uma vitória famosa, 15-2...

Defendeu essa posição como jurista ou como judeu e crente, em solidariedade com outra fé?

Depois da decisão, recebi centenas de emails. Muitos diziam "obrigado por defender o crucifixo". Muitos outros, vindos da comunidade judaica, perguntavam: "Como pode o filho de um rabi defender o crucifixo?" A todos, aos que me felicitavam ou que me condenavam, respondi o mesmo: "Não defendi o crucifixo. Defendi o direito da Itália a ser Itália e o direito de França, onde a cruz é proibida, a ser a França."


Ou seja, a possibilidade de leis diferentes...

Acredito no valor do pluralismo nas relações entre a Igreja e o Estado, que existe na Europa, onde temos vários modelos: o modelo francês, o britânico, o alemão, etc. Isso é parte da força da civilização europeia. A decisão da câmara, por 17 contra zero, dizendo que a Itália estava a violar a Convenção Europeia por ter uma cruz nas salas de aula, parecia-me tão drástica que forçaria todos a ser como França. Isso parecia-me completamente contra o pluralismo e tolerância que existe na Europa.

E escreveu o editorial no European Journal of International Law...

Sim. Dizendo que era uma decisão terrível. Como podia o tribunal decidir que a tradição na Grã-Bretanha, na Alemanha, em Malta, na Grécia ou na Dinamarca era contra os direitos humanos e a Convenção Europeia de Direitos Humanos? Perguntaram-me se queria ir ao tribunal. Concordei, com uma condição: seria pro bono, não queria que dissessem: "Olha o judeu, por dinheiro até é capaz de defender a cruz". [ri] Decidi fazê-lo, porque acreditava que era a atitude certa.

Não foi só a Itália a defender essa posição.

Oito estados intervieram, convidando-me. A Itália defendeu a própria posição. O facto de ser judeu é irrelevante. Sou constitucionalista praticante e tal parecia-me errado, no âmbito da Convenção Europeia de Direitos Humanos. Há duas coisas mais importantes, que me parecem erradas, no âmbito da Convenção e que me ajudaram a reagir: estou verdadeiramente cansado do argumento, repetido à exaustão, de que o Estado é neutro, em matéria religiosa, quando não permite o crucifixo na parede.

E não é assim?

Tentei convencer a câmara de que esse é um argumento errado. Se o Estado quer que a cruz esteja na parede, não é neutro. De certa maneira, é tomar uma posição sobre a importância do cristianismo na identidade do país. Ou seja, há algo na identidade do país que se quer valorizar com a cruz na parede e essa não é uma posição neutral.

Mas quando o Estado, como em França, proíbe a cruz, não está a ser neutro. Porque não há uma parede nua, vazia. Qualquer coisa pode ser colocada na parede: se amanhã houver uma maioria comunista, podem dizer que em todas as escolas tem que haver uma foice e um martelo.

Podem?

Sim, e não há nada na Constituição que o impeça: pode ter uma fotografia de Karl Marx na parede, pode ter um sinal de paz, uma posição ecológica... De facto, em todas as escolas primárias de França, está escrito: Liberté, egalité, fraternité - o slogan mobilizador da Revolução Francesa.

Eu gosto disso, mas não é neutral. Se for monárquico, não é neutro, seguramente. Qualquer símbolo é permitido nas paredes: Karl Marx e Groucho Marx; o sinal de paz, a foice e o martelo, o símbolo "nuclear não". Há apenas um que não é permitido: a cruz, um símbolo religioso. Como é que isso é neutro?

Nem a estrela de David nem o crescente islâmico...

Sim... As crianças podem ir para a escola e usar uma t-shirt com uma fotografia de Che Guevara, podem ter escrito Love and Peace, podem ter um insulto a George Bush, qualquer posição política ou ecológica, podem levar o triângulo cor-de-rosa pelos direitos dos gays. A única coisa que não podem levar é a cruz, a estrela de David e o crescente.

Nem podem vestir o chador...

Não... Isso não é ser neutro, é dar uma mensagem clara às crianças: tudo é permitido, excepto um símbolo religioso.


Na minha arguição, não disse que a França viola a Convenção Europeia por ter essa regra. Na tradição europeia, o Estado laico é uma opção respeitável. Mas não pretendam que seja neutro. Ele diz que tudo é permitido, excepto a cruz ou a estrela de David, e está a dar uma mensagem sobre religião.

No sistema italiano, apesar da cruz, há um dever educacional de respeitar os ateus e outras religiões. No sistema francês, onde se proíbe a cruz nas paredes mas se permite tudo o resto, há o dever de explicar aos estudantes que, apesar de se permitirem todos os símbolos excepto os religiosos, se deve ensinar o respeito pelos crentes. Nenhum dos sistemas é neutro. Em ambos está implícita uma espécie de preconceito. E em ambos é tarefa do sistema educativo contrabalançar as coisas para que a escola não ensine o preconceito mas a tolerância.

Esse era o seu primeiro argumento...

O segundo era: acreditamos na autodeterminação como direito fundamental. Acreditamos no direito de os britânicos serem britânicos e de os irlandeses serem irlandeses. A razão por que temos a Irlanda independente da Grã-Bretanha, em 1921, é porque os irlandeses são diferentes dos ingleses.

Como podemos imaginar a identidade irlandesa sem o catolicismo? No preâmbulo da Constituição irlandesa, diz: "Acreditamos que o Divino Senhor Jesus Cristo é a fonte de todo o dever, justiça e verdade." Isto é o que são os irlandeses. O que vamos dizer-lhes? Não permitimos um sentido de nacionalidade que tem um tal conteúdo religioso?

