O tradicionalismo parece trazer uma clareira de fidelidade, mas acaba por oferecer uma nuvem de equívocos.
No fundo, é estreito e até contraditório.
Assume o tradicionalismo a herança do passado. Mas, na prática, estaciona e enquista num certo passado e, nessa medida, impede a abertura à totalidade (e riqueza) do passado.
O tradicionalismo eclesiástico, por exemplo, não vê muito longe.
Quer que a Igreja seja como era no século XVIII, no século XVII ou, quando muito, no século XVI. Não está em causa o Concílio de Trento (que terminou em 1563), mas o Concílio Vaticano II tem a mesma legitimidade.
Porque é que não existe igual abertura aos séculos mais passados, aos começos?
Curiosamente, aqui, nos começos, o tradicionalismo era um entrave.
O Evangelho chegou a toda a parte apesar da oposição veemente dos tradicionalistas de então.
Estes queriam que quem fosse cristão fosse também (e obrigatoriamente) judeu.
Mas a posição que prevaleceu impeliu os cristãos a sair, a adaptar-se a tudo e a todos, a ver Cristo em tudo e em todos!
1. A situação da Grécia documenta o impasse em que a Europa se encontra.
Os mercados não querem fazer diferente. Os cidadãos não conseguem suportar mais. Os poderes, por sua vez, sentem-se incapazes de alterar a actuação dos mercados e de suster a reacção dos cidadãos.
Assim, a Europa pode estar à beira de uma implosão política e de uma explosão social.
O sistema partidário tem uma dificuldade extrema em articular organicamente as determinações dos mercados com as expectativas dos cidadãos.
O caso grego é, para já, extremo, mas pode não ser único. O voto de protesto tende a acentuar-se. As condições de entendimento propendem a diminuir.
Se o resultado das novas novas eleições der uma vitória às forças pró-europeias, é de prever que a agitação recrudesça nas ruas. Se tais forças forem derrotadas, é de admitir a possibilidade de uma insolvência do Estado. E se - hipótese a não descartar de todo - persistir a ausência de uma solução governativa?
Como se vê, nenhum cenário é promissor. Os limites do suportável começam a ser transpostos.
2. A montante de toda a discussão que está em curso, importa ter presente um indicador que gera ondas de perplexidade.
Trata-se do sacrifício contínuo das pessoas. Tal sacrifício não parece ter fim à vista. E o seu objectivo aparenta ser tudo menos apoiar os mais desfavorecidos.
Insiste-se que não há condições para manter o Estado Social, pelo menos nos moldes em que ele assentava. Até se assegura que foi a manutenção desse Estado Social que contribuiu, em grande medida, para o alastramento da crise.
Sucede que, como sempre, é esquecida a prova dos factos. Os países mais desenvolvidos da Europa, os da Escandinávia, são os que melhor estão a resistir à crise. E é precisamente nesses países que o Estado Social está mais consolidado.
Isto significa que apoiar as pessoas (designadamente na saúde e na educação) não constitui uma sobrecarga. Pode até funcionar como um estímulo, como um poderoso factor de motivação.
3. Pelo contrário, a continua redução dos apoios sociais induz a ideia de que o ser humano é um peso para o Estado.
Ora, isto subverte por completo o sentido da política e a própria lógica da vida. O ser humano é sempre uma riqueza (a maior riqueza), nunca um peso.
É preocupante quando se verifica que, na actualidade, se privilegia as contas em detrimento das pessoas. E que, na hora de optar, as pessoas são repetidamente imoladas.
O salário não devia compensar só o trabalho prestado nem premiar apenas as capacidades reveladas.
Antes de mais e acima de tudo, deveria atender-se às necessidades vitais do trabalhador e da família.
Percebe-se que as empresas necessitem de alguma margem para poderem investir e, desse modo, assegurar postos de trabalho.
Mas são sobejamente conhecidos casos em que essas margens atingem proporções obscenas. A distância entre os gestores e os trabalhadores é insustentável.