O que é bonito na Europa, mesmo apesar da Constituição irlandesa, é que não há discriminação por causa da religião. Um judeu pode ser primeiro-ministro. Como um muçulmano ou um ateu. E aceitará que é impossível falar da identidade irlandesa sem o catolicismo e a cruz. Para o bem e o mal.

Mas é possível também que as sociedades mudem?

Mas compete às sociedades mudar. Na minha arguição - que é curta, eu só tinha 20 minutos -, dizia que, se um dia os ingleses decidirem deixar de ter o Anglicanismo como religião oficial, podem fazê-lo. Não é um país religioso, a maior parte dos britânicos não é religiosa. Mas faz parte da sua identidade.

Os suecos mudaram a Constituição e decidiram que a Igreja Luterana deixaria de ser a religião estabelecida no país. Mas foram eles que definiram a sua identidade sueca, não foi Estrasburgo. Não compete a Estrasburgo dizer que eles não podem ter uma cruz na bandeira. Eles deixaram de ter a Igreja oficial mas mantiveram a obrigação de o rei ser um luterano. O símbolo do Estado tem que ser um luterano.

Na sua arguição, afirmou também que este é um conflito entre o direito individual e o Estado. No caso italiano, tratou-se precisamente de uma mãe ofendida pela presença da cruz...

Em muitos casos, temos um conflito entre diferentes direitos fundamentais. O hino nacional inglês é uma oração: "God Save the Queen", dá-lhe vitórias e glórias. Na escola, canta-se o hino nacional. E se houver um estudante que diz "sou ateu, não creio em Deus e não quero cantar uma oração"? O direito individual estará comprometido se a escola forçar esse estudante a cantar o hino nacional e se o ameaçar de expulsão. Ninguém pode ser forçado a fazer um acto religioso, uma oração, mesmo quando não acredita...

Pode ser um republicano...

Claro, não tem que dizer "Deus salve a rainha". Isso eu aceito. Mas não aceito que esse estudante ou a sua mãe digam que mais ninguém deve cantar o hino. É um compromisso simpático: ele tem o direito de ficar em silêncio, os outros o direito de cantar. E todos têm direito à liberdade religiosa.

A minha mãe cresceu no Congo Belga. A única escola para brancos era um convento católico. Os pais dela fizeram um acordo com as freiras: cada vez que elas dissessem Jesus, a minha mãe diria Moisés. É um bom compromisso.

Não podemos permitir que a liberdade de [ter ou não] religião ponha em causa a liberdade religiosa. Temos que descobrir a via média. E essa é dizer não, se alguém quiser forçar outro a beijar ou a genuflectir perante a cruz. Mas, se houver uma cruz na parede, direi aos meus filhos que vivemos num país cristão. Somos acolhidos, não somos discriminados. A Dinamarca tem uma cruz na bandeira, a Inglaterra e a Grécia igual. Vamos pedir que, por causa da liberdade religiosa, tirem a cruz das bandeiras? Absurdo!...

É por causa disso que fala de argumentos iliberais?

Sim, porque o ponto de vista liberal é, muitas vezes, iliberal. As pessoas falam de liberdade religiosa, mas, de facto, muitas vezes é cristofobia. Não é neutralidade, é antes porque não gostam do cristianismo e da Igreja. Sei porquê: a Igreja tem uma história complicada...

É também por causa disso?

Claro. Compreendo, mas não devemos mascarar os factos. Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas são religiosas, outras não. A questão é como vivemos juntos. Não podemos pretender que, se negarmos todas as religiões no espaço público, isso é neutro. É o que faz a França, mas não é o único modo de o fazer.

Então deveria ser possível ter uma cruz na sala de aula e educar os estudantes para o pluralismo?

Absolutamente. Seria uma lição de pluralismo. Porque diríamos: apesar de ter uma cruz na sala de aula ou uma cruz nas bandeiras, permitimos que um primeiro-ministro seja muçulmano ou judeu. A Itália teve primeiros-ministros, generais e ministros judeus.

Na Grã-Bretanha, o chefe de Estado é o chefe da Igreja, há uma Igreja de Estado, o hino nacional é uma oração. Quem diria que o país não é tolerante? É o país de eleição para muitos muçulmanos emigrantes. O facto de haver uma identidade religiosa e uma prática de não-discriminação é um sinal de uma sociedade pluralista e tolerante.

De certa maneira, a Grã-Bretanha com a cruz é mais pluralista e tolerante do que a França, sem a cruz. Porque na Grã-Bretanha, apesar de afirmar a identidade religiosa do Estado, é não discriminatória em todos os aspectos da vida. Financia escolas anglicanas, mas também católicas, judias, muçulmanas e seculares. Os países laicos financiam escolas seculares, mas não escolas religiosas. Quem é mais tolerante e pluralista?

Evocou a herança cristã da Europa, debatida a propósito da Constituição Europeia. Se ela tivesse avançado, também devia referir a herança judaica e muçulmana e a Revolução Francesa?

Deveria ter uma referência às raízes cristãs.

E judaicas e muçulmanas. Na Península Ibérica, por exemplo...

Na Europa, também há vegetarianos. É uma questão de grau. Temos que mencionar judeus, muçulmanos, baha"ís? Eu também falaria de raízes judaicas e muçulmanas na cultura hispânica. Mas, na Europa, a maior parte é cristã. Não falaria de raízes cristãs no Egipto, mesmo havendo uma minoria cristã no país.

De um ponto de vista cultural, o cristianismo jogou um papel decisivo na definição da civilização europeia. Para o bem e para o mal. As raízes cristãs são também a Inquisição, judeus queimados. Quando eliminamos as raízes cristãs, obliteramos também a memória das coisas más que a cristandade fez.

Não há uma cidade na Europa sem uma catedral, onde o museu não esteja cheio de pintura sacra. E os direitos humanos não derivam apenas da Revolução Francesa, derivam da tradição judaico-cristã. Porque queremos negar isso? O que se vê no Prado, no Museu Gulbenkian? Madonna con bambino... Isso não é a Europa? É um absurdo.

É possível coexistir a laicidade francesa e outros modelos?

Claro, essa é a riqueza da Europa. A Europa lidera pelo exemplo, não pela força. Gostaríamos que por todo o mundo houvesse democracias pluralistas e tolerantes. Que possibilidades há de persuadir alguns países muçulmanos a abraçar o pluralismo se dissermos que a religião deve ficar na esfera privada?

Podemos dizer à Arábia Saudita: podem tornar-se uma democracia, reconhecer os direitos humanos e manter a vossa identidade muçulmana. Reparem no que se passa na Grã-Bretanha, reparem no pluralismo europeu: há um modelo francês, um britânico, um grego. Não somos apenas como os franceses.

Tem amigos entre os católicos conservadores, mas também defende os direitos dos homossexuais, o que não é simpático para esses católicos...

Que posso eu fazer? Vieram ter comigo, quando começaram a falar dos direitos dos homossexuais. A questão não era o casamento homossexual, mas porque têm os homossexuais de ser discriminados? Não há razão para isso.

Mesmo hoje, ensino os meus alunos como crente, mas digo-lhes: ninguém deve perder o emprego por ser homossexual, a ninguém deve ser negado alojamento por ser homossexual. Nos campos nazis, exterminaram os judeus e os homossexuais. Não posso esquecer isso.

publicado por Theosfera às 14:38

O Concílio Vaticano II termina a Constituição Dogmática sobre a Igreja com um capítulo dedicado a Maria.

 

A mensagem que, no fundo, pretende veicular é:

 

1) aquilo que se diz sobre a Igreja já foi plenamente realizado por alguém; não se trata, portanto, de algo irrealizável até porque já foi concretizado na vida de Maria;

 

2) quem quiser encontrar um modelo para a sua vivência eclesial tem em Maria a referência maior e o auxílio supremo.

publicado por Theosfera às 12:58

Maria não se destaca tanto pela palavra proferida com os lábios como pela palavra pronunciada com a vida.

 

O contraste entre a fé e a vida é a maior debilidade que muitos atribuem à Igreja. Se esta é, pois, a grande carência, há-de ser também a maior urgência.

 

Maria é espelho porque é exemplo. Ela é educadora na fé pelo que diz com a vida. O sim que saiu dos Seus lábios já tinha saído da Sua vida, do Seu coração.

 

Não há dúvida de que a eloquência do exemplo é muito superior à persuasão do discurso. Albert Schweitzer recordou que «o exemplo não é a melhor maneira de convencer os outros; é a única»!

 

 

 É que, se falha a vivência, falha logo a credibilidade da comunicação. E nenhuma estratégia pedagógica conseguirá suprir esta carência primordial, este vácuo estrutural.

 

 Também na missão, a vontade é alguma coisa, a palavra é muito, o exemplo é tudo.

 

Só o exemplo consegue sufragar o que a vontade pretende e a palavra veicula.

 

É por isso que a consistência da fé é mais da ordem testemunhal que da ordem conceptual. Paulo VI já o reconhecera em 1974: «O mundo escuta mais as testemunhas que os mestres».

 

Maria dá-nos, por isso, o testemunho perfeito porque Ela é o exemplo total

 

Com Ela, a Igreja reaprende incessantemente a ser crente, orante, fiel, servidora, humilde, despojada.

 

A Igreja tem, assim, para o seu futuro aquilo que transporta desde o seu começo. Aquilo que a Igreja quer ser, afinal, já conseguiu ser. Em Maria.

 

Ela poderia subscrever o convite imperativo de Paulo: «Sede meus imitadores como eu o sou de Cristo»(1Cor 4, 16).

 

Como lembra José Aldazábal, «Ela é quem melhor seguiu o Seu Filho, aquela que mais radicalmente cumpriu o Seu Evangelho».

 

O que nós nunca chegaremos a atingir já Maria o alcançou. Isto não é uma frustração para cada um de nós. É um estímulo para todos nós. Mesmo sabendo que nunca obteremos o mesmo padrão de santidade, fica sempre o apelo a não desistir.

 

Por assim dizer, Maria é o óptimo que nos convida a dar o máximo.

 

Eis, portanto, como Ela nos incentiva à procura. Ela desponta como «um roteiro vivo de toda a comunidade cristã».

 

Ela é o futuro que derrama luz sobre a obscuridade do nosso presente.

 

 

publicado por Theosfera às 12:20

Desde há uns tempos a esta parte (Charlene Spretnak assinala os meados dos anos 90 como o momento da viragem), assistiu-se a uma espécie de ressurgimento mariano.

 

Já tinha havido um Ano Mariano (1987-1988). Curiosamente, está a decorrer, neste momento, uma petição ao Papa para que haja um novo Ano Mariano em 2012-2013, para assinalar o vigésimo quinto aniversário do anterior.

 

Começou a aumentar a afluência aos santuários marianos, a qual, actualmente, atinge níveis impressionantes, ainda que, qualitivamente, este dado careça de uma triagem muito séria.