A discriminação persiste e não é a discriminação positiva. A austeridade desaba sobre os mais pobres e as excepções preservam os que têm cargos de topo.
4. O recurso vai sendo a Sociedade-Providência, que substitui o Estado-Providência. Regra geral, são as famílias que suprem as carências. Os pais acolhem os filhos (e os netos) em casa e auxiliam-nos nas despesas.
Mas um recurso não é uma solução. Um medicamento não é um tratamento. O Estado não pode inverter a relação que o estrutura.
O poder é que está ao serviço das pessoas. Não podem ser as pessoas a estar ao serviço do poder.
É provável que o nosso país não chegue ao patamar da Grécia. Mas há sinais de desestruturação social e desintegração pessoal.
Parafraseando Miguel Torga, diria que Portugal é um país pacífico, mas com muita gente revoltada.
A Europa tem congregado Estados. Mas não tem unido pessoas. Neste momento, até parece que o seu propósito é imolar pessoas.
Creio que os limites já foram atingidos. Não deixemos que o limite seja ultrapassado!
1. A austeridade está a agravar a crise. Mas será que o crescimento, por si só, resolverá a crise?
A austeridade já provou que não é o caminho. Mas será que o crescimento será a solução?
2. Ainda recentemente, ficámos a saber que muitas das economias que registam maior crescimento estão em África.
O ritmo de tal crescimento é superior à média mundial, sendo apenas superado pela Ásia. E, no entanto, essas mesmas economias, que tanto crescem, não são capazes de vencer um problema elementar: a fome de muitos dos seus cidadãos.
Com efeito, um em cada quatro habitantes do continente africano passa fome. Isto perfaz um número que chega a 218 milhões de pessoas.
É caso para perguntar. Qual o destino das avultadas quantidades de dinheiro que o crescimento económico provoca?
O dinheiro que existe no mundo até será suficiente para as necessidades de todos. Mas, pelos vistos, é claramente insuficiente para as ambições voluptuosas de alguns. Que seguram o que eles querem e capturam o que outros precisam.
3. Eis, pois, uma nova «religião», com um único «deus» (o dinheiro) e uma nova «trindade» (com muitas aspas).
Segundo o teólogo Xabier Pikaza, essa «trindade» é composta «pelo Deus-Capital (que não é Pai, mas monstro que tudo devora), pelo Filho-Empresa, que não redime, mas produz bens de consumo ao serviço dos privilegiados do sistema, e pelo Espírito-Mercado, que não é comunhão de amor, mas forma de domínio de uns sobre os outros».
4. Esta idolatria, que está longe de ser felicitante, não é humanizadora. Desvia-nos de Deus e nem sequer nos centraliza no Homem.
Ela prefere o capital ao trabalho e coloca o lucro acima da pessoa. Lança seres humanos no desemprego. Atira famílias para fora de casa e chega ao ponto de gerar até problemas de fome.
Não estando em causa a legitimidade da propriedade privada, era bom que se priorizasse o destino universal dos bens.
O salário deveria compensar não apenas um trabalho realizado e um serviço prestado, mas atender, antes de mais, às necessidades vitais das pessoas.
5. Na tecnologia, podemos registar progressos. Mas na justiça temos somado profundos retrocessos.
Até certa altura, o trabalho era visto como forma de opressão. Depois, começou a ser encarado como via de realização, de satisfação e até de libertação. Hoje, corremos o risco de ele voltar a ser enquadrado como instrumento de exploração.
Para muitos, já nem trabalhar é possível. Neste caso, já não é somente a dignidade que está em jogo. É também a sobrevivência que começa a estar em causa.
6. Sem justiça e sem sentido do outro, o crescimento é uma espécie de religião onde o dinheiro reina de modo absoluto.
Tudo lhe é sacrificado a começar pelo ser humano. Deus é transcendente para todos. O dinheiro está a tornar-se inacessível para muitos.