 

As orações marianas estão a ser reintroduzidas em muitas igrejas e escolas católicas. Até, no plano da discografia, as composições marianas estão a ter uma saída muito apreciável.

 

Em 1999, apareceu um artigo na revista «Christos» com o sugestivo título «O regresso da Virgem Maria», que começava assim: «Depois de uma longa ausência, Maria regressou».

 

É óbvio que a ausência não era de Maria em relação aos cristãos, mas de alguns cristãos em relação a Maria.

 

O autor do sobredito texto propugnava uma espiritualidade mariana revitalizada, longe daquilo que denominava «racionalismo desidratado» que afectara a Igreja.

 

Numa linha próxima da de Hans Urs von Balthasar, o articulista defendia que «a dimensão mariana da Igreja precede a de S. Pedro».

 

Daqui extraía uma ilação de relevância supina: «A Igreja é mais carismática do que hierárquica. Maria revela-nos a identidade da Igreja, o coração da aliança, o feminino».

 

Acontece que esta interacção entre o carisma e a instituição raramente alcança o grau de equilíbrio desejado. A história mostra que a acção propende para a acentuação da instituição e só no âmbito de alguma reacção se vinca a centralidade do carisma.

 

Deste modo, parece que o carisma é mais reactivo que proactivo. Sucede que se alguma coisa Maria nos oferece, é precisamente a centralidade do mistério. O ministério está ao serviço do mistério: para o propor, para o vivenciar.

 

Daí que Hans Urs von Balthasar, num livro que escreveu em parceria com o então Cardeal Joseph Ratzinger, tenha recordado que «a Igreja, antes de ser masculina em Pedro, é feminina em Maria».

 

Como acontece com todo o ser humano, toda a Igreja é composta pelo masculino e pelo feminino.

 

Cada pessoa, assegurou Carl Jung num célebre estudo, transporta consigo o masculino e o feminino, o animus e a anima.  

 

A delicadeza da relação entre masculino e feminino na Igreja é semelhante às dificuldades que se revelam no equilíbrio entre carisma e instituição, entre mistério e ministério.

 

Olhando para os fundamentos bíblicos do Cristianismo, Hans Urs von Balthasar chegou ao ponto de dizer que, se Pedro orienta visivelmente a Igreja, é Maria que «a governa escondidamente».

publicado por Theosfera às 11:50

Benjamin Franklin perguntou: «Se os homens são assim tão maus apesar da religião, como seriam eles sem ela?»

 

Confesso que não sei responder. Alguém sabe?

 

Há pessoas sem religião que são de uma correcção extrema, de uma conduta irrepreensível e de uma bondade imensa. Também há pessoas sem religião que cometem grandes delitos.

 

Há pessoas religiosas capazes dos maiores gestos de amor. Mas também há pessoas religiosas que não se coíbem de praticar os piores crimes. De os praticar e, mais grave, de os justificar.

 

Até parece que, em muitos casos, a religião funciona como uma «almofada» que dá para tudo.

 

Para concluir, Deus não está presente apenas na religião. Às vezes, até pode estar «oprimido» em muitas atitudes religiosas.

 

Deus não tem fronteiras. Se Ele está presente na religião, alguém pode garantir que esteja ausente fora da religião?

 

Em relação a Deus, há muitos que se presumem perto e, de facto, estão longe. E pode haver muitos que, julgando-se longe, acabam por estar mais perto.

 

Se há bondade, verdade e generosidade, há uma respiração divina.

 

É aí, no amor repartido e na paz construída, que a atmosfera se converte numa permanente teosfera!

publicado por Theosfera às 10:52

«Não julgueis e não sereis julgados» (Mt 7,1).

 

Assim falou o Mestre dos Mestres.

 

Muitas vezes, repetimos (enfaticamente) estas palavras. Mesmo quando passamos o tempo a fazer exactamente o contrário do que elas dizem.

 

Em que mais se passa o tempo? Haverá maior passatempo que julgar e, como se tal não bastasse, condenar?

publicado por Theosfera às 10:14

Hoje é dia de S. Vicente de Paulo. Dedicou a sua vida a duas causas que se mantêm pertinentes: aos pobres e aos padres.

Não vou descrever a sua vida. Vou apenas recordar alguns pensamentos:

«Os pobres são os vossos senhores; um dia serão os vossos juízes».

«Não percorreu muitas estradas; percorreu apenas uma: a do amor. E o amor é exclusivamente construtivo. Por isso, no seu programa, não se propõe polemizar, censurar, demolir. São caminhos já batidos e repetidos mil vezes, e sempre sem êxito».

Um apelo à  calma, à serenidade: «Quem age com pressa atrasa-se sempre nas coisas de Deus».


publicado por Theosfera às 06:16

Hoje, 27 de Setembro, é o Dia Mundial do Turismo.

 

É sabido que, em muitos casos, o turismo está ligado ao religioso. Nada a opor.

 

O único problema é quando o religioso se reduz mesmo ao turismo. Isto acontece quando as pessoas vão aos templos só para fruir do lado turístico.

 

Há quem, mesmo assim, o faça com respeito. E, quando assim é, nada a opor também.

 

Mas é fundamental que, na casa de Deus, não estejamos como turistas. Que nos sintamos como verdadeiros peregrinos. Que são sempre acolhidos pelo Pai!

 

Não é a vida, toda ela, uma incessante peregrinação.

 

Nem todos podem ser turistas. Mas todos somos peregrinos!

publicado por Theosfera às 06:15

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

1. O Concílio Vaticano II termina a Constituição Dogmática sobre a Igreja com um capítulo dedicado a Maria.

 

A mensagem que, no fundo, pretende veicular é:

 

1) aquilo que se diz sobre a Igreja já foi plenamente realizado por um membro da mesma Igreja; não se trata, portanto, de algo irrealizável até porque já foi integralmente concretizado na vida de Maria;

 

2) quem quiser encontrar um modelo para a sua vivência eclesial tem em Maria a referência maior e o auxílio supremo.

 

É que Maria faz parte da Igreja, verdade que nem sempre parece ter sido devidamente valorizada.

 

Com efeito, a relação da Igreja com Maria sofreu, ao longo dos tempos, de dois excessos: um alegadamente maximalista, outro sem dúvida minimalista.

 

Durante séculos, Maria parecia estar acima da Igreja. Nas últimas décadas, Maria pareceu estar ao lado da Igreja.

 

Percebe-se a primeira posição e entende-se a intenção que subjaz à segunda.

 

Maria tem um papel tão relevante na História da Salvação que nunca será demais exaltar o Seu lugar e relevar a Sua missão.

 

Isso levou, porém, a que, em não poucos sectores se outorgasse a Maria um estatuto quase divino.

 

Apesar de, oficialmente, a doutrina falar de uma veneração especial (hiperdulia), que a singulariza dos santos (dulia), a devoção popular propendia a votar-lhe um culto praticamente igual ao reservado a Deus: adoração (latria).

 

E o certo é que, ainda hoje, não falta quem, entrando num santuário, se dirija mais depressa à imagem de Nossa Senhora do que ao sacrário. Quanto ao gesto, há quem não hesite em fazer exactamente o mesmo nas duas situações. A tendência é para ajoelhar tão rapidamente perante a referida imagem como ante o Santíssimo Sacramento.

 

Formalmente, nunca houve uma Mariolatria, mas os nossos irmãos protestantes, que amam Maria como Mãe de Jesus, sempre mostraram alguma incomodidade frente ao que vêem entre nós.

 

As procissões marianas são as que maiores multidões arrastam. E não há dúvida de que Maria transporta-nos a Jesus. Como poderia, aliás, afastar-nos de Jesus quem nos oferece Jesus?

 

O problema não está, obviamente, em Maria. Pode estar em muitos de nós, indevidamente esclarecidos e pouco motivados para um correcto esclarecimento.

 

 

2. É por isso que, a partir de certa altura do século passado, houve a pretensão de corrigir esta situação, à custa, porém, de cair numa situação oposta.

 

Maria era vista não acima, mas porventura ao lado. Mais que uma menorização do Seu papel, houve um quase esbatimento da Sua presença.

 

A devoção mariana, em alguns círculos, foi decrescendo. Em muitas casas formativas, a recitação do Terço do Rosário praticamente desapareceu.

 

Em algumas escolas de Teologia, a Mariologia passou a ser uma disciplina meramente opcional. Como nota Charlene Spretnak, mariano foi aparecendo como sinónimo de «demasiado regressivo, demasiado reaccionário»!

 

Para muitos católicos, Maria é «um actuante secundário». Mais do que uma contestação, assistiu-se a uma ocultação.

 

Esta atitude era vista como profiláctica, visando supostamente regenerar a fé e reconduzi-la ao essencial.

 

Pretendendo-se devolver à fé a sua indiscutível índole teo-cristocêntrica, achava-se que a invocação reiterada de Maria poderia ser um obstáculo.

 

Presumia-se, portanto, uma evolução e arrogava-se inclusive um estatuto de superioridade.

 

Em nome da verdade, é preciso ressalvar que, nestas alturas, foi o povo simples (sem uma formação aprofundada, mas dotado de uma intuição assombrosa) que assegurou a continuidade da devoção mariana.

 

Em muitos lares e ao longo de não poucos caminhos, o Terço alavancou o encontro com Jesus Cristo e como que alcatifou o desabrochamento da fé.

 

 

3. Foi neste quadro que o Concílio Vaticano II, decalcando textos da antiguidade, teve uma opção de rara pertinência e enorme felicidade.

 

Com sobriedade, mas também com a devida ênfase, a assembleia conciliar ressituou Maria: não acima nem ao lado, mas dentro da Igreja. 

 

Não foi fácil, no entanto, chegar a esta opção. Houve uma divisão quase simétrica na votação acerca do caminho a seguir.

 

Havia quem, como o Cardeal Rufino Santos (Arcebispo de Manila), entendesse que a doutrina sobre Maria justificava um documento próprio. E foi elaborado até um projecto, intitulado «De Mysterio Mariae in Ecclesia» (Acerca do Mistério de Maria na Igreja).

 

A posição contrária, liderada sobretudo pelo Cardeal Franz Koenig (Arcebispo de Viena), entendia que o contexto mais adequado para falar de Maria era o texto sobre a Igreja.

 

A votação, ocorrida a 29 de Outubro de 1963, patenteou uma fractura inusual. É que, habitualmente, as decisões eram tomadas por percentagens superiores a 90%.

 

Desta vez, entretanto, a diferença foi por uma margem inferior a 2%: apenas 40 votos num universo de 2193!

 

E é assim que Maria aparece no último capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. No fundo, o que se visa é apontar Maria como modelo de realização do ser Igreja.

 

Tudo o que é dito anteriormente, nos sete capítulos e no proémio, está prolepticamente antecipado na figura de Maria.

 

Isto significa que, apesar da parcimónia aparente nas palavras, Maria recebe o enquadramento perfeito. Ela pertence à Igreja, faz parte do mesmo povo que nós.