O deslumbramento do capital e a embriaguez do lucro estão a fazer do dinheiro o «deus escondido» do Ocidente.
7. Como alertava o pobre (mas sábio) indígena no Papalagui, «a verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel a que ele chama dinheiro. Quando se fala a um europeu do Deus do amor, ele faz uma careta e sorri. O dinheiro é o objecto do seu amor».
8. Enquanto assim for, não haverá saída para a crise.
Enquanto o dinheiro for divinizado, a nossa vida continuará (irremediavelmente) desumanizada!
Lord Byron disse que «o diabo é o primeiro democrata».
Será o diabo que é democrata? Ou não será que a democracia, por vezes, é que parece diabólica?
Ainda assim, antes a pior democracia que a melhor das ditaduras!
1. Estamos em Páscoa. Aliás, nunca deixa de ser Páscoa. É, portanto, tempo de festa e de alegria.
Acontece que a alegria não vem só pelo riso.
A alegria também pode ser certificada pelas lágrimas que caem, pelo pranto que corre. Não foi Jesus que proclamou felizes os que choram?
A fé não anula a natureza. E por muito grande que seja a fé, a natureza tem manifestações muito fortes.
A Páscoa é vida, vida eterna. Mas é vida que não dispensa a morte. É vida que vem depois da morte.
Jesus, que vence a morte, também sofreu a morte, também chorou a morte, também gritou diante da morte.
2. A morte pertence ao impensável, ao indizível. É por isso que o seu lugar devia ser o silêncio.
Como pensar o que não pode ser pensado? Como dizer o que não pode ser dito?
Acerca da morte, as palavras morrem nos lábios e os pensamentos secam na própria mente.
Como pensar aquilo que nós nem sequer experimentamos? Com efeito, só fazemos a experiência da morte dos outros. Ninguém faz a experiência da sua morte.
Já dizia Epicuro que quando nós estamos, ela ainda não está; quando ela está, nós já não estamos. Para nós, a morte será sempre futuro e nunca presente. Todos dizem «hei-de morrer». Ninguém afirma «morro» ou «morri».
Mia Couto afirma que «se morre nada quando chega a vez. É só um solavanco na estrada por onde já não vamos».
3. A morte só pode ser pensada no amor. A morte só pode ser dita com o coração.
A morte é a grande cátedra, dura cátedra, donde vem a maior (e a última) lição.
Ela é silenciosa. Não fala. Actua e de modo implacável. Vem sem avisar. Chega e não pede licença para entrar. Não deixa ninguém em casa. Leva a todos com ela.
A morte é imponente, é eficaz, friamente eficaz.
Vem sempre cedo ainda que viesse tarde. Nunca é tarde para morrer.
A morte pertence ao silêncio. Palavras para quê? Tudo isto é um mistério. Não é, pois, para compreender ou sequer para dizer. É tão-somente para acolher. Para aceitar?
Mas não é só a morte que está em silêncio. A esperança também não fala. A esperança acompanha-nos na dor. E ampara-nos na saudade!
4. A vida e a morte são, à partida, o mais distante. Mas, à chegada, surgem tão próximas.
A experiência assegura-nos que cada homem o paradoxo de alguém que luta pela vida e que caminha (inexoravelmente) em direcção à morte.
A experiência garante-nos que a vida é um caminho para a morte. Mas a fé afiança-nos que a própria morte é um caminho para a vida.
É por isso que,em Jesus Cristo, a morte não é morte. A morte de Cristo foi uma morte morticida, uma morte que matou a morte, uma morte que foi vencida pela vida.
5. Jesus mostra-nos que é preciso morrer para vencer a morte. Só quem morre ressuscita. Só quem dá a vida alcança a vida. A vida só se tem quando se dá!
É assim que,em Jesus Cristo, a morte não é termo; é passagem; não é fim; é trânsito.Termina o ciclo da nossa vida terrena. Começa o ciclo da nossa vida eterna.