 

Trata-se, é claro, de um membro especial, mas, ainda assim, membro.

 

Diz o Concílio que Maria é um «membro eminente e inteiramente singular da Igreja, o seu tipo e exemplar perfeitíssimo».

 

 

4. Raniero Cantalamessa prefere o termo «espelho». Desde logo porque «mais compreensível para todos, menos ligado a uma certa linguagem técnica da exegese bíblica e também porque é mais rico de sugestão e próprio para exprimir, quase plasticamente, a ideia que se quer transmitir».

 

Para lá das palavras, importante é realçar o mesmo significado. Maria é, de facto, o espelho da Igreja num duplo sentido: «primeiro, porque reflecte a luz que Ela mesma recebe, como faz um espelho com a luz do sol; e, em segundo lugar, porque n'Ela a Igreja pode e deve "espelhar-se", isto é, olhar-se e confrontar-se para se tornar bela aos olhos do Seu celeste Esposo».

 

De resto, o que se faz é aplicar a Maria o que, mais vastamente, se diz da Palavra de Deus, também qualificada como «espelho» (cf. Tgo 1, 23).

 

Dizer, por conseguinte, que Maria é um espelho da Igreja implica perguntar. Que significa uma palavra, uma atitude ou um acontecimento da vida de Nossa Senhora para a Igreja e para cada um de nós? Que havemos de fazer para pôr em prática o que o Espírito Santo quis dizer-nos através de Maria?

 

A resposta mais consistente passará não apenas pela devoção, mas acima de tudo pela imitação de Maria.

 

Aliás e como afirmava Charles de Foucald, «amar é imitar». Quem ama propende a imitar aquele (neste caso, aquela) que ama.

 

O Concílio assume ter sido sua intenção não propor uma doutrina sistemática sobre Maria nem dirimir questões pendentes da Mariologia, mas acentuar a relação dos membros da Igreja para com a Mãe de Deus. Para eles, ela desponta como um modelo.

 

Apesar de, antecipadamente, se saber que ninguém atingirá o mesmo patamar de fidelidade, é importante ter uma referência desta grandeza. Trata-se de um estímulo poderoso para o crescimento.

 

 

5. Maria é um modelo na humildade, na simplicidade, no despojamento, na transparência. Ela não precisa de falar muito sobre Deus. Ela é soberanamente eloquente ao fazer transparecer Deus até à mais íntima medula do Seu ser.

 

Ela é o arquétipo, aquela em quem a Igreja obteve a sua concretização mais sublime. Enquanto speculum (espelho), Maria é spes (esperança). Como espelho, é esperança para todos quantos querem seguir Jesus, no Seu novo corpo que é a Igreja.

 

Numa altura em que tanto escasseiam as referências, é reconfortante sentir que uma mulher é referência maior para a vivência do Evangelho.

 

E não há dúvida de que, na Sua humildade e quase sempre no Seu silêncio, Maria é um compêndio vivo de Eclesiologia.

 

A Igreja tem de conjugar, cada vez mais, a dimensão paulina e a dimensão mariana. Ela precisa do arrojo da palavra de S. Paulo e carece, ao mesmo tempo, da acolhedora discrição de Maria.

 

Ela corporiza, supremamente, uma Igreja confidente (que escuta), suporte imprescritível de uma Igreja conferente (que anuncia).

 

Na hora que passa, o silêncio é a alavanca que fermenta e credibiliza a palavra. Daí que o perfil mariano da Igreja surja como tão necessário, prioritário e decisivo.  

 

Maria trouxe o Fundamento da Igreja no Seu seio. Hans Urs von Balthasar chamava-Lhe o «cálice do Verbo».

 

Maria continua a oferecer-nos um espelho da Igreja na Sua conduta. Por isso, Ela é Mãe da Igreja e figura do que há-de ser a Igreja Mãe.

 

Olhar para Maria é contemplar a Igreja a partir das suas raízes mais fundas. E à luz do seu horizonte mais vasto.  

 

 

publicado por Theosfera às 23:30

Em que jornal (ou revista) poisará a escrita sublime de José Manuel dos Santos?
 
Fez ontem sete meses que saiu a sua última crónica no «Expresso». Cf. aqui.
 
É compreensível que as instituições tenham necessidade de mudar. Mas essas mudanças deverão levar ao afastamento dos melhores?
 
José Manuel dos Santos não tem apenas talento. Tem um dom que nasce da sensibilidade e renasce em cada texto.
 
Pedro Mexia, que ocupa o seu lugar, escreve bem. Mas não consegue apagar a sensação de perda que o leitor sente. Havia lugar para os dois.
 
Por onde anda José Manuel dos Santos e a sua escrita luminosa?

 

Alguém poderá ajudar-me?



 

publicado por Theosfera às 21:07

Isto faz-me pensar, confesso.

 

«Optimismo e utopia em excesso geralmente acabam em nada ou, pior, dão em totalitarismo».

 

Concorda com Roger Scruton?

publicado por Theosfera às 16:11

Enquanto se espera pela unidade com os luteranos, o Papa reforçou o apelo à unidade entre os católicos.

 

Não deixou de vincar a diferença. Enquanto os luteranos valorizam o escrutínio da consciência, Bento XVI insistiu na comunhão com os sucessores de S. Pedro e dos Apóstolos. Ou seja, o Papa e os bispos.

 

Reconhece que o anúncio é fortemente afectado pela falta de credibilidade do testemunho. Os agnósticos e «os que sofrem por causa dos nossos pecados e têm o desejo de um coração puro estão mais perto de Deus que os fiéis rotineiros».

 

A falta de espiritualidade e o apego ao poder mereceram também os devidos reparos.

 

Neste sentido, é positivo que acabem os privilégios. Tal permite à Igreja uma «profunda libertação».

 

A História fez o que a Igreja devia ter feito, particularmente «através de diversos períodos de secularização que contribuíram para a sua purificação».

 

O «zeitgeist» (espírito do tempo) também é lugar de revelação.

 

Deus fala nas palavras e nos silêncios dos homens de cada época.

 

Hoje, Deus está a clamar por uma intensa mudança.

 

Esta é a prioridade irrenunciável. Este é o caminho perfunctório. Este desponta como o imperativo imprescritível. E cada vez mais actual.

publicado por Theosfera às 10:24

Hoje em dia, há pequenos intervalos de silêncio no meio de palavras sobrepostas a esmo.

 

Era bom que as palavras fossem o intervalo entre os espaços de silêncio.

 

Palavra que não nasça do silêncio da escuta passará de ruído?

publicado por Theosfera às 10:02

«As coisas têm um preço; só as pessoas têm valor».

Assim escreveu (notável e magnificamente) Guilherme de Ockam.

publicado por Theosfera às 09:53

Até o Outono pode ser «uma segunda Primavera, se cada folha for uma flor».

 

Alguém discordará deste pensamento de Albert Camus?

publicado por Theosfera às 09:52

Quando entra no seu carro, usa a chave, o travão, o acelerador, a embraiagem.

 

Tente, pelo menos hoje, não usar a buzina.

 

Mantenha a serenidade. E tenha um feliz dia. Na paz de Jesus.

publicado por Theosfera às 09:47

Enquanto se passeiam pelas notícias, os nossos olhos param neste anúncio: «O pior ainda está para vir»!

 

Não é nenhum vidente nem qualquer oráculo. É o Ministro das Finanças. De quem não se espera vaticínios. De quem não se espera que se vergue ante a realidade.

 

Para início de semana, não é alentador. Mas o melhor há-de surgir, mesmo que o pior ameace pairar.

 

Uma santa e feliz noite.

publicado por Theosfera às 01:01

Domingo, 25 de Setembro de 2011

Porque é que conjugamos tão fluentemente o verbo «ter» e tão dificilmente o verbo «dar»?

publicado por Theosfera às 23:21

É importante ser assertivo. É arriscado ser definitivo.

 

Diria que é preciso ter um conhecimento sobre-humano para dizer que «ninguém sai da política com as mãos limpas».

 

Só quem tem um conhecimento de todos os intervenientes na acção política está em condições de fazer uma avaliação global.

 

Com o maior respeito por quem proferiu estas afirmações, sei que há muita gente que entra e sai da política com as mãos limpas. Há quem não corrompa nem se deixe corromper. Há quem prime pela coerência. Há quem seja desprendido.

 

Há que evitar generalizações. Até porque não falta quem olhe para a Igreja com um olhar semelhante. Semelhantemente devastador.

 

Quanto à imagem em si, eu diria que talvez até seja bom sujar as mãos. É o que acontece a quem trabalha. Não há nenhum desprimor nisso.

 

Às vezes, é mesmo desejável sujar as mãos. Fundamental é manter limpo o coração!

publicado por Theosfera às 23:19

Mais calor cá fora. Mais gelo cá dentro.

 

O coração anda em sentido contrário ao do clima.

 

Mas, um dia, tudo mudará. E nós mudaremos primeiro.

 

Uma semana cheia de ânimo...

publicado por Theosfera às 22:15

O cristão tem de ser, cada vez mais, «homo Dei» (homem de Deus) e «homo hominibus» (homem para os homens).

 

O encontro com Deus não litiga com o compromisso social nem com o vigor profético. Pelo contrário, aflora como a sua raiz, a sua autêntica alma e o seu permanente alimento. É o amor a Deus que nos impele para o amor ao próximo.

 

A espiritualidade não conflitua com a acção social.

 

Dir-se-ia que há uma espécie de «sócio-espiritualidade» estribada no duplo mandamento: «Quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (1Jo 4, 21).

 

Urge reinventar caminhos que permitam dessedentar a sede de infinito que se sente e preencher a profunda saudade de Deus que se pressente.

publicado por Theosfera às 22:12

Diz Paul Valadier: «Só se chega mais acima assumindo o que está em baixo».

 

Para Deus sobe-se descendo.

 

Só a humildade abre caminho para a felicidade.

publicado por Theosfera às 22:11

Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, põe o dedo numa ferida muito actual: falta imaginação orçamental.

 

O discurso está demasiado colado à realidade. Consegue interpretá-la. Não sabemos se bem. É urgente um discurso que a transforme.

publicado por Theosfera às 22:10

Nunca pares de começar.

 

E nunca comeces a parar.

publicado por Theosfera às 07:10

Quando vejo certas pompas, as palavras e os gestos de Jesus soam a um legado não acolhido e a uma mensagem não escutada.

 

Neste Domingo, ouvimos dizer que Ele, sendo de condição divina, despojou-Se a Si próprio, obedecendo até à morte. Foi aí, no despojamento total, que Deus O exaltou.

 

Daí que ninguém deva considerar-se superior aos outros.

 

Há tanto para mudar e imenso para aprender na Igreja. O que até é bom. É sinal de que ainda há futuro...

publicado por Theosfera às 00:07

Sábado, 24 de Setembro de 2011

Ver jogar o Barcelona é quase estar a ver um desporto diferente. Trata-se de uma espécie de «futebolarte».