6. Bergerac tem razão quando escreveu: «Morrer não é nada, é terminar de nascer».
Depressa partimos, rapidamente chegamos. A vida é, também ela, uma viagem.
Nas viagens, é nas partidas que começamos a chegar e é nas chegadas que nos preparamos para, novamente, partir.
Também na vida, é ao nascer que começamos a morrer e é na morte que acabamos, definitivamente, de nascer!
7. Mas a eternidade não é só o que vem depois do tempo. A eternidade começa no tempo. Afinal, «o Céu existe mesmo». O Céu começa na Terra. Quando se faz o bem!
Eça terá exclamado, por entre eflúvios torturantes de desalento: «Que belo sítio para fazer um país!»
Talvez isto explique a nossa longevidade: andamos há séculos (já lá vão quase nove) a tentar.
Até agora nem sempre conseguimos e, por vezes, até desconseguimos.
O mesmo Eça afirmou que Portugal não era um país; «era um sítio mal frequentado».
Não diria tanto. Mas se não temos suficiente soberania como nação, que, ao menos, não desperdicemos a nossa independência como cidadãos.
Primemos pelo aprumo, pela correcção, pela lucidez, pela visão!
Neste momento, Jesus,
queremos agradecer-Te
do fundo do coração
e envolver Tua e nossa Mãe
na nossa eterna gratidão.
Há 95 anos
(completam-se neste dia),
o Céu veio até à Terra,
o Céu veio até à nossa terra.
Veio através da Mãe,
veio por Maria,
veio a Portugal,
veio ao mundo inteiro.
Veio a Fátima,
veio a três crianças,
a três pastorinhos
e, por elas, convidou o mundo à mudança,
à conversão, à santidade, ao amor..
Em Fátima, Maria mostrou o coração de Deus,
um coração onde cabe a humanidade inteira,
um coração de paz, um coração que irradia luz.
Jesus tinha dito
(ouvimo-lo hoje de novo)
que nunca nos deixaria órfãos, abandonados.
Ele enviou-nos do Pai o Defensor,
o Espírito da verdade,
o Espírito da esperança,
da justiça e do amor.
Obrigado, Maria,
Afinal, 13 de Maio também é dia da Mãe!
Qual é o dia que não é dia da Mãe?
Limpa, Maria, as nossas lágrimas.
Enxuga, Senhora, o nosso pranto.
Recebe as nossas preces
e dá-nos sempre o Teu Filho,
o Teu querido Filho,
JESUS!
Este é um dia em que todos os olhos se voltam para um único local: Fátima.
O mesmo rosto é contemplado: o da Virgem Mãe. O Seu amor amoriza toda a nossa existência.
Fátima é este mar de fé e de despojamento que serve de lição para todos.
Muitos foram a pé.
Muitos não arredam pé.
Muitos não dormiram toda a noite.
Eis a grande cátedra e a maior lição: o Evangelho continua a ser reescrito na vida de tanta gente simples e humilde. Mas que se agiganta na coerência do testemunho.
Santos Sabugal, eminente eclesiólogo, colocou as coisas com muita clareza: a Igreja tem um modelo fontal (Jesus Cristo) e um modelo paradigmático (Maria).
Os dois apontam, indelevelmente, para o serviço: Jesus é o servo de Deus, Maria é a serva do Senhor.
Por isso, quem conduz a Igreja tem o nome de ministro. Ministro vem precisamente de minus, o menor.
Poder-se-á alegar que nem sempre isso é palpável, visível, notório. Falta, amiúde, o espírito de serviço e o serviço ao Espírito.
Só na humildade podemos crescer. O padre e o bispo têm de ser humildes, simples. Como humilde e simples foi/é Jesus. Ele é Senhor porque servo, porque humilde, porque simples.
Quando perdermos tudo, não percamos jamais a humildade.