 

Os jogadores não correm. Fazem correr a bola. Mas esta, antes de correr, não é chutada a esmo. É enviada com precisão.

 

Ter a bola é o segredo. Saber o que fazer com ela é uma sabedoria.

 

O Barça só tem um adversário: ele mesmo. Como todas as máquinas, uma equipa, mesmo que esteja nas imediações da perfeição, pode ter um desacerto, quiçá uma desafinação.

 

Hoje, foram mais cinco golos. Tudo nas calmas. Com uma serenidade que chega a ser exasperante. Sobretudo para os onze que, do outro lado, assistem...

publicado por Theosfera às 23:23

Sei que estás um pouco abatido e triste.

 

Mas amanhã é um novo dia, dia do Senhor.

 

Acredita em Deus. E aposta em ti.

publicado por Theosfera às 23:09

Não desisti de sonhar com uma Igreja humilde, amiga das pessoas simples, despojada de toda a ostentação, descentrada de si e totalmente recentrada em Deus e na Pessoa humana.

 

Não desisti de sonhar com uma Igreja que fale menos e oiça mais. Que se ajoelhe diante de Deus na oração. E que esteja ao lado das pessoas nas suas aspirações.

 

É quase certo que não irei ver esta Igreja. Mas sei que ela vai surgir. Simplesmente porque a vontade de Jesus cumpre-se sempre. Mesmo que leve tempo.

 

Afinal, para Deus um dia é como mil anos e mil anos são como um dia...

publicado por Theosfera às 23:05

«A política, sem princípios; o prazer, sem compromisso; a riqueza, sem trabalho; a sabedoria, sem carácter; os negócios, sem moral; a ciência, sem humanidade; a oração, sem caridade».

 

Cada dia vai confirmando o quão certo estava Mahatma Gandhi.

 

(via Padres Inquietos)

publicado por Theosfera às 16:18

Admiro mais (infinitamente mais) os que reconhecem o fracasso do que aqueles que passam a vida a cantar vitórias. Mesmo que estas sejam obtidas à custa de outros.

 

José Miguel Júdice diz ser «um homem com derrotas, mas não um homem derrotado».

 

Há derrotas que compensam mais que a maior vitória. Sobretudo se elas se deverem aos ideais por que lutamos: «Quando se morre por um ideal, ganha-se. Quando se sobrevive sem um ideal, vegeta-se».

 

Numa altura em que tudo se igualiza, é saudável ouvir alguém confessar que só somos vivos «quando somos diferentes. Estamos mortos quando cedemos».

 

A estagnação «é um sinónimo de morte». Só na «transgressão as sociedades evoluem».

 

É preciso ter muita coragem e ser muito livre para dizer isto.

 

O preço que se paga é, geralmente, muito elevado. Mas vale a pena pagá-lo!

publicado por Theosfera às 12:59

O belo consegue primar pela discrição.

 

Não se impõe aos gritos nem se faze notar pela força. Pelo contrário, quase se ausenta ou, melhor, quase nos ausentamos dela, dado o nosso talante dispersivo.

 

Habitualmente, só reconhecemos a sua importância quando deixa de se notar.

 

Cesária Évora anunciou o seu adeus à música e aos palcos. Discretamente, como sempre soube estar. Como sempre saberá estar.

 

Porque a arte sobrevive sempre ao artista. É uma dádiva que o tempo não extingue.

publicado por Theosfera às 12:12

«A traição nunca prospera; porque não? Porque, se prosperasse, ninguém ousaria chamar-lhe traição».
Assim escreveu (subtil e magnificamente) John Harrington.

publicado por Theosfera às 12:11

O instante e o instinto.

 

Assim se poderá resumir a vida para muitos.

 

Falta, de facto, o sentido do tempo e a dimensão da história. Para não poucos, a vida é o instante. E o instante é dominado pelo instinto.

 

Urge alargar horizontes. William Ward adverte: «Para te preparares para o futuro, examina o presente. Para compreenderes o presente, estuda o passado».

 

Preceito elementar, este. Mas, tantas vezes, ignorado.

publicado por Theosfera às 12:09

‎490 (número simbólico que decorre de 70x7) são as vezes em que, segundo Jesus, é preciso perdoar. Mas nem mais de 490 anos foram suficientes para a Igreja vivenciar o perdão dentro de si.

 

Há precisamente 494 anos existe um contencioso entre os cristãos do Ocidente. E, pelos vistos, os factores de separação continuam a sobrepor-se ao grande traço de união: Jesus Cristo.

 

Estamos a seis anos dos 500 anos da Reforma Luterana. Ontem, foi pedido que se ultimem os passos para a comunhão efectiva.

 

Seria um belo testemunho. Se Cristo é sempre o mesmo, haverá alguma diferença que obscureça a Sua presença?

 

Perdoar é superar. Por enquanto, é tentar, insistir, não recuar, continuar a caminhar.

 

O que é importante leva tempo. A reconciliação, para ser sólida, pode requerer muito tempo.

 

Cinco séculos parece muito. A reconciliação merece muito. Muito tempo. Muito abertura. Muito acolhimento.

 

O fundamental é que os passos sejam dados e que se vão curando as feridas.

 

Coloquemo-nos à escuta, à espera. Deixemos que Deus guie o nosso coração.

 

Às vezes, separamo-nos por causa de textos. Não esqueçamos que Deus também fala no tempo, no espírito do tempo, na alma das pessoas deste tempo.

 

Deus, hoje mais do que nunca, quer a unidade!

publicado por Theosfera às 12:03

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